MasukADRIAN CORTEZ
Estar tão perto dela estava acabando comigo.
Era simples assim.
Cruel.
Perigoso.
Insuportavelmente tentador.
O cheiro dela misturado com chuva invadia o carro inteiro, me deixando inquieto de uma forma que eu odiava admitir. Letícia estava encolhida no banco do passageiro, abraçando o próprio corpo enquanto tremia de frio, e mesmo daquele jeito - destruída, molhada, vulnerável - ela continuava absurdamente linda.
Talvez linda demais.
E isso era um problema.
Um maldito problema.
Porque eu conhecia aquele sentimento.
Conhecia há anos.
Desde o dia em que Enzo apareceu em casa dizendo que tinha conhecido alguém na faculdade.
Desde o primeiro jantar.
Desde o instante em que ela sorriu pra mim e estendeu a mão delicada enquanto dizia:
"Prazer, senhor Cortez."
Foi ali.
Naquele maldito instante.
Eu soube que estava fodido.
E passar todos esses anos fingindo normalidade foi uma tortura silenciosa.
Assistir ela ao lado do meu filho.
Ouvir ela rir com ele.
Ver os dois juntos em reuniões de família enquanto eu precisava me controlar pra não olhar tempo demais.
Pra não pensar demais.
Pra não desejar demais.
Porque desejar a noiva do meu filho era errado.
Doentio.
Imperdoável.
Mas eu desejava.
Desejava mais do que devia.
Muito mais.
E agora ela estava ali.
No meu carro.
Sem ele.
Vulnerável.
Machucada.
E aquilo despertava o pior em mim.
Ou talvez... o mais verdadeiro.
- Você me olhando desse jeito... parece que vai me devorar.
A voz dela me arrancou dos pensamentos.
Baixa.
Tensa.
Eu virei o rosto lentamente.
Ela ainda estava abraçada ao próprio corpo, os cabelos molhados grudando na pele, os lábios levemente arroxeados por causa do frio.
Mas eram os olhos dela que me prendiam.
Sempre os olhos.
Porque Letícia tinha aquele tipo de olhar perigoso.
Expressivo demais.
Honesto demais.
Ela sentia tudo intensamente.
E eu conseguia ver.
A dor.
A vergonha.
A insegurança.
E, no meio de tudo aquilo...
A tensão.
Ela também sentia.
Talvez não entendesse ainda.
Mas sentia.
Eu apoiei uma mão no volante.
Inclinei levemente o corpo na direção dela.
- Minha vontade era fazer outras coisas, Letícia. - falei devagar, sustentando seu olhar. - Não apenas te devorar.
O ar dentro do carro mudou.
Pesou.
Ela prendeu a respiração.
Eu vi.
Droga...
Aquela mulher tinha consciência do efeito que causava?
Porque eu estava perigosamente perto de perder o controle.
- Adrian...
Ela não terminou.
Porque um espirro interrompeu tudo.
- Atchim!
Eu fechei os olhos por um segundo e passei a mão pelo rosto.
Ótimo.
Perfeito.
- Droga! - rosnei baixo. - Meu filho inútil te fez pegar chuva desse jeito.
Ela tentou minimizar.
Claro que tentou.
- Não é pra tanto...
- Minha vontade é matar aquele moleque.
Ela soltou uma pequena risada sem humor.
Fraca.
Cansada.
E aquilo me irritou ainda mais.
Porque ela ainda tentava proteger o idiota que acabou de destruí-la.
Eu parei o carro na garagem da minha casa e saí imediatamente, caminhando até o lado dela antes mesmo que pudesse protestar.
Quando abri a porta, ela tentou descer sozinha.
Mas quase caiu.
Eu segurei sua cintura por reflexo.
Firme.
E o contato...
Merda.
O corpo dela estremeceu sob minhas mãos.
O meu também reagiu.
Silenciosamente.
Perigosamente.
Ela levantou o rosto devagar.
Próxima demais.
Bonita demais.
Os lábios entreabertos.
A respiração falhando.
Por um segundo inteiro...
Eu pensei em beijá-la.
Ali mesmo.
Na garagem.
Sem pensar nas consequências.
