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Capítulo 1

Penulis: Kell velloso
last update Tanggal publikasi: 2026-06-26 08:03:19

Brett 

O relógio na parede marca 7h42 quando eu entro no escritório, quinze minutos atrasado para a primeira reunião, mas não altero o ritmo nem por um segundo, não peço desculpas, não ofereço justificativas, porque não é assim que as coisas funcionam aqui e nunca foi, então atravesso o corredor como sempre faço, ignorando os olhares que se levantam na minha direção enquanto ajusto o punho do terno com um movimento discreto, mais por hábito do que por necessidade.

A secretária se levanta assim que me vê, pontual como sempre, eficiente como sempre, discreta como sempre, Zaya Stewart, postura impecável, os olhos castanhos evitando os meus por reflexo, e por um instante eu me permito observá-la com um pouco mais de atenção do que o normal, não pela aparência, mas pelo controle que ela sustenta, controle esse que eu sei que já não está tão intacto quanto ela gostaria.

— Bom dia, senhor Howard. O café está na sua mesa, os documentos da reunião estão separados e os senhores diretores já estão aguardando o senhor.

A voz sai firme, mas existe um pequeno atraso entre uma frase e outra, algo que dificilmente alguém notaria, e ainda assim está ali, um descompasso mínimo que não existia antes, e eu não preciso olhar para confirmar que as mãos dela estão mais tensas do que o habitual.

— Avise que chegarei em dez minutos.

Ela apenas acena, sem acrescentar nada, e volta ao computador com a mesma eficiência de sempre, como se o simples ato de continuar trabalhando fosse suficiente para manter tudo no lugar, e eu sigo sem comentar, porque já sei o que há para saber.

Eu não trabalho com suposições, então mandei investigar, e em menos de duas horas tudo estava claro: o pai morto, a dívida acumulada, a hipoteca ativa, a casa em Hialeah, a mãe que não faz ideia do que está prestes a acontecer e o prazo, trinta dias, um número pequeno demais para quem precisa resolver tudo sozinha.

Entro na minha sala e fecho a porta atrás de mim, deixando o som seco se dissipar enquanto o silêncio retorna, e o café já está sobre a mesa, ainda quente, exatamente como deve ser, o tipo de detalhe que não falha.

Passo os dedos pela lateral da xícara antes de pegá-la, sentindo o calor atravessar a porcelana, e levo à boca, deixando o amargor se espalhar devagar, mais por hábito do que por necessidade, enquanto meu olhar se desloca para a mesa lateral e encontra a foto no mesmo lugar de sempre.

O aperto no peito vem sem variação, rápido, previsível, e eu apenas ajusto a respiração antes de desviar o olhar, porque não há nada ali que precise ser revisto, nada que possa ser alterado, apenas um erro que continua existindo independentemente do tempo.

Volto para o café.

Volto para o que pode ser controlado.

Os investidores japoneses querem estabilidade, querem uma imagem que eu não sustento, querem algo que não existe mais, e a única forma de atender isso sem comprometer o resto é construir uma solução que funcione exatamente dentro dos limites que eu determino.

Passei a noite avaliando possibilidades até restar apenas uma que não cria margem para imprevistos.

Preciso de uma esposa.

Não por interesse pessoal, não por qualquer necessidade que não seja objetiva, mas porque resolve o problema de forma direta, alguém que esteja presente quando necessário e ausente quando conveniente, alguém que entenda termos antes mesmo de eles serem explicados.

Alguém que precise aceitar.

Zaya Stewart.

Deixo a xícara sobre a mesa com um movimento controlado e saio, cruzando o corredor novamente até encontrá-la, agora com uma pilha de pastas pressionada contra o corpo, os dedos firmes demais sobre o papel, como se estivesse segurando algo que não pode deixar cair.

Ela olha.

Por um segundo a mais do que deveria.

— Senhor Howard.

— Zaya.

Digo o nome sem pressa, observando o efeito sem disfarçar, e ele vem, contido, mas suficiente.

— Às nove, na minha sala. Preciso falar com você.

— Sim, senhor.

A resposta vem no mesmo tom de sempre, mas há um cuidado maior na forma como ela se mantém imóvel depois de falar, como se qualquer movimento a mais pudesse revelar algo que ela ainda não quer mostrar.

Sigo para a reunião sabendo que ela estará lá no horário exato.

Não por obrigação.

Por necessidade.

Duas horas depois, retorno à minha sala antes das nove, me sirvo de mais café e me sento com a porta entreaberta, observando o corredor até que a batida vem, precisa, controlada, como tudo nela.

— Pode entrar.

Ela entra e para diante da mesa, postura ereta, mãos unidas, o controle visível em cada detalhe, mas não absoluto, nunca absoluto.

Abro a pasta e deslizo o contrato na direção dela.

— Sei da sua dívida, da hipoteca e do prazo de trinta dias.

A mudança é imediata, ainda que ela tente conter, a cor desaparece, a respiração perde o ritmo por um instante, e há um silêncio curto demais para ser confortável antes que ela fale.

— Como o senhor sabe disso?

Não respondo de imediato, apenas observo, deixando que o silêncio se estenda o suficiente para que a pergunta perca parte da força antes de empurrar o contrato um pouco mais para perto.

— Eu posso resolver isso.

Ela não toca no contrato de imediato.

Olha primeiro para mim e depois para o papel e só então pega.

— Dezoito meses de casamento e a dívida é quitada.

A leitura começa rápida, superficial, e aos poucos desacelera, voltando em algumas linhas, ajustando o papel nas mãos, o leve tremor nos dedos mais evidente agora que ela não está tentando escondê-lo.

— Aqui não fala nada sobre sexo.

— Não faz parte do acordo.

Ela ergue os olhos, avaliando, medindo, como se tentasse encontrar algo além do que está dito.

— E se eu disser não?

Eu sustento o olhar por tempo suficiente para que a pergunta deixe de ser uma possibilidade real.

— Você não vai.

Ela não responde imediatamente, apenas fecha a pasta com mais força do que o necessário, como se precisasse daquele gesto para se manter firme.

— Posso saber por quê?

— Porque você já está considerando.

O silêncio que vem depois é diferente, mais denso, mais consciente, e quando ela fala novamente, a voz já não é a mesma de antes.

— O senhor não vai me tocar.

— Não está nos termos.

— Vou continuar trabalhando.

— Sim.

— Dezoito meses. Nem um dia a mais.

— É o que está no contrato.

Ela se levanta, segurando a pasta contra o corpo com mais força do que o necessário, e caminha até a porta antes de parar, ainda de costas.

— Vou levar para o meu advogado.

— Deve.

Ela vira o rosto o suficiente para que eu veja o olhar.

— O senhor vai pagar caro por isso.

Eu a observo sair sem responder, acompanhando o movimento até a porta se fechar, e o silêncio retorna, mais denso do que antes.

Fico sentado por um instante, o café intocado sobre a mesa, enquanto deixo o ar sair devagar, percebendo apenas então o quanto estava mais atento do que o necessário.

Cinco anos sem variação, sem interesse, sem desvios.

E ainda assim há algo diferente.

Não nela.

Na situação.

Talvez eu tenha subestimado Zaya Stewart.

Ou talvez tenha escolhido exatamente alguém que não vai aceitar tão facilmente quanto deveria.

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