FAZER LOGINPérola manteve a postura séria enquanto a aniversariante se aproximava repentinamente e o chamava. Klaus lhe disse, com um olhar de despedida, "a gente se vê". Logo, a moça responsável pela portaria chegou, e Pérola se dirigiu ao bar. Cerca de meia hora depois, Klaus foi pegar uma bebida; sua colega o serviu, e ele ficou a encarando, encostado no balcão. Pérola continuou trabalhando, sem se distrair ou lhe dar atenção. Ele logo se afastou, e horas depois, quando a festa acabou, já super tarde da madrugada, restavam uns quatro convidados, incluindo a dona da festa, Klaus e o pessoal arrumando tudo para encerrar o expediente. Os convidados se foram, e o pessoal tomou alguns drinks e cervejas, mas Pérola não bebeu, pois quase nunca tinha esse hábito. Ela apenas conversava descontraidamente. Logo, ela e sua colega saíram, e Klaus estava lá fora, encostado no carro. Ele correu até Pérola e disse:
— Finalmente! Estava te esperando. Pérola respondeu surpresa: — Me esperando?! Ele confirmou: — Sim, quero me desculpar com você, sabe... Posso te dar uma carona? Pérola respondeu indiferente: — Você não tem por que se desculpar, falou o que pensa baseado na sua realidade. Eu estava tendo um mau dia e me exaltei um pouco. Ele a segurou pelo braço e propôs: — Vamos dar uma volta? Pérola se esquivou: — Não, olha a hora que é, preciso ir para casa. Ele insistiu: — Eu te levo embora, se preferir. Pérola recusou, agradecendo. Sua colega conversava com o ficante, que também trabalhava ali, e comentou que eles iriam estender a noite, perguntando se o "amigo" de Pérola a levaria. Convidou Klaus para ir junto. Pérola disse que estava cansada e precisava ir para casa, mas Klaus a interrompeu, respondendo à amiga: — Eu levo ela, pode deixar. Se Pérola pedisse, sua amiga e o ficante a levariam para casa sem problemas, mas ela sabia que seria um incômodo. Por outro lado, Klaus estava sendo gentil e educado, embora fosse um desconhecido. Um pouco insegura, Pérola aceitou a carona. Enquanto se despedia da amiga, enviou uma mensagem com todos os dados de Klaus, do carro e o que sabia sobre ele, por segurança, caso algo acontecesse. Ela sempre fora um pouco paranoica. Eles entraram no carro, um carrão de luxo, o que já era de se esperar. Pérola, envergonhada, permaneceu em silêncio. Klaus perguntou: — E aí, Pérola, nome bonito. Me fala um pouco mais sobre você? Pérola respondeu séria: — O que quer saber? Ele disse "tudo", e Pérola falou: — Tenho 21 anos, moro com a minha mãe, Lucinda. Perdi meu pai quando eu era pequena, vítima de bala perdida, era de se esperar já que moro na favela. Estudo enfermagem, tô quase me formando. Uso roupas do camelô, mas isso você já sabe. Gosto de pagode, funk, sei lá, não tenho nada muito interessante pra te dizer. Fala de você aí. Pérola foi afrontosa, testando a gentileza dele, e Klaus não foi ogro nem esnobe. Ele respondeu: — Eu não quis te ofender, me desculpa por aquele dia. Sou médico, moro perto da praia, tenho 28 anos e gosto do seu senso de humor, mesmo que um pouco negro. Pérola respondeu: — Médico? Que legal. Ele perguntou, colocando a mão na perna dela: — Você não quer dar uma parada em algum lugar? Pra gente poder se conhecer melhor! Pérola tirou a mão dele da sua perna e respondeu séria: — Não, se você não quiser só me levar pra casa, pode me deixar aqui mesmo, que eu me viro. Ele respondeu sem graça: — Não, que isso, vou te levar em segurança para sua casa. Eles conversaram pouco, e Pérola não se sentiu à vontade ao lado dele. Ele a deixou na porta de casa, e quando ela foi beijar seu rosto, ele a beijou na boca. Foi um beijo intenso. Pérola agradeceu a carona, desceu do carro, e eles nem sequer trocaram números. Dias depois, Pérola estava trabalhando na loja, atendendo uma cliente, quando Klaus entrou, sorriu para ela de longe, e ela retribuiu o sorriso, dizendo "oi". Ele ficou vendo algumas peças, e quando a cliente de Pérola se foi, ele disse à colega que gostaria de ser atendido por Pérola, porque ela conhecia seu gosto. Pérola se aproximou e disse: — Olá, boa tarde, tudo bem? Posso ajudar? Ele respondeu que estava ótimo, e Pérola perguntou: — O que você procura hoje? Ele respondeu baixinho: — Você deve me achar