FAZER LOGINADRIAN CORTEZ
Eu já tinha visto muita coisa nessa vida.
Negócios sujos.
Homens mentindo olhando nos meus olhos.
Traições mascaradas de lealdade.
Mas aquilo…
Aquilo me fez apertar o volante com tanta força que meus dedos chegaram a doer.
A chuva caía pesada, quase violenta, batendo contra o para-brisa enquanto o limpador tentava inutilmente manter alguma visibilidade. E foi ali, no meio daquele cenário cinza e caótico, que eu a vi.
Letícia.
Sozinha.
Molhada.
Pequena demais diante de um mundo que, claramente, tinha acabado de desabar sobre ela.
Meu maxilar travou.
Que porra o meu filho fez dessa vez?
Porque não… não era normal. Não era só uma briga. Não era um desentendimento qualquer.
Eu conhecia aquela postura.
O jeito como ela andava sem direção.
Os ombros caídos.
O olhar perdido.
Aquilo era dor.
E não era pouca.
Pisei no freio antes mesmo de pensar duas vezes.
O carro parou ao lado dela, e por alguns segundos eu apenas observei.
A água escorrendo pelo rosto dela.
Os lábios trêmulos.
Os olhos… vermelhos.
Aquilo não era só chuva.
— Entra no carro, Letícia! — minha voz saiu firme, autoritária, sem espaço para discussão.
Ela virou o rosto devagar.
E quando nossos olhares se encontraram…
Algo estranho aconteceu.
Algo que eu não soube nomear na hora.
Mas eu senti.
Forte demais.
Os olhos dela estavam molhados, sim.
Mas não era só por causa da chuva.
Era tristeza.
Era raiva.
Era algo quebrado ali dentro.
E, por um instante, ela hesitou.
Claro que hesitou.
Letícia sempre foi orgulhosa demais pra aceitar ajuda fácil.
Principalmente de mim.
Eu abri a porta antes mesmo que ela tivesse tempo de recusar.
Saí do carro, sentindo a chuva pesada molhar meu terno em segundos.
Ela deu um passo pra trás.
— Não precisa, Adrian… eu—
— Chega. — cortei, firme.
Segurei o braço dela.
E foi aí que aconteceu.
Contato.
Simples.
Direto.
Mas intenso demais.
A pele dela estava fria por causa da chuva… mas, mesmo assim, eu senti.
E ela também.
Porque o corpo dela reagiu.
Sutil.
Mas eu percebi.
Sempre percebo.
— Você está tremendo. — falei, baixo, encarando ela.
— É só a chuva… — ela desviou o olhar, tentando se soltar.
Não deixei.
Abri a porta do carro e a conduzi pra dentro com cuidado, mas sem dar espaço pra discussão.
Ela protestou.
Claro que protestou.
— Eu não preciso disso, eu vou me virar, eu...
— Foda-se você se virar, Letícia. — fechei a porta com mais força do que o necessário e entrei no carro logo depois.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Carregado.
Denso.
Eu liguei o carro novamente, mas não arranquei.
Virei o rosto devagar pra ela.
Ela estava encolhida no banco.
Molhada.
Respiração descompassada.
E linda.
Perigosamente linda.
Meu olhar desceu por um segundo.
A roupa grudada no corpo dela por causa da chuva.
O contorno marcado.
A pele arrepiada.
Droga.
Eu fechei os olhos por um instante.
Controle, Adrian.
Controle.
— Eu gostaria de saber… — minha voz saiu mais baixa agora, mas ainda firme — …por que você está debaixo de chuva, desse jeito e chorando.
Ela virou o rosto na minha direção.
E, por um segundo, parecia ofendida.
— Como você sabe que eu estou chorando?
Eu soltei um riso sem humor.
— É nítido.
Silêncio.
Ela desviou o olhar.
E foi aí que a ficha caiu de verdade.
Aquilo não era só uma discussão.
Era algo maior.
Muito maior.
Meu maxilar travou novamente.
— Quem fez isso com você?
Ela demorou a responder.
Respirou fundo.
E quando falou…
A voz saiu amarga.
Quebrada.
— Você não acreditaria.
Meu estômago revirou.
Mas eu já sabia.
Eu conhecia meu filho.
Conhecia as falhas dele.
Mas queria estar errado.
Por uma vez.
— Enzo? — falei o nome devagar, controlando a raiva que começava a crescer dentro de mim. — Foi aquele infeliz? O que ele fez?
Ela soltou uma risada fraca.
Sem humor.
Sem vida.
— Me traiu.
As palavras vieram secas.
Diretas.
Sem rodeio.
Eu fechei os olhos por um segundo.
Mas ela continuou.
