INICIAR SESIÓNDemir saiu da cozinha com uma sensação tão estranha que, se fosse outro homem, culparia a comida. Mas ele não. Ele era Demir Osman.
Chef. Implacável. O homem que nunca perde o controle. No entanto… estava perdendo. Ele caminhou pelo corredor como se tentasse fugir da própria cabeça, mas a maldita sensação vinha atrás dele igual a uma sombra insolente. Não queria a estagiária perto do Joaquim. Mas que merda! Desde quando isso era problema dele? Parou no salão, mãos nos bolsos do avental, maxilar travado. Por que ele ainda estava ali? Por que não havia ido embora, como fazia diariamente, sempre no mesmo horário, sempre com a mesma rotina metódica? Ele se perguntou isso três vezes. E mesmo assim ficou. Ali. Plantado. Observando a brasileira lavando panela como se estivesse esculpindo uma obra-prima — e Joaquim ao lado dela sorrindo de um jeito que ele nunca havia visto o lavador sorrir na vida. A paciência dele evaporou quando a viu sair pela porta com Joaquim ao lado, rindo, os dois conversando baixo na rua silenciosa. Ele saiu atrás. Os seguiu como se fosse um namorado traído — não que ele admitisse isso nem sob tortura medieval. Ficou a alguns metros de distância, passos firmes, expressão dura. Cada gargalhada dela com Joaquim entrava nele como pimenta pura na língua. À medida que caminhavam pela rua úmida, algo dentro dele apertava, como se estivesse assistindo a algo que não devia. Ridículo. Estúpido. Ele mesmo repetia isso na cabeça, mas o corpo não obedecia. Quando chegaram ao hotel simples onde a moça estava hospedada, Joaquim parou na calçada e fez algo que irritou Demir profundamente: Ele a cumprimentou com educação, deu um beijo na mão. Nada demais. Nada indecente. Nenhum gesto que justificasse o fogo que subiu pelo estômago de Demir. Ela sorriu. Abençoado seja Joaquim, que sobreviveu ao sorriso dela e ainda lhe beijou a mão. Demir viu quando o rapaz deu meia-volta e seguiu seu caminho pela rua escura. Mas ele não se mexeu. Ficou ali, imóvel, assistindo Bell entrar no prédio, o véu caindo leve sobre os ombros, a porta se fechando devagar. E só quando ela passou pelo hall, desaparecendo de vista, ele soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Não sabia por quê. Nem sabia que diabos aquela moça estava fazendo com sua cabeça. Só sabia que… estava feito. E que ele havia acabado de cruzar a fronteira invisível entre “não ligo” e “estou ferrado”. Foi para seu apartamento, se preparou para dormir e se deitou. Hoje não levou ninguém com ele, não parecia certo. Demir tentou dormir. Tentou de verdade. Virou para um lado. Para o outro. Contou as rachaduras no teto. Disse a si mesmo que não pensaria nela. E, obviamente… pensou nela. No segundo em que finalmente pegou no sono, lá estava a brasileira. O sonho começou inocente demais para o padrão dele. Ela estava na cozinha, exatamente como mais cedo, mas a luz era mais quente, mais suave. Ela estava rindo. O véu caía devagar sobre o ombro. Ele podia ver o reflexo dourado do pouco cabelo que escapava. Os dedos dela seguravam um pedaço de massa como se fosse algo sagrado. Ele se aproximou… e no sonho, ele não hesitava. Não tinha orgulho. Nem tinha bloqueios. Só desejo puro, cru e irritante. Ela virou para ele, os olhos azuis brilhando. E quando ela disse o nome dele… Demir… o corpo todo dele tremeu. Ele tocou o rosto dela. Ela sorriu. E ele a beijou. Profundo. Lento. Firme. Beijo de homem que se perdeu e só percebeu quando já era tarde demais. E ela correspondeu. Ah, ela correspondeu. Quando ele sentiu a mão dela segurando sua camisa. Acordou. Arfando. Coberto de suor. Com o coração numa batida que parecia martelo em chapa quente. — Lanet olsun (droga). Praguejou, jogando o lençol para longe. Parecia que tinha corrido uma maratona em pleno verão de Istambul. Demir se levantou, tomou um banho gelado, praguejou mais umas três vezes e foi para o restaurante com um humor que podia fazer pepinos murcharem à distância. De manhã, no Osman Fine Dining. Demir empurrou a porta da cozinha como quem invade território inimigo. Até os potes de tempero tentaram se esconder dele. Passou os olhos pelo ambiente e bastou ver UM dos seus ajudantes fazendo algo errado para o sangue dele ferver outra vez. O rapaz estava jogando as pontas dos aspargos no lixo. No No. NO. Aquilo foi o estopim. Demir atravessou a cozinha igual a uma tempestade. — Kaç kere söyledim?! Rugiu. — Bunlar çöpe gitmez! Et suyuna girer! Bu israf değil, mutfak suçu! (Quantas vezes eu falei?! Isso não vai para o lixo! Vai para o caldo! Isso não é desperdício, é crime culinário!) O rapaz empalideceu, tremendo como folha ao vento. Demir estava tão irritado, tão fora de si, que ameaçou o impensável: — Seni buradan kovarım! (Eu te mando embora!) O garoto quase chorou. Foi nesse momento que entrei entre os dois. Literalmente, me coloquei na frente do ajudante. Sei que não deveria, que estou me arriscando, mas não aguento ver alguém sendo humilhado. — “Hey! He just made a mistake. Everyone makes mistakes. You don't need to do that.” (—Ei! Ele só errou. Todo mundo erra. O senhor não precisa fazer isso.) Disse firme, sem medo nenhum. Demir virou para mim com os olhos em chamas, vi que por alguma razão já estava no limite. E Demir, com o impulso de proteger a própria vulnerabilidade da noite passada, soltou a primeira crueldade que veio à mente, em turco. — Seni ilgilendirmeyen konulara karışma, burnunu her şeye sokan kadın. Bu senin yeteneklerinin ötesinde. (Não se meta em assuntos que não lhe dizem respeito, mulher intrometida. Isso está acima da sua capacidade.) Foi baixo. Feio. E foi típico de um Demir transtornado tentando esconder o estrago interno. Perdi o chão por um momento, pensei em mostrar para esse arrogante com quem está falando. Mas vi Umut na porta. Umut, que acabara de aparecer na porta, parou na hora. Olhou para Demir. Olhou para mim. Sei que tenho que me controlar porque meu olhar, parado, silencioso, ferido, está mostrando o que quero esconder. Que entendi cada palavra que Demir disse. E, em vez de reagir, respirei fundo, abri um sorriso leve, quase divertido, quase provocador, e respondi para esse babaca arrogante: — Eu não te entendo. E dei uma pequena reverência. — Desculpe. Demir ficou sem chão. Umut arregalou os olhos. Simplesmente virei de costas, peguei uma cebola imaginando ser a cara de Demir, coloquei na tábua com a delicadeza de um elefante e comecei a cortar. Por fora. Calma. Elegante. Com um domínio tão frio… tão técnico… que até o som da faca ecoava pela cozinha. Por dentro. Eu já teria matado Demir. Arrancados aqueles olhos e feito um cozido com a ponta dos aspargos e ainda feito ele comer. Babaca arrogante. Umut engoliu seco. Porque naquela postura, naquele corte preciso, naquela coluna reta… ele viu a verdade. Ela não era uma turista desavisada. Não estava perdida. Nem era leiga. Bell estava controlando o dano. E ganhando poder, mas por que mentir? Demir, ainda ofegante da própria explosão, entendeu tarde demais que havia jogado gasolina onde já havia fogo. Saiu da cozinha e entrou em sua sala de vidro e desceu as cortinas, não queria olhar para a cozinha, não queria ver aquela mulher. Umut entrou atrás dele e perguntou: — O que foi aquilo? Por que você estava gritando com o rapaz? E o pior: por que Bell acabou sendo seu alvo? Demir esfregou o rosto, sentindo o cansaço se acumular no