estranho, né?! Sempre vindo comprar presentes femininos. Pérola respondeu, mexendo nas roupas: — Não, imagina. O que você tem em mente hoje? Ele disfarçou: — Conseguir o seu contato, eu não sabia como te encontrar, fiquei pensando em você. Pérola respondeu apreensiva: — Você não pode falar essas coisas aqui, para, por favor, se não você pode me prejudicar. Ele respondeu: — Calma, Pérola, ninguém ouviu nada! Pérola começou a mostrar algumas peças para ele, suas mãos ficaram geladas e trêmulas. Ele pegou discretamente na mão dela e perguntou: — Você tá nervosa? Pérola ignorou a pergunta: — Qual a idade dela? Você tem preferência de cor? Ele respondeu: — 21, 22, acho que pode ser cores quentes, algo colorido, ainda não sei do que ela gosta. Pérola imaginou que ele pudesse estar falando dela. Eles foram para o balcão com perfumes importados, e enquanto Pérola mostrava as fragrâncias, escreveu seu número em um papelzinho e entregou a ele sem que ninguém visse. Klaus disse, achando graça: — Eu não posso sair sem levar nada, já que tomei seu tempo! Pérola respondeu: — Imagina, pode sim, sem problemas. Ele a fez mostrar mais algumas coisas, escolheu uma bolsa linda de R$300, pediu para embrulhar e foi embora. Quando Pérola saiu do trabalho, havia uma mensagem dele dizendo que gostaria de sair com ela. Pérola respondeu que estava sem tempo, com muito trabalho, mas na verdade não queria. Ele respondeu que tudo bem, que quando ela estivesse mais tranquila, era para avisar. Ele começou a puxar assunto, e eles conversaram durante aquela noite e nos dias seguintes, trocando várias mensagens, nada demais, apenas se conhecendo melhor. Ele mandou uma foto dele no trabalho, e Pérola, que também estava no hospital, mandou uma foto sua de enfermeira. Ele respondeu que achava legal ela estudar e trabalhar, mas que achava uma pena ela não ter tempo para sair com ele. Como a conversa deles estava agradável há dias, Pérola aceitou sair. Havia muito tempo que ela não ficava com ninguém, e estudando tanto, era difícil ter tempo. Klaus se mostrou paciente por dias, então eles marcaram para sábado às 21h. Pérola ficou muito ansiosa, sem saber o que esperar. Por mensagem, ele não disse nada sobre onde iriam ou o que fariam. Ela estava acostumada a sair com gente como ela, mais humilde, e raramente teve um encontro de verdade. Começou a revirar o guarda-roupa, achando que não tinha sido uma boa ideia, mas seria chato desistir em cima da hora.Salete cuidava de Miguel, que ainda estava enjoadinho e choramingava muito. Pérola tomou banho e pôs a roupa para lavar, um hábito que sua mãe a ensinara após um velório. Klaus foi para o banho logo em seguida. Pérola pegou Miguel e deitou-se na cama com ele, colocando desenhos com música para distraí-lo com as cores vibrantes. Ela estava exausta, lutando para não adormecer. Klaus saiu do banho e deitou-se ao lado deles. Pérola estava virada de lado, observando os dois, enquanto Klaus também se deitou de lado, fitando Miguel no meio deles. Ele começou a pegar na pequena mão do bebê e a conversar com ele, perguntando se estava gostando dos desenhos, se queria dormir ou mamar. Miguel, com apenas seis meses, ouvia e ria. Pérola disse a Klaus:— Poderia ser o nosso filho, não é?— Poderia, mas não é — respondeu ele.— E se a gente tentar ficar com ele? Adotar? — sugeriu Pérola.— Não existe mais "a gente", terminamos, esqueceu? — respondeu Klaus, sério.Pérola ficou chateada e retrucou: —
Encostaram no carro um ao lado do outro, e Denis respondeu: — Não sei por onde começar, olha aonde eu vim parar.— Já se foram dez minutos e aí? — respondeu Pérola.Ele respondeu olhando para frente e não para ela: — Pérola, quando te vi pela primeira vez achei que você era uma qualquer, uma menina comum, mais uma das aventuras do Klaus, claro muito linda, mas nada demais. Quando fui te conhecendo melhor vi que você era diferente, especial, fiquei fascinado por você cada vez mais. Eu sabia que ele iria te decepcionar e esperei. Quando consegui conquistar sua amizade vi o quanto você estava magoada e tudo o que eu queria era cuidar de você. Errei quando o Klaus voltou, vocês começaram a namorar, eu não podia fazer nada, também voltei com a minha ex, mas eu só pensava em você, todos os dias eu pensava em você, te desejava e tinha que ver você com ele e me conformar.— Denis, não importa, tudo ficou para trás, você teve a sua chance e a desperdiçou. Me machucou demais! — respondeu Pérola
