MasukFico olhando para o nada. Com a pouca iluminação, o quarto se dissolve em sombras suaves, contornos indistintos que tornam tudo mais íntimo… e mais perigoso. Meu corpo treme levemente quando sinto Gael deslizar o braço ao redor da minha cintura, puxando-me para mais perto dele, como se aquele gesto fosse a coisa mais natural do mundo.
Mas não é. Nada disso é. Eu transei com o irmão do homem com quem vou me casar. Por contrato, sim. Frio, calculado… inevitável. Mas ainda assim, um casamento. O peso dessa verdade se instala no meu peito, tornando o ar mais denso, difícil de puxar. — Estou sentindo você pensativa… — a voz rouca dele corta o silêncio, carregada de cansaço e algo mais profundo, algo que ele não diz. Solto um suspiro baixo, reunindo coragem, e me viro para ficar de frente para ele. Por um instante, esqueço tudo. Não consigo deixar de reparar em como ele fica absurdamente lindo assim — os cabelos desalinhados, caindo de forma descuidada sobre a testa, a expressão relaxada pelo sono, mas ainda intensa. Perigosa. Gael desliza os dedos pela minha cintura em um carinho lento, quase distraído… mas que faz meu corpo reagir como se cada toque fosse calculado. — O que vai acontecer? — minha voz sai mais baixa do que eu pretendia. — Se descobrirem o que fizemos? A pergunta paira entre nós, pesada. Real. Gael desvia o olhar por um breve segundo, como se organizasse os próprios pensamentos, ou talvez escolhendo o que revelar. Então seus olhos voltam para mim, mais sérios agora, mais duros. — Provavelmente vão querer nos punir — ele diz, sem rodeios. Sinto um arrepio percorrer minha espinha. Ele aproxima um pouco mais o rosto do meu, a expressão firme, quase sombria. — Me punir — corrige, a voz baixa, carregada de promessa. — Não vou deixar que toquem em você. Solto um suspiro baixo, tentando acalmar o turbilhão dentro de mim. Ajeito a cabeça no travesseiro, afundando levemente no tecido macio, e deixo o olhar se perder no teto, como se ali pudesse encontrar alguma resposta. Mas não encontro. Apenas mais dúvidas. Mordo o lábio inferior, sentindo o gosto metálico suave, hesitando por um instante antes de finalmente perguntar: — Por que fez com que eu assinasse o contrato só no dia do casamento? Minha voz sai mais suave do que eu gostaria, quase vulnerável. Gael não responde de imediato. Sinto o toque dele antes mesmo de vê-lo se mover — seus dedos alcançam meu queixo com uma delicadeza inesperada, guiando meu rosto de volta para ele. Não há força no gesto… apenas intenção. E isso, de alguma forma, é ainda mais intenso. Sou obrigada a encará-lo. Os olhos dele estão presos nos meus, escuros, profundos… perigosamente determinados. — Quero que seja minha até o dia — ele diz, a voz baixa, firme, como se cada palavra fosse uma promessa… ou uma sentença. Meu coração dispara no mesmo instante, batendo forte contra o peito. Rápido demais. Porque não é só o que ele disse. É a forma como disse. — Sua? Para você se satisfazer quando tiver vontade? — pergunto, erguendo o corpo e me sentando na cama, deixando que a tensão finalmente transpareça na minha voz. Gael solta um suspiro contido e acompanha meu movimento, sentando-se ao meu lado. Por um instante, ele passa a mão pelos cabelos, como se organizasse os próprios pensamentos antes de responder. — Não, mon amour… — a voz dele sai mais baixa, mais séria — Você não é um objeto. Não pra mim. Há algo diferente no tom dele agora. Mais firme. Mais verdadeiro. Ele pega minha mão com cuidado, como se eu fosse algo frágil — o que é irônico, considerando tudo — e deposita um beijo leve sobre meus dedos. O toque dos lábios dele é quente, demorado o suficiente para fazer meu coração vacilar. — Mas quero ter a oportunidade de te cortejar — completa, olhando diretamente nos meus olhos. Engulo em seco, sentindo o peso daquele olhar verde intenso me atravessar. É difícil sustentar… e mais difícil ainda desviar. — E quando chegar o dia do casamento? — pergunto, quase num sussurro, como se tivesse medo da resposta. Gael passa a língua pelos lábios, pensativo, o maxilar tensionando por um segundo. — Eu não posso te oferecer uma vida ao meu lado… — ele começa, mais devagar agora. — Você viu como são as regras. As palavras dele caem como um balde de água fria. — Estando com meu irmão… — ele continua — eu sei que você vai estar por perto. E vou poder cuidar de você… mesmo que à distância. Sinto meu peito apertar. Aquilo não é o que eu queria ouvir. Não completamente. Não o suficiente. A confusão se instala dentro de mim, misturada com algo mais perigoso — uma vontade crescente de ignorar tudo e apenas sentir. Antes que eu possa responder, Gael se deita novamente e, com um movimento suave, me puxa junto, acomodando-me contra seu peito. Meu corpo hesita por um segundo… mas cede. Sempre cede. Fico ali, imóvel, ouvindo o som