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Capítulo 2 — Uma Lembrança Inconveniente

작가: Eva L. D
last update 게시일: 2026-07-10 08:22:56

Capítulo 2 — Uma Lembrança Inconveniente

Assim que entrou em sua sala, Nicolas deixou o paletó sobre a cadeira.

Sentou-se diante da mesa.

Ligou o computador.

Pegou o primeiro contrato do dia.

Leu a primeira linha.

Depois a segunda.

Chegou ao fim da página.

Franziu a testa.

Voltou ao início.

Percebeu que não havia entendido absolutamente nada do que acabara de ler.

Fechou a pasta lentamente.

Inclinou a cabeça para trás.

E, contra a própria vontade, uma imagem surgiu em sua mente.

Olhos cor de mel.

Um sorriso tranquilo.

Uma voz suave dizendo:

— “Se precisarem de alguma coisa, é só me chamar.”

Nicolas abriu os olhos imediatamente.

Irritado consigo mesmo.

— Que droga…

Levantou-se.

Caminhou até a enorme janela da sala.

Apoiou uma das mãos no vidro.

Aquilo não fazia sentido.

Ele nem sabia o nome dela.

Nunca mais a veria.

Era apenas uma atendente de cafeteria.

Nada além disso.

Repetiu essa frase para si mesmo mais de uma vez.

Como se, insistindo o suficiente, fosse conseguir acreditar nela.

Nicolas permaneceu alguns instantes diante da janela.

A cidade seguia seu ritmo frenético lá embaixo.

Carros.

Pessoas.

Compromissos.

Tudo continuava exatamente como deveria.

Só a própria mente parecia ter resolvido ignorar qualquer lógica.

Uma batida discreta na porta interrompeu seus pensamentos.

— Entre.

A porta se abriu lentamente.

Sua secretária entrou segurando uma pasta.

— Senhor Beaumont, os representantes da Ásia já chegaram.

Nicolas piscou algumas vezes, voltando completamente à realidade.

— Pode encaminhá-los para a sala de reuniões. Estarei lá em um minuto.

— Sim, senhor.

Ela saiu, fechando a porta atrás de si.

Nicolas respirou fundo.

Passou as duas mãos pelo rosto.

— Concentre-se.

Era apenas uma atendente de cafeteria.

Nada além disso.

Pegou o paletó sobre a cadeira e caminhou em direção à sala de reuniões.

Durante as duas horas seguintes, voltou a ser o homem que todos conheciam.

Seguro.

Objetivo.

Implacável nas negociações.

Questionou cláusulas, corrigiu números, recusou propostas e conduziu a reunião com a mesma firmeza de sempre.

Ainda assim…

Em dois momentos diferentes, ficou alguns segundos em silêncio, olhando para a mesa sem realmente enxergar os documentos à sua frente.

Foi rápido.

Tão rápido que ninguém percebeu.

Ninguém…

Exceto ele.

Ao fim da reunião, um dos executivos estendeu a mão.

— Foi um prazer negociar com o senhor, Beaumont.

Nicolas correspondeu ao cumprimento com firmeza.

— O prazer foi meu.

Os representantes deixaram a sala comentando, em voz baixa, sobre a rapidez com que ele havia conduzido a negociação.

Assim que a porta se fechou, o silêncio voltou a dominar o ambiente.

Nicolas afrouxou discretamente o nó da gravata.

Apoiou as duas mãos sobre a enorme mesa de madeira escura.

Fechou os olhos por um breve instante.

Respirou fundo.

Respirou novamente.

Quando tornou a abri-los, encarou o reflexo da própria imagem no vidro da janela.

— O que está acontecendo comigo?

A pergunta saiu quase em um sussurro.

Não esperava resposta.

Nem existia uma.

Nunca havia perdido a concentração por causa de alguém.

Muito menos de uma mulher.

Seu telefone vibrou sobre a mesa.

Lorenzo.

Lorenzo: Sobreviveu?

Um pequeno sorriso surgiu no canto dos lábios de Nicolas.

Digitou apenas uma palavra.

Nicolas: Sim.

