MasukPOV Alessandro De Lucca Montrelli
— Alguma chance de revertermos isso, doutor? — perguntei assim que ele saiu do quarto.
— Infelizmente não, Alessandro.
— Um ano! Lhe dê um ano a mais e eu te pago o quanto quiser.
O médico meneou a cabeça, comprimindo os lábios antes de me encarar:
— Sinto muito, Alessandro. Ele não resistirá muito tempo.
Cerrei os punhos, sentindo a dor atravessar meu corpo. Meu avô era tudo que me restava. E estava com os dias contados. Um ano era o prazo máximo que eu teria junto dele.
Antes o médico se fosse, alertei:
— Não esqueça que a partir de agora, você reside aqui.
— Sim, Alessandro. Eu já aceitei a sua oferta. E não ousaria quebrar o nosso acordo.
— Assinou o contrato de confidencialidade? — quis me certificar de que tudo estava conforme o planejado.
— Sim, assinei. Mas... você sabe que, como médico, tenho ética profissional, não é mesmo?
Eu ri, sem humor:
— Estou disposto a pagar pela sua ética, doutor Lucian. Sei que tudo tem um preço. E eu, dinheiro o suficiente para pagar por qualquer coisa... inclusive pessoas e ética.
Ele abaixou a cabeça e saiu, sem dizer nada.
— O senhor Samael espera. — disse Lorenzo.
Lorenzo me acompanhou até o quarto do meu avô. Abri a porta e meu peito ardeu quando o vi naquela cama, pálido, abatido, o corpo reduzido praticamente a ossos.
— Meu menino! — tentou um sorriso.
Nos últimos anos meu avô me pediu uma única coisa: me ver casado. Algo que para mim era impossível, mas que decidi, após a confirmação do pouco tempo que ele ainda tinha de vida, realizar.
Ele jamais aceitou o meu relacionamento com Bianca. Acho que sempre soube que eu jamais a assumiria, nem pessoal, tampouco publicamente.
Sentei ao lado dele na cama e peguei a sua mão. A única pessoa no mundo que me tirava um sorriso ou qualquer tipo de sentimento era o meu avô, a única pessoa que me restava na vida.
— Eu não aguento mais isso... — ele tossiu — não prolongue, Alessandro. Me deixe ir... não me obrigue a tomar esses remédios... nada irá me curar.
— Não vou te deixar ir, vô.
— Menino... eu... preciso...
— Não vou te deixar morrer antes de realizar o seu único desejo, vô.
— Você... se apaixonou?
Apaixonar! Eu ri internamente. Meu coração não tinha espaço para nenhum sentimento a não ser ódio... mortal.
— Na verdade... estou gostando de alguém. — menti.
— Onde a conheceu? — ele apertou a minha mão, ansioso.
Na verdade, eu já a conhecia. Não pessoalmente, mas acompanhei sua vida por malditos seis anos. E esperei o momento certo para finalmente tê-la. E o desejo de meu avô serviu para que o meu plano fosse ainda mais concreto e perfeito.
— Conheci o pai dela, numa das minhas viagens. Fizemos negócios juntos e... enfim... ele me apresentou ela e... achei que fosse a esposa ideal.
— Como ela é?
Eu não contive o riso. Ela era o meu pior pesadelo, a pessoa que eu mais odiava no mundo. Jamais vi nela nada além daquilo: desprezo, nojo, raiva.
— Ainda... estamos nos conhecendo.
Eu precisava ter muito cuidado. Meu avô era um homem inteligente. E o fato de estar moribundo numa cama não havia tirado sua consciência e discernimento.
— Eu não acredito! — disse, sendo interrompido pela tosse insistente que o acometia — finalmente você vai casar, Alessandro.
Eu não disse nada. Tentei um sorriso. Falar dela sem demonstrar o ódio que eu sentia era bem difícil.
— Eu tenho certeza que ela irá fazê-lo esquecer o que aconteceu, Alessandro. Só o amor pode curar as cicatrizes da dor.
