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Proibidamente Sua
Proibidamente Sua
Author: Autora NB

PRÓLOGO

Author: Autora NB
last update publish date: 2026-05-14 07:38:05

LETÍCIA

Confesso que eu preferia mil vezes que ele tivesse me traído com um homem.

É absurdo? Talvez.

Mas naquele momento… qualquer coisa seria menos humilhante do que aquilo que meus olhos estavam vendo.

Porque não era só traição.

Era mentira.

Era encenação.

Era ele me abraçando todos os dias, me chamando de amor, me olhando nos olhos… enquanto me fazia de idiota.

E não foi com qualquer mulher.

Foi com ela.

A “secretária”.

A “amiga de infância”.

A mulher que ele jurava, com a maior naturalidade do mundo, que era como uma irmã.

Irmã.

Eu solto uma risada baixa, amarga, completamente quebrada.

Claro.

Faz todo sentido.

Tudo faz sentido agora.

Os atrasos.

As mensagens apagadas.

Os “vou trabalhar até mais tarde”.

As vezes em que ele parecia distante… frio… ausente.

Tudo estava ali.

Sempre esteve.

Eu que não quis ver.

Eu que escolhi confiar.

Eu que escolhi amar.

Idiota.

Estupidamente idiota.

Meus olhos continuam presos naquela cena.

Os dois na minha cama.

Na nossa cama.

Os lençóis bagunçados.

O corpo dela exposto sem o menor pudor.

E ele…

Ele em cima dela.

Como se eu nunca tivesse existido.

Como se tudo que a gente construiu fosse nada.

Como se eu fosse nada.

— Letícia, por favor… — a voz dele corta o silêncio.

Eu nem sei em que momento ele percebeu que eu estava ali.

Mas agora ele está se afastando dela, se levantando rápido demais, desesperado demais, tentando vestir a calça como se isso fosse apagar o que eu vi.

Como se fosse possível voltar no tempo.

Como se fosse possível consertar isso.

Não é.

Nunca vai ser.

— Não me toca.

Minha voz sai baixa.

Fria.

Cortante.

Ele congela por um segundo.

Mas então vem na minha direção mesmo assim.

— Leti, por favor… me escuta.

— Pra você é Letícia.

Eu levanto o olhar e encaro ele de verdade.

E Deus…

Como eu fui capaz de amar esse homem?

— Seu estrume. — minha voz falha, mas eu continuo. — Infeliz.

Atrás dele, ela continua deitada.

Nua.

Sem vergonha.

Sem culpa.

Sem absolutamente nada.

Só… um sorriso.

Um sorriso pequeno, lento, cheio de deboche.

Como se estivesse assistindo a um espetáculo.

Como se eu fosse a palhaça da história.

E talvez eu seja mesmo.

— Eu tenho nojo de você, Enzo. — digo, sentindo minha garganta queimar. — Nojo de mim por ter deixado você me tocar.

Eu me viro antes que ele veja meus olhos marejando e caminho direto até o guarda-roupa.

Abro com força.

Minhas mãos tremem.

Meu corpo inteiro treme.

Mas eu não posso parar.

Se eu parar… eu desmorono.

Pego duas malas.

Começo a jogar roupas dentro sem nem olhar.

Vestidos.

Blusas.

Calças.

Nada importa.

Nada ali parece mais meu.

Nada ali parece real.

— Letícia, calma… — ele tenta de novo, a voz agora mais baixa, quase suplicante. — Vamos conversar—

— Conversar? — eu rio, um riso seco, sem vida. — Você quer conversar agora?

Eu me viro bruscamente.

— Você jogou uma vida inteira fora, Enzo! — minha voz sobe, ecoando pelo quarto. — Uma vida inteira por uma maldita noite!

— Não foi assim.—

— Não foi assim? — repito, incrédula. — Eu acabei de pegar você com ela na nossa cama!

— Foi um erro!

— Não. — balanço a cabeça devagar. — Não foi.

Eu aponto pra ele.

— Erro é esquecer uma data. Erro é perder um compromisso. Isso aqui… — aponto para os dois — …isso aqui é escolha.

O silêncio pesa.

Mas não dura.

Porque ela se mexe.

Devagar.

Preguiçosa.

Como se nada daquilo fosse com ela.

— Já acabou o drama? — a voz dela é doce demais… falsa demais.

Eu fecho os olhos por um segundo.

Respiro.

Mas quando abro…

A raiva já tomou conta.

Eu caminho até ela.

Passos firmes.

Controlados.

Paro a poucos centímetros da cama.

— Fica quieta. — digo, baixo, mas carregado de ameaça. — Eu não estou falando com você.