do coração dele batendo firme sob minha bochecha. Ritmado. Constante. Estranhamente reconfortante. Como se, por alguns instantes, nada pudesse nos alcançar. Meus olhos vão ficando pesados, o cansaço finalmente vencendo a confusão na minha mente. E, embalada por aquele som… por aquele calor… eu acabo adormecendo. ... Daniel Ackles serve o café com movimentos calmos e precisos, como se aquele simples gesto carregasse um tipo de formalidade silenciosa. Ele deposita a xícara à minha frente, e o aroma quente sobe no mesmo instante. — Obrigada — murmuro, com um sorriso contido. Levo a xícara aos lábios e tomo um gole pequeno, mais para ocupar minhas mãos do que por vontade. Os Ackles têm o ritual de tomar café juntos todas as manhãs — todos os irmãos à mesa, ao lado do pai. Foi o que Gael me disse… pouco antes de deixar meu quarto, no meio da madrugada. A lembrança faz meu estômago revirar levemente. — Espero que tenham tido uma boa noite de sono — diz Natahanel Ackles, com um sorriso doce demais para alguém naquela posição. — Com uma cama tão confortável como aquela, não tem como dormir mal! — meu pai responde, animado, completamente alheio a qualquer tensão. Forço um pequeno sorriso, desviando o olhar. Pego um pedaço de pão, concentrando-me no movimento simples de partir a massa entre os dedos. — Você dormiu bem, Helena? Gostou do seu quarto? A voz me atinge antes mesmo que eu levante os olhos. Quando olho à frente, encontro Gael Ackles passando manteiga no pão com calma, como se não estivesse prestes a me provocar. Mas ele está. Sempre está. Os olhos verdes se erguem lentamente até os meus, carregados de algo que ninguém mais ali parece perceber. Ele sabe. Cada detalhe da minha noite. Canalha. — Gostei, sim — respondo, sustentando o olhar por um segundo a mais do que deveria. — Confesso que a cama realmente é muito confortável. O sorriso nos meus lábios é ensaiado. Falso. Perfeito. — Maravilha — diz Daniel, satisfeito. — Assim que terminarmos o café, Natahanel vai te levar para conhecer a parte externa da propriedade. Como pode ver, é bem grande. — Será um prazer mostrar à minha noiva nossa futura casa — acrescenta Natahanel Ackles, agora me olhando diretamente. “As palavras ficam presas na minha garganta por um segundo.” Minha noiva. Minha futura casa. Abro um sorriso educado, cuidadosamente calculado. — Vai ser um prazer. Mas antes que o silêncio se acomode— — Ela ainda não é sua. A voz baixa corta o ar como uma lâmina. Gael Ackles não levanta o tom. Não precisa. É alto o suficiente para que o irmão ouça. Baixo o suficiente para que os nossos pais não percebam. Natahanel enrijece ao meu lado, o maxilar travando por um breve segundo. Ele vira o rosto na direção de Gael, lançando-lhe um olhar carregado de aviso. Perigoso. E, pela primeira vez naquela mesa… Eu percebo. Isso não é só um jogo proibido. É uma guerra começando.Cinco anos se passaram desde o dia em que cruzamos os portões da mansão Ackles com nossa filha nos braços. Cinco anos de risadas ecoando pelos corredores, de brinquedos espalhados pela sala, de noites mal dormidas e de um amor que só fez crescer. Nossa menina, Sofia Ackles, havia se tornado o centro do nosso mundo. Aos cinco anos, Sofia era uma mistura perfeita de nós dois. Tinha os olhos cinzentos de Gael e o meu sorriso. Era curiosa, falante e dona de uma personalidade forte que frequentemente deixava o pai dividido entre orgulho e rendição absoluta. Gael, como eu já imaginava desde o primeiro dia, transformou-se em um pai completamente apaixonado. Não havia nada que ele não fizesse por nossa filha. Ela o tinha enrolado em torno do dedo desde o instante em que nasceu, e todos na família sabiam disso. E agora, a mansão Ackles estava prestes a receber mais um pequeno membro. Eu estava grávida novamente. Dessa vez, de um menino. A descoberta havia emocionado toda a
Dois dias depois de chegarmos do hospital, a mansão Ackles estava mais movimentada do que o normal. Eu estava no quarto do bebê, sentada na poltrona de amamentação com nossa filha adormecida em meus braços, quando ouvi passos e vozes no corredor. Gael, que organizava algumas fraldas na cômoda, ergueu os olhos e sorriu de canto. — Parece que meu irmão finalmente criou coragem. Arqueei uma sobrancelha. — Ele trouxe Aurora? Gael assentiu. — E, se eu conheço Nathanael, ele está mais nervoso do que no dia em que apontou uma arma pela primeira vez. Ri baixinho. Poucos segundos depois, alguém bateu à porta. — Entrem — chamei. A porta se abriu, revelando Nathanael Ackles. Ao lado dele estava Aurora. Aurora era ainda mais bonita do que eu imaginava. Tinha cabelos castanhos ondulados, olhos expressivos e um sorriso delicado que transmitia doçura imediata. Nathanael parecia um pouco tenso. — Helena, Gael… essa é Aurora. Um sorriso espontâneo surgiu em meus lábios. — Finalmente.
