FAZER LOGINCAPÍTULO 5
CAMILA Desde pequena, aprendi uma lição: as pessoas não acreditam necessariamente no que você é. Elas acreditam no que você mostra. Foi assim que me tornei a filha perfeita, a irmã carinhosa, a noiva ideal, a mulher educada. Todos enxergavam exatamente aquilo que eu queria que enxergassem. Sempre funcionou. Até Luana aparecer. Desci para o café da manhã alguns minutos antes dos meus pais. Gostava de estar ali quando eles chegavam, porque aqueles pequenos momentos sempre fizeram parte da nossa rotina. Minha mãe sorriu assim que me viu. Mãe: — Bom dia, filha. Levantei-me para abraçá-la. Camila: — Dormiu bem? Ela sorriu. Mãe: — Muito melhor agora que vocês duas estão juntas. Meu pai entrou logo depois e beijou minha testa. Desde criança ele fazia aquilo. Pai: — Como está sua irmã? Olhei rapidamente para a escada. Camila: — Acho que ainda está dormindo. Ela passou por tanta coisa... precisa de tempo para se adaptar. Minha mãe segurou minha mão. Mãe: — Obrigada por estar cuidando dela. Você sempre teve um coração lindo. Sorri e abaixei a cabeça discretamente, assumindo a expressão humilde que eles conheciam tão bem. Camila: — Ela é minha irmã. Quero que seja feliz. Minha mãe ficou emocionada, e meu pai sorriu com orgulho. Era incrível como algumas palavras, ditas no momento certo, podiam conquistar qualquer pessoa. Eu conhecia exatamente as palavras que meus pais precisavam ouvir. Poucos minutos depois, Luana entrou. Calça jeans, tênis, cabelo preso e nenhuma maquiagem exagerada. Parecia ter acabado de sair de casa para comprar pão. Minha mãe levantou imediatamente para abraçá-la. Meu pai também. Observei a cena em silêncio. Durante dezessete anos, aquela atenção sempre foi minha. Agora eu precisava dividi-la. E eu odiava dividir qualquer coisa. Mesmo assim, meu sorriso permaneceu intacto. Camila: — Bom dia. Dormiu bem? Ela sorriu. Luana: — Dormi. Ainda estava se acostumando. Minha mãe acariciou o rosto dela. Mãe: — Com o tempo, tudo vai ficar mais fácil. Olhei para minha xícara de café. Com o tempo... Era exatamente isso que me assustava. Quanto mais tempo Luana passasse naquela casa, mais espaço ocuparia. Mais histórias seriam construídas ao redor dela. Mais pessoas se acostumariam com a presença dela. E, pouco a pouco, aquilo que sempre tinha sido meu poderia deixar de ser. Meu lugar. Minha família. Minha importância. Naquela tarde, encontrei Beatriz em um café. Ela tirou os óculos escuros e me olhou com curiosidade. Beatriz: — Então... como está a irmã desaparecida? Suspirei. Camila: — Todos estão encantados. Ela arqueou uma sobrancelha. Beatriz: — Inclusive o Matheus? Olhei pela janela. Camila: — Não começa. Ela riu. Beatriz: — Eu conheço você. Quando responde desse jeito, é porque percebeu alguma coisa. Balancei a cabeça. Camila: — Não é nada. Só acho que ele ficou curioso. Beatriz tomou um gole da bebida antes de responder. Beatriz: — Homens como o Matheus adoram novidade. Mas esquecem rápido. Sorri. Queria acreditar naquilo. Queria muito. Porque, desde aquela noite, havia uma pequena inquietação dentro de mim. Eu tinha visto a maneira como ele olhou para Luana. Talvez tivesse sido apenas curiosidade. Eu precisava acreditar que era Antes de irmos embora, tive uma ideia. Olhei para Beatriz. Camila: — Você ainda vai fazer aquela festa no fim de semana? Ela sorriu. Beatriz: — Claro. Por quê? Mexi lentamente o café, pensando em como conduzir aquilo. Camila: — Quero levar a Luana. Ela me encarou. Beatriz: — Tem certeza? Assenti. Camila: — Está na hora de ela conhecer nosso mundo. Beatriz abriu um sorriso. Um sorriso que eu conhecia muito bem. Beatriz: — Deixa comigo. Ela vai ter uma recepção... inesquecível. Sorri de volta. Era exatamente o que eu queria ouvir. Na frente dos meus pais, eu continuaria sendo a irmã preocupada, a irmã amorosa, a filha perfeita que só queria ajudar Luana a se adaptar àquela nova vida. Mas havia uma coisa que ninguém naquela família entendia. Passei a vida inteira construindo meu lugar. Eu sabia exatamente como mantê-lo. Não permitiria que ninguém o tirasse de mim. Nem mesmo a irmã que todos esperaram durante dezessete anos.Capítulo Final — O Futuro é Nosso Ponto de vista: Luana No dia seguinte àquela visita tensa, mas necessária, dos meus pais, a calmaria parecia finalmente reinar na cobertura de Matheus. O sol da manhã atravessava as enormes janelas e iluminava as paredes claras do apartamento. Pela primeira vez em muito tempo, aquela luz não parecia anunciar outra tempestade. Parecia paz. Depois de semanas de escândalos, traições, lágrimas e do acerto de contas definitivo com a minha família, eu finalmente conseguia respirar sem sentir que alguma coisa estava prestes a desmoronar. Meus pais haviam dado o primeiro passo rumo à redenção. Camila estava isolada, obrigada a encarar as consequências das próprias escolhas. E eu continuava firme no comando do meu império, da minha carreira e, principalmente, da minha própria vida. Ainda havia cicatrizes. Eu sabia disso. Algumas feridas não desaparecem simplesmente porque o problema terminou. Mas agora eu conseguia olhar para elas sem sentir que per
