MasukKiller estava nos fundos da Fera Dourada, encostado na parede, tragando o cigarro como se fosse a única coisa capaz de mantê-lo no lugar, e talvez fosse mesmo. O ar denso misturava o cheiro de fumaça, álcool e suor, mas nada conseguia abafar aquele outro aroma que queimava em sua mente havia horas. O cheiro dela.
— Tá se escondendo aqui por quê? — a voz de Trash quebrou o silêncio atrás dele.
Killer nem se deu ao trabalho de olhar.
— Vai embora.
— Ah, qual é. — Trash se aproximou, cruzando os braços. — Você veio hoje pra se divertir, não pra ficar nesse canto como um psicopata assustando as meninas. Todo mundo já morre de medo do Alfa da dentes de Prata, você não precisa se esforçar para ficar mais assustador.
— Trash... — Killer jogou a bituca no chão e a esmagou com a bota. — Vai se foder.
O beta soltou um riso curto, nada ofendido, já estava acostumado com o tratamento do amigo.
— Você só sabe falar isso?
— É o suficiente pra todo mundo entender. — Killer virou o rosto e o encarou, os olhos frios, quase selvagens.
Trash levantou as mãos num gesto de rendição, mas não recuou. Já conhecia aquele humor azedo, se fosse qualquer outro lobo, provavelmente já teria levado um soco no queixo, mas ele e Killer tinham mais intimidade.
— Tá de mau humor porque não comeu ninguém hoje? — Trash provocou, mas dessa vez não recebeu nem um grunhido como resposta.
Em vez disso, percebeu algo diferente no amigo, a tensão em Killer não era só irritação comum. Era... outra coisa.
O beta ficou mais sério, endireitando a postura.
— O que tá pegando, Killer?
O alfa não respondeu, apenas passou pelo beta com os olhos brilhando em vermelho e o queixo levemente erguido. Estava ali, o maldito cheiro de novo. Seus pulmões encheram com aquele aroma, agora mais forte, mais doce, mais... insuportável.
Killer fechou os olhos por um segundo e inspirou profundamente, tentando lutar contra a onda de desejo que quase o fez perder o equilíbrio. O corpo inteiro dele reagiu, cada fibra se armando para caça.
— Que porra é essa? — Trash franziu o cenho, vendo o alfa ficar imóvel no meio do corredor. — Killer? O que tá acontecendo?
Mas tudo o que o beta recebeu foi um rosnado mal alto, mais furioso.
— Ei, cara… fala alguma coisa…
— Cala a boca. — A voz saiu rouca, monstruosa.
Então ele correu. O cheiro o guiava, mais forte, mais viciante, corredores estreitos passavam em borrões, botas batendo pesado no chão. Trash o seguia, ofegante.
— Killer! Explica essa porra!
Mas a unica coisa que o movia era o cheiro dela, sua companheira aquela que ele esperou por quase duzentos anos, a mulher que a deusa da lua escolheu para ele…
Então finalmente, ele a ouviu…
— NÃO! POR FAVOR, PARA!
O rugido que encheu o corredor fez Trash travar, Killer virou para a direita, guiado pelos gritos, mais furioso a cada instante com mais sede de sangue a cada passo.
Chutou uma porta: não era ela.
O cheiro o intoxicava, mais próximo.
— NÃO ME TOCA!
A última barreira da humanidade se rompeu, seu lobo tomou o controle. Se não chegasse a tempo, nada sobraria naquele clube além de sangue e morte.
O alfa não escutava mais nada, não tinha espaço para raciocínio, para prudência, para conversa. Só havia um instinto: chegar até ela.
Um último grito atravessou a parede fina do quarto no fim do corredor, tão desesperado que fez os dentes de Killer rangerem. Ele chutou a porta com tanta força que a fechadura voou, batendo contra a parede do lado de dentro.
O que viu fez seu estômago se revirar de nojo e sua visão se tingir de vermelho.
Jack, um alfa que ele havia convidado para visitar suas terras e formar uma aliança, cliente antigo do clube, metido a valentão, cheio de dinheiro e de arrogância, estava segurando a garota de máscara de coelho pelos cabelos, forçando a cabeça dela para trás com brutalidade.
— Para de chorar, vadia. — Jack rosnava, a voz carregada de deboche e ameaça. — Se ficar quietinha, eu prometo que vou ser rápido. Hoje eu vou te ensinar o que é ser mulher.
Bunny se debatia como podia, mas estava fraca, esgotada de tanto lutar. O corpo nu completamente exposto, coberto de marcas, hematomas arroxeados, vermelhidões de t***s, chupões agressivos que denunciavam cada segundo de humilhação que tinha sofrido ali.
Quando Killer respirou fundo, o cheiro de medo que emanava dela bateu nele como um soco no estômago. Ele sentiu o corpo perder o controle num piscar de olhos. O calor da raiva subindo pelas veias, cada músculo inchando, cada osso estalando.
As pupilas dilataram, o maxilar se alongou, os dentes se tornaram presas afiadas. As garras começaram a surgir nas mãos, enquanto o rosto ainda mantinha um formato meio humano, mas já tomava traços monstruosos de lobo.
Um rugido ecoou no quarto, tão grave que fez as paredes vibrarem.
Jack soltou Bunny num sobressalto, virando-se para trás.
— Al…Alfa K... Killer?!