O caminho de volta para a mansão Ackles foi um borrão de emoções. Eu permaneci no banco de trás do carro, com nossa filha adormecida em meus braços, envolta em uma manta de cashmere branca com pequenos bordados de flores. O rostinho delicado estava parcialmente escondido pela touquinha de tricô, e cada respiração suave fazia meu coração se apertar de um amor tão intenso que eu mal conseguia colocar em palavras. Ao meu lado, Gael não conseguia desviar os olhos dela. De vez em quando, estendia a mão para tocar a mãozinha minúscula da nossa filha, como se ainda estivesse tentando acreditar que aquela bebê perfeita era real. — Ela é tão pequena — murmurou pela centésima vez. Sorri. — E já conseguiu deixar o pai completamente rendido. Gael ergueu os olhos para mim, um sorriso emocionado curvando seus lábios. — Eu já era completamente rendido a vocês duas. Meu coração derreteu. Quando os portões da mansão se abriram, senti uma onda inesperada de emoção. Agora não era a
Acordei com um gemido preso na garganta. Por um instante, achei que ainda estava sonhando. Mas então outra onda de dor atravessou meu corpo, intensa e profunda, apertando meu ventre com uma força que me fez agarrar os lençóis. — Ah… Minha respiração ficou curta. Levei as duas mãos à barriga, sentindo o coração disparar. Outra contração. Muito mais forte do que qualquer desconforto que eu havia sentido até então. — Nathanael! — chamei, a voz trêmula. Não precisei chamar duas vezes. Em questão de segundos, Nathanael surgiu ao meu lado, os olhos ainda pesados de sono, mas imediatamente alertas. — Helena? Outra contração me fez fechar os olhos e apertar sua mão. — Está doendo… muito. O rosto dele empalideceu. — As contrações? Assenti, tentando respirar como o médico havia ensinado. — Acho que… acho que ele vai nascer. Nathanael entrou em ação no mesmo instante. — Certo. Vamos para o hospital. Ele me ajudou a sentar, depois a levantar com cuidado. Minhas pernas tremiam
A manhã em que Gael precisou viajar começou com um silêncio pesado no nosso quarto. Eu já estava com quase nove meses de gravidez, e minha barriga parecia enorme. Até me virar na cama exigia esforço, e caminhar pela mansão havia se tornado um exercício de paciência e equilíbrio. Nosso bebê se mexia com frequência, forte e decidido, como se estivesse tão ansioso quanto nós para finalmente nos conhecer. Gael estava terminando de arrumar a mala quando me sentei na cama, apoiando uma das mãos na lombar e a outra sobre o ventre. — Eu ainda acho que você não deveria ir — murmurei. Ele fechou a mala e veio imediatamente até mim. Ajoelhou-se à minha frente, afastou uma mecha do meu cabelo e pousou a mão na minha barriga. — Se houvesse qualquer outra opção, eu ficaria. Os olhos cinzentos dele carregavam culpa e preocupação. Acariciei o rosto do meu marido. — Eu sei. Gael inclinou-se e beijou meu ventre. — Nada de sustos enquanto o papai estiver fora, piccolo. Nosso bebê respondeu c
Naquela tarde, a mansão Ackles estava mergulhada em uma tranquilidade rara. O sol dourado do fim do dia aquecia a varanda dos fundos, e uma brisa suave fazia as cortinas brancas balançarem preguiçosamente. Eu estava sentada em uma poltrona ampla de vime, com várias almofadas apoiando minhas costas e minha barriga de sete meses. Minhas mãos acariciavam distraidamente o ventre enquanto observava os jardins perfeitamente cuidados da propriedade. Nosso bebê estava particularmente ativo naquele dia, e cada movimento arrancava um sorriso involuntário dos meus lábios. A porta de vidro se abriu atrás de mim. — Posso fazer companhia à minha cunhada favorita? Sorri ao ouvir a voz de Nathanael. — Você só tem uma cunhada. — Exatamente por isso você continua no topo do ranking. Ri baixinho. Nathanael trouxe duas canecas de chá e me entregou uma delas antes de se acomodar na cadeira ao meu lado. O hematoma da invasão já havia desaparecido, mas havia algo diferente nele nas últimas semanas.







