FAZER LOGINDante
A garagem subterrânea cheirava a concreto molhado, gasolina e perigo. Minha mão continuava presa à de Valentina enquanto descíamos entre os carros escuros em velocidade quase imprudente. O eco dos disparos ainda vibrava acima de nós, misturado aos alarmes disparados do hotel. Ela se movimenta bem e sem hesitação, nem perguntas inúteis e em momento algum entrou em pânico, definitivamente tem treinamento. — Seu carro? Ela perguntou com a respiração acelerada. Apontei para o Maserati preto estacionado próximo à saída lateral. — Claro que você dirige um Maserati. Ala murmurou. Mesmo fugindo de homens armados, aquela mulher ainda encontrava energia para o sarcasmo. Inacreditável. Destravei o carro à distância e, no instante em que as luzes piscaram, ouvi passos atrás de nós. Droga. Empurrei Valentina para trás de uma SUV estacionada a dois carros de distância do meu. No exato momento em que dois homens apareceram no topo da rampa da garagem com as armas em punho. — Fique abaixada. Ordenei. Ela obedeceu imediatamente e isso era um bom sinal. O ruim era o fato de eu estar começando a gostar da forma como ela seguia minhas ordens. Os homens começaram a descer a rampa e um deles falou algo em francês no comunicador. São um grupo coordenado e treinado, mirei e atirei primeiro. O estampido ecoou violentamente pela garagem e um dos homens se jogou atrás de uma coluna enquanto o outro respondeu fogo imediatamente. Valentina pegou minha arma reserva antes mesmo de eu oferecer. Olhei para ela que verificou o pente com precisão automática. Então ergueu os olhos verdes para mim. — O quê? — Você faz isso com frequência demais para uma curadora de arte. Ela sorriu de lado e naquele momento. EM PLENA TROCA DE TIROS. Eu queria muito beijá-la. Psicopata de gravata, é como me sinto. — E você atira bem demais para um bilionário chato. Outro disparo atingiu o carro acima de nossas cabeças e o vidro explodiu sobre nós, Valentina nem piscou. Dio mio! Ela se inclinou lateralmente e atirou duas vezes com precisão absurda, e um dos homens gritou ao cair atrás da coluna. Ela tem treinamento militar ou algo próximo disso. Meu ponto eletrônico desligado vibrava inutilmente no bolso interno do paletó. Becker provavelmente estava surtando naquele momento, problema dele. Meu foco estava na mulher ajoelhada ao meu lado, segurando uma pistola como se tivesse nascido fazendo aquilo, e isso era um problema infinitamente maior. — Precisamos sair agora. Falei. — Concordo. Segurei a mão dela novamente e corremos até o Maserati, entrei no banco do motorista enquanto Valentina praticamente mergulhava no passageiro. Outro disparo acertou a traseira do carro, liguei o motor, o ronco poderoso atravessou a garagem como um animal irritado. — Você sempre atrai esse tipo de atenção? Perguntei enquanto arrancava violentamente. — Só nas quintas-feiras. Ri sem querer de novo, isso precisava parar imediatamente. Os pneus cantaram no concreto molhado enquanto subi a rampa em velocidade absurda, outro carro surgiu bloqueando parcialmente a saída da garagem. Emboscada, claro que não ia ser uma saída fácil. — Segura! Avisei. — Isso foi a coisa mais sexy que você disse hoje. Pisei fundo, o Maserati atravessou a lateral do bloqueio num impacto brutal, o metal raspou violentamente, pedaços voaram pela chuva e o carro derrapou na avenida principal antes de recuperar estabilidade. Valentina segurou o painel, soltando uma gargalhada curta. Ela riu durante um tiroteio, olhei para ela rapidamente. O cabelo escuro bagunçado, a respiração acelerada e os olhos brilhando de adrenalina. Essa mulher é perigosa. Absurdamente