Inicio / Romance / Protegida Pelo CEO Bilionário / Capítulo 2: Manoela Ferraz

Compartir

Capítulo 2: Manoela Ferraz

Autor: Laura Ricci
last update Fecha de publicación: 2025-06-18 20:40:33

Londres nunca me pareceu tão fria quanto hoje.

Não por causa da temperatura lá fora, que até está mais amena do que de costume, mas por dentro. Pela bagunça silenciosa que me acompanha desde que voltei pra casa do meu pai depois da aula.

Ele estava deitado no sofá, com o rosto pálido e as mãos trêmulas, segurando o controle remoto como se aquilo pudesse distrair a dor que ele não admite sentir. Eu trouxe um pouco de chá, mas ele não tomou. Disse que estava cansado. E eu entendi.

Talvez mais do que gostaria.

Há semanas ele está piorando. Disfarça, claro. Meu pai sempre foi desses homens que acreditam que doença é fraqueza, que sofrer é um luxo. Mas eu vejo nos olhos dele. O cansaço. O medo. A fragilidade que ele tenta esconder por trás de piadas ruins e notícias da Globo.

Pior do que isso é não ter minha mãe pra dividir esse peso.

Ela morreu há pouco mais de um ano. Câncer. Aquele tipo que te leva rápido, sem tempo pra barganhar. E foi a dor dela que me fez me reaproximar do meu pai — depois de anos de distância, acusações, silêncios longos demais.

No fim, ele foi quem me ajudou a conseguir a bolsa pra vir estudar gastronomia aqui. E eu prometi que faria tudo valer a pena. Mesmo quando o coração doía. Mesmo quando perdi o namorado com quem achava que passaria a vida.

Ele me disse que precisava de tempo. Tradução: tinha outra.

Foi três dias depois do velório da minha mãe.

Não tive nem chance de odiá-lo de verdade.

Só fiquei... vazia.

É por isso que estou aqui, às oito e meia da noite, no meu terceiro turno da semana no The Hollow Oak. O pub é movimentado nas sextas — e hoje não é diferente. Gente demais, risos altos, música boa e copos se acumulando no balcão como se houvesse um prêmio no fim da noite.

— Manu! — O gerente me chama. — Mesa sete pediu mais duas rodadas. Apressa o passo!

— Já tô indo — respondo, puxando a bandeja com as bebidas.

Sorrio para os clientes, mesmo sem vontade. Atendo pedidos. Anoto gorjetas. Troco piadas com os bêbados simpáticos e ignoro os comentários dos inconvenientes. Faz parte.

Londres me ensinou a fingir bem.

É quando volto ao balcão pra pegar mais gelo que o vejo pela primeira vez.

Ele está vindo em minha direção, alto, elegante, com uma postura que denuncia algum tipo de poder — e a camisa social clara dobrada nos antebraços revela músculos discretos, mas marcados. Ele tem a barba por fazer e o cabelo loiro ondulado, um pouco bagunçado como se tivesse passado a mão várias vezes.

Mas é nos olhos dele que eu paro. São dourados.

Sim, dourados.

Como mel aquecido à luz da tarde.

Ele se aproxima e pede uma cerveja amarga. Dou meu melhor sorriso profissional.

— Temos uma IPA que faz isso bem — digo, e sirvo sem pestanejar.

— Você parece saber do que está falando.

— Trabalhar aqui há dois anos me deu um diploma informal em ressacas — brinco, e ele sorri.

É um sorriso pequeno, tímido, como se ele não sorrisse com frequência. E ainda assim, é bonito. Um pouco triste. Mas bonito.

— Parece que vim ao lugar certo.

Conversamos por alguns segundos. Trocamos frases sobre o clima — algo tão britânico que chega a ser ridículo — e ele comenta sobre o sol suspeito que apareceu hoje. Respondo que também fico desconfiada quando o céu decide ser gentil. Ele ri, e o som é rouco, baixo, quase íntimo.

Mas logo um dos amigos dele grita, zombando da nossa conversa, e ele volta pra mesa. Ainda assim, noto que vira o rosto para me olhar mais uma vez antes de sentar.

E eu? Eu volto ao trabalho como se nada tivesse acontecido.

Mas algo aconteceu.


O pub vai ficando mais cheio, mais barulhento, mais caótico. Os clientes já estão claramente mais bêbados. Uma mulher vomitou atrás do sofá da área externa. Dois caras discutiram por causa de uma aposta no bilhar. Típica sexta.

Meu turno terminou há vinte minutos, mas fiquei pra ajudar. E também... pra ver se o loiro dos olhos de mel voltava ao balcão.

Não voltou.

Quando finalmente tiro o avental e me preparo pra ir embora, vou ao banheiro feminino lavar o rosto. No caminho, escuto um som abafado vindo do banheiro masculino. Algo entre um soluço e o som de alguém... vomitando.

Bato levemente na porta.

— Oi? Tá tudo bem aí?