— Com a secretária. — pausou. — E me expulsou do apartamento que eu paguei.
Silêncio.
Total.
Absoluto.
E então…
A raiva veio.
Forte.
Violenta.
Crua.
Minhas mãos apertaram o volante com força.
— Eu não posso acreditar numa putaria dessa… — minha voz saiu baixa, mas carregada de ódio. — Esse não é o homem que eu criei.
Mas talvez fosse.
Talvez eu tivesse ignorado sinais.
Talvez eu também tivesse fechado os olhos.
Droga.
— Mas ele vai me pagar. — continuei, olhando pra frente. — Ele vai aprender.
— Não precisa, Adrian. — ela cortou rápido. — Pelo amor de Deus.
Eu virei o rosto pra ela.
— Você está defendendo ele?
— Não. — ela respondeu firme. — Eu só… não quero mais confusão. Eu vou pra um hotel.
— Nem pensar.
A resposta saiu automática.
Sem filtro.
Sem espaço.
— Você vai pra minha casa.
Ela me encarou.
— Não precisa. Eu tenho meus pais.
— Seus pais estão em outro estado, Letícia. — falei com calma, mas firme. — E sua vida está aqui.
Ela desviou o olhar.
Insegura.
Vulnerável.
— Eu não quero incomodar.
Eu soltei um suspiro.
Inclinei levemente o corpo na direção dela.
Mais perto.
Perto demais.
— Não é incômodo nenhum.
Ela levantou o olhar.
E, por um segundo…
A gente ficou assim.
Próximos.
Demais.
O ar dentro do carro parecia mais pesado.
Mais quente.
Minha atenção caiu nos lábios dela.
Ainda levemente entreabertos.
Respiração irregular.
Droga.
— Felizmente… — comecei, mantendo o olhar preso ao dela. — …você não é mais minha nora.
O silêncio caiu.
Pesado.
Carregado de algo que nenhum dos dois nomeou.
Mas estava ali.
Claro.
Presente.
Ela engoliu seco.
— Felizmente?
A pergunta veio baixa.
Mas cheia de significado.
Eu sustentei o olhar dela.
Sem recuar.
Sem desviar.
— Sim. — respondi, com a voz mais grave do que o normal.
Porque a verdade era simples.
Perigosa.
E eu já estava começando a perceber.
Letícia nunca foi só a namorada do meu filho.
E, naquele momento…
Ela definitivamente deixou de ser só isso.
E isso…
Isso era um problema.
Um grande problema.
Mas, estranhamente…
Eu não estava com vontade nenhuma de fugir disso.
Soltei o cinto.
Inclinei ainda mais o corpo.
Parei a poucos centímetros dela.
— Você vem comigo. — falei baixo, firme. — E dessa vez… não é um pedido.
Os olhos dela vacilaram.
A respiração falhou.
E, por um segundo…
Eu tive a impressão de que ela não ia dizer não.
{...}
LORENZOEu aprendi muito cedo que carregar o sobrenome Cortez significava carregar muito mais do que um nome.Significava expectativas.Responsabilidades.Histórias que não eram minhas, mas que, de alguma forma, sempre fizeram parte de mim.Durante anos, observei meus pais construírem uma vida juntos depois de enfrentarem coisas que poderiam ter destruído qualquer pessoa. Vi meu pai perder a memória, vi minha mãe sofrer, vi os dois se encontrarem novamente quando tudo parecia perdido.Também vi minha tia Sophia e Matteo construírem a própria história.Cresci cercado por pessoas que me ensinaram que família não era apenas sangue.Era escolha.Era presença.Era permanecer.Talvez por isso eu tivesse me tornado tão protetor.Principalmente com Aurora.Olhei para o relógio no pulso enquanto atravessava o corredor da Cortez Holdings.Oito e quarenta e sete da manhã.Eu estava atrasado para uma reunião que deveria ter começado às oito e meia.Não porque eu tivesse me atrasado.Porque alguém
ENTRE NÓSTodos os direitos reservados!+18Continuação do livro: Proibidamente SuaSINOPSEAgora é hora de conhecer a nova geração Cortez.Depois de tudo o que Adrian, Letícia, Sophia e Matteo viveram, chegou o momento de acompanharmos uma nova geração escrevendo suas próprias histórias. Dessa vez, vamos conhecer mais de perto Lorenzo e Aurora e descobrir que crescer dentro de uma família tão intensa também significa enfrentar novos desafios, novas escolhas e, principalmente, novos sentimentos.Aurora Cortez tem vinte anos, está terminando a faculdade e acredita saber exatamente o que quer para sua vida. Ela cresceu cercada por amor e por uma família que sempre esteve ao seu lado. Além disso, tem em Lorenzo não apenas o seu tio, mas também um dos seus melhores amigos e uma das pessoas em quem mais confia.Lorenzo Cortez tem vinte e cinco anos e já assumiu a direção da Cortez Holdings. Ele cresceu vendo tudo o que seus pais enfrentaram e, depois de tantos anos, está pronto para constru