Sem pensar em Enzo.
Sem pensar em nada.
Mas então ela voltou a tremer de frio.
E a realidade voltou junto.
Sem dizer nada, passei um braço por trás das pernas dela e a peguei no colo.
Leve.
Quente mesmo molhada.
Perfeita demais encaixada em mim.
- Adrian! - ela protestou imediatamente, segurando meu ombro. - Não precisa disso!
- Fica quieta, Letícia. - comecei a andar em direção à entrada da casa. - Estou tentando me concentrar pra não ir agora mesmo quebrar a cara daquele moleque.
Ela soltou um suspiro frustrado.
Mas não tentou descer novamente.
E isso...
Isso mexeu comigo mais do que deveria.
O silêncio entre nós ficou estranho.
Intenso.
Eu conseguia sentir a respiração dela contra meu pescoço.
Conseguia sentir o perfume suave misturado à chuva.
Conseguia sentir tudo.
Cada detalhe.
Cada maldito detalhe.
Entrei em casa rapidamente.
Aquecimento ligado.
Luzes baixas.
Silêncio absoluto.
Apenas nós dois.
E aquilo parecia perigosamente íntimo.
Subi as escadas sem dificuldade, caminhando diretamente para meu quarto.
Porque o banheiro da suíte era maior.
Mais quente.
Melhor pra ela.
Quando entrei, coloquei Letícia cuidadosamente no chão.
Ela parecia um pouco zonza.
Exausta.
Eu imediatamente liguei a banheira, ajustando a temperatura morna da água.
Depois liguei o aquecedor do banheiro.
Só então voltei a olhar pra ela.
E me arrependi no mesmo instante.
Porque a roupa molhada estava praticamente transparente.
Marcando cada curva do corpo dela.
Cada detalhe.
Cada tentação.
Meu maxilar travou.
- Tome um banho quente. - minha voz saiu mais rouca do que o normal. - Senão você vai adoecer.
Ela abriu a boca pra responder.
Mas o corpo vacilou antes.
- Eu...
E então ela desabou.
Droga.
Eu a segurei antes que atingisse o chão, trazendo o corpo imediatamente contra o meu.
Ela estava gelada.
Tremendo.
Fraca.
A preocupação apagou qualquer outro pensamento da minha mente.
- Minha vontade de matar aquele inútil só aumenta. - rosnei.
Levei ela até a pia e a sentei cuidadosamente sobre o balcão.
Ela respirava rápido.
Os olhos meio perdidos.
E eu sabia.
Se ela continuasse naquela roupa molhada, acabaria doente.
Talvez pior.
Então fiz a única coisa possível.
Comecei a abrir os botões da blusa dela.
Devagar.
Controlado.
Tentando ignorar o caos dentro de mim.
Mas quando a peça deslizou pelos ombros dela...
Letícia segurou meus pulsos imediatamente.
- Adrian!
A vergonha tomou conta do rosto dela no mesmo instante.
As bochechas ficaram rosadas.
Ela tentou cobrir os seios com as mãos, claramente desconcertada.
E Deus...
Aquilo me destruiu.
Porque ela era linda até envergonhada.
Principalmente envergonhada.
Eu respirei fundo.
Precisava manter o controle.
Precisava.
- Não se preocupe, Letícia. - falei baixo, sustentando seu olhar. - Eu não vou tocar em você se não quiser.
Ela continuou me olhando.
Desconfiada.
Confusa.
Então completei:
- Por mais que isso seja tudo que eu queira.
O silêncio caiu entre nós imediatamente.
Pesado.
Quente.
Ela arregalou os olhos.
A respiração falhou.
E eu sabia que tinha ido longe demais.
Mas já era tarde.
Porque era verdade.
Crua.
Feia.
Perigosa.
Mas verdade.
Eu queria ela.
Há anos.
E esconder aquilo estava começando a ficar impossível.
Desviei o olhar antes que acabasse fazendo alguma loucura.
Terminei de tirar cuidadosamente a roupa molhada dela sem ultrapassar nenhum limite.
Sem tocar mais do que o necessário.
Mesmo que meu corpo inteiro implorasse pelo contrário.
