FAZER LOGINDepois de mais algum tempo de viagem, finalmente paramos o carro no estacionamento onde David havia deixado reservado um espaço para o veículo durante os dias em que ficaríamos na região.
Cada um pegou sua mochila e seguimos em direção ao início da trilha. O ar era fresco e carregava o aroma úmido da mata. O canto dos pássaros ecoava entre as árvores centenárias, enquanto a luz do sol atravessava as copas em feixes dourados, desenhando manchas de luz sobre o caminho de terra. Mamãe e David caminhavam à frente, conversando e rindo como dois adolescentes apaixonados. Eu seguia logo atrás deles, enquanto Lucas mantinha um ritmo tranquilo alguns passos atrás de mim. — Estão bem aí atrás? Conseguem acompanhar o ritmo? — David perguntou, olhando por cima do ombro. Mamãe abriu um sorriso encantado ao observar a paisagem. — Meu Deus... que lugar lindo! Ergui os olhos e compreendi o motivo do encanto dela. Do outro lado da montanha, uma imensa cachoeira despencava entre as rochas, formando um véu cristalino que brilhava sob a luz do sol. A água caía com tanta força que, mesmo àquela distância, era possível ouvir seu rugido misturado ao som do vento. A vegetação ao redor era de um verde intenso, e uma névoa fina se erguia da base da queda-d'água, criando a impressão de que aquele pedaço da serra havia saído de um cartão-postal. Sorri, completamente fascinada pela beleza do lugar. — É sim... estou adorando a vista que estou tendo. — ouvi Lucas dizer atrás de mim. Franzi a testa. Virei lentamente a cabeça e encontrei seu olhar. Ele não estava admirando a cachoeira. Estava olhando diretamente para mim. Mais especificamente... Para a minha bunda. Revirei os olhos e soltei um suspiro irritado. Lucas apenas arqueou uma das sobrancelhas e deixou escapar uma risada baixa, completamente divertido por ter sido pego. Balancei a cabeça, fingindo indignação, e voltei a caminhar, concentrando-me novamente na paisagem. Ainda assim... Um pequeno sorriso insistia em surgir no canto dos meus lábios. ... Tento disfarçar meu desespero quando vejo meu padrasto escolhendo os cavalos. Meu estômago revira. Nunca andei a cavalo. — Helena, você sabe montar? — David pergunta, olhando para mim. Engulo em seco, sentindo minhas bochechas esquentarem. — Não... — murmuro, um pouco envergonhada. David assente devagar e volta a observar os animais, claramente pensando em uma solução. — Eu levo ela. A voz de Lucas chama minha atenção. Ergo o olhar e o encontro já montado em um dos cavalos. A maneira firme como segurava as rédeas e a naturalidade com que permanecia sobre a sela deixavam evidente que tinha muita experiência. Por algum motivo, isso me tranquiliza... e me deixa ainda mais nervosa. — Então vamos em duplas! — mamãe sugere, animada. Meu coração dispara. Dividir um cavalo com Lucas parece uma ideia assustadora. E estranhamente tentadora. — Tudo bem. Vamos em duplas. — David concorda. Observo minha mãe subir primeiro no cavalo, acomodando-se na frente, enquanto David monta logo atrás dela. Será que vou ter que ficar daquele jeito com Lucas? Meu coração acelera só de imaginar. Lucas conduz o cavalo até onde estou. Preciso erguer bastante a cabeça para encará-lo. Visto dali de baixo, o animal parecia enorme, e isso só aumentava meu receio. Lucas exibe um sorriso carregado daquele sarcasmo que já conheço tão bem. — Vem. — diz, estendendo a mão para mim. Respiro fundo. Apoio uma das mãos na sela, coloco o pé no estribo e seguro a mão dele. Seus dedos envolvem os meus com firmeza. Com um único movimento, ele me puxa para cima, fazendo meu corpo perder o equilíbrio por um instante antes de eu me acomodar na sela, à frente dele. Meu coração dispara. Sinto Lucas se aproximar logo atrás de mim. As mãos dele envolvem minha cintura apenas o suficiente para me posicionar corretamente sobre o cavalo, aproximando-me de seu corpo para que eu ficasse segura durante o percurso. O calor que irradiava dele parecia atravessar minhas roupas. — Fique perto de mim, pequena. Não vamos querer que nenhum acidente aconteça. — diz em um tom baixo. Solto uma pequena bufada. — Ficar perto de você já é um acidente. Por um segundo, tudo fica em silêncio. Então Lucas ri. Uma risada baixa, sincera e divertida. Em seguida, segura as rédeas com firmeza e faz o cavalo começar a caminhar lentamente pela trilha.Passei vários minutos sentada no chão do banheiro, segurando o teste entre as mãos.Meu coração parecia incapaz de encontrar um ritmo.Eu ria.Depois chorava.Depois voltava a rir.Era impossível explicar a mistura de emoções que tomava conta de mim.Levei novamente a mão até a barriga.Ainda era cedo demais.Nosso bebê provavelmente era tão pequeno que eu sequer conseguiria imaginá-lo.Mesmo assim...Ele já era amado.Profundamente amado.Respirei fundo, enxuguei as lágrimas e me levantei.Olhei meu reflexo no espelho.Sorri.— Acho que agora somos quatro...Corrigi-me imediatamente, soltando uma risada baixa.— Cinco... contando comigo.---Passei a manhã inteira pensando em como contar para Lucas.Eu não queria simplesmente chegar e dizer.Queria que aquele momento ficasse guardado para sempre em nossas lembranças.Então tive uma ideia.Saí rapidamente para comprar um pequeno par de meias de recém-nascido.E, em uma papelaria, encontrei uma caixinha de madeira delicada.Assim que v
