Início / Romance / O bilionário e a ladra / Você me deve um beijo

Compartilhar

Você me deve um beijo

Autor: RR Floriano
last update Data de publicação: 2026-05-22 03:40:18

Finalmente olhei para Dante de verdade, estava molhado da cabeça aos pés com a respiração pesada e sangue escorrendo pelo braço porque meu curativo era provisório.

Mesmo ferido, ele ainda parecia perigosamente funcional e irritantemente bonito também, aquele terno colado ao corpo definitivamente não ajudava.

— Você está olhando para meu ferimento ou para outra coisa? 

Ele perguntou calmamente.

Droga, fui pega.

— Estou decidindo se valeu a pena destruir um vestido caríssimo para salvar sua vida.

Dante se aproximou devagar, próximo o suficiente para eu ver a luz distante da cidade refletida nos olhos dele.

A chuva escorria lentamente pelo rosto dele enquanto os olhos escuros permaneciam presos aos meus de um jeito absurdamente intenso.

— E chegou a alguma conclusão?

Meu coração deu aquela batida errada, aquela maldita batida que fazia anos que não dava.

— Ainda estou avaliando.

Mentira.

Meu corpo inteiro já tinha chegado à conclusão fazia tempo.

Quase gritava: beija, beija.

Dante inclinou levemente a cabeça, observando meu rosto como se tentasse decidir alguma coisa perigosa.

— Você ainda me deve um beijo.

A voz dele saiu baixa, rouca e absurdamente próxima.

Senti o calor subir pelo meu corpo inteiro num movimento rápido demais para controlar.

— Achei que homens da Interpol eram mais pacientes.

— Achei que mulheres armadas com facas eram menos provocadoras.

O canto da minha boca subiu sem autorização e isso foi um erro.

Os olhos dele desceram imediatamente para minha boca outra vez e dessa vez não voltaram.

O ar entre nós parecia curto e tenso demais.

Meu cérebro ainda gritava cautela, estratégia, distância…

Mas meu corpo parecia completamente cansado de escutar.

Dante segurou minha cintura devagar, como se ainda estivesse me dando uma chance de fugir.

Mas quem disse que eu queria fugir? Puxei o paletó molhado dele pela frente e o beijei primeiro.

Foi um beijo violento, quente e totalmente impulsivo.

A boca dele encontrou a minha com uma intensidade que quase arrancou o resto do ar dos meus pulmões.

Não houve hesitação e nem delicadeza, só horas de tensão comprimidas explodindo de uma vez só.

As mãos dele apertaram minha cintura com força enquanto meu corpo colidia contra o dele outra vez, molhado, quente e perigosamente vivo sob meus dedos.

O gosto de chuva, adrenalina e whisky ainda permanecia na boca dele.

Dio mio.

O som baixo que Dante soltou contra meus lábios destruiu qualquer tentativa restante de raciocínio lógico.

A mão dele subiu pelas minhas costas molhadas lentamente até parar na minha nuca e aquilo piorou tudo.

Porque o beijo deixou de ser só desejo e virou fome.

Quando ele aprofundou o beijo, senti meu corpo inteiro responder imediatamente, como se alguma parte irracional minha tivesse finalmente decidido parar de fugir dele e talvez tivesse mesmo.

Só nos afastamos quando a necessidade de respirar venceu e por muito pouco.

A testa dele encostou na minha enquanto nossas respirações continuavam completamente desreguladas.

Dante abriu os olhos devagar e murmurou rouco:

— Valeu, definitivamente o vestido.

Dei uma risada nervosa, mas o cheiro metálico do sangue dele atravessou a chuva no instante seguinte e destruiu completamente qualquer resto de vertigem dentro da minha cabeça.

A realidade voltou, o perigo e tudo o que estava protegendo.

Afastei-me apenas o suficiente para voltar a respirar direito.

Os olhos escuros de Dante continuavam presos aos meus e aquilo piorava tudo absurdamente.

Porque eu havia gostado, e muito.

Droga! 

Minha mão ainda segurava o paletó molhado dele quando finalmente forcei meus dedos a soltarem o tecido.

— Isso não pode acontecer.

Minha voz saiu mais baixa do que eu queria,

Dante permaneceu imóvel, observando meu rosto atentamente, como se tentasse entender qual parte de mim havia mudado tão rápido.

Mal sabia ele que eu estava tentando entender exatamente a mesma coisa, balancei a cabeça devagar.