Então a peguei no colo novamente.
Nua.
Quente agora por causa da proximidade.
E a levei até a banheira.
Quando a coloquei dentro da água morna, ela soltou um suspiro involuntário de alívio.
Eu observei por um segundo.
A água cobrindo parcialmente o corpo dela.
Os cabelos molhados.
Os olhos ainda presos em mim.
E senti algo perigoso crescer dentro do peito.
Algo que já estava fora de controle.
Eu precisava sair dali.
Agora.
Antes que esquecesse quem ela era.
Ou pior...
Quem eu era.
Então me virei lentamente em direção à porta.
- Quando terminar... me chama. - falei sem olhar diretamente pra ela. - Eu venho te ajudar.
E saí.
Porque ficar naquele banheiro por mais um minuto seria a pior decisão da minha vida.
Desci as escadas tentando controlar a própria respiração.
Mas não adiantava.
A imagem dela continuava na minha cabeça.
A pele.
Os olhos.
A voz.
Droga.
Passei a mão no rosto e fui direto pra cozinha.
Precisava ocupar a mente.
Precisava fazer qualquer coisa.
Abri os armários, peguei os ingredientes e comecei a preparar uma sopa quente pra ela.
Mas até ali...
Até cortando legumes...
Eu ainda conseguia sentir o toque do corpo dela nos meus braços.
E isso era um problema.
Um grande problema.
Porque, pela primeira vez em anos...
Eu não tinha certeza se ainda queria resistir.
{...}
VALENTINASe alguém tivesse me contado, anos atrás, que minha vida terminaria exatamente assim, eu provavelmente teria rido.Ou talvez nem acreditasse.Eu?Mãe de quatro crianças.Grávida novamente.Casada com Lorenzo Cortez.Sentada em uma varanda enorme, olhando para um jardim cheio de brinquedos, enquanto uma das minhas filhas corria atrás do irmão e a outra discutia porque alguém havia pegado seu carrinho.Eu teria achado impossível.Mas a vida tem dessas coisas.Ela nos leva por caminhos que jamais planejamos.Coloca pessoas em nossa frente.Tira algumas.Devolve outras.Quebra nosso coração.Depois, quando achamos que nunca mais seremos inteiros, encontra um jeito de nos reconstruir.Olhei para a minha barriga.Sete meses.Às vezes ainda parecia impossível acreditar que havia outro bebê crescendo dentro de mim.O quinto.Sorri sozinha.- Você realmente gosta de me surpreender, não é?Uma pequena movimentação respondeu.Passei a mão sobre a barriga.- Eu sei. Eu também estou feli
VALENTINAAlgumas famílias passam anos tentando encontrar a paz.A nossa precisou primeiro aprender a sobreviver ao caos.Talvez por isso eu tivesse aprendido a valorizar tanto as coisas pequenas.Um café tomado sem pressa.Kemilly correndo pela casa.Kelly tentando engatinhar atrás da irmã.Lorenzo me abraçando por trás enquanto eu preparava o jantar.Uma risada inesperada durante uma conversa.E, principalmente, ouvir uma voz que durante muito tempo acreditamos que talvez nunca mais ouviríamos.Dante.Depois de tudo o que aconteceu, eu aprendi que algumas recuperações não acontecem de uma vez.Elas chegam devagar.Em pequenos sinais.Um movimento dos dedos.Um olhar mais atento.Uma palavra.Um sorriso.E, naquele Natal, nós tivemos mais uma dessas pequenas grandes vitórias.Dante estava falando.Ainda com dificuldade.Ainda devagar.Ainda precisando de muito esforço para transformar pensamentos em palavras.Mas estava.E, para mim, aquilo era suficiente para fazer meu coração trans