Denis estava agitado e o pouco que olhou para Pérola estava sério. Daiane foi até ela e falou:— Me dá o Miguel.Ela tomou o menino dos braços de Pérola e foi para dentro nervosa, sem falar nada. Pérola foi atrás dela e a pegou discutindo com o marido. Ouviu ele falando coisas como: "Você me garantiu que isso não ia acontecer / Cala a boca, Daiane". Eles estavam na cozinha quando a viram, e ele falou para Pérola mandar todo mundo embora. Ela perguntou o que estava acontecendo, e o marido de Daiane respondeu saindo da cozinha:— Conta para sua grande amiga, Daiane, quem sabe ela para de ser boba e vê a boa amiga que você é.Pérola olhou para Daiane tipo "fala logo", e ela começou a chorar e falou:— Pérola, eu achei que não ia precisar falar nada. Eu não sabia o que fazer e te considero muito, você é a minha comadre agora.Pérola se aproximou e respondeu: — Calma, vai, me conta o que tá acontecendo.Daiane a chamou para ir no quarto, fechou a porta, colocou Miguel no berço, sentaram na cama,
— Não vou parar, de jeito nenhum — respondeu Pérola, perguntando se ele queria compartilhar a novidade com Marcelo. Klaus disse que não sabia ainda, depois falou que não, porque ele não era da família mesmo. Pérola estava com dois meses, começando o pré-natal. Salete foi em casa sem aviso prévio, algo que nunca tinha feito antes. Pérola estava sozinha. Ela chegou inquieta, abatida, e Pérola estranhou a visita. Sentaram na sala, que já estava toda mobiliada, e Salete começou a chorar e falou:— Preciso conversar com alguém de confiança, você tem que me prometer que não vai falar nada a ninguém.Pérola ficou nervosa, confusa e prometeu. Então Salete contou que estava doente novamente e muito preocupada, aguardando resultados da biópsia. Fez tudo escondido deles, disse que estava passando mal há meses e escondendo de Klaus para não preocupá-lo. Pérola ficou muito triste, chorou com ela e ficou pensando em como ia esconder aquilo dele. Foi difícil, mas não falou nada, porque Salete confio
Salete a chamou para conversar e pediu para Pérola simplesmente abrir mão de Klaus por causa do relacionamento dele com Denis. Pérola ficou pasma, não estava acreditando naquilo tudo, respirou fundo e respondeu:— Então você acha que devo abrir mão do Klaus porque o Denis, meu ex abusivo, pode se incomodar? É isso?Salete respondeu: — Pérola, você está sendo egoísta, o Klaus só tem eu e o irmão, ele não aceita o pai de forma alguma, se acontecer algo comigo e eu vier a faltar, não quero que meu filho fique sozinho sem família por causa de uma namoradinha à toa. Sejamos sinceras, você não foi muito correta com ele, vi meu filho chorar, se fechar até para mim, sofrendo por você, não vou voltar ao passado agora, o tempo passou, mas eu não esqueci, peço para que considere meu pedido e coloque um ponto final nisso enquanto é cedo. O Klaus já passou por muita coisa difícil, ele não merece ficar sofrendo com esse tipo de coisa! E por favor, não vá encher a cabeça dele contra mim de novo. Eu
Pérola saiu e ficou olhando pela janela esperando ele. Viu que ele saiu do caixa e passou em uma mesa. Tinha umas oito pessoas, e ela reconheceu alguns, eram amigos dele e de Denis, e junto estava a ex-namorada de Klaus. Pérola ficou bolada, cheia de raiva. Quando ele saiu, ela já falou:— Tá com pressa por quê? Tá querendo me esconder dos seus amigos?Ele ficou sem jeito e respondeu: — Não, nada a ver.Pérola começou a falar brava: — Você tá me achando com cara de idiota, não é? Ficar comigo, dormir na minha casa, tudo bem, mas ser visto comigo, ahh não pode.Ele fechou a cara e disse que ela não mudava, sempre com sete pedras na mão agindo na defensiva. Pérola respondeu: — A gente não tem nada, beleza, eu não preciso passar por isso. Pode ir embora que vou sozinha!Ele deu as costas e foi embora mesmo. Pérola pediu um carro no aplicativo, virada no giraia, queria brigar com qualquer um só para descontar a raiva. Ele lhe mandou uma mensagem perguntando se ela tinha chegado bem, ela não re