— Isso foi um erro.

A voz dele saiu rouca:

— Não pareceu.

Ele não estava ajudando.

Passei a mão molhada pelo rosto tentando reorganizar os próprios pensamentos.

— Dante…

Hesitei só meio segundo, tempo suficiente para escolher a mentira menos desastrosa.

— Tenho um compromisso com alguém.

O silêncio entre nós mudou imediatamente e 

Interessante como até a chuva pareceu mais fria.

Os olhos dele escureceram quase imperceptivelmente, mas percebi, sabia com que tipo de homem estava lidando.

Dante era treinado demais para demonstrar reação completa, mas não o suficiente para esconder tudo.

— Seu marido?

Perguntou calmo demais e a calma dele parecia perigosa.

Sustentei o olhar por alguns segundos.

— Algo parecido.

A mandíbula dele travou e instantaneamente tirou a mão do meu quadril.

Excelente, agora criei uma barreira intransponível.

Dante

Eu ainda estava tentando digerir a frase que ela soltou.

“Tenho compromisso com alguém”

Olhei no dedo dela e não tinha uma aliança, mas tinha um anel delicado no lugar.

Dio mio, essa mulher vai me matar.

Valentina observou a rua escura por alguns segundos enquanto a chuva diminuía lentamente ao nosso redor.

Ela parecia totalmente no controle, sempre calculando riscos e perigos, e isso me irritou, porque eu ainda sentia o calor do corpo dela e o sabor da boca dela na minha.

Merda.

O lago atrás de nós ainda engolia os últimos sinais do Maserati enquanto sirenes começavam a ecoar ao longe, polícia, talvez reforços e talvez mais assassinos.

Naquela noite, honestamente, podia ser qualquer coisa, então vi no olhar e no jeito que mexeu nos cabelos a decisão sendo tomada.

— Vem comigo.

Disse finalmente. 

— Vamos para um local seguro e depois resolvemos se você vai me matar ou eu a você.

A frase deveria soar ameaçadora.

Deveria.

O problema era o jeito como a água escorria pela pele dela, o vestido rasgado revelando a faca presa à coxa e aqueles olhos verdes me encarando como um desafio pessoal enviado diretamente pelo inferno.

Perigosa.

Absolutamente perigosa e mortal, e eu fui mesmo assim, porque mistério sempre havia sido minha maior fraqueza.

Quando vinha acompanhado de uma mulher bonita… meu autocontrole ficava perigosamente opcional.

Seguimos pela margem do lago em silêncio, a cidade parecia distante dali, escondida atrás da chuva, dos reflexos dourados e do caos que havíamos deixado para trás.

Meu braço queimava, o curativo improvisado dela havia estancado boa parte do sangramento, mas o impacto do tiro ainda pulsava irritantemente sob a pele.

Valentina percebeu… claro que percebeu, ela observava tudo e mais um pouco.

— Você está perdendo a cor.

 

Comentou sem olhar para mim.

— Você diz as coisas mais românticas.

Ela ignorou meu sarcasmo, se manteve fria, mas não completamente.

Porque continuava diminuindo discretamente o ritmo dos passos para acompanhar o meu.

Chegamos a um ponto de ônibus quase vazio alguns minutos depois. 

A estrutura de vidro estava parcialmente molhada pela chuva lateral e as luzes da avenida refletiam no asfalto como pinceladas douradas.

Valentina sentou no banco metálico como se não tivesse acabado de sobreviver a um atentado internacional.

Permaneci em pé, observando a rua, as sombras e as possíveis ameaças; ela me observava de volta.

— Você sempre parece prestes a atirar em alguém? 

Perguntou.

— Só em dias que tentam me matar.

— E hoje está especialmente inspirado.

O canto da minha boca ameaçou subir outra vez.

Ridículo.

Passei a mão pelo rosto molhado, tentando reorganizar os próprios pensamentos, e não estava funcionando.

Nada naquela mulher facilitava o raciocínio lógico, ela cruzou as pernas lentamente e apoiou os cotovelos nos joelhos.

Mesmo exausta, parecia elegante.

Como diabos alguém conseguia parecer elegante depois de:

Sobreviver a tiros, atravessar um lago, e arremessar uma faca num assassino?

— Então… 

Ela murmurou. 

— Você vai continuar fingindo que é um bilionário excêntrico?

— Você vai continuar fingindo que é curadora de uma galeria?

Os olhos verdes encontraram os meus e ficaram me encarando.