Ela ergue uma sobrancelha.

Sorri.

— Mas devia. — dá de ombros. — Afinal… eu estou na cama dele.

Aquilo acerta em cheio.

Como um soco.

Meu corpo inteiro reage.

Minha mão até se move.

Mas eu paro.

Eu paro porque sei…

Se eu encostar nela, eu acabo com tudo.

E eu não vou me rebaixar a isso.

Não por eles.

Nunca.

— Aproveita. — digo, recuando um passo. — Aproveita bem. Porque homem que trai uma vez… trai sempre.

O sorriso dela vacila.

Só por um segundo.

Mas eu vejo.

E isso basta.

Eu volto para as malas.

Fecho com força.

— Aproveita que ela está aqui. — continuo, sem olhar pra ele — e pede ajuda pra arrumar suas coisas.

— Minhas coisas? — ele franze a testa.

Eu rio.

Frio.

Vazio.

— E vai os dois pra casa do caralho.

O silêncio cai.

Pesado.

Cortante.

E então ele fala.

— Eu acho que você deveria arrumar suas coisas e ir pra casa do caralho.

Eu paro.

Devagar.

Viro o rosto.

— O quê?

Ele cruza os braços.

Seguro.

Frio.

— Esse apartamento está no meu nome.

Meu coração falha.

— Não. — nego automaticamente. — Não. Eu paguei esse apartamento. Eu paguei tudo.

— Pagou. — ele dá de ombros. — Mas lembra quando deu problema com seus documentos?

Eu fico em silêncio.

Meu estômago revira.

— Você colocou no meu nome até resolver.

Não.

— Você resolveu… — ele continua — …mas nunca transferiu de volta.

O mundo gira.

— Então… — ele se aproxima um pouco mais — …esse apartamento é meu.

Silêncio.

Total.

Absoluto.

E então eu entendo.

Não foi só traição.

Foi cálculo.

Foi interesse.

Foi traição em todos os sentidos possíveis.

— Você é um maldito. — minha voz sai baixa.

— Sou prático. — ele responde.

Algo dentro de mim se parte.

De vez.

— Infeliz. — digo, com desprezo. — Filho de chocadeira. Porque eu me recuso a acreditar que você é filho do Adrian. Eu nunca vi duas pessoas tão diferentes compartilharem o mesmo sangue.

O nome pesa no ar.

E, por um segundo…

Ele hesita.

Mas é rápido.

— Vaza da minha casa, corna. — ela dispara.

Acabou.

Eu não falo mais nada.

Não olho mais.

Não sinto mais.

Eu só ando.

Saio do quarto.

Passo pelo corredor.

Entro no escritório.

Minhas mãos ainda tremem quando pego minhas pastas.

Documentos.

Minha vida.

Reduzida a papéis.

Eu não levo mais nada.

Nada daquele lugar me pertence.

Eu saio.

Sem olhar pra trás.

Porque se eu olhar…

Eu fico.

E eu não posso ficar.

Nunca mais.

---

O elevador demora.

Cada segundo ali dentro é uma tortura.

O silêncio.

O reflexo.

Eu me encaro no espelho.

Olhos vermelhos.

Respiração irregular.

Cabelos bagunçados.

Essa sou eu agora.

Uma mulher que acabou de perder tudo.

Quando a porta abre, o som da chuva invade o ambiente.

Forte.

Constante.

Pesada.

Eu caminho até a saída.

Vejo o vidro molhado.

A cidade cinza.

— Droga… — murmuro.

Só faltava isso.

Mas talvez…

Talvez seja melhor assim.

Coloco as pastas dentro da mochila.

Jogo nas costas.

E saio.

A água me atinge com força.

Gelada.

As roupas grudam no meu corpo.

Meu cabelo encharca.

E então…

Eu paro.

No meio da calçada.

Deixo a chuva cair.

Deixo tudo cair.

As lágrimas vêm.

Mas ninguém vê.

Porque a chuva esconde tudo.

Perfeito.

Eu rio.

Baixo.

Quebrado.

— Parabéns, Letícia… — sussurro. — Você conseguiu.

Dou alguns passos.

Sem direção.

Sem rumo.

Sem nada.

Até que…

Um carro para ao meu lado.

Preto.

Luxuoso.

Imponente.

Meu coração aperta.

Eu já sei.

A janela abaixa lentamente.

E lá está ele.

Adrian Cortez.

Os olhos escuros fixos em mim.

Sérios.

Intensos.

Diferentes.

Ele me observa por alguns segundos.

Como se estivesse lendo tudo que eu não disse.

E então, com a voz firme, autoritária… impossível de ignorar:

— Entra no carro, Letícia!

{...}

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