FAZER LOGINRecebi uma ligação de Bianca:
— Alessandro, me diga que é mentira o que eu li na internet.
— Depende do que você está falando.
— Casamento? Não, não pode ser. Isso é engano, não é mesmo?
— Desde quando eu te devo satisfações?
— Eu achei... que a gente tinha alguma coisa. — ela murmurou.
— E temos: eu te fodo e você gosta. Quer melhor que isso?
— Eu... não acredito que esteja me tratando dessa forma.
— Eu nunca te prometi nada.
— Você não é o tipo de homem que casaria, Alessandro. Quando conheceu essa garota?
A conheci quando eu tinha 28 anos. E daria tudo para que ela nunca tivesse entrado na minha vida.
— Era isso? — perguntei, abrindo o notebook — você está tomando o meu tempo. E eu irei me casar em algumas horas.
— Jamais deixarei que essa mulher entre na sua vida, Alessandro. Você é meu?
— Onde está a sua nota fiscal de que sou sua propriedade?
— Eu... eu...
— Poupe-me das suas choradeiras. Mas se quer uma boa notícia: poderá continuar a frequentar a minha casa. E adivinhe? Ouvi dizer que minha esposa não é ciumenta.
Encerrei a ligação. Bianca era pegajosa. Mas boa de cama. Satisfazia minhas necessidades e nunca foi o tipo que me cobrava sentimentos. Até aquele momento, onde achou, de alguma forma, que eu deveria ter qualquer tipo de consideração por ela.
Bianca aproveitou muito bem o tempo que esteve comigo. Ganhou o suficiente para viver uma vida sem privações. Só o que ela tinha de bolsas dava para comprar um conglomerado de pequenas empresas. Sem contar as joias.
Ela não entraria num embate comigo, não faria cenas ridículas de ciúme que pudessem fazê-la perder tudo.
Eu não nasci um monstro. Fui criado. Eu era a consequência dos atos da família Bellini. O homem que Paige Bellini chamaria de monstro havia morrido há muitos anos. Eu tentei ser melhor que aquilo. E consegui.
Eu não tinha um coração. Não tinha sentimentos. Não tinha sonhos. Eu vivia por um objetivo: vingança.
Abri as fotos no computador e mordi meus lábios com tanta força que senti o sangue na minha boca. Fui acometido daquela dor que atingia até os meus ossos. Toquei demoradamente nas imagens que surgiam na tela.
Como meu avô tinha dito, nada os traria de volta. Mas ver o sofrimento de Paige Bellini me traria paz. E paz era algo que não se podia comprar. Mas podia conquistar.
Ouvi uma batida na porta.
— Senhor Montrelli, está tudo pronto. — disse Lorenzo, meu assessor.
Não desviei os olhos do computador, observando as fotos dela. Paige Bellini era discreta nas redes sociais. Poucas postagens, nada que revelasse muito de quem realmente era: uma assassina cruel.
Vivi no anonimato, nas sombras, por seis anos da minha vida. Troquei meu nome, sobrenome, e me desfiz de quem eu realmente era. Tracei um plano que demorou tempo demais, mas que ao final, valeria cada noite mal dormida, cada coisa das quais renunciei.
Ela estava vindo! E tudo estava preparado para sua chegada. A princesa não só perderia o título, mas, assim como eu, perderia a dignidade e se transformaria num rascunho mal-feito do que seria o seu futuro.
— Pode ir. — falei.
— Mas... e o casamento. Quem ocupará o seu lugar no altar?
O olhei brevemente:
— Nunca foi minha intenção aparecer publicamente, Lorenzo.
— Mas... todos esperam ver pela primeira vez Alessandro de Lucca Montrelli.
— Verão quem realmente sou... um CEO invisível, que só aparece nas sombras. Minha identidade será revelada oficialmente ao lado de minha esposa, Paige Bellini.
— Entendo, senhor.
— Sobre a amiga dela...
— Sem chances de ter contado a verdade. Eu mesmo a coloquei naquele avião, com destino a Nova Zelândia. De lá, será transportada para Islândia. Ela recebeu dinheiro suficiente para viver com conforto até seus últimos dias de vida. E não há a mínima chance de ela entrar de novo no nosso país. Ao menos não de forma legal.
— Perfeito.
— O contrato está pronto e o juiz de paz estará no local combinado.
— Quanto ao príncipe da garagem... as instalações dele estão a contento?
— Exatamente como o senhor pediu.
— Lembre-se, Lorenzo: meu avô não pode desconfiar de nada. O quarto de Paige deve ficar o mais longe possível, na ala dos empregados.
— Sim, senhor.
Levantei sem pressa e espreguicei-me. Ficar muito tempo sentado não me fazia bem.
— Acho que eu devo mandar preparar um bolo de casamento? — perguntei para Lorenzo.
— Um... bolo?
— Bolo. Conhece bolo?
— Sim, senhor. Claro que eu conheço.
— Quero um bolo — defini — com aqueles bonecos monstruosos em cima. Lembre-se que os cabelos de Paige são vermelhos.
— Pedirei que cuidem de cada detalhe, senhor.
— Eu já sei o que quero de recheio. — sorri. — Minha esposa irá amar.
Ele estreitou os olhos antes de perguntar:
— Mais alguma coisa, senhor?
— Minha moto está pronta?
— Pronta. A roupa também.
— Está liberado.
Ele andou e parou na porta. Virou-se para mim, parecendo preocupado:
— Devo pedir que o Poppet da senhorita Bellini esteja vestido como?