perigosa, sexy e irritantemente gostosa. — Você está se divertindo? Perguntei incrédulo, uma mulher normal estaria chorando e tendo uma crise de pânico, mas essa não era uma mulher normal. Ela virou o rosto lentamente para mim e havia vida demais naquele olhar. — Um pouco. Meu cérebro escolheu exatamente esse momento para imaginar como aquela mulher reagiria, perdendo completamente o controle numa cama. Péssima hora, não era o momento de ter uma ereção, mas meu amigo estava completamente fascinado pela mulher ao meu lado. Atrás de nós, faróis surgiram na chuva. Um sedã preto vinha em nosso encalço. — Temos companhia. Valentina avisou, olhando pelo retrovisor. Claro que temos! Genebra parecia determinada a transformar aquela noite num colapso internacional. Aumentei a velocidade enquanto as ruas molhadas brilhavam diante do carro. Então a mão dela tocou meu braço novamente, dessa vez não para se esconder e nem para fingir. Ela apontou discretamente para frente, dois carros estavam fechando a avenida. Armadilha, pouco tempo para tomar uma atitude, soltei uma respiração lenta. Valentina me observava atentamente agora, esperando reação, confiando em mim. O fato de aquilo mexer comigo mais do que deveria era profundamente irritante, segurei firme o volante. — Espero que você saiba nadar. Ela olhou para frente e depois para o lago escuro à direita da avenida e então virou lentamente para mim. — Dante… — Confia em mim. — Essa frase normalmente vem antes de tragédias. Sorri de lado. — Então estamos tendo uma noite bem consistente e joguei o carro diretamente em direção ao lago. Valentina O impacto contra a água destruiu qualquer sensação de direção. Fiquei perdida no escuro, meu corpo foi lançado contra a lateral do carro enquanto o Maserati afundava no lago como uma pedra de luxo absurdamente cara. Ouvi tiros atravessando a superfície acima de nós, distorcidos pela água. Senti Dante me segurando com firmeza e urgência, a visão dele embaixo d’água era quase surreal. O terno escuro flutuando levemente, os olhos atentos apesar do caos, a mão apertando meu pulso como se fosse a única coisa concreta naquela escuridão gelada. Ele chutou a porta parcialmente destruída. Nada. Outro chute e a lataria cedeu finalmente. A água invadiu o carro violentamente e nós saímos para a superfície enquanto disparos ainda cortavam o lago acima de nossas cabeças. Emergi puxando ar com força, a chuva continuava castigando tudo ao redor enquanto nadávamos até a margem escura entre pedras e vegetação baixa. Minha respiração queimava, meu vestido pesava absurdamente e meu cabelo estava grudado na pele. Dante saiu da água logo atrás de mim e então praguejou baixo, olhei imediatamente para o braço dele. Sangue. Escuro e escorrendo rápido demais entre os dedos. — Caralho! Ele murmurou. O tiro atravessou a parte superior do braço e deve ter pegado alguma artéria, era muito sangue. Sem pensar duas vezes, ajoelhei na margem molhada e puxei a pequena faca presa ao acessório na minha coxa. Os olhos dele acompanharam o movimento automaticamente, sempre atento. Cortei uma faixa do vestido preto sem delicadeza alguma e pressionei o tecido contra o ferimento. Dante ficou imóvel enquanto eu amarrava o improviso ao redor do braço dele, mas imóvel daquele jeito específico. Tenso, desconfiado e focado no que eu fazia. — Não morra ainda. Murmurei, apertando o nó. — Você está começando a ficar divertido. Ele soltou uma respiração curta que quase pareceu risada. Terminei o curativo improvisado e me levantei imediatamente, precisava sair dali, tinha pouco tempo. Foi então que senti o movimento atrás dele e, no puro reflexo, ergui a