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Capítulo 5: O novo chefe

Penulis: A. Beatriz
last update Tanggal publikasi: 2026-08-11 12:56:17

||VALERIA ||

Não foi uma dúvida, nem uma suspeita infundada… foi aquele tipo de certeza incómoda que surge sem sequer avisar, como se o próprio destino — com um sentido de humor bastante questionável — tivesse decidido que hoje era um bom dia para arruinar a minha existência e a minha estabilidade emocional. Era ele.

Exatamente ele… o mesmo homem que deixei para trás, ou pelo menos era o que eu pensava. Sim, achei… porque agora ele está ali à minha frente como se o tempo não tivesse passado, como se seis anos fossem apenas uma pausa mal feita. A minha respiração tornou-se mais lenta, medida, quase calculada, porque a última coisa que me podia permitir era reagir como uma pessoa normal numa situação claramente anormal.

Baixei o olhar para os documentos à minha frente, fingindo uma concentração impecável que, sinceramente, não tinha. Porque enquanto todos ouviam atentos, interessados, provavelmente impressionados… eu estava ocupada a tentar perceber em que momento a minha vida decidiu transformar-se numa piada de mau gosto. E o pior não era ele estar ali. Não. O pior era que, num momento que nem sequer reparei… ele começou a falar, e eu nem sequer fui capaz de ouvir uma única palavra.

A seguir, o que me chamou a atenção foi a voz dele… grave, segura… e perigosamente familiar, daquelas que não deviam aparecer de repente na tua vida se já fazem parte do passado, e, mesmo assim, lá estava ela, como se o destino tivesse decidido que a minha tranquilidade precisava de um pequeno desastre para se equilibrar.

Levantei a cabeça quase por inércia… e lá estava ele, bem à minha frente, sem margem para erros… e eu, sem qualquer saída aparente desta sala. Perfeito… exatamente o que me faltava para completar o dia. A minha respiração tornou-se mais lenta, mais controlada, como se isso pudesse ajudar-me a processar o facto de que o passado não só tinha regressado… como agora era o meu chefe. Porque sim, aparentemente a minha vida decidiu levar muito a sério essa história das ironias. Ele, por outro lado, parecia exatamente o mesmo… ou talvez não.

—Repito. O meu nome é Adrian Montenegro —continuou com total naturalidade— E a partir de hoje, estarei à frente desta empresa.

“Ah, perfeito. Confirmado. Não era uma alucinação, nem uma coincidência. Era ele… com nome, apelido e controlo absoluto sobre a minha estabilidade profissional. Que maravilha”

—Não sou adepto de discursos longos, por isso serei breve.

Claro, direto ao ponto… como sempre. Nada mudou. Ou pior… tudo mudou, menos isso. Começou a andar à volta da mesa, com as mãos nos bolsos, observando cada um como se já estivesse a tomar decisões. Como se nos fosse classificar sem precisar de perguntar nada.

—A única coisa que espero desta equipa é eficiência. Resultados. E, acima de tudo… honestidade.

Honestidade…

Sim, claro. Que palavra tão… interessante vinda dele. E foi precisamente nesse momento que a senti. O seu olhar. Direto. Sem disfarces, fixo em mim. Claro que sim, porque se faltava alguma coisa nesta cena, era ele decidir concentrar-se em mim como se fôssemos os únicos dois na sala.

—Não tenho qualquer problema em reconhecer o bom trabalho — acrescentou num tom firme, sem levantar a voz, mas deixando clara cada palavra. — No entanto, também não hesitei na hora de tomar decisões quando algo não cumpre os padrões que esta empresa exige. A minha prioridade é o desempenho, a eficiência e a transparência em todas as áreas. Não espero perfeição… mas sim um compromisso genuíno. Espero não ter de dispensar ninguém, mas se a situação assim o exigir, fá-lo-ei sem hesitação. A partir de hoje, esta empresa entra numa nova fase… e isso implica mudanças.

O meu pulso ficou ligeiramente tenso. Não pelo que ele dizia… mas pela forma como o dizia. E pior ainda… pela forma como me olhava enquanto falava.

⪻.......⪼

A reunião tinha terminado. Não esperei que dissessem mais nada; a certa altura, já sentia que o ar começava a escassear e que permanecer ali dentro mais um segundo seria demais; simplesmente juntei as minhas coisas com a maior discrição possível e saí da sala apressadamente.

—Valeria!

Ótimo. Claro que não ia ser assim tão fácil.

—Ei, espera aí!

Ouvi-a a aproximar-se até que finalmente me alcançou, colocando-se ao meu lado com o sobrolho franzido, claramente confusa com a minha pressa.

—Posso saber por que saíste assim? —perguntou ela, olhando-me de cima a baixo—. Ias tão depressa que parecia que alguém te estava a perseguir.

Soltei uma risadinha forçada, virando apenas ligeiramente o rosto na direção dela.

—Eu? De jeito nenhum… só para apanhar um pouco de… ar. — respondi, mas, para ser sincera, nem eu acreditei nisso. A Emma estreitou os olhos, analisando-me com aquele olhar seu que parece sempre ver mais do que devia, mas, felizmente, decidiu mudar de assunto… ou assim pensei.

—Bem… deixando isso de lado —disse ela, ajeitando uma madeixa de cabelo—, não achas que o novo chefe é… bastante atraente?

Claro. É óbvio… tinha mesmo de dizer isso agora.

—De que lhe serve isso? —murmurei quase sem pensar—. Se ele é um idiota.

A Emma parou de repente.

—O que disseste? —perguntou ela, e eu pestanejei umas duas vezes, virando-me rapidamente para ela.

—Nada… que… —forcei um sorriso— quero dizer que… não é nada de especial, é só o típico chefe sério, sabes bem. Nada de extraordinário.

Acho que não devia ter dito isso. Ela já me estava a olhar de forma estranha. Ela cruzou os braços lentamente, inclinando um pouco a cabeça enquanto me observava com desconfiança.

—Ah, sim…

Dei um passo para trás, desconfortável e nervosa ao mesmo tempo. Mas ela aproximou-se um pouco mais, reduzindo a distância entre nós.

—O que se passa? Tens estado muito estranha desde que entrámos naquela sala —disse ela sem rodeios—. E não me venhas com desculpas baratas, porque eu conheço-te.

—Emma…

—Não — interrompeu-me ela, inclinando-se na minha direção e baixando a voz —. Diz-me a verdade. Tens alguma coisa a ver com o novo chefe? —silêncio— Conheces-o?

“E agora o que é que é suposto eu lhe dizer? Ah, sim, conheço-o. Na verdade, é o mesmo idiota que me enganou, me deixou grávida e desapareceu da minha vida como se nada fosse. Ah, e não nos esqueçamos do pormenor de que… é o mesmo homem que amaldiçoas e com quem sonhas em partir-lhe a cara com um soco, dia e noite. E que, já agora, agora é ele quem vai pagar os nossos salários. Sim, parece mesmo uma conversa casual….”

—Não — respondi com firmeza, abanando ligeiramente a cabeça —. Não o conheço.

—Tens a certeza? — voltou a perguntar, sem desviar o olhar.

—Absolutamente — acrescentei, mantendo o contacto visual desta vez —. Acho que estás a imaginar coisas.

Ela ficou em silêncio por mais alguns segundos, como se estivesse a avaliar cada palavra, cada gesto… à procura de algo fora do lugar. E eu… simplesmente fiquei ali, tranquila por fora. Embora por dentro… tudo continuasse a ser um desastre completo.

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