pescoço. — Odeio desperdício, você sabe disso. Se quando estávamos na rua passando fome tivéssemos pelo menos aquelas pontas de aspargo para nos alimentar, não teríamos sofrido tanto. — Demir… isso foi há muito tempo. Hoje temos o que comer. E você sempre foi um chef justo. O que você disse para Bell não se deve pronunciar para uma mulher. — Ela não entendeu uma palavra do que falei. — Eu não tenho tanta certeza. Umut rebateu. — Ela não parece tão leiga. Demir soltou uma risada seca… mas a dúvida veio como uma navalha. Se ela não estava entendendo o que eu dizia, porque defendeu o rapaz? — Se ela entendeu… estou ferrado. — Sim, está. Umut disse sem piedade. — Peça desculpas. — Não posso. Se ela não entendeu, não vai entender porque estou pedindo desculpas. — Faça por você, não por ela. Preciso que vocês estejam bem. Estou com um plano para salvar o restaurante. Demir franziu a testa. — Umut… o que você vai fazer? — Por enquanto, nada. É só uma ideia que me passou pela cabeça. Umut saiu. Demir ficou sozinho, remoendo tudo. Puxou um pouco a cortina, só para espiar a cozinha. E lá estava Bell. Cortando cebola como quem assassina emoções ou corta o pescoço de alguém. Cada facada é uma resposta. Cada fatia um “eu entendi você, infeliz”. Ele deixou a cortina cair de novo. Estava ferrado. Completa e irremediavelmente ferrado. E, pela primeira vez em muito tempo, não tinha a menor ideia de como controlar o fogo que começava a queimar dentro dele.Ahmet apareceu logo depois, correndo, ofegante, segurando minha bolsa como se fosse um artefato sagrado. Yaman tomou a bolsa da mão dele com um simples gesto de autoridade absoluta.Nem sei como ele sabia que minha bolsa havia ficado no restaurante.Olhei para o lado e entendi tudo.Aisha. Com o celular erguido. Transmitindo.— AISHA! — gritei. — DESLIGA ISSO!— É histórico, senhora! — ela chorava e filmava ao mesmo tempo. — O herdeiro da culinária turco-brasileira está chegando!Demir encarou o celular como se estivesse avaliando jogar aquilo pela janela. Segurei o braço dele. — Deixa… depois eu resolvo isso.Fui levada para a sala de parto com uma comitiva digna de chefe de Estado.E então veio o aviso: — Apenas um acompanhante pode entrar.O mundo parou.Samira cruzou os braços. — Eu sou a mãe.Yaman deu um passo à frente. — Eu sou o avô.Aisha fungou alto. — Eu moro com ela.O médico piscou, claramente arrependido de ter feito a pergunta. — Senhor…?— Eu SOU O MARIDO! — Demir resp
E então… veio a surpresa.Naquela semana comecei a sentir uns enjoos estranhos.O cheiro da comida que eu tanto amo virou meu inimigo declarado. Bastava entrar na cozinha que meu estômago se revoltava como se estivesse em greve.Aisha, que agora praticamente morava no restaurante, me observava com atenção excessiva.Ergueu a sobrancelha.— A senhora está pálida. Não está comendo como de costume… e ontem eu vi a senhora comendo goiabada com feijão.— Não, Aisha… acho que não — respondi, mas já pensando que, na hora, a goiabada com feijão tinha parecido absolutamente normal. Agora… nem tanto.Ela cruzou os braços, sentenciando: — Eu vi esse enjoo no rosto da minha irmã, da minha prima e da minha tia.E esse paladar estranho também.Isso é gravidez, minha amiga.Fiquei parada.Imóvel.Uma estátua otomana em choque.A primeira coisa que fiz foi mandar mensagem para Samira:“Mãe… acho que estou grávida.Não conta para o papai.”Demir chegou exatamente nesse momento.Porque, claro, minha vi
