FAZER LOGINDepois que Caleb saiu montado em seu cavalo e nos deixou a sós, respirei fundo e entrei na casa. Foi como se estivesse fazendo uma visita ao meu passado. Fui tomada por inúmeras lembranças. Tudo estava do mesmo jeitinho que conseguia me lembrar. A sensação que tive era de que meu pai fosse sair de seu escritório a qualquer momento e vir me dar um abraço.
Amber saiu correndo para explorar a casa e eu fui ao escritório, havia muios papéis espalhados em cima da mesa, o óculos que meu pai usava estava sobre uma pilha de livros, o restante dos livros continuavam intactos na estante, haviam porta-retratos espalhados por todo o ambiente, mas o que estava em cima da mesa foi o que mais chamou minha atenção. Na fotografia, eu devia ter uns quatro ou cinco anos, estava montada, pela primeira vez, sobre um cavalo e meu pai estava de pé ao meu lado.
— Já escolhi meu quarto, mamãe.
A voz de Amber me trouxe de volta a realidade, com o dorso da mão sequei uma lágrima. Eu queria ter convivido um pouco mais com meu pai, mas minha vida adolescente era badalada demais na cidade para querer vir para a fazenda e minha mãe nunca tinha disponibilidade no trabalho dela para me trazer, mas também não gostava da ideia de eu viajar sozinha.
— Você está chorando, mamãe?
— Não, meu bem. Foi só uma poeirinha que caiu no meu olho.
Recoloquei o porta-retrato sobre a mesa e saímos do escritório.
— Vem ver o quarto que eu escolhi, mamãe.
Andamos pelo restante da casa e me surpreendi mais uma vez, ao abrir a porta do meu antigo quarto, vi que tudo continuava exatamente igual eu tinha deixado, era como se o tempo tivesse parado ali. As paredes pintadas de rosa-claro, as medalhas das competições ainda permaneciam penduradas e os troféus ainda ocupavam as prateleiras, meu chapéu de cowboy cor de rosa estava sobre a cama.
— Isso tudo era seu, mamãe? — Amber perguntou enquanto colocava o chapéu na cabeça.
— Era sim.
— Posso pegar esse chapéu para mim?
— Claro que pode, meu bem.
Ela me deu um abraço e saiu toda saltitante do quarto. Lembrei de ter ficado na mesma euforia quando meu pai me deu aquele chapéu, eu tinha sete anos na época, e tinha sido logo depois de eu ganhar minha primeira competição de Rodeio mirim.
— Estou com fome, mamãe. — A voz de Amber ecoou pela casa.
— O que acha da gente ir na cidade comer alguma coisa na lanchonete?
— E o que a gente vai comer? — Amber perguntou no carro, com o cinto afivelado e os olhos fixos na estrada de terra.
— Vamos descobrir. — respondi. — Aposto que você vai gostar da comida do restaurante da dona Ophelia.
— Espero que tenha hambúrguer.
— Tem sim.
— E batata frita?
— A melhor que você já comeu.
— E milkshake de ovomaltine?
— Almoço não é hora de tomar milkshake.
— Mas um hambúrguer pode?
— Pode.
— Então vou querer.
O caminho até o centro da pequena cidade era rápido e logo estava estacionando numa vaga em frente a lanchonete. Logo que chegamos ao centro, senti o coração apertar. Nada havia mudado por ali. As fachadas antigas, a praça com a fonte, o coreto… Tudo parecia ter parado no tempo. Estacionei o carro em frente ao restaurante que, de longe, já exalava o cheiro de comida caseira.
Assim que entramos, Amber fez uma careta.
— Mãe, aqui cheira a cebola frita.
— É assim que começa uma boa refeição. — brinquei, puxando-a para dentro.
O salão estava cheio, mas algumas mesas próximas à janela estavam livres. As conversas diminuíram por alguns instantes quando perceberam minha presença. Eu reconheci alguns rostos, outros apenas fingiam não me encarar.
Já estávamos sentadas numa mesa vaga quando uma garçonete morena, de cabelos cacheados, se aproximou para anotar nossos pedidos e ela ficou surpresa ao me ver.
— Savana? Ai, meu Deus. Não acredito que você está de volta.
— Desculpa, mas...
— Não se lembra de mim, não é?
Meio envergonhada fiz que sim e então ela apoiou uma mão na cintura e estendeu a outra em minha direção:
— Sou a Sara, filha da Ophelia, antiga dona da lanchonete, estudávamos juntas..
— Meu Deus! Como pude me esquecer de você?
— Não te culpo, faz muitos anos que a gente não se via.
— Faz mesmo.
— Sinto muito pelo seu pai.
— Obrigada. E sua mãe como está?
