LOGINLETÍCIA
A água quente da banheira estava sendo a única coisa impedindo meu corpo de entrar em colapso completo.
Eu mantinha os olhos fechados enquanto tentava respirar devagar, sentindo o calor aliviar um pouco a tensão acumulada nos meus músculos. Minha cabeça ainda latejava, minhas pernas pareciam fracas demais pra sustentar meu peso e meu estômago... meu Deus, meu estômago estava praticamente implorando por comida.
O ronco alto ecoou pelo banheiro silencioso e eu soltei um suspiro constrangido.
Perfeito.
Além de corna, expulsa de casa e emocionalmente destruída, agora eu também estava passando vergonha por fome.
Fechei os olhos novamente e afundei um pouco mais na água.
A verdade era simples: eu não tinha comido nada o dia inteiro.
Nada.
Desde cedo eu já estava estranha. Ansiosa. Aquela sensação ruim no peito que parecia avisar que alguma coisa estava errada.
E estava.
Muito errada.
A lembrança de Enzo com Bianca na nossa cama voltou como uma facada.
Meu peito apertou imediatamente.
Droga.
Eu forcei uma respiração profunda.
Não.
Não ia pensar nisso agora.
Mas era impossível não pensar.
Tudo ainda parecia recente demais.
Cru demais.
Eu me sentia humilhada.
Descartável.
Substituível.
E o pior de tudo era lembrar que eu realmente amei aquele homem.
De verdade.
Enquanto ele...
Eu apertei os olhos com força.
Não.
Chega.
Eu precisava focar em outra coisa.
Em qualquer outra coisa.
E infelizmente minha mente escolheu logo o pior assunto possível:
Adrian Cortez.
Meu ex-sogro.
Lindo.
Gostoso.
Intimidante.
Perfeito demais pra existir.
E que, aparentemente, já tinha deixado bem claro que me queria.
Meu rosto queimou imediatamente ao lembrar da forma como ele me olhou no carro.
Do jeito que a voz dele ficou grave quando disse que queria fazer muito mais do que me devorar.
Meu Deus.
Aquilo definitivamente não era uma coisa que um sogro deveria dizer.
Ou olhar.
Ou pensar.
Mas ele pensava.
Eu vi.
Nos olhos dele.
Na forma como me segurou.
Na tensão absurda que parecia existir toda vez que ele chegava perto demais.
E o pior?
Meu corpo reagia.
Sempre.
Como uma completa traidora.
- Você perdeu a cabeça, Letícia... - murmurei sozinha.
Porque aquilo era errado.
Muito errado.
Só que meu cérebro parecia pouco interessado em colaborar.
Principalmente quando lembrava da forma como Adrian me pegou no colo.
Da facilidade absurda.
Do cheiro dele.
Do peitoral duro pressionado contra mim.
E céus...
Aquele homem tinha literalmente a voz mais sexy que eu já ouvi na vida.
Eu cobri o rosto com as mãos.
Isso era o cúmulo da vergonha.
Meu ex-sogro.
Meu ex-sogro absurdamente gostoso.
E agora eu estava na casa dele... nua... usando a banheira dele... enquanto ele provavelmente achava que eu era uma maluca emocionalmente instável.
Perfeito.
Simplesmente perfeito.
Subitamente me dei conta de outra coisa.
Eu ainda estava ali dentro há tempo demais.
E Adrian provavelmente viria me procurar.
Meu coração acelerou imediatamente.
Não.
Não.
Não mesmo.
Eu precisava levantar.
Colocar o roupão.
Sair dali minimamente digna.
Porque já bastava ele ter me carregado nua uma vez.
A ideia dele fazer isso de novo era humilhante.
...e estranhamente tentadora.
Meu Deus.
O que havia de errado comigo?
Respirei fundo e tentei me levantar da banheira.
Mas meu corpo protestou imediatamente.
Uma tontura forte me atingiu.
Minha visão escureceu por um segundo.
- Droga...
Segurei na lateral da banheira até recuperar o equilíbrio.
As pernas estavam fracas.
Muito fracas.
Mesmo assim continuei.
Devagar.
Me apoiando em tudo que podia.
A pia.
A parede.
