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Capítulo 2

Penulis: Kell velloso
last update Tanggal publikasi: 2026-06-26 08:04:18

Zaya

O contrato pesa na minha bolsa. Já faz três horas que saí do escritório de Brett Howard e eu ainda não consegui abrir, ainda não consegui ler, ainda não consegui encarar as palavras que eu já sei que estão lá, como se ignorar por mais algum tempo fosse suficiente para adiar algo que, no fundo, eu já aceitei antes mesmo de sair daquela sala, mas o peso continua comigo, constante, como se não estivesse na bolsa e sim preso ao meu corpo, me acompanhando em cada passo, lembrando que não existe distância suficiente entre mim e a decisão que eu tomei.

Saí sem olhar para trás porque sabia que, se olhasse, não seria para confrontar, seria para hesitar, e hesitar na frente dele teria sido o mesmo que confirmar tudo o que ele já sabia, que eu voltaria, que eu aceitaria, que era só uma questão de tempo até eu chegar exatamente onde ele já me colocou desde o início, então eu fui embora com a postura firme, com a respiração controlada, sustentando algo que já não estava inteiro.

O caminho até o apartamento passa sem forma, as luzes acendendo, o céu mudando de cor, os carros passando ao redor enquanto minhas mãos apertam o volante com força demais, úmidas, escorregando levemente a cada movimento, e eu preciso reajustar os dedos mais de uma vez como se isso fosse o suficiente para manter algum tipo de controle, mesmo sabendo que não é sobre o carro, não é sobre o trânsito, é sobre o que está dentro da bolsa ao meu lado, intocado e ainda assim impossível de ignorar.

Não lembro de estacionar direito, nem de subir, só lembro do momento em que a porta se fecha atrás de mim e o silêncio do apartamento me atinge de uma vez, pesado, familiar, e minhas costas encontram a parede antes mesmo que eu perceba, deslizando devagar até o chão enquanto a bolsa ainda está no meu ombro, como se eu estivesse adiando o momento de tirar, de abrir, de encarar.

O apartamento é pequeno, sempre foi, um quarto, uma sala, uma cozinha apertada demais, mas é o único lugar onde eu posso parar de fingir que estou no controle, e ainda assim, mesmo aqui, eu demoro alguns segundos antes de finalmente tirar a bolsa, abrir o zíper e puxar a pasta, porque no fundo eu sei que não existe mais volta, não depois do jeito que ele falou, não depois do jeito que eu fiquei em silêncio.

Minhas mãos tremem quando eu abro, mais do que deveriam, e eu seguro com mais força do que o necessário, como se isso pudesse estabilizar alguma coisa dentro de mim, enquanto puxo os papéis e leio a primeira linha em voz alta só para quebrar o silêncio, só para ouvir algo além do que está passando na minha cabeça.

“Contrato de união civil entre Brett Howard e Zaya Stewart, com duração de 18 meses…”

Dezoito meses.

O número não parece longo o suficiente para assustar à primeira vista, mas também não é curto o bastante para passar sem deixar marcas, e é isso que incomoda mais, a sensação de que não é apenas um acordo temporário, que não é algo que termina e desaparece como ele pretende fazer parecer.

Continuo lendo e sinto o corpo reagir antes mesmo de organizar os pensamentos, os ombros tensionando, a respiração encurtando, os dedos apertando o papel com mais força a cada cláusula, como se cada linha fosse diminuindo um pouco mais o espaço ao meu redor, tornando tudo mais próximo, mais inevitável.

Morar na casa dele.

Acompanhar ele em eventos.

Sorrir para pessoas que não vão olhar para mim de verdade.

Dividir espaços, rotinas, silêncio.

E, de alguma forma, aprender a existir dentro disso sem quebrar por completo.

Mas o que realmente me prende não está nessas linhas.

É a outra.

