Compartilhar

O Anjo dos meus Sonhos

Autor: Lana Cato
last update Data de publicação: 2025-11-28 05:16:39

Antônio chegou em casa com o dinheiro do dia, colocou sobre o pano onde comiam.

Mayana nem olhou.

— Venha colocar sua comida, Tchavo.

Antônio obedeceu, esticou as mãos como a mãe o ensinou a fazer. Pegou a concha, colocou o dedo na borda do prato e se serviu até que o caldo o queimasse.

Mayana havia ensinado a enxergar com as mãos e ouvidos, mas ele ainda se lembrava das cores.

Era bonito.

Sentou no chão e perguntou.

— Quanto consegui hoje, Deja?

A cigana olhou para o pano, apenas algumas moedas e duas notas pequenas.

— Muito! As pessoas gostam de você. Por isso te pagam, Tchavo.

Ela deixava o filho em uma esquina e ia para outra fazer leitura de mãos. Acreditava que Antônio ficasse lá, mas ele preferia a carroça. Achava estranho receber dinheiro para ficar parado.

A cigana olhou os cortes nos braços e ombros do filho, só conseguia ver se ele estivesse sentado. Era um homem alto.

— O que foi isso? Alguém te bateu de novo?

Ele negou com a cabeça colocando mais sopa na boca.

Não conversavam muito. Antônio sempre foi calado e ela nunca o forçou.

Depois de passar uma pasta de ervas nos machucados do filho foram dormir.

E mais uma vez ele sonhou com o seu anjo.

Foi assim que aprendeu a chamar a menina de olhos claros que aparecia em seus sonhos.

Havia falado com a mãe pouco depois de acordar.

— Os olhos brilham muito e o cabelo é amarelo igual era o sol. É bonita, muito bonita, Deja.

Mayana achou que o filho estava sonhando com um anjo ou uma santa. Só podia ser.

A vida de Antônio era um milagre.

— É o seu anjo da guarda.

Ele gostava de sonhar com o anjo, gostava muito.

Acordou sorrindo e a senhora soube que tinha acontecido de novo.

— O mesmo sonho?

Antônio confirmou com a cabeça enquanto comia mais um pedaço de pão.

Comia muito e sabia que isso era um peso no acampamento.

— Vou conseguir mais moedas hoje.

— Não, hoje vamos levantar acampamento.

Essa era a parte que ele não gostava, queria ter um lugar para morar.

— Mas como vou conseguir dinheiro?

Para Mayana era simples... onde houvesse pessoas para ler a sorte e dar esmolas eles ficariam bem.

Já o rapaz pensava que se perdesse o trabalho com Jailson seria difícil conseguir outro.

As pessoas não gostavam dele, sabia que não.

— A roda da vida gira para frente, somos como a água. Não podemos ficar parados.

Antônio baixou a cabeça e em seguida contou o que havia acontecido no dia anterior.

— Eu machuquei uma menina pequena.

— Não machucou. Você é bom, Tchavo.

— Não ouvi ela, mãe. Bati.

— Bateu? Como assim?

Mayana não encontrava nenhum motivo para o filho estar andando sozinho pelas ruas. Já tinham conversado sobre isso.

— Fui no banheiro, mãe, e não ouvi a menina. Tinha o cheiro bom.

— Mais um motivo para a gente ir embora. Se ela se machucou e tem família, vão vir atrás da gente.

A cigana se apressou para arrumar as coisas, não eram muitas.

Mas no apartamento de Ive ela também estava acordando.

Não foi à aula do cursinho.

Queria ser médica, por isso estava se preparando para prestar um vestibular federal.

Nunca tinha faltado, mas como disse a amiga...

— Tudo tem uma primeira vez. Vamos voltar na sorveteria! Quero encontrar aquele rapaz da carroça.

Patrícia reagiu imediatamente.

— Não vamos, mesmo! Ive, para de ser louca. Ele é um mendigo, catador de papelão. Só pode estar de brincadeira, né? Ele tem sarna.

A menina amarrou os cabelos e respondeu enquanto passava o batom.

— Eu vou, você faz o que quiser.

— Ive!

Patrícia paralisou com o pensamento.

— Ai meu Deus! Você não está apaixonada pelo Corcunda de Notre Dame, está?