— Dura na queda, irredutível em me deixar assumir o comando da cozinha.
Amber interrompeu nossa conversa reclamando que estava com fome.
— Hoje temos frango caipira com polenta e salada fresca. Aposto que vocês vão adorar.
— Não tem hambúrguer e batata frita? — Amber questionou.
— Claro que temos.
Sara anotou nossos pedidos e saiu para atender outra mesa. Enquanto esperávamos nossos pratos, alguns olhares curiosos continuavam pousando sobre nós. Era impossível não notar os cochichos. Eu sabia sobre o que estavam falando: a volta da filha do Clint seria assunto por dias.
Poucos minutos depois, ela voltou trazendo nossos pedidos e não pude deixar de notar uma senhora que vinha logo atrás dela. Tinha as costas meio encurvadas, cabelos grisalhos presos num coque e um pano de prato jogado sobre os ombros.
— Savana! Que bom tê-la de volta.
— Dona Ophelia, é um prazer rever a senhora.
— Sinto muito pela morte repentina do seu pai... Ele era um bom homem.
— Era sim.
— E quem é a mocinha linda?
— Esta é a minha filha.
— Oi, meu nome é Amber. — Minha filha estendeu a mão para cumprimentar dona Ophelia.
— Um nome de princesa para uma linda menina.
— Obrigada!
Então Amber voltou a se concentrar na comida a sua frente e dona Ophelia puxou uma cadeira para se sentar com a gente.
— Então você se casou e tem uma família?
— Sim, mas já não sou mais casada.
— Mas que pena que não deu certo.
— Deu certo enquanto durou.
— Então quer dizer que voltou para cá para assumir o Haras do seu pai?
— Ainda não me decidi sobre o que vou fazer com a propriedade.
— Não vai me dizer que está pensando em vendê-la?
— Mãe! A senhora não tem o direito de interferir nas decisões de Savana.
— Não, eu jamais faria isso porque sei que meu pai deu muito duro para construir e manter aquele lugar.
— Então está pensando em morar por aqui?
— Sim, por enquanto vou ficar morando por aqui e tentar trabalhar a distância com os clientes do meu escritório.— Já encontrou com Caleb?
— Infelizmente sim.
— Ele tava trabalha duro lá pelos haras, tinha até se tornado o braço direto de Clint depois que o pai dele se aposentou.
A porta do restaurante se abriu fazendo soar o pequeno sino, e, por um instante, o burburinho parou. Caleb entrou, chapéu na mão, postura firme. Ele fingiu não me ver e foi direto ao balcão.
— Vou deixá-las comer em paz. — Ela ficou de pé e antes de se retirar, comentou: — Qualquer coisa é só pedir.
— Obrigada.
Amber devorou tudo como se fosse o melhor hambúrguer do mundo e eu comi o meu frango, que estava uma delícia. Tinha sido como voltar ao passado.
Quando terminamos, saímos juntas para a calçada. Precisava comprar algumas coisas antes de voltar para o haras, por isso decidi passar no mercadinho que ficava próximo dali.
Um Ano Depois...A manhã da competição começou antes do sol. O céu ainda estava meio escuro, e o ar carregava aquele frio suave que só existe quando a terra ainda está decidindo acordar.Eu sentia o peso da barriga enquanto prendia o cabelo num coque desajeitado no espelho do banheiro da Estância. Não era uma barriga enorme ainda, mas já era presença. Uma lembrança constante de que havia mais uma história começando dentro de mim.Um menino.Nosso menino.Caleb estava apoiado no batente da porta, observando em silêncio. Ele sempre fazia isso, me olhar como quem reconhece algo que já sabia, mas gosta de ver de novo.— Você tá linda — disse, sem esforço, como quem afirma o óbvio.— Não precisa mentir — respondi, ajeitando uma mecha.Ele sorriu.— Linda.Ele veio até mim, colocou a mão na minha barriga, e o bebê mexeu na hora. Não sei se por hábito, toque, ou porque reconheceu a voz dele.— Ele tá ficando forte. — Caleb murmurou.— Ele vai ter que ser, com essa família — brinquei.Ele riu
SAVANASe alguém me dissesse anos atrás que eu me casaria de novo — e que esse casamento não teria véu, não teria salão, não teria cerimônia ensaiada — eu teria rido.O sol estava se pondo atrás das árvores quando eu senti que o mundo inteiro respirava comigo. O céu tinha aquela cor dourada de fim de tarde que sempre me fez acreditar que Deus pinta o dia a dedo só para lembrar a gente de viver.A cerimônia acontecia ali, no coração da estância, na frente do celeiro de madeira envelhecida, onde pequenas luzes penduradas em fios brilhavam como vaga-lumes presos no ar.O caminho até o altar era de pedra rústica, ladeado por cestos de flores campestres e penachos de capim dos pampas que dançavam levemente ao vento. Cada passo parecia contar uma história — uma história de terra, de raízes, de casa. No centro, sob um arco feito de troncos rústicos cobertos por flores secas em tons terrosos, ele me esperava.O terno escuro e simples, a camisa clara, a fivela grande do cinto brilhando no últi