Valentina desviou o olhar primeiro dessa vez, ponto para mim.

— Você desligou seu ponto eletrônico antes de vir conversar comigo na varanda.

Ela comentou.

Meu corpo inteiro ficou alerta imediatamente.

— Você percebeu?

Ela soltou uma risada baixa.

— Dante… percebo até quando um homem respira diferente perto de mim, um equipamento de comunicação não seria exatamente difícil.

Nossa.

Aquilo me fez pensar se sou um bom agente, se ela fosse minha inimiga, teria me descoberto de primeira.

A chuva fina continuava caindo ao redor do ponto de ônibus enquanto um silêncio estranho se instalava entre nós.

Não desconfortável e sim pior, muito familiar.

Como se estivéssemos perigosamente próximos de esquecer que deveríamos desconfiar um do outro.

Então Valentina fez algo inesperado, levantou lentamente e se aproximou de mim, chegou perto o suficiente para eu repensar se queria fugir ou beijá-la de novo.

Os dedos frios tocaram meu braço ferido com cuidado surpreendente enquanto ela verificava o curativo improvisado.

A concentração dela era quase cruelmente bonita.

— Você deveria tirar a bala logo.

Murmurou.

— Pretende fazer isso num ponto de ônibus suíço?

— Já trabalhei em lugares piores.

Meu olhar caiu involuntariamente para a boca dela, isso foi um erro e ela percebeu imediatamente.

Valentina ergueu os olhos devagar até encontrar os meus e, naquele instante, alguma coisa mudou.

Não era mais apenas tensão, era consciência física, perigosa e quente.

A cidade parecia distante, as sirenes, a chuva e os carros passando.

Tudo desapareceu lentamente enquanto ela permaneceu perto demais e eu esqueci completamente todas as decisões inteligentes da minha vida, inclusive a frase de momentos atrás.

Desci o rosto sem pensar muito e, quando nossos lábios iam se encostar, as luzes de um táxi amarelo surgiram na avenida molhada e, em seguida, parou exatamente diante do ponto.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • O bilionário e a ladra   Quem? O Paulo da quitanda?

    E no Brasil, Alice continua em sua crise de identidade.Entrei na sala estressada com o calor e com os meninos deste país, eu vou acabar uma tia solteirona e, ao invés de possuir muitos gatos, vou ter galinhas.—Vou morrer solteira, não tem jeito.Lúcia deve ter me escutado e veio até a sala. Minha mãe parece que se acostumou com meus ataques, nem levantou a cabeça do computador.— O que aconteceu agora?— Ela decidiu que vai morrer solteira, fora o assunto de outro dia que aparentemente alguém não vai conseguir achá-la.— Com dezessete anos? E quem não vai te achar, Alice?— Exatamente.Apontei para as duas.— Finalmente alguém entendeu a gravidade da situação e já disse que ninguém, foi só um momento de loucura.Minha mãe soltou o ar pelo nariz.— Tem vários garotos legais por aqui.— Claro.Levantei um dedo.— O filho do dono da quitanda.— O Paulo é um bom menino.— Mãe.Olhei profundamente ofendida.— O Paulo arrota e acha isso engraçado.Lúcia quase engasgou tentando não rir.Co

  • O bilionário e a ladra   Vocês prometeram liberdade

    DanteCheguei de volta a Veneza e fui direto para o escritório da Interpol, isso já está virando rotina.Junto comigo trouxe o relógio adulterado e a página do livro onde MM deixou sua mensagem.Agora é descobrir a outra parte da história para entender o que Marcelo planeja.Ele me trouxe de volta por algum motivo, penso que sei, vamos ver se estou certo.Entrei na sala de Becker e coloquei a pasta com o material em cima da mesa.Ergui a cabeça e Becker estava me encarando.Você vai mesmo voltar?Suponho que não tenho escolha, Marcelo deixou um recado direcionado exatamente a mim.E o que você julga que ele quer com você?Ele quer me manter longe da Valentina. Talvez julgue que assim a está protegendo. Becker parou, sei que esse olhar dele significa que acertei, mas que tem algo mais.Então, já que você voltou, agora posso te contar o que sumiu.Invadiram o prédio? Roubaram algo físico?Não. Nosso ladrão é mais tecnológico. Ele invadiu nosso sistema, passando por todos os sistemas de

