FAZER LOGINEu não fui embora naquela noite.
Na verdade, acho que em nenhum momento realmente pensei em ir embora.
Depois que terminei de suturar o ferimento de Alexander, o apartamento ficou estranhamente silencioso. Os homens que estavam ali começaram a sair aos poucos, alguns falando baixo entre si, outros simplesmente desaparecendo pelos corredores do lugar. Conrad foi o único que permaneceu na sala.
Alexander estava desmaiado no sofá, respirando pesado, o rosto pálido pela perda de sangue e pelo esforço que tinha feito para permanecer consciente durante o procedimento.
Eu observei aquilo por alguns segundos.
Mesmo desacordado, ele ainda parecia… imponente. Era estranho pensar isso de alguém deitado e ferido, mas havia algo na postura dele, na maneira como ocupava o espaço, que fazia parecer que o controle ainda era dele.
Balancei a cabeça levemente e voltei a focar no que realmente importava.
Paciente.
Ferimento.
Recuperação.
— Ele vai ficar bem? — perguntou Conrad.
A voz dele soou menos nervosa agora.
Eu estava ajoelhada ao lado do sofá organizando os materiais da minha bolsa médica. Olhei novamente para o curativo improvisado que tinha feito.
— Vai — respondi. — Mas ele perdeu bastante sangue.
Conrad assentiu lentamente.
Ele estava sentado em uma poltrona próxima, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar fixo no irmão.
Por alguns segundos nenhum de nós falou nada.
A cidade lá fora continuava viva. Eu conseguia ver algumas luzes piscando através das janelas enormes do apartamento. O distrito noturno provavelmente ainda estava cheio de gente bebendo, dançando, rindo.
Mas ali dentro parecia outro mundo.
— Você quer alguma coisa? — perguntou Conrad depois de um tempo.
Eu percebi naquele momento que minha boca estava seca.
— Água seria bom.
Ele se levantou e caminhou até um pequeno bar no canto da sala. Em vez de água, pegou uma garrafa de whisky e dois copos.
Eu levantei uma sobrancelha.
— Sério?
Ele deu um pequeno sorriso.
— Confie em mim. Depois da noite que você teve, isso vai ajudar mais do que água.
Eu pensei por um segundo.
Então dei de ombros.
— Tudo bem.
Conrad encheu um copo e me entregou.
Eu segurei o copo por um momento, observando o líquido âmbar balançar levemente ali dentro.
— Nunca pensei que meu plantão ia terminar assim — murmurei.
Ele soltou uma pequena risada.
— Nem eu.
Levei o copo aos lábios e dei um gole pequeno.
O líquido queimou na garganta, mas de um jeito que de alguma forma ajudou a acalmar meus nervos.
— Obrigada — falei.
Conrad apenas assentiu.
Voltamos a ficar em silêncio.
A noite passou devagar.
Em vários momentos eu precisei verificar o pulso de Alexander, observar a respiração dele, trocar o curativo improvisado que já começava a ficar manchado de sangue novamente.
Conrad permaneceu ali praticamente o tempo todo.
Às vezes andando pela sala.
Às vezes sentado observando o irmão.
Às vezes apenas olhando pela janela.
— Vocês sempre fazem isso? — perguntei em algum momento da madrugada.
Ele olhou para mim.
— Isso o quê?
— Invadir hospitais e sequestrar médicos.
Ele soltou um pequeno suspiro.
— Não.
— Ótimo.
— Mas às vezes… as coisas saem do controle.
Eu encarei o copo de whisky nas minhas mãos.
— Eu percebi.
Conrad ficou quieto por alguns segundos antes de falar novamente.
— Obrigado por vir.
Aquilo me pegou um pouco de surpresa.
— Eu não tive muitas opções, não é?
Conrad assentiu lentamente.
O resto da madrugada seguiu assim. Eu verificava Alexander de tempos em tempos, trocava o curativo, anotava mentalmente qualquer mudança.
O whisky ajudou a manter meus nervos sob controle.
Mas o cansaço começou a pesar conforme o céu lá fora começava a clarear.
Quando percebi que o sol estava surgindo entre os prédios de Silverport, eu estava inclinada sobre Alexander refazendo o curativo do ferimento.
A luz da manhã entrava pelas janelas grandes do apartamento, iluminando a sala de um jeito completamente diferente da noite anterior.
Foi então que ele se mexeu.
Eu senti primeiro.
O corpo dele tensionou levemente sob minhas mãos.
Levantei os olhos.
Alexander abriu os olhos devagar.
Por um segundo ele pareceu confuso.
Depois focou o olhar em mim.
— Você ainda está aqui — ele murmurou com a voz rouca.
— Sim.
Ele piscou algumas vezes, tentando se orientar.
— Que horas são?
— De manhã.
