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CAPÍTULO 8

Author: Maya Durand
last update publish date: 2026-01-09 11:18:59

Primeira Noite: POV Rachel

O quarto era silencioso demais.

Não o tipo de silêncio confortável, mas aquele que parece observar. Larguei a bolsa sobre a poltrona e fiquei alguns segundos parada, ainda de sapatos, absorvendo o espaço. Cama grande. Luz indireta. Cortinas pesadas que escondiam a cidade lá fora.

São Paulo parecia distante demais para ser real.

Tirei o blazer, pendurei com cuidado exagerado e caminhei até o banheiro. Lavei o rosto com água fria, observando meu reflexo como se procurasse algum sinal de descontrole. Não havia. Só cansaço. E uma atenção excessiva aos próprios movimentos.

Deitei ao lado de Eduard, senti o colchão afundar quando ele se virou de lado. A respiração dele se regularizou rápido demais, como sempre acontecia quando o cansaço vencia qualquer tentativa de conversa.

Fiquei imóvel, olhando para o escuro.

O quarto era o mesmo.

A cama, a mesma.

O homem ao meu lado também.

Nada tinha mudado.

E, ainda assim, tudo parecia fora do lugar.

Ouvi o barulho distante do elevador no corredor. Portas se abrindo. Passos abafados. O hotel nunca dorme de verdade — só reduz o volume.

Adrian estava no mesmo andar.

Em outro quarto.

Seguindo a própria rotina como se nada tivesse acontecido.

Fechei os olhos, incomodada com o fato de essa informação existir na minha cabeça sem ter sido convidada.

Eu sabia — com uma clareza que me irritava — que o problema não era a proximidade física.

Era o espaço que ele ocupava quando não estava presente.

Virei de lado, de costas para Eduard, e puxei o lençol até o ombro, como se isso pudesse organizar algo por dentro.

Era só uma viagem.

Só trabalho.

Mas o silêncio daquela primeira noite me deixou claro algo que eu ainda não estava pronta para admitir:

O perigo estava em perceber que, mesmo ali com meu marido ao lado, minha mente já não estava inteira onde deveria.

A manhã chegou cedo demais.

A luz cinza atravessava a fresta da cortina quando acordei com o movimento de Eduard ao meu lado. Ele se levantou em silêncio, já no modo automático de sempre, pegando o celular antes mesmo de sair da cama.

— Bom dia — murmurou, distraído.

— Bom dia.

Ele foi para o banheiro, falando algo sobre horários, trânsito, café da manhã rápido. Eu fiquei deitada mais alguns segundos, encarando o teto, tentando organizar pensamentos que insistiam em se sobrepor.

No espelho do banheiro, meu rosto parecia normal. Cansado, talvez. Mas normal. Prendi o cabelo, lavei o rosto, escolhi uma roupa discreta demais para chamar atenção — e, ainda assim, senti aquela vigilância interna que não costumava existir.

Descemos para o café juntos.

O salão estava cheio de executivos, conversas baixas, xícaras sendo pousadas com cuidado. Peguei café, frutas, algo leve demais para alguém que precisava de energia. Eduard se sentou à mesa e abriu o celular antes mesmo de tocar no prato.

Foi então que senti.

Não precisei olhar para identificar a presença.

Adrian estava ali.

Em outra mesa. Camisa clara, postura relaxada, atenção dividida entre o café e os próprios pensamentos. Ele levantou o olhar no instante exato em que me sentei.

Não sorriu.

Não acenou. 

Ele apenas sustentou o olhar por um segundo — o suficiente para registrar — e voltou ao café como se aquilo não tivesse significado algum.

Meu corpo, no entanto, reagiu como se tivesse.

Eu percebi então que não era apenas admiração.

Eduard também era bonito. Sempre foi. Jovem, seguro, familiar ao ponto de não causar surpresa. O tipo de beleza que conforta porque já é conhecida.

Adrian era diferente.

Havia algo nele que ativava uma resposta que eu não tinha ensaiado. O olhar firme demais para ser casual. A forma como o corpo se mantinha contido, como se cada músculo estivesse sob comando — e exatamente por isso parecesse carregado de tensão. Não era só estética. Era impacto.

Senti primeiro no estômago. Um aperto quente, inesperado. Depois, uma atenção súbita demais ao próprio corpo, como se eu tivesse acabado de acordar dentro de mim mesma. O tipo de sensação que não pede permissão e não espera contexto.

Não foi pensamento.

Foi reação.

Meu corpo reconheceu algo antes que eu pudesse organizar qualquer argumento racional. Um interesse cru, silencioso, que não vinha acompanhado de intenção — apenas de consciência.

Desejo não declarado.

Desejo perigoso justamente por isso.

Desviei o olhar rápido demais, incomodada com a clareza daquela sensação. Não porque fosse errado achá-lo atraente, mas porque eu sabia exatamente o que aquilo significava: algo tinha sido despertado sem que eu tivesse aberto espaço para isso.

E, uma vez despertado, não se apaga com facilidade.

— Você parece distante — Eduard comentou, sem tirar os olhos do telefone.

— Estou organizando o dia — respondi.

Era verdade. Só não era toda a verdade.

Durante o café, Adrian falou apenas quando necessário. Comentou algo sobre a reunião, confirmou um horário, nada além disso. Profissional. Contido. Exatamente como deveria ser.

E, ainda assim, cada silêncio parecia calculado.

Quando nos levantamos para sair, ele se aproximou o suficiente para falar baixo, sem invadir espaço, sem teatralidade.

— A primeira reunião começa em quarenta minutos — disse. — Não se atrase.

Não se atrase.

Não foi um pedido.

Foi um lembrete de função.

Assenti, automática, e ele seguiu adiante sem esperar resposta.

Eduard comentou algo sobre investidores, sobre pressão, sobre como aquele dia seria longo. Eu concordei, caminhei ao lado dele, respondi como sempre respondo.

Mas havia algo novo ali.

Uma atenção constante.

Uma leitura silenciosa de gestos.

Uma consciência desconfortável de que eu estava sendo observada — não como mulher, não como esposa, mas como alguém que começava a ser parte de algo que ainda não tinha nome.

No elevador, enquanto descíamos para o térreo, meu reflexo devolveu um olhar sério demais para aquela hora da manhã.

Havia apenas uma pergunta incômoda, que se instalava sem pedir licença:

Quando foi que estar no controle passou a exigir tanto esforço?

Respirei fundo quando as portas se abriram. Era só mais um dia.

Mas eu já sabia — com a mesma clareza da noite anterior — que aquela viagem não seria lembrada pelo que aconteceu.

E sim pelo que começou a se tornar impossível de ignorar.

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