O balcão.
Cada passo parecia exigir um esforço absurdo.
Quando finalmente alcancei o roupão pendurado próximo ao aquecedor, quase chorei de alívio.
- Isso... só coloca essa porcaria...
Minha voz saiu baixa e cansada.
Vesti o roupão lentamente, tentando ignorar a tontura crescente.
Mas quando fui amarrar...
Meu corpo simplesmente desistiu.
As pernas falharam.
Minha visão ficou completamente turva.
E tudo escureceu.
---
A primeira coisa que senti quando acordei foi calor.
Um calor gostoso.
Confortável.
Macio.
Franzi levemente a testa antes mesmo de abrir os olhos.
Lençóis.
Eu estava numa cama.
Uma cama absurdamente confortável.
Abri os olhos devagar.
A iluminação do quarto estava baixa.
A chuva ainda podia ser ouvida do lado de fora.
E então eu vi.
Adrian.
Sentado na poltrona à minha frente.
Os cotovelos apoiados nos joelhos.
As mãos unidas.
O olhar completamente preso em mim.
Preocupado.
Intenso.
E Deus...
Aquele homem deveria ser proibido de existir.
Os cabelos escuros estavam levemente bagunçados, provavelmente por passar as mãos neles repetidas vezes. A camisa preta social tinha as mangas dobradas até os antebraços, revelando as veias marcadas e as mãos grandes demais.
E o olhar dele...
Meu Deus.
O olhar queimava.
Literalmente queimava.
- O que houve? - minha voz saiu rouca.
Ele soltou o ar lentamente, como se estivesse segurando a própria paciência.
- Você desmaiou.
Ah.
Ótimo.
Mais humilhação.
Perfeito.
Tentei me sentar, mas ele se levantou imediatamente.
Rápido demais.
Preocupado demais.
- Devagar. - a voz firme me atingiu em cheio.
Ele se aproximou da cama e segurou meu braço com cuidado, ajudando-me a sentar.
E lá estava de novo.
Aquele toque.
Aquela eletricidade absurda.
Meu corpo inteiro reagiu.
Idiota.
Completa idiota.
- Você comeu hoje, Letícia?
O olhar dele desceu lentamente pelo meu rosto.
Pesado.
Quente.
Intenso demais.
Eu engoli seco.
- Não.
O maxilar dele travou imediatamente.
- Mas que droga! - ele passou a mão no rosto claramente irritado. - Você não pode ficar sem se alimentar desse jeito.
Eu desviei o olhar.
Constrangida.
- Eu não estava com fome...
- Você quer morrer?
Meu olhar voltou imediatamente pra ele.
A preocupação na voz dele era real.
Forte.
Crua.
E aquilo mexeu comigo de um jeito estranho.
Porque fazia tempo que ninguém se preocupava comigo daquela forma.
Enzo certamente não.
Adrian soltou um suspiro irritado e saiu do quarto antes que eu pudesse responder.
Fiquei parada ali por alguns segundos, tentando processar tudo.
O quarto dele.
Porque obviamente aquela era a suíte dele.
O cheiro masculino espalhado pelo ambiente.
A decoração elegante.
Os tons escuros.
Tudo ali parecia... ele.
Forte.
Sofisticado.
Perigosamente atraente.
Meu olhar caiu involuntariamente na porta do banheiro.
E a lembrança dele me carregando nua voltou imediatamente.
O calor subiu pelo meu rosto.
Para Letícia, ele é seu ex sogro.
Sub: Falou bem, ex sogro. Cai em cima bebê, esse tanquinho gostoso da pra lavar uma boa roupa suja.
- Cala a boca! - murmurei sozinha, horrorizada comigo mesma.
Meu Deus.
Eu precisava urgentemente recuperar a sanidade.
A porta se abriu novamente antes que eu pudesse fugir dos próprios pensamentos.
Adrian voltou segurando uma bandeja enorme.
E quando colocou tudo sobre a cama na minha frente, eu arregalei os olhos.
- Meu Deus... pra que tudo isso?
Tinha sopa.
Salada de frutas.
Água.
Chocolate quente.
Parecia comida suficiente pra alimentar uma família inteira.