CALEBMeses depois...O tempo tem um jeito estranho de passar quando a vida finalmente encontra um ritmo. Não corre, não arrasta... Só segue.Meses se passaram desde aquele sorvete na praça. Desde os olhares que a cidade já nem fingia esconder. Desde o dia em que Amber me chamou de “nosso Caleb” sem perceber que tinha dito um destino inteiro numa frase simples.À noite, depois que Amber dormia, às vezes ficávamos sentados na varanda. Não falávamos do passado, nem fazíamos planos grandes demais. A gente só existia ali. Respirando o mesmo ritmo.Foi nesses pequenos silêncios que entendi: Eu não estava apaixonado por Savana. Eu estava em casa nela. E eu fiquei. Não porque decidiram que eu devia ficar, mas porque, pela primeira vez na vida, eu quero um lugar para voltar todo dia.A cidade deixou de cochichar. Não porque perdeu o interesse, até porque povo de cidade pequena nunca perde, mas porque o assunto virou parte do cotidiano, como o horário das missas e o preço do leite. Eu e Savana
SAVANAAssumir um relacionamento parecia simples, mas quando era falado em voz alta, não parecia tão fácil assim. Na prática, era diferente. Era acordar sabendo que todo olhar da cidade pesaria diferente, que cada passo na calçada seria observado, medido, comentado.E ainda assim, naquela manhã, quando Caleb parou sua caminhonete em frente à casa e abriu a porta do carona, eu entrei sem pensar duas vezes.Amber já estava na escola, Íria na lida com a rotina da casa, e a Estância finalmente respirava um ar tranquilo depois de meses de recomeço, mas dentro de mim, nada estava calmo. Era uma mistura perigosa de medo e coragem, o tipo de sentimento que só aparece quando a gente resolve viver de verdade.Caleb estava bonito de um jeito que não se esforçava pra ser. Vestindo uma camisa azul clara, barba por fazer, o chapéu jogado no banco de trás. O sol batia no braço dele, dourando a pele, e o som do motor parecia acompanhar o ritmo do meu coração.— Tá tudo bem? — Ele perguntou, sem tirar
CALEBA tarde tinha o peso das coisas faladas pela metade.O curral estava em silêncio de serviço: mugido baixo, água batendo no cocho, um galo insistindo num canto. Eu tentei enfiar a cabeça no que era concreto: revisar a ração, ajustar o banho de imersão das patas, conferir os piquetes do trecho leste. Tudo o que pedisse mão, não pensamento.Não adiantou.Cada vez que eu levantava os olhos, enxergava a cena sem esforço: cerca, sol oblíquo, a curva do pescoço de Relâmpago… e a boca de Savana encontrando a minha. Foi inevitável como tempestade em tarde de calor.— Caleb. — A voz do meu pai veio seca, do tipo que a gente ouve antes de decidir se vai discutir. — Preciso falar com você agora.Ele estava na sombra do depósito de sal mineral, chapéu baixo, postura de quem não gostou do que soube. Meu pai não era homem de rodeio com palavras. Era a cerca esticada na medida, o nó bem dado. Se chamava, tinha motivo.— Diga — respondi, caminhando até ele.Ele não disse ali. Virou as costas e s
SAVANAO resto da manhã pareceu comprido demais.Mesmo depois que Caleb saiu do galpão, a presença dele ficou ali — pairando no ar como o vapor quente que subia das máquinas.Por mais que eu tentasse continuar a planilha, revisar os números, concentrar no trabalho, a mente fugia. Entre uma anotação e outra, o olhar se perdia na janela, onde o campo brilhava sob o sol novo. E então decidi seguir o conselho dele e fui montar.Não era fuga. Era lembrança.Quando o mundo desabava, o cavalo sempre foi meu lugar seguro. E, naquele momento, eu precisava desse refúgio mais do que de qualquer planilha.Fui até o estábulo com passos firmes, tentando não pensar demais. Relâmpago ergueu a cabeça assim que me viu. O brilho nos olhos dele era familiar — vivo, confiante, paciente. Parecia entender, sem precisar de palavra alguma, que eu não estava ali pra treinar. Estava ali pra respirar.— Oi, garoto — murmurei, passando a mão no pescoço dele. — Pronto para da um saltos hoje?Ele bufou, quente, com