— Claro que não! Quem se apaixona assim? Só quero fazer alguma coisa. Ele estava tão assustado. Você não quer ser médica? Pois deveria começar tendo alguma humanidade.

— Médicas não precisam de humanidade. Precisam de muito dinheiro para pagar a faculdade e todo o resto.

— Aí, você e esse assunto de novo. Vamos comigo e eu pago os seus materiais do semestre.

Patrícia pulou da cama.

— COMBINADO! Vamos a caçar uns monstros.

Ive sentiu o coração doer com aquela fala da amiga.

Engoliu a resposta e colocou um tênis confortável. Algo lhe dizia que andariam muito.

No carro veio a pergunta que Patrícia realmente queria fazer.

— Você não vai mesmo dar uma chance para o Matheus? É a única garota do mundo que, com a sua idade, nunca ficou com ninguém.

Ive sorriu.

Sorriu, mas por dentro alguma coisa apertou.

O nome estava parado no peito havia anos. Um nome que só diria mais uma vez, estava decidida!

Mas quando disse… tudo começou a desmoronar.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App
Comentários (3)
goodnovel comment avatar
Bela Gonçalves a
se eu falar que odiei essa Patrícia vou paracer chata demais???? porque eu odiei ele
goodnovel comment avatar
Sabrina Saphira
Autora eu acho que ele é o menino perdido
goodnovel comment avatar
Valentina Azevedo
Eu acho que esse rapaz é o amor perdido dela
VER TODOS OS COMENTÁRIOS

Último capítulo

  • Primeiro Amor, Segunda Chance   Epílogo - Felizes na Zona Cinzenta

    Um ano depois... Ive estava nervosa, com a apresentação da sua defesa Ditadura Militar no Brasil – O retrato que o Direito não viu. No segundo semestre do curso que repetia a saga da mãe, a filha de Sara Bianchi fez o mundo se voltar para o que deveria ser só um trabalho de faculdade. Todos sabiam que a mulher que falava no anfiteatro da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul não estava ali apenas para discursar sobre as atrocidades da Ditadura. Ela estava criando um laço com autoridade e estabelecendo parcerias. A roupa impecável, os cabelos presos em um coque baixo e as joias discretas complementavam a imagem séria que Ive queria passar. Sara havia dado um pequeno empurrão. Avisou alguns amigos que sua caçula havia desistido da medicina e aceitado o seu destino como futura magistrada. Ninguém ousou duvidar de que o caminho de Ive seria ainda mais impressionante do que o da mãe. E quando a apresentação de mais de duas horas terminou, os aplausos se fundiram aos flashes. Iv

  • Primeiro Amor, Segunda Chance   Felizes Para Sempre (Do Nosso Jeito)

    Edgar realmente foi embora, mas somente depois de várias conversas com Lucca. De todos no condomínio, o único que saberia como encontrá-lo seria o marido de Ive. — Meu pai vai te ensinar o que precisa saber, isso eu não posso fazer. Não quero que seja como eu, mas se um dia precisar de ajuda, se não souber como resolver. Quero que me ligue, Lucca. — Seu pai? Por que seu pai? Edgar eu quero que fique aqui. É meu único amigo. Por favor. Edgar se sentou e explicou com calma sobre as regras na organização e como ele havia planejado o final daquele ciclo. — Há muito tempo atrás quando a máfia era um lugar para homens mortais e sem lei, o meu padrinho mudou as regras do jogo. A herdeira da máfia se apaixonou por uma hiena e tudo ruiu. Meu pai controlou a queda e criou um império onde não somos nem leões, nem hienas. Somos alguma coisa no meio disso. — Tudo bem, Edgar. Não precisamos ser mortais, só precisamos sobreviver sem machucar ninguém. — Você me cansa e me enoja na mesma propor