Ele puxou a cadeira próxima da cama e sentou devagar.
Sem tirar os olhos de mim.
- Come tudo e não reclama.
O tom autoritário me atingiu em cheio.
Meu estômago fez algo estranho.
Ridículo.
Constrangedor.
Mas fez.
Porque aquele homem mandando em mim deveria ser ilegal.
- Não quero você desmaiando pela casa. - ele continuou, sério. - Preciso de você bem... e de preferência viva.
Eu mordi o interior da bochecha tentando esconder o sorriso involuntário.
- Você sempre manda assim em todo mundo?
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
- Normalmente as pessoas me obedecem sem reclamar tanto.
Meu Deus.
Até arrogante ele conseguia ficar gostoso.
Peguei a colher da sopa tentando ignorar o olhar dele sobre mim.
Mas era impossível.
Porque Adrian não olhava.
Ele observava.
Intensamente.
Como se prestasse atenção em cada detalhe meu.
Cada movimento.
Cada respiração.
E aquilo me deixava nervosa.
Muito nervosa.
- Você está me encarando de novo. - murmurei antes de levar a sopa à boca.
- Estou.
Resposta simples.
Direta.
Sem vergonha nenhuma.
Eu quase engasguei.
- Adrian!
Ele apoiou o corpo na cadeira sem desviar o olhar.
- O quê?
- Você não pode falar essas coisas naturalmente!
Um canto da boca dele subiu lentamente.
Perigoso.
Provocante.
- E quem disse que eu quero agir naturalmente perto de você, Letícia?
{...}
VALENTINASe alguém tivesse me contado, anos atrás, que minha vida terminaria exatamente assim, eu provavelmente teria rido.Ou talvez nem acreditasse.Eu?Mãe de quatro crianças.Grávida novamente.Casada com Lorenzo Cortez.Sentada em uma varanda enorme, olhando para um jardim cheio de brinquedos, enquanto uma das minhas filhas corria atrás do irmão e a outra discutia porque alguém havia pegado seu carrinho.Eu teria achado impossível.Mas a vida tem dessas coisas.Ela nos leva por caminhos que jamais planejamos.Coloca pessoas em nossa frente.Tira algumas.Devolve outras.Quebra nosso coração.Depois, quando achamos que nunca mais seremos inteiros, encontra um jeito de nos reconstruir.Olhei para a minha barriga.Sete meses.Às vezes ainda parecia impossível acreditar que havia outro bebê crescendo dentro de mim.O quinto.Sorri sozinha.- Você realmente gosta de me surpreender, não é?Uma pequena movimentação respondeu.Passei a mão sobre a barriga.- Eu sei. Eu também estou feli
VALENTINAAlgumas famílias passam anos tentando encontrar a paz.A nossa precisou primeiro aprender a sobreviver ao caos.Talvez por isso eu tivesse aprendido a valorizar tanto as coisas pequenas.Um café tomado sem pressa.Kemilly correndo pela casa.Kelly tentando engatinhar atrás da irmã.Lorenzo me abraçando por trás enquanto eu preparava o jantar.Uma risada inesperada durante uma conversa.E, principalmente, ouvir uma voz que durante muito tempo acreditamos que talvez nunca mais ouviríamos.Dante.Depois de tudo o que aconteceu, eu aprendi que algumas recuperações não acontecem de uma vez.Elas chegam devagar.Em pequenos sinais.Um movimento dos dedos.Um olhar mais atento.Uma palavra.Um sorriso.E, naquele Natal, nós tivemos mais uma dessas pequenas grandes vitórias.Dante estava falando.Ainda com dificuldade.Ainda devagar.Ainda precisando de muito esforço para transformar pensamentos em palavras.Mas estava.E, para mim, aquilo era suficiente para fazer meu coração trans
