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Capítulo 4: O regresso do passado

Author: A. Beatriz
last update publish date: 2026-08-11 12:50:56

|| VALERIA ||

Saí do elevador com a mala pendurada no ombro e o café ainda morno nas mãos, à espera de encontrar o ambiente de sempre… tranquilo, rotineiro, previsível. Mas bastou dar alguns passos dentro da empresa para perceber que algo estava prestes a acontecer… a entrada principal estava uma confusão total quando entrei, toda a gente andava de um lado para o outro. Com papéis na mão, telemóveis a tocar, conversas a meio… até havia quem evitasse parar, como se o tempo de repente se tivesse tornado mais valioso do que o normal. Franzi ligeiramente o sobrolho enquanto avançava, observando o caos com crescente confusão.

—O que se passa aqui…? —murmurei, mais para mim própria do que para alguém em particular.

—Valeria! Meu Deus, ainda bem que chegaste!

Nem sequer tive tempo de reagir quando a Emma apareceu à minha frente, com uma pasta cheia de documentos nas mãos e aquela expressão de stress que raramente via nela.

—O «chefe misterioso» chega daqui a uma hora —disse ela sem rodeios—. Por isso, pára de olhar como uma turista e vem comigo já.

—O quê…? Emma, espera, eu acabei de—

Mas, como sempre, não me deixou terminar. Simplesmente agarrou-me pela mão e começou a arrastar-me pelo corredor como se a minha vida dependesse disso.

—Emma!

—Não há tempo! —replicou ela, sem sequer olhar para mim—. Temos imenso que fazer.

Em questão de segundos, já estávamos dentro do escritório dela. Fechou a porta atrás de nós e deixou os documentos em cima da secretária com um suspiro pesado. Eu, por meu lado, deixei cair a mala no pequeno sofá de descanso e olhei para ela com incredulidade.

—E é por isso que estão todos como se o edifício estivesse a arder?

A Emma lançou-me um olhar rápido antes de começar a organizar os papéis.

—Ele pediu relatórios.

—Relatórios sobre o quê, exatamente?

—Sobre tudo —respondeu ela. Depois, virou-se para mim, completamente séria— Análises financeiras dos últimos anos, desempenho de cada departamento, relatórios de investimento, projeções trimestrais… até auditorias internas… e não é só isso, como se não bastasse, também solicitou avaliações do pessoal-chave e contratos ativos com parceiros estrangeiros. Dá para acreditar?!

Pisquei os olhos, a assimilar tudo.

—Isso é… bastante — soltei um suspiro, pousando o copo de café na secretária — Mal chega e já vira tudo de pernas para o ar — Fantástico… — murmurei, passando a mão pelo cabelo — Exatamente o que precisávamos…

A Emma apontou para mim com um dos documentos.

— Então, se não queres que sejamos despedidas no nosso primeiro encontro com o grande chefe mandão… mexe-te

— Sempre tão dramática, não é?

— Correção, sou realista — corrigiu ela — Vamos, ajuda-me, amiga. És melhor do que eu nisto.

A partir daquele momento, tudo se transformou numa corrida contra o tempo; mal me sentei e a Emma começou a distribuir tarefas como se estivéssemos no meio de uma emergência real e, a certa altura, não estava assim tão longe de o ser. Em questão de segundos, dei por mim a rever e a ajustar os relatórios financeiros dos últimos dois anos, que, noutro contexto, teriam levado dias inteiros a analisar com calma. Mas não, hoje tudo tinha de estar pronto em menos de uma hora, perfeitamente organizado, impecável, como se alguém realmente esperasse que o caos se transformasse em perfeição apenas com pressão.

Enquanto avançava com os gráficos e documentos digitais, não pude evitar sentir uma ligeira irritação a crescer; não pelo volume de trabalho, mas pela exigência absurda por trás de tudo aquilo. Quer dizer, quem é que chega a uma empresa nova e pede auditorias internas, avaliações de pessoal e contratos internacionais como se fossem simples notas de rotina? E tudo no primeiro dia! Era demasiado… mesmo para alguém que acabara de assumir o comando.

Ainda assim, continuei em frente, indo e vindo entre o escritório da Emma e o meu, corrigindo detalhes, imprimindo ficheiros, verificando se cada pasta estava em ordem, se todos os dados coincidiam, se nada estava fora do lugar.

Quando finalmente tudo ficou suficientemente organizado para não parecer um desastre total, mal tive tempo para respirar. Recolhi os documentos que me cabiam, ajeitei a minha aparência o melhor que pude ao espelho e dirigi-me para a sala de reuniões juntamente com o resto da equipa, com aquela sensação incómoda no peito… aquela que surge mesmo antes de algo mudar, embora ainda não se saiba exatamente como nem porquê.

Entrámos na sala de reuniões quase ao mesmo tempo que o resto da equipa; o ambiente lá dentro era diferente… mais pesado. O diretor já se encontrava à frente, acompanhado por vários membros importantes da empresa, todos com expressões sérias, mas não foi isso que realmente me chamou a atenção.

Foi ele.

Aquele homem à frente de todos. Estava de costas, completamente imóvel, com uma presença que, mesmo sem o ver, impunha mais do que eu esperava. Não fazia nada de especial, nem sequer se virou para nos olhar… e, mesmo assim, era impossível ignorá-lo.

Supus imediatamente que devia ser o famoso «Chefe misterioso», o novo proprietário da empresa de quem todos tinham vindo a falar há semanas. Mas havia algo… algo na sua postura, na forma como se mantinha ali, tão seguro, tão à vontade, que fez com que um leve desconforto se instalasse no meu peito.

Mal terminámos de entrar, o diretor dedicou-nos um sorriso largo, quase exagerado, se me perguntassem. Pediu-nos para nos sentarmos e todos obedecemos sem hesitar. Acomodei-me no meu lugar, deixando os documentos à minha frente enquanto tentava concentrar-me no que se estava a passar… ignorando aquela sensação estranha que não desaparecia de vez.

O diretor começou a falar. Explicou que todos já sabíamos que a empresa tinha passado para as mãos de outra pessoa. Eu limitava-me a ouvir, mas não conseguia evitar que a minha atenção se desviasse repetidamente para aquele homem de costas… até que, finalmente, o diretor fez uma pequena pausa e sorriu ainda mais. E então disse-o… o nome dele.

Adrian Montenegro…

Por um segundo, tudo parou. Senti o meu corpo a ficar tenso sem eu querer, enquanto a minha mente processava o que acabara de ouvir sem conseguir compreender totalmente. Não… não podia ser. Engoli em seco, obrigando-me a manter a compostura, a não reagir, a não deixar que nada se refletisse no meu rosto.

Era apenas um nome, apenas uma coincidência, não era? Afinal… quantos Adrian Montenegro poderiam existir no mundo? Certamente muitos. Tinham de ser muitos. Agarre-me a essa ideia com mais força do que gostaria de admitir. Não podia deixar-me levar por suposições absurdas, mas então ele virou-se e finalmente vi-o.

.....

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