Mesmo antes de qualquer um ver os portões, antes das primeiras muralhas aparecerem entre as árvores, o vento já trazia o aroma estranho daquele lugar, a mistura amarga de suor velho e sangue seco, a marca de muitos corpos vivendo apertados demais e sem dignidade. A floresta ao redor parecia mais silenciosa do que deveria, como se até os pássaros soubessem que ali não se cantava, e quando o exército da Dentes de Prata atravessou a última linha de árvores, a visão foi clara: um território construído para vigiar, não para acolher. Cercas altas, vigias em pontos estratégicos, e um portão de entrada largo, reforçado, onde a madeira tinha marcas de garras e as pedras tinham manchas escuras que não eram só lama. Killer vinha à frente, enorme em sua forma de lobo, os olhos vermelhos acesos como brasas, e ao lado dele a maioria dos lobos pareciam filhotes.Matteo já estava esperando.Não escondido, não em posição defensiva como um covarde que sabe que está errado, mas ali, no portão, em forma
— Você tem valor — Melia disse, sem rodeio, como se isso fosse uma regra do universo. — Sempre teve. O que fizeram com você foi te convencer do contrário, porque é mais fácil controlar uma pessoa quando ela acredita que é pequena. Mas você não é. E eu não estou dizendo isso para te consolar, estou dizendo porque é verdade.Misty chorou em silêncio, e Melia puxou ela para um abraço curto, forte.— Você vai ser a próxima Luna dessa alcateia — Melia continuou, ainda abraçando, como se a frase fosse um destino que já estava escrito e apenas esperando Misty aceitar. — E vai ser poderosa. Não porque você tem um lobo ou não tem um lobo, mas porque você sobreviveu. Porque não se tornou igual aqueles malditos que tentaram te destruir, porque você ainda se importa com as suas amigas, mesmo quando tudo em você tem motivo para desistir. Misty fungou, envergonhada por chorar, mas a voz saiu, tremida e sincera.— Se um dia eu for metade do que você é… eu vou me sentir feliz.Melia se afastou, sorr
O hospital da Dentes de Prata tinha um silêncio diferente naquela manhã. Não era paz, não era calma, era apenas o tipo de quietude que se forma depois de uma tragédia, quando todo mundo está tentando andar devagar para não esbarrar na dor dos outros. O cheiro de ervas amassadas, remédios humanos e sangue seco ainda estava preso nas paredes, misturado ao vapor quente que vinha dos umidificadores e aquecedores. As janelas deixavam entrar uma luz pálida, fria, e mesmo assim o lugar parecia pesado. Melia atravessou o corredor com passos firmes, os olhos prateados observavam tudo com aquela atenção de Luna que sempre estava preocupada com os seus. Ela entrou no quarto sem bater porque sabia que Misty não estava em condições de se assustar com formalidades.Misty estava sentada na cama, coberta até os ombros, as costas rígidas, o rosto molhado pelo choro recente e os olhos grudados nas amigas, preocupados e tristes. O cabelo volumoso caía em mechas soltas, escondendo parte do rosto como se
O quarto do hospital da alcateia estava silencioso demais para o gosto de Misty, e aquele silêncio era o que mais a assustava. Paola e Elia permaneciam deitadas lado a lado nas macas, imóveis, pálidas, os peitos subindo e descendo lentamente enquanto as curandeiras e enfermeiras monitoravam cada mudança no estado delas. Misty já conseguia se levantar sem sentir as pernas falharem, o corpo respondia melhor ao tratamento, mas aquilo não trazia qualquer alívio verdadeiro, porque de que adiantava estar melhor se as amigas continuavam presas naquela inconsciência cruel? Sentada entre as duas, ela segurava uma mão de cada vez, alternando, conversando baixinho mesmo sem saber se estavam ouvindo, os olhos marejados e o coração apertado demais para manter qualquer postura forte.Noah permaneceu ao lado dela o tempo inteiro, recusando-se a sair mesmo quando os enfermeiros sugeriram que descansasse. Observava Misty com uma mistura de preocupação e admiração, porque mesmo fraca, mesmo assustada,
Ilana estava caída no chão da cela quando Melia deu mais um passo em direção a ela.Tinha grandes arranhões nas pernas, costas e braços, ferimentos profundos que tentavam se curar antes que ficassem piores, estava nua, já que a manta a essa altura estava rasgada em pedaços num canto da cela. O cabelo claro estava espalhado pelo rosto sujo, misturado com suor e pequenas marcas de arranhões que denunciavam a resistência inútil de minutos atrás. A mulher que antes atravessava salões com postura de princesa agora parecia apenas mais uma loba encurralada, ofegante, tentando manter alguma dignidade enquanto o medo se infiltrava sob a pele.À frente dela, Melia permanecia ereta.As garras estavam totalmente expostas, longas e prateadas, refletindo a luz das tochas como lâminas afiadas, sujas do sangue de Ilana. Os olhos haviam perdido qualquer traço humano, o brilho lunar dominando a íris por completo, não como ameaça vazia, mas como promessa concreta de mais violência caso fosse necessário.
Algumas horas depois.O calabouço da Dentes de Prata não era um lugar feito para visitas elegantes.A umidade impregnava as paredes de pedra, formando pequenas manchas escuras que desciam em filetes lentos até o chão frio. O ar era denso, carregado com o cheiro ferro, terra molhada e sangue velho. A iluminação vinha de tochas presas nas paredes, e a luz tremulante projetava sombras longas que se moviam como fantasmas inquietos.Ilana estava sentada no chão.A manta que antes cobria o corpo agora estava suja, manchada de poeira e seja lá o que estivesse impregnado no chão nojento. O cabelo estava embaraçado, os fios claros grudando na pele suada do rosto. A mulher que chegara à Dentes de Prata com postura de princesa parecia, agora, apenas uma loba encurralada.Ela mantinha o queixo erguido, mas a elegância havia sido arrancada junto com a autoridade.Do outro lado das grades, Melia permanecia parada.Os braços cruzados, o rosto impassível, os olhos prateados observando como se estives