O tempo tinha um jeito curioso de passar.Quando eu menos esperava, Melissa já não era mais o bebê que cabia inteira nos meus braços. Agora corria pela casa com os cachos balançando, inventava histórias com seus bichinhos de pelúcia e fazia perguntas que, muitas vezes, nem eu sabia responder.Naquela manhã, nossa casa estava completamente enfeitada.Balões em tons de branco, azul-claro e dourado decoravam a sala, uma grande mesa de doces ocupava um dos cantos e, bem no centro, o bolo que eu mesma havia preparado com tanto carinho esperava pela aniversariante do dia.Melissa estava completando quatro anos.Olhei para ela do outro lado da sala e senti um aperto gostoso no peito.Ela rodopiava com um vestido branco cheio de pequenas flores bordadas, enquanto uma coroa delicada de flores enfeitava seus cabelos cacheados.— Mamãe! — ela correu até mim, segurando a barra do vestido. — Eu tô bonita?Sorri imediatamente.Ajoelhei-me à sua frente e arrumei uma mecha de cabelo que insistia em c
Aquele momento pareceu dissolver o restinho de insegurança que Melissa carregava.Ela permaneceu mais alguns minutos aninhada no colo do pai, brincando distraidamente com os botões de sua camisa, enquanto Lucas fazia carinho em seus cabelos. Era um gesto tão simples, mas que transmitia uma segurança impossível de explicar.Depois de um tempo, ela ergueu a cabeça.— Papai?— Hum?— Posso ver o bebê de novo?Lucas sorriu.— Claro que pode.Segurando sua mãozinha, caminhou até o bercinho.O meu irmão dormia profundamente, completamente alheio à conversa que acabara de mudar o coração de uma menininha de quase três anos.Melissa apoiou as mãozinhas na grade do berço e ficou observando seu rostinho.— Ele faz muito "naninha", né?— Faz. — Lucas respondeu baixinho.Ela inclinou um pouco a cabeça.— Ele ainda não sabe brincar comigo.— Ainda não.— Mas vai aprender?Lucas olhou para mim antes de responder.— Vai. E eu acho que ele vai querer brincar justamente com você.Ela abriu um sorriso
Alguns dias depois do nascimento do meu irmão, a casa da minha mãe parecia viver em um eterno entra e sai.Parentes apareciam para conhecer o bebê, vizinhos levavam pequenos presentes e amigos passavam apenas para desejar felicidades. Apesar do movimento, minha mãe fazia questão de manter tudo tranquilo para conseguir descansar.Naquela tarde, eu, Lucas e Melissa fomos visitá-los novamente.Assim que entramos, encontrei minha mãe sentada no sofá da sala, embalando o bebê nos braços. Ela ainda demonstrava o cansaço do pós-parto, mas seu sorriso continuava iluminando o ambiente.— Olha quem veio visitar a vovó.Melissa correu até ela.— Vovó!Minha mãe sorriu e a abraçou com um dos braços.— Minha menina.Melissa deu um beijo em seu rosto, mas logo seus olhos se voltaram para o bebê.Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.Era estranho.Minha filha nunca ficava em silêncio.Continuei observando sem dizer nada.Minha mãe percebeu.— Você quer ver seu tio?Melissa apenas deu de om
Eu ainda tentava conter as lágrimas quando a médica voltou a falar. — Eles já estão sendo levados para o quarto. Assim que a equipe terminar os primeiros cuidados com o bebê, um de cada vez poderá entrar para vê-los. Levei a mão ao peito, respirando profundamente. Era impossível explicar o alívio que eu sentia. Durante toda a gravidez, minha mãe havia sido forte. Sempre sorria, dizia que estava tudo bem e fazia planos para o futuro. Ainda assim, naquele momento, ouvir que ela e o bebê estavam saudáveis fez um peso enorme desaparecer dos meus ombros. Lucas apertou delicadamente minha mão. — Eu disse que daria tudo certo. Sorri entre as lágrimas. — Dessa vez você acertou. Ele riu baixinho. — Dessa vez? Dei um leve empurrão em seu braço. — Não se acostuma. Melissa puxou minha blusa. — Mamãe... Abaixei-me até sua altura. — Oi, princesa. Ela olhou para a médica. — O bebê já sabe falar? A médica levou a mão à boca para esconder a risada. — Ainda não. Melissa fez um biqu
Os minutos seguintes pareceram horas.Nunca imaginei que esperar do lado de fora de uma sala de parto pudesse ser tão angustiante. Eu andava de um lado para o outro pelo corredor, incapaz de permanecer sentada por mais de alguns segundos. De tempos em tempos, olhava para a porta fechada, como se isso fosse fazê-la se abrir mais rápido.Lucas observava tudo em silêncio.Ele conhecia aquele meu jeito.Sempre que eu ficava ansiosa, começava a andar sem perceber.Em determinado momento, segurou delicadamente minha mão.— Amor...Parei diante dele.— Ela vai ficar bem.Respirei fundo.— Eu sei... mas é minha mãe.Minha voz falhou.— Eu nunca a vi passando por isso.Lucas acariciou meus dedos.— Você também passou.Olhei para ele.— Quando a Melissa nasceu.Sorri de leve.Era verdade.Só que eu não me lembrava de muita coisa. Naquele momento, porém, estar do outro lado da porta era completamente diferente. Agora eu entendia a angústia de quem espera.Melissa, sentada entre nós, balançava as