“O Sr. Howard se compromete a quitar integralmente a dívida hipotecária…”

Meus olhos param ali e não saem por alguns segundos, e eu fecho os olhos, puxando o ar devagar, porque é isso, sempre foi isso, a casa da minha mãe, o único lugar que ainda significa alguma coisa sem esforço, sem construção, sem tentativa, o lugar que não deveria estar em risco, mas está, e depende de mim.

Ela não sabe.

E não pode saber.

Toda semana eu repito que está tudo bem, ajusto o tom, controlo a respiração, minto com a naturalidade de quem já fez isso muitas vezes, e ela acredita porque precisa acreditar, e eu continuo sustentando isso sozinha, como se fosse possível manter tudo de pé apenas evitando que a verdade seja dita.

O contrato escorrega dos meus dedos e cai no chão junto com as outras contas, e eu fico olhando para o teto, acompanhando a mancha de umidade no canto, o piscar irregular da lâmpada, coisas pequenas, fáceis de encarar, ao contrário do que realmente importa.

Pego o telefone e ligo para minha mãe antes de pensar melhor, antes que eu desista.

— Alô, filha?

— Oi, mãe.

— Está tudo bem? Sua voz está estranha.

Eu engulo antes de responder, ajusto a postura mesmo estando sozinha, como se isso ainda fizesse diferença.

— Está sim, só cansada, o trabalho está puxado.

Ela aceita rápido demais.

Sempre aceita.

— Você vem domingo?

Domingo.

Eu me esqueci.

Ou evitei lembrar.

— Vou sim, mãe. E vou levar novidade.

O silêncio do outro lado dura um pouco mais dessa vez.

— Novidade?

— No domingo eu conto.

Desligo antes que ela continue, antes que eu precise sustentar mais alguma coisa, e fico com o telefone na mão por alguns segundos, olhando para a tela apagada enquanto percebo que estou prendendo a respiração outra vez.

O que eu estou fazendo?

A pergunta não vem como dúvida, vem como incômodo, insistente, repetindo sem parar, porque no fundo eu já sei a resposta, estou entrando em algo que não quero, estou aceitando algo que não escolhi de verdade, estou caminhando para um lugar onde ele já sabe que eu vou estar amanhã às dez, sem precisar perguntar, sem precisar confirmar.

Porque ele sabe.

E o pior é que ele está certo.

Respiro fundo, me inclino para frente e pego o contrato do chão, coloco sobre a mesa e procuro uma caneta enquanto meus dedos ainda não estão completamente firmes, e a única que encontro está com a tampa rachada, a tinta irregular, simples demais para um momento que deveria ter mais peso, mas talvez seja exatamente isso, não há nada de especial aqui, nada de grandioso, apenas uma decisão tomada por falta de alternativa.

Volto para a última página, leio as linhas finais e paro no espaço da assinatura enquanto a frase ecoa na minha cabeça.

“Declaro que li e concordo…”

Eu não concordo.

Mas isso não muda nada.

Assino.

O nome sai firme demais para alguém que está quebrando por dentro, e isso me incomoda, como se nem a minha própria assinatura denunciasse o que está acontecendo, como se até isso estivesse sob controle quando claramente não está.

A caneta cai sobre a mesa e eu fico olhando para o papel, esperando sentir alguma coisa diferente, mas não vem, apenas uma sensação estranha de que algo já foi decidido antes mesmo desse momento.

Meu telefone vibra.

Eu nem preciso olhar para saber.

“Contrato pronto para assinatura. Amanhã, às 10h. Não se atrase.”

Eu encaro a mensagem por alguns segundos, não pela ordem, não pelo horário, mas pela certeza implícita, como se não existisse a possibilidade de eu não estar lá, como se a resposta já estivesse incluída.

Apago.

Desligo o telefone.

E fico ali, no escuro, com o contrato assinado à minha frente, percebendo que amanhã não é um começo, não é uma escolha, é só a continuação de algo que já começou no momento em que eu não consegui dizer não.

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