faca. Os olhos de Dante escureceram no mesmo instante. — Valentina— Arremessei a lâmina que passou a centímetros do rosto dele antes de atingir algo atrás. Um corpo caiu pesadamente ao lado dele segundos depois, o homem ainda segurava uma pistola engatilhada. Dante virou lentamente para olhar o homem caído, depois voltou os olhos para mim e a expressão dele era quase ofensivamente séria. Cruzei os braços. — O que foi? Você achou que eu ia amarrar seu braço para parar o sangramento e depois ia te esfaquear? O canto da boca dele finalmente se moveu, balançou a cabeça desacreditado. — Considerei a possibilidade. — Que falta de confiança. Me aproximei do corpo caído e puxei a faca de volta. Limpei a lâmina rapidamente no casaco do homem enquanto avaliava os arredores. Mais inimigos poderiam aparecer a qualquer momento, isso tinha sido organizado demais. — Eles sabiam exatamente onde atacar — Dante disse atrás de mim. Concordei com um movimento de cabeça. E o pior? Aquilo também me incomodava. Porque se aqueles homens estavam atrás dele… significava problema internacional. Se estavam atrás de mim… significava que alguém havia vazado informações da DRT. As duas opções eram horríveis, guardei a faca novamente na coxa rasgada do vestido. E deixei para pensar mais tarde de onde estava vindo a traição, agora tinha que sair dali e pensar no que fazer com o homem que estava ao meu lado.E no Brasil, Alice continua em sua crise de identidade.Entrei na sala estressada com o calor e com os meninos deste país, eu vou acabar uma tia solteirona e, ao invés de possuir muitos gatos, vou ter galinhas.—Vou morrer solteira, não tem jeito.Lúcia deve ter me escutado e veio até a sala. Minha mãe parece que se acostumou com meus ataques, nem levantou a cabeça do computador.— O que aconteceu agora?— Ela decidiu que vai morrer solteira, fora o assunto de outro dia que aparentemente alguém não vai conseguir achá-la.— Com dezessete anos? E quem não vai te achar, Alice?— Exatamente.Apontei para as duas.— Finalmente alguém entendeu a gravidade da situação e já disse que ninguém, foi só um momento de loucura.Minha mãe soltou o ar pelo nariz.— Tem vários garotos legais por aqui.— Claro.Levantei um dedo.— O filho do dono da quitanda.— O Paulo é um bom menino.— Mãe.Olhei profundamente ofendida.— O Paulo arrota e acha isso engraçado.Lúcia quase engasgou tentando não rir.Co
DanteCheguei de volta a Veneza e fui direto para o escritório da Interpol, isso já está virando rotina.Junto comigo trouxe o relógio adulterado e a página do livro onde MM deixou sua mensagem.Agora é descobrir a outra parte da história para entender o que Marcelo planeja.Ele me trouxe de volta por algum motivo, penso que sei, vamos ver se estou certo.Entrei na sala de Becker e coloquei a pasta com o material em cima da mesa.Ergui a cabeça e Becker estava me encarando.Você vai mesmo voltar?Suponho que não tenho escolha, Marcelo deixou um recado direcionado exatamente a mim.E o que você julga que ele quer com você?Ele quer me manter longe da Valentina. Talvez julgue que assim a está protegendo. Becker parou, sei que esse olhar dele significa que acertei, mas que tem algo mais.Então, já que você voltou, agora posso te contar o que sumiu.Invadiram o prédio? Roubaram algo físico?Não. Nosso ladrão é mais tecnológico. Ele invadiu nosso sistema, passando por todos os sistemas de