ADRIANCinco anos.É estranho pensar em tudo que aconteceu nesse tempo.Às vezes parece que foi ontem.A noite de chuva.O acidente.O vazio na minha mente.A sensação de acordar sem saber quem eu era.Por muito tempo, achei que perder minhas lembranças significava perder uma parte da minha vida.Mas hoje eu entendo que algumas coisas nunca podem ser apagadas.O amor.A família.As pessoas que realmente pertencem a nós.Essas coisas ficam.Mesmo quando a memória falha.O sol entrava pelas grandes janelas da mansão Cortez enquanto eu observava o jardim.Meu filho corria pela grama com toda a energia que uma criança de cinco anos poderia ter.O sorriso dele sempre me lembrava Letícia.A mesma alegria.A mesma luz.— Pai!A voz dele me tirou dos pensamentos.Ele correu até mim e abriu os braços.Eu me abaixei e o peguei no colo.— O que foi, campeão?Ele sorriu.— A mamãe falou que eu tenho que tomar cuidado porque eu corro muito.Eu ri.— Ela está certa.Ele fez uma careta.— Mas eu sou
ADRIANEu sempre achei que os momentos mais importantes da vida seriam aqueles em que eu conquistaria algo.Uma empresa.Uma vitória.Um objetivo.Mas eu estava errado.Os momentos que realmente importavam eram aqueles em que eu tinha alguém para compartilhar.A primeira vez que segurei Sofia nos braços.O dia em que Letícia entrou no meu carro em uma noite de chuva.O nascimento do nosso filho.O momento em que recuperei minha memória.E agora...O dia em que eu escolhi Letícia novamente.O casamento tinha acabado.Mas a sensação permanecia.Eu ainda conseguia sentir a mão dela na minha.Ainda conseguia ouvir sua risada.Ainda conseguia lembrar do olhar dela caminhando até mim.Era engraçado.Eu tinha passado tanto tempo tentando recuperar meu passado.Mas o futuro sempre esteve esperando por mim.---LETÍCIAEu olhava para Adrian enquanto todos comemoravam.Ele parecia em paz.E eu sabia o motivo.Pela primeira vez em muito tempo, ele não estava tentando recuperar nada.Não estava t
ADRIANAlgumas histórias começam com um encontro inesperado.Outras começam com uma promessa.A nossa começou com uma noite de chuva.Com uma escolha.Com uma mulher entrando no meu carro sem saber que mudaria completamente a minha vida.Durante muito tempo, eu achei que tinha perdido essa história.Minha memória apagou momentos.Apagou detalhes.Apagou rostos que eram importantes.Mas agora eu lembrava.E, mais do que lembrar...Eu estava vivendo novamente.O casamento estava próximo.E, pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que tudo estava no lugar.Não era apenas uma cerimônia.Era uma renovação.Uma escolha.Eu e Letícia já tínhamos vivido uma vida inteira juntos.Tínhamos enfrentado perdas.Dor.Medo.Mas também tínhamos vivido amor.E agora iríamos escolher um ao outro novamente.---LETÍCIAEu nunca imaginei que teria outro casamento com Adrian.Quando nos casamos pela primeira vez, eu acreditava que aquele seria o começo da nossa história.Eu não sabia que teríamos que l
LETÍCIADepois de tudo que enfrentamos, eu achava que nunca mais teria medo de perder a felicidade.Mas a verdade era que, quando uma pessoa passa por uma grande perda, ela aprende a valorizar ainda mais os pequenos momentos.E aquele era um deles.Um dia simples.Um dia de celebração.Um dia em que nossa família estava reunida não por causa de uma tragédia, mas por amor.O batizado do nosso filho.Eu olhava ao redor e ainda parecia impossível.Meses atrás, eu não sabia se Adrian voltaria.Não sabia se ele conheceria nosso filho.Não sabia se veria minha família completa novamente.Mas ele estava ali.Ao meu lado.Segurando a mão do nosso bebê.E sorrindo.---ADRIANEu nunca pensei que um dia uma cerimônia tão simples significaria tanto para mim.O batizado do meu filho não era apenas uma celebração religiosa.Era uma prova de que nós sobrevivemos.De que, apesar de tudo que tentaram tirar de nós...Ainda estávamos aqui.Eu olhei para Letícia.Ela estava linda.A mesma mulher que um







