Mag-log inGIOVANNA | Thiago Aparece
---A primeira vez que Thiago apareceu foi numa terça-feira.Uma semana após a formatura.Giovanna estava na cafeteria, aquele período morto entre o almoço e o café das cinco, quando o movimento diminuía e o tempo arrastava.Limpava as mesas metódica como sempre. Pano úmido em movimentos circulares. Recolhendo mGIOVANNA + CRISTIAN | Epílogo GIOVANNA Lua nasceu numa segunda-feira deoutubro às quatro e quarenta e dois da manhã. Havia algo de correto naquele horário — antes do amanhecer, naquele azul específico que São Paulo tem quando a noite ainda não terminou mas o dia já começou a se organizar do outro lado. O horário em que eu havia aprendido, ao longo de dois anos, que as coisas mais importantes chegavam: as decisões que ficavam claras quando todo mundo dormia, as conversas que saíam quando a guarda estava baixa, os primeiros cafés que eram preparados para a casa antes que a casa acordasse. O horário do tipo de clareza que só existe quando o resto para. Lua chegou com o peso que os médicos haviam calculado quase exatamente, com aquela forma de recém-nascido que é simultaneamente a coisa mais vulnerável e mais extraordinária que existe no mundo, com os olhos que na primeira semana ficaram fechados a maior parte do tempo e que quando abriam tinham aquela cor indefinida de começ
CRISTIAN | A Reação dos GêmeosContamos os dois ao mesmo tempo.Não havia ensaiado — havia combinado com Giovanna que ia ser simples, direto, com as palavras que eram verdadeiras e que não precisavam de elaboração. As crianças entendiam honestidade melhor do que narrativa construída para proteção.Bento e Betina estavam sentados na mesa da varanda com o café da manhã na frente, os dois com aquela postura de atenção máxima que assumiam quando havia informação importante chegando.— Vamos ter um bebê — disse Giovanna.Silêncio.Bento ficou olhando para ela.Depois para mim.Depois para ela de novo.— Quando? — disse ele.— Em outubro — disse Giovanna. — Mais ou menos.— Mais ou menos?&n
GIOVANNA | O Que Não Disse AindaHavia uma coisa que eu sabia desde o começo de fevereiro e que havia guardado por três semanas enquanto encontrava o jeito certo de dizer.Não era medo.Era a consciência de que havia coisas que precisavam de forma específica de chegar — não anunciadas, não dramáticas, mas com o cuidado de quem sabe que o que está sendo dito vai mudar a forma como o outro organiza o mundo a partir dali.Esperei até um sábado de manhã.Os gêmeos ainda dormiam. O café estava pronto. O jardim com as lavandas que estavam em segundo florescimento do ano — Dona Célia havia explicado que lavanda florescia duas vezes e que a segunda era mais discreta que a primeira mas igualmente real.Cristian estava na varanda quando fui até ele.Sentei ao lado.
CRISTIAN | ResoluçãoRamos pediu demissão do conselho.A notícia chegou por e-mail de Ediberto numa manhã de sexta-feira, seco e factual como tudo que vinha de Ediberto: Ramos comunicou sua saída do conselho por razões pessoais. Reunião de transição na próxima semana. Beatriz Monteiro propõe candidatura para presidência do conselho.Li duas vezes.Fui até a varanda com o café.O jardim estava com aquela qualidade do verão — o calor, as lavandas reagindo à temperatura com a exuberância. Havia algo cíclico naquilo que eu havia aprendido a apreciar: o jardim que voltava. A constância das lavandas que faziam o que faziam independentemente do resto.Havia esperado que isso produ
GIOVANNA | Janeiro NovamenteJaneiro voltou.Este era diferente.Era o de casada, de projeto na Vila Matilde, de Miguel que havia ido do corredor de avaliação silenciosa para o Miguel que entrava na sala e escolhia a cadeira perto da janela porque havia aprendido que a cadeira perto da janela estava disponível para ele toda segunda-feira às nove.Constância. Era sempre constância.Tinha um hábito novo.Saía de casa às sete e quarenta, passava pelo café da esquina que havia descoberto no caminho para o metrô — não o café de São Paulo de pessoa importante com reunião, o café de bairro com o balcão de fórmica e o dono que sabia o pedido sem precisar
GIOVANNA | Zona LesteO projeto começou numa segunda-feira de junho.A escola ficava na Vila Matilde — prédio de dois andares com a pintura que precisava de segunda camada e o pátio que precisava de segunda atenção mas que tinha aquela qualidade específica de lugar que existe de verdade, que não foi construído para ser bonito mas para funcionar, que carregava o peso de anos de crianças que haviam passado por ele.Cheguei às oito.A diretora, Marta Lima — nome diferente de Dona Marta, mas com algo no modo de apertar a mão que era parecido — havia me recebido com o tipo de direto que eu respeitava imediatamente: nada de protocolo desnecessário, nenhuma condescendência de quem recebe alguém de fora, só a apresenta&cce