— De noiva — outro sorriso surgiu no meu rosto — e com uma bela coroa na cabeça. Ela ainda acha que é uma princesa.
— E... ela é?
— Sim, é. A princesa do nada.
— A bolsa rompeu... — Levei as mãos à cabeça. — Caralho! O que faço agora?Transar com ela não era uma opção naquele momento, por mais que Paige ainda encontrasse forças para me provocar.— Acalme-se, Fera — pediu, segurando minha mão.Senti a pele gelada de seus dedos envolvendo os meus.— O rompimento da bolsa amniótica não significa necessariamente que o bebê nascerá imediatamente. Significa que o trabalho de parto começou ou está muito próximo.— Não significa? — perguntei, surpreso.— O líquido está saindo, mas nosso pandinha não vai ficar completamente seco. O bebê continua recebendo proteção, oxigênio e nutrientes pela placenta. Porém, depois que a bolsa rompe, precisamos de avaliação médica
POV AlessandroPareceu uma eternidade o tempo em que permaneci ali, olhando para ela, para a tonalidade escura ao redor de seus olhos e para o que imaginei ser uma lágrima, porém preta, escorrendo por seu rosto.Paige Bellini estava literalmente parecendo uma panda.No entanto, em nenhum dos meus sonhos imaginei que voltaria a encontrá-la daquele jeito... panda.Meu coração parecia prestes a saltar para fora do peito, e eu não sabia se conseguia esboçar qualquer tipo de reação. Ao menos, não até enxergar sua barriga.Meu estômago se contraiu e dei um passo para trás. O movimento brusco fez a moto tombar no chão, provocando um estrondo.Por sorte, aquela cidade era quase inabitável. Entretanto, mesmo que todas as pessoas do mundo estivessem ali, eu teria exatamente a mesma reação: dor, amor e incredulidade.
Era fim de tarde, e Lisandro não quis ir comigo. Disse que precisava resolver algumas coisas relacionadas à nossa nova casa em Bento Gonçalves. Ou talvez estivesse simplesmente cansado de acompanhar uma grávida que precisava parar a cada cinco minutos para comer, fazer xixi ou reclamar que os próprios pés já não cabiam nos sapatos.Peguei o carro e percorri a curta distância entre as duas cidades. Monte Belo do Sul era ainda menor do que imaginei, mas havia algo acolhedor naquele lugar. As ruas tranquilas, as casas bem cuidadas e os vinhedos que pareciam se estender até o fim do mundo davam a impressão de que nada realmente ruim poderia acontecer ali.Talvez fosse apenas propaganda enganosa da paisagem.Caminhei lentamente pelo centro, observando as pequenas lojas, até encontrar um panda de pelúcia exposto numa vitrine.Parei imediatamente
POV PaigeEmbora nossos planos iniciais fossem fixar residência em Monte Belo do Sul, Lisandro e eu chegamos à conclusão de que uma cidade tão pequena talvez não tivesse estrutura suficiente para atender uma mulher grávida, emocionalmente instável e com um histórico comprovado de destruição de equipamentos domésticos.Então optamos por Bento Gonçalves, cidade limítrofe com Monte Belo do Sul.Às vezes, eu me perguntava como Lisandro encontrou aquele pequeno paraíso tão distante de Noriah. No entanto, quando contemplava a paisagem, tudo o que conseguia sentir era alívio, tranquilidade e gratidão.Gratidão por poder aproveitar de verdade os últimos meses da gravidez e pela certeza de que conseguiria criar meu pandinha longe do lugar onde sua mãe errou e cometeu um crime que destruiu uma família.
POV AlessandroMonte Belo do Sul era uma cidade pacata da serra gaúcha, no Rio Grande do Sul, famosa por ser a maior produtora per capita de uvas finas da América Latina.O mais interessante era que tinha cerca de dois mil e seiscentos habitantes, quase o mesmo número de funcionários que eu mantinha em minha antiga casa e na Maison Montrelli.A região se destacava pela produção de vinhos autorais, naturais e espumantes.Todos os dias, no fim da tarde, eu ia até a minha sacada com vista para os parreirais e para o vale, perguntando-me por que permaneci durante tanto tempo naquele castelo mal-assombrado.Agora eu tinha apenas três funcionários trabalhando dentro de casa, que também eram meus amigos. Não havia mais uma propriedade com tantos quartos que eu sequer sabia quantos eram. A única lembrança da minha família era um quadro pendurado na antes
Eu não estava de gracinha. Lisandro realmente tinha dito aquilo. Eu ouvi, com meus bons ouvidos.Respirei fundo e alisei a barriga que abrigava meu bebê panda. Viajei até ali preparada para enfrentar a raiva de Alessandro. Imaginei acusações, ameaças e talvez uma nova prisão. Mas, em momento algum, imaginei encontrar o castelo da Fera abandonado.Alessandro não veio atrás de mim. Eu já nem sabia se algum dia tentou me encontrar. O pior era perceber que talvez tudo o que eu sempre quis fosse que ele me encontrasse e dissesse que me perdoava.Talvez Alessandro De Lucca Montrelli tivesse me esquecido. E pouco importava o que ele sentia naquele momento. O que mais me assustava era saber que eu jamais esqueceria minha Fera.E se ele tivesse se casado com a Jessica Rabbit?O problema era que, durante todo aquele tempo, uma parte de mim acreditou que Alessandro permaneceria exatamente on