A resposta veio quase imediatamente.

Lorenzo: Então jantar hoje?

Nicolas nem precisou pensar.

Nicolas: Não.

Três pontinhos apareceram na tela.

Depois outra mensagem.

Lorenzo: Você precisa arrumar uma namorada.

Nicolas soltou uma breve risada pelo nariz.

Nicolas: Preciso trabalhar.

Lorenzo: É exatamente esse o problema.

Ele bloqueou o celular sem responder.

Já conhecia Lorenzo o suficiente para saber que a conversa não terminaria ali.

…

O restante da tarde transcorreu como qualquer outra.

Assinaturas.

Telefonemas.

Reuniões.

Planilhas.

Relatórios.

Às cinco da tarde, sua secretária entrou novamente.

— Senhor Beaumont, sua agenda de amanhã.

Ela colocou um tablet sobre a mesa.

Nicolas passou os olhos pelos compromissos.

Reunião às oito.

Conferência às dez.

Almoço com investidores ao meio-dia.

Visita à filial às três.

Nenhum espaço livre.

Como sempre.

— Pode cancelar a visita da tarde.

A secretária ergueu os olhos, surpresa.

— Senhor?

Era raro Nicolas alterar qualquer compromisso.

— Quero a tarde livre.

Ela hesitou por um segundo.

— Posso remarcar para sexta-feira.

— Faça isso.

— Sim, senhor.

Assim que ela saiu, Nicolas voltou a olhar a agenda.

Por alguns instantes…

Ficou tentando entender por que havia cancelado um compromisso importante.

Não tinha outro compromisso marcado.

Nenhum.

Mesmo assim…

Sentia necessidade de deixar a agenda menos sufocante.

Balançou a cabeça.

— Você está ficando maluco…

Pegou novamente uma pasta de documentos.

Tentou ler.

Cinco linhas depois…

Os olhos cor de mel voltaram à sua memória.

Ela sorria para um senhor idoso.

Depois para uma criança.

Depois para ele.

Nicolas fechou a pasta com força.

— Chega.

Levantou-se imediatamente.

Pegou as chaves do carro.

Precisava ir para casa.

Talvez uma boa noite de sono resolvesse aquilo.

Porque, definitivamente…

Não existia outra explicação para uma simples atendente de cafeteria ocupar tanto espaço em seus pensamentos.

Nicolas deixou a empresa pouco depois das seis da tarde.

Assim que atravessou o saguão principal, os funcionários interromperam discretamente as conversas.

— Boa noite, senhor Beaumont.

— Boa noite.

Ele respondeu com um leve aceno de cabeça e continuou caminhando.

Do lado de fora, o motorista já o aguardava ao lado do sedã preto.

— Boa noite, senhor.

— Boa noite.

O motorista abriu a porta traseira.

Nicolas entrou.

O carro começou a deslizar pelas ruas iluminadas da cidade.

Como fazia todos os dias.

Por alguns minutos, permaneceu observando os prédios passarem pela janela.

Tentou organizar a agenda mentalmente.

Precisava revisar um contrato.

Ligar para um investidor de Londres.

Confirmar uma reunião para sexta-feira.

Normalmente, bastava pensar no trabalho para esquecer qualquer distração.

Naquela noite…

Não funcionou.

Sem perceber, sua mente voltou à pequena cafeteria.

Ao aroma de café recém-passado.

Ao sorriso gentil daquela atendente.

Nicolas fechou os olhos por um instante.

— Ridículo…

O motorista ouviu apenas o murmúrio.

— Disse alguma coisa, senhor?

Nicolas abriu os olhos.

— Não.

O restante do caminho seguiu em silêncio.

…

Do outro lado da cidade…

Maya retirou o avental da cafeteria e o dobrou cuidadosamente.

Dona Célia apareceu carregando uma caixa de xícaras.

— Obrigada pela ajuda hoje.

Maya sorriu.

— Eu que agradeço.

— Amanhã te espero no mesmo horário.

— Estarei aqui.

Antes de sair, Maya passou pelo caixa.

Recebeu o pagamento daquele dia.