Capítulo 91 Ponto de vista: Os Pais / Luana O silêncio que se instalou na mansão após a saída intempestiva da Camila foi o golpe final na nossa sanidade. Sentados na sala de estar, cercados pelo luxo vazio e pela opulência fria que construímos ao longo dos anos, minha esposa e eu finalmente enxergamos a verdade nua e crua. Nós criamos um monstro, alimentamos caprichos destrutivos por anos a fio e, por pura covardia e omissão, quase perdemos a nossa filha mais velha de forma definitiva. Minha esposa chorava baixinho, com o rosto escondido entre as mãos, enquanto o jornal da tarde exibia mais uma nota vaga sobre os burburinhos da alta sociedade. — Nós falhamos como pais, Carlos — ela disse, a voz quebrada pela culpa e pelo arrependimento. — Deixamos a Camila envenenar tudo ao nosso redor e tratamos a Luana como se ela fosse a intrusa. Se a gente não consertar isso agora, vamos carregar esse peso para o resto da vida. Olhei para ela, sentindo o mesmo aperto sufocante no peito,
Capítulo 90 Ponto de vista: Matheus O som da porta de vidro se abrindo com violência ecoou por todo o corredor do ateliê, seguido por uma onda de gritos histéricos que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo. Era a voz estridente e desequilibrada da Camila. Meu maxilar tencionou instantaneamente. Eu já estava de prontidão, monitorando cada movimento dela desde o momento em que a segurança nos alertou sobre a sua saída repentina da mansão. Saí da sala de reuniões a passos largos, cruzando o saguão principal bem a tempo de ver a cena deplorável dentro do escritório de Luana. A Camila estava completamente fora de si, gesticulando de forma agressiva, com o rosto distorcido pelo ódio e apontando o dedo na direção da mulher que eu amava. Os funcionários ao redor observavam a cena assustados, paralisados com o nível de barraco que a ex-noiva havia trazido para dentro de um ambiente corporativo. Mas o que mais me fascinou — e me encheu de um orgulho indescritível — foi a postura da Lua
Capítulo 89 Ponto de vista: Camila O silêncio daquela mansão havia se transformado em uma sentença de morte para a minha sanidade. Cada canto daquela casa parecia zombar da minha derrota, ecoando as palavras frias e decepcionadas do meu pai e o choro patético da minha mãe. Eles tinham virado as costas para mim. Tinham escolhido a traidora da Luana. Tudo o que eu construí, planejei e esperei durante anos desmoronou em uma única noite, e a culpa era inteiramente daquela cínica que agora desfilava como a dona do mundo. Pisei fundo no acelerador do carro, sentindo o motor roncar alto enquanto cortava o trânsito pesado da cidade em direção ao ateliê dela. O meu peito queimava com uma mistura sufocante de ódio, humiliation e desespero. Eu não ia aceitar perder. Se os meus pais preferiram lavar as mãos e fingir que eu não existia, eu mesma faria a justiça com as próprias mãos. O império de mentira que a Luana achava que tinha construído ia ruir diante dos olhos de todo mundo. Quando esta
Capítulo 88 Ponto de vista: Matheus Observar a Luana trabalhar de dentro da sala privativa do ateliê era, sem dúvida, uma das experiências mais fascinantes da minha vida. Nos últimos dias, enquanto a fofoca barata da alta sociedade tentava incendiar o nome dela nos bastidores da moda, eu estive por perto não para protegê-la como se ela fosse frágil — porque Luana nunca precisou de salvador —, mas para aplaudir de pé a força intransigível com que ela blindava o próprio império. Naquela tarde, depois de ver com meus próprios olhos ela dar uma aula magistral de profissionalismo e mandar embora o medo de um dos fornecedores mais tradicionais da cidade, sentei-me à mesa de reuniões com uma xícara de café nas mãos, refletindo sobre o caminho que trouxemos até ali. A nossa decisão de dividir o mesmo teto, que começou de forma urgente na noite daquela fuga caótica da mansão, havia se transformado em algo profundamente sólido. Não era mais sobre fugir de um ambiente tóxico ou procurar abri
Capítulo 87 Ponto de vista: Cláudia / Os Bastidores do Ateliê Enquanto a tempestade social desabava sobre a vida pessoal de Luana, a realidade interna do ateliê exigia pulso firme e estratégia de guerra. O reflexo da briga com a família e a campanha difamatória orquestrada nos bastidores da alta sociedade começavam a bater à porta dos nossos fornecedores e parceiros comerciais de peso. Naquela mesma tarde, recebi a visita de um dos principais fornecedores de tecidos importados da nossa marca, um homem tradicional que costumava negociar apenas com os grandes conglomerados de moda da cidade. Ele entrou na recepção com uma expressão de cautela, visivelmente desconfortável. — Cláudia, preciso falar com a Luana — ele disse, ajeitando o paletó de forma tensa. — Há muitos boatos circulando nos círculos empresariais sobre a situação financeira e familiar dela. Algumas marcas tradicionais estão repassando parcerias. Quero saber se o nosso contrato de exclusividade corre algum risco. Antes