Três meses depois, o restaurante já não era apenas um restaurante. Era um evento.Tinha fila na porta, fila na calçada, fila para tirar foto com a fachada… e, claro, fila para ver o casal do momento.Aisha chegava sempre dez minutos antes da nossa chegada.Para fofocar, e nos ver chegar, ela adorava saber que trabalhava para estrelas da internet.No começo me irritei e tentei fazê-la ir direto para o apartamento, mas depois deixei, ela é da família e deixa que se divirta um pouco.— Senhora, a fila está dando volta no quarteirão. Parece Black Friday! Ela anunciava, segurando o celular e transmitindo nossa vida em um canal que ela criou.” Minha participação na novela turca, mais popular de Istambul.”Demir inchava o peito igual pavão no cio turco e eu só tentava manter tudo sob controle.— Eles vieram por causa da nossa culinária exótica. Dizia ele.Joaquim, passando com um saco de farinha gigante, retrucava:— Vieram por causa da fofoca, irmão. Você é famoso porque sentou na mesa com
Quando o restaurante finalmente esvaziou, fui para o escritório em busca de silêncio.Fechei a porta atrás de mim como quem fecha o mundo inteiro.Sentei no sofá, tirei os sapatos e encostei a cabeça no encosto. Respirei.Pouco depois, a porta abriu. Demir entrou.— Está tudo bem? — perguntou, já mais baixo, respeitando o cansaço que devia estar estampado em mim.— Está… — respondi. — Eu só quero um pouco de silêncio.Ele sorriu de lado. Aquele sorriso de quem sabe exatamente com quem está lidando.— Você achou que a minha vida de pavão era fácil? — disse, caminhando pelo escritório. — Agora está vendo que não é.Abri os olhos devagar. Virei o rosto na direção dele, com aquele olhar que mistura ironia e verdade demais.— A sua vida era fácil, sim.Você sorria… e metade do restaurante suspirava.Passava a mão nesse cabelo lindo que você tem… e a outra metade desmaiava.Falava duas frases… e algumas simplesmente caíam no seu colo, como abelhas no mel.Demir soltou uma risada curta, quas
Chegamos de manhã e, à frente do restaurante, aquilo mais parecia um ponto turístico oficial de Istambul.Gente na porta.Fila na calçada.Turistas tirando foto até da lixeira.E o painel luminoso — que com certeza Umut mandou colocar — piscando sem pudor algum:Cozinha Osman & Karaman — culinária turco-brasileiraFicamos parados, dentro do carro, olhando o painel em absoluto descrédito.— Isso é coisa do Umut — Demir disse, ainda encarando as luzes.— Como ele consegue? — murmurei.— Não sei… mas temos que admitir: ele sabe transformar tudo em algo grande.Olhei para a porta do restaurante. A fila era absurda. Repórteres filmavam. Turistas sorriam. Alguém apontava.E então caiu a ficha: íamos ter que descer do carro.Quando perceberam que éramos nós, o tumulto foi imediato.— Chef, tira uma foto comigo!— Chef, faz um coração com a mão!— Chef, olha pra cá!Meu estômago revirou. Aquilo tudo era demais.Sem pensar muito, me afastei. Tentei sair do foco. Nunca gostei de estar em evidên
A noite seguia perigosamente… tranquila.Tranquila demais para um salão cheio de poder, ego e expectativas.Foi quando um dos garçons se aproximou, discreto demais para não ser sinal de problema.— Senhora… os críticos pediram a presença dos senhores à mesa.Meu estômago deu um pequeno salto.Anthony Bourdain fazia suas avaliações ao vivo — eu sabia disso. Já o tinha visto provar meu prato. Vi o brilho breve no olhar, o silêncio respeitoso, o jeito de quem pensa antes de julgar. Ele não disse nada diretamente a Richman. Ainda.Respirei fundo.Demir caminhou comigo até a mesa. Como manda a tradição turca, foi ele quem o cumprimentou primeiro.— Senhor Bourdain. Senhor Richman. — disse, firme. — Espero que o atendimento tenha lhes agradado.— Sim, agradou… — Bourdain começou.Mas não terminou.A porta do restaurante se abriu.E o silêncio caiu como um tapa coletivo.Sula Uglu entrou.Meu corpo enrijeceu antes mesmo do pensamento se formar.— O que ela está fazendo aqui? — sussurrei.— N