Mal ele sabia que ela era a responsável por todas as cicatrizes, não só do corpo, mas também da alma.
— Nada pode curar o que eu sinto, vô.
— Já está em tempo de você esquecer, meu menino.
Não importava quanto tempo passasse, eu jamais esqueceria. Mas viveria em paz no momento em que destruísse a alma de Paige Bellini. No dia em que ela estivesse tão destruída quanto eu, finalmente eu estaria bem. E a justiça seria feita.
Eu poderia tê-la feito sofrer de várias formas. Tinha poder para isso. Mas preferi acompanhá-la ao longo dos anos e esperar que fosse adulta o suficiente para pagar conscientemente por seus atos.
— Nada poderá trazê-lo de volta, Alessandro.
— Eu sei, vô.
Sim, eu sabia que nada poderia trazê-los de volta. Mas Paige Bellini não era só a responsável pelo que aconteceu com “ele”, mas com “eles”. Aquela parte eu jamais contei ao meu avô. Preferi que ele achasse que foi só um azar do destino. Um castigo o qual nunca merecemos passar.
Ambos nos destruímos a cada perda. Porém meu avô aceitou e perdoou. Eu não. Fiquei seis anos dormindo de duas a três horas por noite, mal comendo, disposto a tudo para atingir meu objetivo: destruir Paige e Rafael Bellini.
— Não faz bem você viver desse jeito. Um dia tem que passar. E eu sei que vai passar. Talvez essa mulher o faça esquecer toda a dor do passado.
Eu não contive o riso. Ela era a causadora de toda a dor do meu passado. E pagaria por cada dia, por cada lágrima, por cada vida que tirou.
— Não me dê o seu silêncio, Alessandro. Por favor, me prometa que, quando eu me for, será feliz... e deixará que o seu coração volte a sentir qualquer coisa além de dor... e raiva.
— Uma promessa de cada vez, vô. Primeiro o casamento. Depois a aceitação de que nada vai trazê-los de volta.
— Quando irei conhecê-la? Ela virá morar aqui?
— Sim, virá. E aposto que o senhor irá gostar muito dela. Minha futura noiva é... acho que adorável é a palavra que melhor a define.
Paige Bellini havia tirado tudo de mim. E estava na hora de ela começar a devolver. Doze meses. Esperei anos para ter exatos doze meses. Um contrato que ia muito além de um casamento de fachada; uma forma de agradar o meu avô e trazê-la para dentro de minha casa.
Paige Belline, ao final, me agradeceria por deixá-la viva, ainda que quebrada, destruída. Porque eu lhe ofereceria escolhas e consequências para cada uma delas. As vidas que ela tirou não tiveram essa sorte. Não tiveram escolha. Somente consequências. E foram mortais.
— Deu negativo outra vez — ela contou.Fiquei em dúvida se deveria me aproximar ou respeitar a distância que ela mantinha entre nós.— O médico disse que ainda podemos tentar novamente — falei, sem muita certeza de que aquela tentativa de consolo serviria para alguma coisa.— Ele diz isso todas as vezes, Alessandro. — O olhar dela misturava tristeza e decepção. — Sempre existe uma nova tentativa, outro procedimento, mais hormônios e outra espera. Depois vem um novo exame e o mesmo resultado.Ela observou o envelope por alguns segundos antes de estendê-lo para mim. Não o peguei. Aquele papel não mudaria nada. Eu acreditava nela.Bianca respirou fundo:— Eu queria muito ter um filho com você. No começo, pensei que conseguiria separar as coisas. Seria um acordo entre nós, uma forma de dar continuidade à s
