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CAPÍTULO 1 (1989) - O começo e tudo.

Author: Ana Cruz
last update publish date: 2026-10-06 02:56:59

Minha mãe foi até o editor da revista onde trabalhava com o olhar decidido de quem já havia tomado uma decisão.

— Não quero mais continuar morando no Brasil depois do meu divórcio. Aquela vaga como editora em Nova York ainda está de pé?

— Claro — ele respondeu, sem hesitar. — Eu disse que ela não seria de ninguém além de você. Quando pode ir?

— Tenho que esperar o meu divórcio sair. Não quero deixar pendências. Como não temos quase bens, acredito que não será demorado.

— Também espero que não dure muito. O escritório de lá está um caos.

De fato, o divórcio não demorou: apenas quatro meses.

Quando chegamos a Nova York, ficamos em um pequeno apartamento alugado pela revista. Minha mãe vivia dizendo que a nossa estadia nesse “apertamento” era temporária. Mas não foi bem assim que aconteceu. Moramos nele por mais de dez anos. Foi legal, confesso, mas eu não podia receber muita gente. Festa de aniversário era só no salão da redação. Eu nunca podia chamar mais do que dois amigos para brincar. Quando se é criança tudo vira festa, mas quando você se torna adolescente, as coisas não são tão fáceis assim.

Quando estou deitada em minha cama, como agora, sempre lembro de quando eu era pequena – acho que com uns doze anos – da nossa rotina de dormir.

“Na hora de dormir, era sempre a mesma rotina:

— Rebeca, fecha a mesa e tira a cama do armário.

Sim, a cama ficava embutida dentro do armário. Era prático. Minha mãe sempre prometia:

— Filha, semana que vem eu compro outra cama.

— Onde vamos colocar, mãe? Não tem espaço. O que vamos tirar para caber outra cama?

— Sei lá... O que você acha de tirarmos o sofá?

Ela falava com tanta empolgação que eu tinha pena de cortar o seu barato. Mas eu sempre cortava:

— Vamos sentar onde para ver TV?

— Na sua cama nova!

— E quando eu quiser ir dormir, expulso a senhora da cama? Pode deixar como está, mãe. Que diferença vai fazer? Já estou com doze anos mesmo. Só espero que continue cumprindo o nosso acordo.

— Ok. A senhorita é quem sabe.”

Nosso acordo era simples, mas sagrado: sem homens em casa. Minha mãe tinha apenas 26 anos quando se separou do meu pai, então era natural que ela tivesse namorados.

Quando viemos para cá, ela prometeu a si mesma que me daria um futuro bacana, sem as restrições que tínhamos no Brasil. Eu não me lembrava de quase nada, mas minha mãe sempre dizia que nossa situação financeira lá não era boa. Por aqui, as coisas só começaram a engrenar de verdade quando completei sete anos e conseguimos comprar um carro. Eu o chamava de "Ferrugem", tanto pela cor quanto pelos vários pontos descascados na lataria.

Nossa vida era calma. Raramente ficávamos doentes e como era somente minha mãe e eu, o que ela ganhava dava e sobrava para vivermos bem, por isso eu não entendia o porquê continuávamos naquele “apertamento”. Continuar nele foi uma opção dela, puramente estratégica: era perto da minha escola e do trabalho dela, ela dizia. Guardávamos as economias; passeávamos quase toda semana em shoppings, cinemas e parques, tínhamos uma vida confortável.

Conforme fui crescendo eu comecei a perceber que todas as vezes que a Sra. Elizabeth aparecia em casa, era sinal de que minha mãe chegaria tarde e esse era nosso acordo: manter sua vida amorosa longe de casa.

Ao longo dos anos, foi raro ela me apresentar a algum namorado. Só aconteceu uma única vez, com o Steven. Eu tinha uns oito anos. Eles ficaram juntos por dois anos e foi muito triste para mim quando ela me avisou que eu não veria mais o tio Steven.

Eu mal falava com o meu pai biológico. Tanto ele quanto eu inventávamos desculpas para evitar os telefonemas que minha mãe tanto tentava incentivar. O Steven, acabou sendo uma referência de paternidade que eu não tive.  Ele ia às minhas reuniões de colégio e me levava para tomar sorvete enquanto esperávamos o expediente da minha mãe acabar. Ele sempre respeitou meu espaço e o acordo que minha mãe tinha comigo. Acho que foi por isso que doeu tanto quando acabou. Depois dele, minha mãe nunca mais me apresentou a ninguém.

(Nova York, 2002)

Quando completei 17 anos, minha mãe pediu para eu cobrir a secretária da redação que entraria de licença. Aceitei na hora, pois já estava louca para arrumar um emprego e, como era meio período, não atrapalharia os meus estudos.

Descobri rápido que a Dona Gloria como mãe era muito mais divertida do que como chefe. Fui a "escrava" dela por cinco meses até a secretária oficial retornar.

Quando o contrato acabou e precisei voltar para a rotina de casa, me senti deprimida. Eu tinha amado o ritmo daqueles cinco meses. Ir para a escola, passar no restaurante do Sr. Ross para pegar o meu almoço e o da minha mãe, correr para a redação, devorar a comida com ela em vinte minutos e depois focar nas tarefas da minha mesa. Por volta das 17h, eu parava absolutamente tudo para fazer o dever de casa, porque às 18h precisava voltar ao Sr. Ross para buscar o nosso jantar.

Eu amava aquela agitação. Por isso, sentei com ela e fui direta:

— Mãe, eu quero trabalhar novamente.

— Que legal, filha! Vou ver se consigo alguma vaga para você na redação.

— Mãe, não! Não quero trabalhar com a senhora nunca mais. Deus sabe o que passei na sua mão nesses cinco meses. Não tenho do que reclamar de você como mãe, mas como chefe... — Ela arqueou uma sobrancelha na hora. Notei que tinha falado demais, mas continuei. — Não quero nem falar.

— E onde você pretende encontrar um emprego? — perguntou ela cruzando os braços. — Falta um ano para você terminar os estudos, e sabe que a escola é prioridade. Se você acha que comigo é ruim, com os outros vai ser muito pior.

— Eu sei, mãe. Mas posso conseguir algo de meio período. Escritórios aceitam estudantes. E sobre trabalhar com a senhora... — Segurei as mãos dela, tentando amaciar o terreno. — Foi bacana demais, só que com as pessoas de fora eu posso ser mais durona. Com a senhora é diferente. Você abusa de mim porque sabe que não vou desrespeitá-la e que farei tudo o que pede. Com um chefe estranho, eu posso gritar e xingar se for necessário.

— E por que comigo você não pode fazer isso?

— Porque eu tenho amor à minha vida e quero viver por bastante tempo!

Ela soltou uma gargalhada. Eu não sabia se aquilo era bom ou ruim.

— Tudo bem, vou respeitar sua vontade. Vou ver se consigo algo para você fora da revista. Afinal, ser editora-chefe de uma revista de economia de grande circulação tem que servir para alguma coisa, não é?

         Ufa! Foi uma coisa boa aquela gargalhada, afinal.

— Sei que a senhora não vai desistir mesmo, então mexa seus pauzinhos e me arrume um emprego decente.

Uma semana depois, lá estava eu: trabalhando atrás do balcão de atendimento do Sr. Ross.

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