ADRIANO Natal sempre teve um significado diferente para mim.Talvez porque, ao longo dos anos, eu tenha aprendido que uma família não é feita apenas pelos momentos felizes.Ela também é feita pelas perdas.Pelos erros.Pelas feridas.Pelos silêncios que duram anos.E, principalmente, pelas pessoas que escolhem voltar.Naquela véspera de Natal, minha casa estava cheia.Luzes espalhadas pelas janelas.A árvore ocupando o canto da sala.A mesa preparada.O cheiro da ceia tomando conta de cada cômodo.E, pela primeira vez em muito tempo, eu conseguia olhar ao redor sem sentir que faltava alguma coisa.Ou talvez faltasse.Talvez sempre faltasse.Porque havia uma ausência naquela família que nenhuma decoração, nenhuma festa e nenhum jantar conseguiriam esconder.Enzo.Meu filho.Durante anos, seu nome havia sido associado à dor.À vergonha.Às escolhas que eu gostaria de poder apagar.Mas um pai não consegue simplesmente apagar um filho.Mesmo quando o filho faz escolhas imperdoáveis.Mesm
AURORAVoltar para casa deveria ter sido simples.Era apenas uma viagem de volta.Algumas horas de avião, malas, saudade da família e, finalmente, nossa casa.Mas alguma coisa parecia diferente.Talvez fosse eu.Talvez fosse Gael.Ou talvez fosse simplesmente a sensação de que, depois daquela viagem, eu não era mais a mesma mulher que tinha embarcado.Eu estava casada.Estava feliz.E, pela primeira vez, não sentia vontade de correr.Quando o avião pousou, Gael segurou minha mão.— Chegamos.Olhei pela janela.— Chegamos.Ele beijou meus dedos.— Sentiu saudade?— Um pouco.— De mim?— Não.Ele fez uma expressão ofendida.— Como assim?Comecei a rir.— Senti saudade da minha família.— Então você não sentiu saudade de mim?— Não.— Aurora...— Estou brincando.Ele estreitou os olhos.— Você vai pagar por isso.— Estou com medo.— Deveria.Ri.Ele me beijou rapidamente.— Eu senti muita saudade de você.— Nós estávamos juntos.— Mesmo assim.Sorri.— Eu também.---Quando chegamos à ca
VALENTINAKelly tinha apenas algumas semanas de vida quando decidi que era hora de levá-la até Dante.Eu sabia que Lorenzo não gostava muito da ideia.Não porque não quisesse que tio e sobrinha se encontrassem.Mas porque ainda havia um medo silencioso nele.Um medo que ninguém dizia em voz alta.E eu entendia.Dante ainda estava se recuperando.Depois de tudo o que havia acontecido, cada pequena evolução parecia uma vitória.Ele ainda passava boa parte do tempo na cadeira de rodas.Ainda tinha dificuldades para falar.Algumas palavras saíam incompletas.Outras simplesmente não saíam.Seus movimentos eram limitados.Mas ele estava consciente.Estava presente.E, principalmente, estava tentando.Isso era suficiente para mim.Naquela manhã, eu estava sentada no sofá com Kelly nos braços.Ela dormia tranquilamente.Pequena.Perfeita.Lorenzo entrou na sala e parou diante de nós.— Você realmente quer ir hoje?Olhei para ele.— Quero.— Ela ainda é muito pequena.— Eu sei.— Valentina...
AURORAEu sempre imaginei como seria uma lua de mel.Quando era criança, achava que seria algo parecido com os filmes.Um lugar lindo.Um hotel enorme.Um casal apaixonado.Flores.Jantares à luz de velas.Talvez uma praia paradisíaca.Mas nunca imaginei que, quando finalmente chegasse a minha vez, a parte mais bonita não seria o lugar.Seria a pessoa ao meu lado.Eu estava sentada no avião, olhando pela janela, enquanto Gael segurava minha mão.— Está nervosa? — ele perguntou.Virei o rosto.— Um pouco.— Por quê?— Não sei.Ele sorriu.— Está com medo de viajar comigo?— Talvez.— Depois de tudo que já fizemos juntos?— Exatamente por isso.Ele riu.— Aurora...— O quê?— Você está oficialmente casada comigo.Olhei para minha mão.O anel ainda parecia novo.Ainda parecia estranho.Meu marido.A palavra fez meu coração acelerar.— Eu sei.— Parece real?Balancei a cabeça.— Ainda não.Ele beijou minha mão.— Para mim também não.Encostei a cabeça no ombro dele.— Você está feliz?Ele