DanteCheguei a Paris no final da tarde.O frio da cidade parecia civilizado depois do calor brasileiro.Não que o frio seja agradável.Mas civilizado.Um carro me aguardava no aeroporto e, meia hora depois, eu estava diante do prédio onde aconteceria o leilão.Monalisa já me esperava na entrada.Loira.Olhos azuis.Elegante.Sorriso fácil.O tipo de mulher que, alguns anos atrás, provavelmente teria conseguido me convencer a cancelar compromissos importantes.Ou pelo menos a chegar atrasado.— Senhor Valenti.— Senhorita.Ela sorriu.— É um prazer finalmente conhecê-lo.Assenti educadamente.Bonita.Muito bonita.Mas não era Valentina e, ultimamente, esse detalhe parecia eliminar noventa e nove por cento da população feminina do planeta.Monalisa me conduziu pelos corredores do edifício.— A peça está na sala de avaliação.— Ótimo.— Ficamos muito felizes quando soubemos que o senhor viria pessoalmente.Menti.— Eu também vou gostar se o relógio for realmente meu.Ela riu.— Justo.E
DanteVoltar para Veneza deveria ser estranho.Mas quando saí do avião e o frio atingiu meu rosto, senti um alívio quase constrangedor.Neve de verdade.Nada de sol assassino, nem de trinta graus na sombra e nada de caminhar duzentos metros e sentir que estava sendo lentamente cozido.Sorri sozinho.Provavelmente como um idiota.Mas, após uma semana no interior do Brasil, aquele frio parecia um abraço, entrei no carro enviado pela empresa e segui direto para a sede da Interpol.Não passei em casa, nem fui ao escritório ou parei para trocar de roupa.Queria ver o relógio.Precisava vê-lo, porque uma parte de mim ainda acreditava que aquilo poderia ser algum erro.Alguma falsificação ou coincidência absurda.Quando entrei no prédio da Interpol, percebi algo curioso.Ninguém me parou, nem questionou minha presença ou sequer pareceu lembrar que eu havia solicitado desligamento meses atrás.Alguns agentes apenas acenaram, outros me cumprimentaram e um deles chegou a perguntar quando eu vol
Alguns dias antes do passeio no shopping.AliceExiste uma quantidade limitada de emoção que uma pessoa consegue suportar e aparentemente a minha cota acabou quando saímos de Veneza.Porque viver numa fazenda no interior de São Paulo era exatamente tão emocionante quanto assistir tinta secar.Talvez menos.Pelo menos a tinta muda de cor.A vaca da frente da nossa casa não, ela simplesmente existe, todos os dias fica parada no mesmo lugar me encarando.Como se tivesse algum problema pessoal comigo.Cruzei os braços na varanda.Ela mastigou.Continuei encarando.Ela mastigou de novo.Tenho a impressão de que estávamos numa disputa psicológica e claro que eu estava perdendo.— Mãe!Gritei para o interior da casa.— Essa vaca está me julgando!A voz dela veio da cozinha.— Ela é uma vaca, Alice.— Exatamente.— Isso não faz sentido.— Você claramente não conhece aquela vaca.Ela não respondeu e isso foi covardia. Entrei novamente na cozinha e minha mãe estava sentada diante do notebook, o
DanteJá fazia uma semana.Sete dias inteiros.Sete dias de calor, de pesquisas.E sete dias dirigindo por estradas que pareciam levar a lugar nenhum e tudo isso sem encontrar absolutamente nada.Encostei a cabeça na cadeira do carro e observei o estacionamento do shopping pela terceira vez naquele dia.Nada.Nem Alice, nem Valentina e nem sequer uma caminhonete carregada de fruta do dragão.Como se as duas tivessem evaporado depois daquele encontro.Ou quase encontro.Passei a mão pelo rosto, se eu não as tivesse visto com meus próprios olhos, começaria a acreditar que tinha imaginado tudo.Talvez uma insolação particularmente agressiva.Ou talvez o calor finalmente tivesse cozinhado meu cérebro.Mas não.Eu as havia visto.Natasha e Valentina estavam aqui e respirando o mesmo ar que eu.Andando pelas mesmas ruas, mas de alguma forma continuavam invisíveis.Suspirei e saí do carro.Nos últimos sete dias, eu havia visitado todas as lanchonetes do shopping.Todas.Sem exceção.As espec