Nenhuma resposta.

Empurro a porta devagar. Lá está ele. O homem da camisa social dobrada, ajoelhado no chão, com as mãos nos joelhos e a cabeça tombada pra frente. O cheiro não é dos melhores. Mas o que me preocupa é o estado dele.

— Ei... você tá bem?

Ele ergue os olhos devagar, como se estivesse emergindo de um lugar profundo. Os olhos estão vidrados, vermelhos.

— Emma... — ele balbucia, quase um sussurro. — O bebê... eu vi ela... eu...

Não entendo nada. Mas reconheço o tipo de dor.

Esse homem não está só bêbado. Está quebrado.

— Quer que eu chame seus amigos? — pergunto, abaixando um pouco pra falar no nível dele.

— Não... por favor... — ele estende a mão e segura meu pulso, firme, mas não agressivo. — Me leva pra casa.

— Pra sua casa?

Ele apenas assente, com dificuldade. A testa suada. Os olhos marejados. O orgulho todo deixado ali, no chão gelado do banheiro do pub.

Suspiro e fico de pé.

— Tá bom. Espera aqui.

Volto ao bar e falo com o gerente. Digo que alguém passou mal, que vou ajudar. Ele bufa, mas não me impede. Meu turno já tinha acabado mesmo. Pego minha bolsa, visto o casaco e volto ao banheiro.

— Vamos — digo, estendendo a mão.

Ele tenta se levantar, falha, e ri de si mesmo. Então eu o ajudo com cuidado. Ele é pesado, mas está mais consciente do que imaginei. Com o braço apoiado nos meus ombros, vamos até o estacionamento.

— Onde está seu carro?

Ele aponta, com o dedo trêmulo, para um Volvo preto. Caminhamos até lá, e eu o ajudo a destravar.

— Você tem certeza de que quer ir sozinho?

— Me leva só até lá… só isso… por favor.

Assinto devagar. Ainda não sei por que estou dizendo sim para um homem que acabei de conhecer — um completo estranho — mas algo nele, no jeito como os olhos dourados ainda ardem mesmo na dor, me diz que ele não é perigoso. Só está... quebrado. Como eu.

— Me dá as chaves — peço, estendendo a mão.

Ele vasculha os bolsos e as entrega sem resistência. Seus dedos roçam os meus por um segundo, e a pele está fria.

— Entra — digo, contornando o carro e abrindo a porta do motorista.

Ele se acomoda no banco do passageiro com dificuldade, encostando a cabeça no vidro como se aquele movimento esgotasse todas as forças que ainda tinha.

Dou partida no carro, e saímos devagar do estacionamento. A cidade segue viva lá fora, cheia de luzes, vozes e caos. Mas dentro daquele carro, tudo parece mais silencioso.

Não trocamos palavra nenhuma.

E, ainda assim, sinto que aquela noite vai mudar alguma coisa.

Não sei o quê.

Nem sei por quê.

Mas sinto.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Protegida Pelo CEO Bilionário   Capítulo 65: Ravi Bonetti

    O hospital cheira a pureza e medo ao mesmo tempo. Aquele cheiro de antisséptico que sempre me lembrou a morte hoje tem outro significado: vida. Vida que está prestes a explodir em cor, som e movimento bem diante dos meus olhos.Manu está deitada na maca, as pernas apoiadas, respirando fundo enquanto mais uma contração a atravessa. Eu seguro sua mão com força — talvez mais do que deveria — mas ela não solta. Pelo contrário: ela aperta de volta. Como se dissesse que também precisa de mim para se manter de pé. Ou melhor… para trazer nossas filhas ao mundo.Nossas filhas.A palavra ainda é nova, ainda é mágica. Gêmeas. Eu demorei horas para acreditar quando o médico sorriu para nós no último ultrassom e disse: “Parabéns, vocês têm duas guerreirinhas aqui dentro.”Dois milagres. Duas razões para agradecer todos os dias por não ter desistido quando tudo desabou.Mais uma contração vem, e Manu geme, seu rosto se contorcendo em dor. Eu passo a mão em seu cabelo, ao mesmo tempo em que tento nã

  • Protegida Pelo CEO Bilionário   Capítulo 64: Ravi Bonetti

    A vista da cobertura sempre parece diferente quando Manu está aqui.O céu fica mais claro, a cidade mais silenciosa, o ar mais leve.Ou talvez seja apenas eu — pela primeira vez em muitos anos, completamente presente, sem dor corroendo a nuca, sem a sombra de Helena me puxando para o fundo.Hoje era o dia que eu nunca achei que veria acontecer.Roger estava preso.Manu estava livre.E nós… nós estávamos aqui, juntos, vivos.Daniel falava alguma coisa sobre prazos e formalidades jurídicas, mas minha mente não conseguia se fixar. Eu apenas observava Manu rindo baixinho com Lourdes, as mãos acariciando a barriga já arredondada, o brilho nos olhos iluminando a sala inteira.— Você está muito calado — Daniel comentou, enquanto eu servia vinho para ele.— Estou processando — respondi. Processando que tudo acabou. Que ela está segura.Que posso respirar.— E agora? — ele perguntou.Agora?Agora era a primeira vez que eu me permitia pensar em futuro.Lourdes voltou da cozinha com os pratos li