Ele soltou um pequeno suspiro cansado.
— Ainda dói.
— Vai continuar doendo por um tempo — respondi.
Continuei ajustando o curativo.
Alexander ficou me observando em silêncio por alguns segundos.
— Você realmente falou sério ontem à noite?
Eu levantei os olhos.
— Sobre o casamento?
— Sim.
— Sim.
Ele franziu levemente a testa.
— Por que não simplesmente… não ir?
Eu parei por um momento antes de responder.
Era uma pergunta simples.
Mas a resposta não era.
— Porque minha família acha que está tudo bem — falei devagar.
Alexander continuava me olhando com atenção.
— O noivo da minha irmã era meu namorado — continuei. — E ninguém gosta muito de falar sobre isso.
Ele permaneceu em silêncio.
— Então todo mundo prefere fingir que nada aconteceu — expliquei. — E eu também finjo.
Voltei a apertar o curativo com cuidado.
— Minha irmã não fez aquilo para me machucar — murmurei. — As coisas simplesmente… aconteceram.
Alexander soltou um pequeno suspiro.
— E você ainda vai ao casamento.
— Sim.
— Mesmo assim.
Eu dei um pequeno sorriso cansado.
— Eu amo minha irmã.
Ele ficou quieto por um momento.
— Você é estranha — disse finalmente.
Eu ri.
— Você sequestrou uma médica no meio da madrugada.
— Justo.
Terminei de ajustar o curativo e me afastei um pouco.
— Tente não se mover muito hoje — falei. — Você precisa descansar.
Alexander apoiou a cabeça no encosto do sofá.
Ficou pensando por alguns segundos.
Então olhou para Conrad.
— O acordo continua de pé.
Conrad ergueu as sobrancelhas.
— Sério?
Alexander voltou o olhar para mim.
— Eu vou ao casamento.
Meu estômago deu um pequeno salto.
— Obrigada.
Ele fez um gesto pequeno com a mão.
— Conrad.
— Sim?
— Leve a doutora de volta ao hospital.
Eu pisquei.
Aquilo aconteceu mais rápido do que eu esperava.
Conrad assentiu.
— Claro.
Eu peguei minha bolsa médica e me levantei devagar.
Meu corpo inteiro parecia pesado agora que a adrenalina tinha ido embora.
Alexander ainda me observava.
— Doutora.
Eu parei.
— Sim?
— Obrigado.
Eu hesitei por um momento.
— Tente não levar outro tiro antes do casamento.
Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.
— Vou fazer o possível.
Conrad abriu caminho para o elevador.
Eu caminhei em direção a ele.
Minutos depois, enquanto o elevador descia lentamente, a única coisa que eu conseguia pensar era simples.
Minha vida tinha ficado muito mais complicada.
E o casamento da minha irmã ainda nem tinha chegado.
Eu nunca imaginei que um dia como aquele chegaria.Não daquele jeito.Não com aquela sensação no peito.Leve.Cheia.Quase… tranquila.Eu estava parada diante do espelho, olhando para o meu reflexo, tentando reconhecer a mulher que me encarava de volta.Porque, por muito tempo…Eu não fui ela.Ou talvez… eu sempre fui.Só nunca tive espaço para existir assim.O vestido deslizava pelo meu corpo com suavidade.Seda.Cor de vinho.Profundo.Elegante.Sem exageros.Mas impossível de ignorar.Ele marcava minha cintura, caía leve pelos quadris e seguia até o chão com um movimento quase silencioso. As alças finas deixavam meus ombros livres, e o decote era delicado, o suficiente para valorizar, nunca para exagerar.Eu passei a mão pelo tecido, devagar.Sentindo.Absorvendo.— Você está perfeita.A voz de Carla veio atrás de mim.Eu sorri pelo reflexo.— Você é suspeita.— Eu sou honesta.Caden apareceu ao lado dela, cruzando os braços.— Pela primeira vez na vida, eu concordo com ela.— Isso
Eu fechei a ficha clínica com um suspiro longo.Mais um paciente atendido.Mais um dia que parecia não ter fim.Mas, naquele momento, eu não estava exausta.Na verdade… eu estava estranhamente calma.Talvez fosse porque, pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que as coisas estavam… no lugar.Ou pelo menos caminhando para isso.— Então, doutora… isso significa que eu vou sobreviver? — a voz rouca e levemente irônica de Teodoro Moretti me trouxe de volta.Eu ergui o olhar e encontrei os olhos dele.Ainda fortes.Ainda atentos.Mas agora… mais cansados.— Significa que o tratamento está funcionando — eu respondi, simples.— E que o senhor precisa continuar fazendo exatamente o que eu mandei.Ele fez uma careta leve.— Essa é a parte difícil.— Eu sei.— Eu não gosto de obedecer.— Eu também não.Ele sorriu de lado.— Talvez seja por isso que eu gosto de você.— Eu prefiro acreditar que é pela minha competência.— Isso também.Eu não consegui evitar um pequeno sorriso.Porque, de alg