  • O bilionário e a ladra   O nome

    DanteCheguei a Paris no final da tarde.O frio da cidade parecia civilizado depois do calor brasileiro.Não que o frio seja agradável.Mas civilizado.Um carro me aguardava no aeroporto e, meia hora depois, eu estava diante do prédio onde aconteceria o leilão.Monalisa já me esperava na entrada.Loira.Olhos azuis.Elegante.Sorriso fácil.O tipo de mulher que, alguns anos atrás, provavelmente teria conseguido me convencer a cancelar compromissos importantes.Ou pelo menos a chegar atrasado.— Senhor Valenti.— Senhorita.Ela sorriu.— É um prazer finalmente conhecê-lo.Assenti educadamente.Bonita.Muito bonita.Mas não era Valentina e, ultimamente, esse detalhe parecia eliminar noventa e nove por cento da população feminina do planeta.Monalisa me conduziu pelos corredores do edifício.— A peça está na sala de avaliação.— Ótimo.— Ficamos muito felizes quando soubemos que o senhor viria pessoalmente.Menti.— Eu também vou gostar se o relógio for realmente meu.Ela riu.— Justo.E

  • O bilionário e a ladra   Tem algo errado

    DanteVoltar para Veneza deveria ser estranho.Mas quando saí do avião e o frio atingiu meu rosto, senti um alívio quase constrangedor.Neve de verdade.Nada de sol assassino, nem de trinta graus na sombra e nada de caminhar duzentos metros e sentir que estava sendo lentamente cozido.Sorri sozinho.Provavelmente como um idiota.Mas, após uma semana no interior do Brasil, aquele frio parecia um abraço, entrei no carro enviado pela empresa e segui direto para a sede da Interpol.Não passei em casa, nem fui ao escritório ou parei para trocar de roupa.Queria ver o relógio.Precisava vê-lo, porque uma parte de mim ainda acreditava que aquilo poderia ser algum erro.Alguma falsificação ou coincidência absurda.Quando entrei no prédio da Interpol, percebi algo curioso.Ninguém me parou, nem questionou minha presença ou sequer pareceu lembrar que eu havia solicitado desligamento meses atrás.Alguns agentes apenas acenaram, outros me cumprimentaram e um deles chegou a perguntar quando eu vol

  • O bilionário e a ladra   Alice está entediada

    Alguns dias antes do passeio no shopping.AliceExiste uma quantidade limitada de emoção que uma pessoa consegue suportar e aparentemente a minha cota acabou quando saímos de Veneza.Porque viver numa fazenda no interior de São Paulo era exatamente tão emocionante quanto assistir tinta secar.Talvez menos.Pelo menos a tinta muda de cor.A vaca da frente da nossa casa não, ela simplesmente existe, todos os dias fica parada no mesmo lugar me encarando.Como se tivesse algum problema pessoal comigo.Cruzei os braços na varanda.Ela mastigou.Continuei encarando.Ela mastigou de novo.Tenho a impressão de que estávamos numa disputa psicológica e claro que eu estava perdendo.— Mãe!Gritei para o interior da casa.— Essa vaca está me julgando!A voz dela veio da cozinha.— Ela é uma vaca, Alice.— Exatamente.— Isso não faz sentido.— Você claramente não conhece aquela vaca.Ela não respondeu e isso foi covardia. Entrei novamente na cozinha e minha mãe estava sentada diante do notebook, o

  • O bilionário e a ladra   Teimosia Italiana

    DanteJá fazia uma semana.Sete dias inteiros.Sete dias de calor, de pesquisas.E sete dias dirigindo por estradas que pareciam levar a lugar nenhum e tudo isso sem encontrar absolutamente nada.Encostei a cabeça na cadeira do carro e observei o estacionamento do shopping pela terceira vez naquele dia.Nada.Nem Alice, nem Valentina e nem sequer uma caminhonete carregada de fruta do dragão.Como se as duas tivessem evaporado depois daquele encontro.Ou quase encontro.Passei a mão pelo rosto, se eu não as tivesse visto com meus próprios olhos, começaria a acreditar que tinha imaginado tudo.Talvez uma insolação particularmente agressiva.Ou talvez o calor finalmente tivesse cozinhado meu cérebro.Mas não.Eu as havia visto.Natasha e Valentina estavam aqui e respirando o mesmo ar que eu.Andando pelas mesmas ruas, mas de alguma forma continuavam invisíveis.Suspirei e saí do carro.Nos últimos sete dias, eu havia visitado todas as lanchonetes do shopping.Todas.Sem exceção.As espec

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status