  • Protegida Pelo CEO Bilionário   Capítulo 63: Manoela Ferraz

    Eu achava que estava pronta.Mas, quando o carro parou diante do tribunal, minhas mãos ficaram frias, meu estômago embrulhado e minhas pernas tremeram de um jeito que denunciam mais do que qualquer palavra poderia dizer.Ravi me ajudou a descer, sua presença firme ao meu lado. Daniel vinha logo atrás, com uma pasta tão pesada quanto a responsabilidade que ele carregava.— Vai dar tudo certo — Ravi murmurou, segurando minha mão.Eu assenti… mas não acreditei de verdade.As portas do tribunal se abriram e o som ecoou, um estalo violento que correu pelos meus ossos. O corredor parecia interminável. Cada passo aumentava a pressão no meu peito. Quando entramos na sala de audiência, eu o vi.Roger.Sentado, de terno escuro, barba por fazer, olhar frio. Ele não sorriu, não debochou… mas aquela serenidade falsa fez meu estômago virar do avesso. Ele parecia calmo demais. Perigoso demais.“Você nunca vai se livrar de mim”, era o que aqueles olhos costumavam dizer. Ali, mesmo sem palavras, dizia

  • Protegida Pelo CEO Bilionário   Capítulo 62: Ravi Bonetti

    A porta do quarto se fechou com um click suave, isolando o mundo e seus perigos do universo que existia apenas para nós dois. O ar ainda carregava o cheiro doce do shampoo que ela usara horas antes, um aroma de jasmim e segurança que agora se misturava à eletricidade do desejo. Ela estava em meus braços, leve como uma pena, mas pesando como todo o meu mundo. Seus olhos, ainda um pouco úmidos, não paravam de me encarar, desafiadores e vulneráveis ao mesmo tempo.— Você é linda — a frase saiu de mim como um fato, uma verdade absoluta que não precisava de embelezamento.Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, enterrou os dedos no meu cabelo e puxou meus lábios para os dela novamente. Era um beijo diferente agora – menos hesitante, mais faminto. Era a fome de quem tinha passado tempo demais na seca e finalmente encontrava o oásis.Com uma delicadeza que eu nem sabia possuir, a deitei sobre o edredom de algodão, a cama cedendo sob nosso peso combinado. Meu corpo cobriu o dela, mas im

  • Protegida Pelo CEO Bilionário   Capítulo 61: Ravi Bonetti

    O elevador parecia demorar uma eternidade para chegar ao último andar. O som metálico do motor, o reflexo da minha expressão tensa nas paredes de aço — tudo me fazia sentir como se estivesse preso dentro de um pesadelo que eu não conseguia acordar. Carlos havia me ligado há menos de meia hora, e desde então, a única coisa que ecoava na minha cabeça era a palavra flores.Quando as portas se abriram, caminhei pelo corredor largo da cobertura com o coração martelando no peito. O apartamento estava iluminado, a voz de Lourdes ecoava vinda da sala de jantar, e por um instante, aquela cena simples — risadas contidas, o som de xícaras sobre o pires — me fez lembrar que ali dentro havia vida, havia calor.Mas bastou eu cruzar a porta para o instinto tomar o controle.Manu estava sentada à mesa, o rosto ainda pálido, as mãos entrelaçadas sobre a barriga. Carlos estava ao lado, em posição de alerta, e Lourdes tentava disfarçar a tensão servindo chá. Assim que ela me viu, os olhos marejaram — e

  • Protegida Pelo CEO Bilionário   Capítulo 60: Roger Delavega

    O turno na delegacia tinha terminado, mas o verdadeiro trabalho só começava quando as luzes frias da repartição se apagavam. É nas sombras que se encontra o que a justiça nunca alcança — e, naquele dia, eu estava decidido a alcançar Manoela.Dirigi até o bairro nobre de Londres, o mesmo endereço que eu já havia decorado, graças ao relatório que consegui com meu contato. O nome Ravi Bonetti ainda pulsava na minha cabeça como uma ofensa pessoal. Um homem de posses, influência, poder. E agora, o novo “herói” da minha esposa.Encostei o carro do outro lado da rua, num ponto discreto, de onde podia observar o portão da cobertura. A segurança era absurda — câmeras, vigilantes, carros de luxo entrando e saindo. Era o tipo de lugar que nem o vento entrava sem ser anunciado.Esperei quase uma hora até vê-los saírem. Ela, Rosa — aquela velha intrometida — e um homem grande, claramente o segurança particular.Quando Manoela apareceu, meu corpo reagiu antes da mente.O vestido claro moldava a cur

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status