— Não para Paige — foi impossível ignorar aquela parte. — Foi em você que ela encontrou apoio e pertencimento.— Então o senhor prestou atenção. — O sorriso de Helena foi gentil e satisfeito.— Fui obrigado a ouvir isso tantas vezes que seria impossível ignorar.— Talvez Paige tenha feito um curso sobre quebra de maldições — Helena sugeriu, tentando conter o riso.— Provavelmente — respondi. — Ela fez cursos sobre todas as coisas inúteis conhecidas pela humanidade.Tentei não sorrir, mas foi impossível.— E o senhor se apaixonou justamente pela única mulher diplomada em inutilidades — Lorenzo concluiu, abaixando a cabeça para não rir também.Tentei permanecer sério, mas não consegui. Dessa vez, minha risada foi genuína e bem-hum
Lorenzo estreitou os olhos:— Pelo resto da vida?— Sim — confirmei.— Mesmo sem fazermos nada? — Matteo perguntou, surpreso.— Exatamente.Helena não sorriu. Seus olhos lacrimejaram quando perguntou, parecendo triste:— O senhor está nos demitindo?— Estou libertando vocês das obrigações com esta casa — tentei sorrir. — Agradeço imensamente por tudo o que fizeram por mim. E, mesmo pagando a vocês pelo resto da vida sem que precisem trabalhar, ainda será pouco. Estiveram ao meu lado quando mais precisei e foram fiéis... sempre.— Não pedi para ser libertada — Helena disse com firmeza.— Helena...Ela não me deixou completar. Continuou:— Minha vida está aqui. E o senhor é a minha família. — Ela olhou para Lorenzo e Matteo. &
Respirei fundo. A dor não diminuiu. Seguir em frente não significava esquecer. Tampouco não significava perdoar tudo ou fingir que nenhuma tragédia aconteceu. Significava apenas aceitar que eu não podia continuar oferecendo minha vida aos mortos enquanto afastava todas as pessoas que ainda estavam vivas.Pensei em Paige, embora jurasse para mim mesmo que nunca mais faria aquilo. Lembrei-me das risadas, das reclamações, dos objetos quebrados e da maneira caótica como aquela mulher ocupou cada espaço daquela casa. Ou melhor, do meu castelo.Eu me vi sorrindo ao pensar naquilo, porque aquela mansão realmente parecia um castelo: sombrio, triste e com tantos cômodos que se transformava num verdadeiro labirinto.Paige trouxe vida justamente para o lugar que transformei num monumento à morte. Era tarde demais para nós dois. Mesmo assim, eu precisava viver, e não apenas sobr
MESES DEPOISEntrei no quarto das lembranças e tranquei a porta atrás de mim. Durante anos, aquele foi o único lugar onde me permiti sentir saudade. Do lado de fora, eu era Alessandro De Luca Montrelli, o homem que ninguém conseguia alcançar. Ali dentro, voltava a ser Sandro: filho, irmão e neto de pessoas que agora existiam apenas em fotografias, objetos e memórias que o tempo começava a apagar.Acendi as luzes. Os retratos continuavam exatamente nos mesmos lugares. Minha mãe sorria em um deles, abraçada ao meu pai. Em outro, Miguel fazia alguma idiotice diante da câmera enquanto todos riam. Havia fotografias de aniversários, jantares regados a risadas e momentos repletos de um amor que, na época, parecia comum.Naquela época, eu não sabia que a felicidade também precisava ser registrada porque um dia poderia desaparecer.Caminhei
A mulher abaixou a cabeça e não respondeu. Acho que ambos sabíamos que não precisava.Talvez nem ela mesma conseguisse explicar a monstruosidade que cometeu no passado. Ou talvez não quisesse admitir que Paige nunca foi o problema.— E como você vive hoje? — eu quis saber.Ela ignorou a pergunta anterior. Aquilo me fez entender que Paige foi rejeitada sem qualquer motivo além de ser uma criança difícil, birrenta, exigente e chorona.A mulher usava o comportamento de uma menina de cinco anos como justificativa para ter ido embora e abandonado o marido e a filha.Eu imaginava que Rafael devia ter sido um marido desprezível. Conhecendo-o como conhecia, provavelmente foi. Mas nada daquilo justificava abandonar a própria filha e nunca mais olhar para trás.— Eu vivo da pensão que Rafael me dá.“Dava”, pensei. Rafae