Guardou cuidadosamente as notas dentro da carteira.

Cada real tinha destino certo.

Despediu-se da proprietária e caminhou até a praça próxima.

Sentou-se no mesmo banco de sempre.

Abriu a mochila.

Retirou uma marmita simples.

Arroz.

Feijão.

Frango desfiado.

Enquanto almoçava, pegou uma pequena caderneta de capa azul, já um pouco desgastada.

Abriu na última página.

Ali estavam anotadas todas as despesas do mês.

Aluguel.

Água.

Luz.

Remédios.

Mercado.

Seu olhar parou na última anotação.

Cirurgia do Gabriel.

Ao lado, o valor que precisava juntar.

Maya fez algumas contas de cabeça.

Depois anotou o dinheiro que havia recebido naquela manhã.

Ainda faltava muito.

Ela respirou fundo.

Por um breve instante, fechou os olhos.

Lembrou-se dos pais.

Da promessa que fizera no hospital, anos atrás.

“Eu vou cuidar dele.”

Aquela promessa nunca saiu de seu coração.

Sorriu de maneira discreta.

— Eu vou conseguir…

Guardou a caderneta novamente.

Não importava quanto tempo levasse.

Ela encontraria um jeito.

Como sempre encontrava.

Levantou-se do banco, ajeitou a mochila sobre os ombros e caminhou até o ponto de ônibus.

Ainda havia outro turno de trabalho pela frente.

…

Quando chegou à pequena lanchonete, o movimento já começava a aumentar.

— Boa noite, Maya! — cumprimentou Carlos, o cozinheiro.

— Boa noite.

Ela colocou o avental, prendeu novamente os cabelos e assumiu seu lugar atrás do balcão.

Mais uma noite.

Mais pedidos.

Mais clientes.

Mais algumas horas em pé.

Enquanto atendia um casal, seu celular vibrou discretamente no bolso do avental.

Ela aproveitou um breve intervalo para olhar a tela.

Gabriel.

Um sorriso iluminou seu rosto imediatamente.

— Oi, Gabi.

— Tá trabalhando?

— Como sempre.

Do outro lado da linha, a voz do irmão soava animada.

— Só liguei pra dizer que fiz todos os exercícios da fisioterapia.

Os olhos de Maya brilharam.

— Sério?

— Fiz tudinho.

Ela sorriu sozinha.

O cansaço parecia diminuir sempre que ouvia a voz dele.

— Tenho muito orgulho de você.

— Que horas você chega?

Maya olhou rapidamente para o relógio preso na parede.

— Hoje vou demorar um pouquinho.

Mas prometo que, quando chegar, faço aquele chocolate quente que você gosta.

— Com marshmallow?

Ela riu baixinho.

— Com marshmallow.

— Fechado.

A ligação terminou.

Maya guardou o celular no bolso.

Respirou fundo.

E voltou ao trabalho.

Sem imaginar que, naquele mesmo instante…

Do outro lado da cidade…

Um homem, sentado sozinho diante da enorme janela de sua cobertura, observava as luzes da cidade enquanto tentava entender por que uma mulher, cujo nome sequer conhecia, insistia em ocupar seus pensamentos.

E, pela primeira vez em muitos anos…

Nicolas Beaumont não tinha resposta.

Nicolas permaneceu imóvel diante da janela.

As luzes da cidade se espalhavam abaixo dele.

Seu celular tocou.

Uma nova mensagem.

Era Lorenzo.

Lorenzo: Amanhã vou passar aí cedo.

Nicolas respondeu apenas:

Nicolas: Tudo bem.

Guardou o celular.

Respirou fundo.

Tentou lembrar do rosto de qualquer outra mulher que tivesse conhecido nos últimos meses.

Não conseguiu.

Mas conseguia lembrar perfeitamente dos olhos cor de mel da atendente da cafeteria.

Fechou os olhos por um instante.

— Isso acaba amanhã.

Disse em voz baixa.

Como se estivesse dando uma ordem a si mesmo.

Sem saber…

Que aquela seria a única ordem que sua mente não obedeceria.

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