  • Primeiro Amor, Segunda Chance   O Quarto Que Ninguém Deve Ouvir

    Lucca abraçou o amigo, Edgar havia sido sua fortaleza durante os tempos em que a dor o fazia sentir vontade de tirar a própria vida. Edgar enrijeceu o corpo, odiava aquelas demonstrações de emotividade humana. — Aconselho a me soltar se não quiser passar por outra cirurgia plástica. O marido de Ive apertou ainda mais o abraço e afirmou. — Você não precisa fingir para mim. Sei que é um cara legal, Edgar. — Não sou, mas vou te ajudar. Vamos fazer as ligações elétricas da sua casa e arrumar o que precisar enquanto a minha tia faz as compras. Lucca gostou da ideia, não queria passar o dia em lojas comprando sofás vermelhos. Olhou para a esposa e pediu como se fosse uma criança em busca de autorização para brincar na casa de um amigo. — Posso ficar com ele Ive? A menina olhou para o sobrinho com a sobrancelha franzida e praticamente decretou. — Meu marido fica comigo, você não é boa companhia para ninguém. Edgar circulou o polegar sobre o indicador da mesma mão e só então olhou p

  • Primeiro Amor, Segunda Chance   Um homem não dorme na casa do pai

    E bem perto dali, a poeira da estrada anunciava que Lucca e Ive finalmente estavam de volta. O ar de casa tinha aquele cheiro de mato que o rapaz se lembrava. Ive desceu rindo, cheia de coisas que queria contar aos pais, o rosto queimado de sol e o cabelo completamente arruinado. A lua de mel havia deixado suas marcas. Os fios loiros tinham se tornado mais claros e tão ressecados que ela tinha desistido de pentear há semanas. A pele vermelha e o corpo todo dolorido. Lucca brincou. — Finalmente, Coradinha. Vamos tomar banho e dormir na nossa cama.Lucca subiu as escadas carregando três malas enormes e pronto para fazer amor com a esposa no tapete do próprio quarto, mas o que encontrou foi um par de tênis usados. O cheiro de suor misturado com chulé o fez dar dois passos para trás. E em cima da cama que deveria ser dele. Um menino magro e estranho que parecia nunca ter visto comida na vida. — Quem é você e por que está na minha cama?!Alex também não reconheceu o namorado de Ive.

  • Primeiro Amor, Segunda Chance   Lâminas e dentes não mentem

    Os barulhos no quarto de Lara fizeram Alex arregalar os olhos, se aproximou devagar, o coração batendo tão forte que sentia pulsar dentro dos ouvidos. Não sabia como impedir, mas não podia deixar que Muralha batesse em Lara. Correu de volta para o quarto que havia sido de Lucca. Tinha visto um canivete, não parecia muito eficaz contra um homem do tamanho de Muralha, mas ao menos daria tempo de Lara fugir. Alex sentia o rosto queimando, o medo de que daquela vez ele não saísse vivo. Muralha era muito maior do que o antigo marido de sua mãe. Ainda assim abriu a porta. Lara estava rindo enquanto o marido beijava as suas pernas, os dois nus e apesar dos gritos da médica, a única pessoa que estava sangrando era Muralha. As unhas marcadas no peito masculino, os dentes no ombro. Paralisou olhando para aquilo como se tentasse encontrar as respostas, não havia choro, nem sangue, o rosto da médica não estava marcado. Então por que ele ouviu barulho de madeira quebrando e gritos? Não tin

  • Primeiro Amor, Segunda Chance   O filho que Falta e o Homem que Ferido

    Lara quis avisar o filho sobre a novidade, mas Muralha não deixou.— Lua de Mel, deixa eles. Acho que Ive gosta de estar com o meu filho.Ele não olhou para a esposa, apenas avisou e saiu. Lara olhou para Alex sem saber o que dizer, não queria que o rapaz se sentisse mal.— Não liga para ele, vem. Vamos arrumar o seu quarto e você me diz o que quer comprar.Por fim, Alex estava tão encantado com tudo o que tinha no quarto de Lucca que não conseguia pensar em nada que ainda pudesse querer.— Não, doutora. É tudo meu mesmo? De verdade?— Tudo, o Filhote de Lenhador cresceu.Para Lara a rotina com Alex era um afago no tempo. Ficava horas apenas olhando o menino brincar, mas depois de alguns dias, a saudade do marido começou a apertar bem mais do que a felicidade que conseguia com aqueles momentos. Ligou para a amiga. Sara e Ivan pareciam realmente estarem levando a sério o termo Lua de Mel. E ninguém atendeu.— Miniatura pervertida! Tomara que chegue assada.Jogou o celular no sofá e f

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status