Algumas semanas tinham passado desde o aniversário da Bianca.E, por mais que muita coisa na minha vida sempre fosse rápida, intensa e imprevisível… aquilo tinha ficado.O jeito que ela sorriu.O jeito que disse “sim”.Simples.Sem hesitar.Sem medo.Aquilo não saía da minha cabeça.E, pra alguém como eu… isso dizia muito.Eu estava em frente ao espelho, com um terno parcialmente ajustado, enquanto o alfaiate marcava a barra da calça com uma calma quase irritante.— Fica parado, por favor — ele disse.— Eu estou parado.— Não o suficiente.Eu soltei um suspiro baixo.Olhei de canto.E vi Conrad sentado em uma poltrona, mexendo no celular, completamente à vontade.— Engraçado como com você ele não implica.— Eu sei me comportar — Conrad respondeu, sem levantar o olhar.— Você acabou de derrubar uma fita métrica.— Foi um acidente.— Você estava girando ela no dedo.— Estilo.Eu balancei a cabeça, soltando um leve riso.O alfaiate terminou e se afastou.— Pode andar agora.Finalmente.E
Eu nunca fui muito de comemorar aniversário.Na verdade… por muito tempo, eu preferi fingir que a data nem existia.Era mais fácil.Menos expectativa.Menos decepção.Menos gente tentando dizer como eu deveria me sentir naquele dia.Mas, naquele ano…Era diferente.Eu estava diferente.A minha vida estava diferente.E, pela primeira vez em muito tempo, eu quis comemorar.Quis… juntar as pessoas que, de algum jeito, tinham se tornado importantes pra mim.Mesmo que esse “importante” tivesse vindo de formas completamente inesperadas.Eu olhei em volta do meu apartamento.Pequeno.Simples.Mas… meu.E, naquela noite, ele parecia mais cheio.Mais vivo.Eu tinha passado o dia arrumando tudo.Comprado algumas comidas.Organizado a mesa.Separado pratos, copos…Coisas simples.Mas feitas com cuidado.E, enquanto eu ajeitava os últimos detalhes…Meu coração estava acelerado.Não de nervoso.Mas de… expectativa.Porque, de alguma forma, aquilo era mais do que um aniversário.Era um encontro de
Eu devia ter passado um batom melhor.Foi a primeira coisa que eu pensei quando o carro parou diante da mansão.Ridículo.Completamente ridículo.Eu já tinha enfrentado sequestradores, tratado gente baleada no meio da madrugada, discutido com a minha família sem baixar a cabeça… mas ali, parada diante da casa da mãe do Alexander, a única coisa que ocupava minha mente era… batom.E postura.E respiração.E se eu estava sorrindo demais.Ou de menos.— Você está fazendo de novo — Alexander disse ao meu lado.— Fazendo o quê?— Pensando demais.Eu olhei pra ele.— Eu estou indo conhecer a sua mãe, Alexander.— Eu sei.— Isso não é “pensar demais”, isso é… sobreviver.Ele riu baixo.E aquilo me irritou um pouco.— Eu estou falando sério.— Eu também.— Você devia ter me avisado.— Eu já disse isso.— E continua errado.— Mas funcionou.— Eu ainda posso entrar no carro e ir embora.— Não vai.Silêncio.Eu encarei a mansão de novo.Grande.Bonita.Imponente.Mas… curiosamente, não parecia fr
Eu deveria ter desconfiado.Na verdade… eu sempre deveria desconfiar quando o Alexander diz algo com aquele tom casual demais.“Vamos almoçar fora da cidade.”Simples.Inocente.Quase… normal.E esse era exatamente o problema.Nada na vida dele era realmente normal.Eu estava no banco do passageiro, olhando pela janela enquanto a cidade ficava para trás. Os prédios iam diminuindo, as ruas ficavam mais largas, o trânsito mais leve… e o ar parecia até diferente.Mais limpo.Mais silencioso.Mais caro.— Você está quieta — ele comentou, dirigindo com uma das mãos.— Eu estou observando.— Observando o quê?— Tentando entender onde exatamente é esse “almoço fora da cidade”.Ele sorriu de leve.E aquele sorriso…Ah.Aquele sorriso.Eu virei o rosto lentamente para ele.— Alexander.— Hm?— Pra onde a gente está indo?— Eu já disse.— Não disse não.— Disse sim.— Não disse.Silêncio.Ele soltou um pequeno riso pelo nariz.— A gente vai ver a minha mãe.…Eu pisquei.Uma vez.Duas.Três.—