ADRIANO Natal sempre teve um significado diferente para mim.Talvez porque, ao longo dos anos, eu tenha aprendido que uma família não é feita apenas pelos momentos felizes.Ela também é feita pelas perdas.Pelos erros.Pelas feridas.Pelos silêncios que duram anos.E, principalmente, pelas pessoas que escolhem voltar.Naquela véspera de Natal, minha casa estava cheia.Luzes espalhadas pelas janelas.A árvore ocupando o canto da sala.A mesa preparada.O cheiro da ceia tomando conta de cada cômodo.E, pela primeira vez em muito tempo, eu conseguia olhar ao redor sem sentir que faltava alguma coisa.Ou talvez faltasse.Talvez sempre faltasse.Porque havia uma ausência naquela família que nenhuma decoração, nenhuma festa e nenhum jantar conseguiriam esconder.Enzo.Meu filho.Durante anos, seu nome havia sido associado à dor.À vergonha.Às escolhas que eu gostaria de poder apagar.Mas um pai não consegue simplesmente apagar um filho.Mesmo quando o filho faz escolhas imperdoáveis.Mesm
AURORAVoltar para casa deveria ter sido simples.Era apenas uma viagem de volta.Algumas horas de avião, malas, saudade da família e, finalmente, nossa casa.Mas alguma coisa parecia diferente.Talvez fosse eu.Talvez fosse Gael.Ou talvez fosse simplesmente a sensação de que, depois daquela viagem, eu não era mais a mesma mulher que tinha embarcado.Eu estava casada.Estava feliz.E, pela primeira vez, não sentia vontade de correr.Quando o avião pousou, Gael segurou minha mão.— Chegamos.Olhei pela janela.— Chegamos.Ele beijou meus dedos.— Sentiu saudade?— Um pouco.— De mim?— Não.Ele fez uma expressão ofendida.— Como assim?Comecei a rir.— Senti saudade da minha família.— Então você não sentiu saudade de mim?— Não.— Aurora...— Estou brincando.Ele estreitou os olhos.— Você vai pagar por isso.— Estou com medo.— Deveria.Ri.Ele me beijou rapidamente.— Eu senti muita saudade de você.— Nós estávamos juntos.— Mesmo assim.Sorri.— Eu também.---Quando chegamos à ca
VALENTINAKelly tinha apenas algumas semanas de vida quando decidi que era hora de levá-la até Dante.Eu sabia que Lorenzo não gostava muito da ideia.Não porque não quisesse que tio e sobrinha se encontrassem.Mas porque ainda havia um medo silencioso nele.Um medo que ninguém dizia em voz alta.E eu entendia.Dante ainda estava se recuperando.Depois de tudo o que havia acontecido, cada pequena evolução parecia uma vitória.Ele ainda passava boa parte do tempo na cadeira de rodas.Ainda tinha dificuldades para falar.Algumas palavras saíam incompletas.Outras simplesmente não saíam.Seus movimentos eram limitados.Mas ele estava consciente.Estava presente.E, principalmente, estava tentando.Isso era suficiente para mim.Naquela manhã, eu estava sentada no sofá com Kelly nos braços.Ela dormia tranquilamente.Pequena.Perfeita.Lorenzo entrou na sala e parou diante de nós.— Você realmente quer ir hoje?Olhei para ele.— Quero.— Ela ainda é muito pequena.— Eu sei.— Valentina...
AURORAEu sempre imaginei como seria uma lua de mel.Quando era criança, achava que seria algo parecido com os filmes.Um lugar lindo.Um hotel enorme.Um casal apaixonado.Flores.Jantares à luz de velas.Talvez uma praia paradisíaca.Mas nunca imaginei que, quando finalmente chegasse a minha vez, a parte mais bonita não seria o lugar.Seria a pessoa ao meu lado.Eu estava sentada no avião, olhando pela janela, enquanto Gael segurava minha mão.— Está nervosa? — ele perguntou.Virei o rosto.— Um pouco.— Por quê?— Não sei.Ele sorriu.— Está com medo de viajar comigo?— Talvez.— Depois de tudo que já fizemos juntos?— Exatamente por isso.Ele riu.— Aurora...— O quê?— Você está oficialmente casada comigo.Olhei para minha mão.O anel ainda parecia novo.Ainda parecia estranho.Meu marido.A palavra fez meu coração acelerar.— Eu sei.— Parece real?Balancei a cabeça.— Ainda não.Ele beijou minha mão.— Para mim também não.Encostei a cabeça no ombro dele.— Você está feliz?Ele







