A Estagiária Destemida e o Playboy Mimado

A Estagiária Destemida e o Playboy Mimado

last updateLast Updated : 2026-09-03
By:  sandmmoreiraUpdated just now
Language: Portuguese
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O plano era simples: um visto, um cargo e nenhum sentimento envolvido. Marina está a um passo de realizar seus sonhos nos Estados Unidos, mas o tempo está acabando. Sem o sonhado green card, sua vida em Nova York tem data de validade. Desesperada para não ser deportada e perder tudo o que construiu, ela se vê diante de uma proposta tão absurda quanto tentadora. Ethan é o herdeiro de um império, mas sua reputação nas colunas sociais diz o contrário. Entre festas e manchetes escandalosas, seu avô lhe dá um ultimato: ou ele prova que se tornou um homem de família responsável, ou o cargo de CEO será apenas uma lembrança distante. Para assumir o controle da empresa, Ethan precisa de uma esposa e precisa com urgência. Um encontro por acaso une a necessidade de Marina com a conveniência de Ethan. O trato é claro: dois anos de casamento, convivência pública impecável e benefícios mútuos. Entretanto, à medida que as câmeras se apagam e as portas da cobertura se fecham, o playboy bagunceiro e a estagiária determinada descobrem que fingir paixão é fácil, o difícil é resistir à química que não estava prevista em nenhuma cláusula. Em um contrato onde tudo é negociável, eles só esqueceram de avisar ao coração que o amor não faz parte do acordo.

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Chapter 1

# Capítulo 1 — Ar fresco

O e-mail tinha três parágrafos. Marina leu o primeiro e entendeu. Leu o segundo e confirmou. Leu o terceiro e fechou o notebook devagar, como se o gesto delicado pudesse mudar alguma coisa.

Não podia.

"Lamentamos informar que, no momento, a Whitmore Group não dispõe de recursos para patrocinar vistos de trabalho para posições de estágio."

No momento. Como se houvesse outro momento, como se ela pudesse sentar ali, na cadeira giratória do departamento de marketing, e esperar o momento certo chegar enquanto o prazo do OPT derretia feito sorvete no asfalto de julho.

Ela olhou ao redor, ninguém tinha percebido nada. Kyle continuava mastigando a tampa da caneta. Jessica ria de alguma coisa no celular. O ar-condicionado zumbia naquela frequência irritante que ela já tinha aprendido a ignorar. O mundo seguia funcionando, só o dela que tinha acabado de parar.

Marina pegou o celular, abriu a conversa com Priya e digitou: "Não vão patrocinar." Apagou. Digitou de novo: "Pri, ferrou." Apagou de novo e guardou o celular no bolso.

Precisava de ar.

Não do ar-condicionado reciclado do vigésimo segundo andar. Ar de verdade, do tipo que bagunça o cabelo e faz os olhos arderem.

Ela já tinha descoberto o terraço por acidente, no segundo mês de estágio, quando se perdeu procurando a sala de reunião do quadragésimo andar e acabou empurrando uma porta que não deveria estar destrancada. Desde então, subia sempre que precisava ligar para mãe sem que ninguém ouvisse ela falar português no meio do open space, ou quando precisava chorar — o que, nos últimos meses, tinha se tornado quase a mesma coisa.

A porta rangeu, o vento bateu no rosto dela e levou embora pelo menos uma camada de desespero.

Manhattan se estendia lá embaixo, barulhenta e indiferente. Marina foi até a mureta, apoiou os cotovelos e soltou o ar devagar. Contou até cinco em português, porque contar em inglês nunca funcionava para se acalmar.

Um. Dois. Três. Qua...

"Você também veio fugir?"

Marina se virou tão rápido que quase derrubou o crachá.

Tinha um cara sentado no chão, encostado na parede, com as pernas esticadas e um pacote de Doritos apoiado na barriga. Terno azul-marinho que parecia caro. Gravata frouxa pendurada como se tivesse perdido uma briga com ela. Tênis, tênis brancos e meio sujos, no lugar do sapato social.

Ele sorriu. Um sorriso torto, meio preguiçoso, que ocupava mais espaço no rosto do que deveria.

"Desculpa.” Marina disse, endireitando a postura. "Não sabia que tinha alguém aqui."

"Ninguém sabe. Esse é o charme." Ele levantou o pacote de Doritos na direção dela. "Quer?"

"Não, obrigada."

"Tem certeza? São os de pimenta. Os bons."

"Tenho certeza."

Ele deu de ombros e enfiou a mão no pacote. "Tudo bem, sobra mais pra mim."

Marina se virou de volta para a mureta, ia ignorar, respirar o ar fresco, reorganizar o pânico em algo produtivo, e descer. Simples assim!

"Dia ruim?" ele perguntou, com a boca meio cheia.

"Dia normal."

"Mentira. Ninguém sobe aqui num dia normal, aqui é território de gente que tá fugindo de alguma coisa."

Marina apertou os lábios. "E você tá fugindo de quê?"

"De uma reunião sobre métricas de engajamento do terceiro trimestre." Ele fez uma careta. "Que é basicamente a mesma coisa que fugir da morte, só que a morte pelo menos não tem PowerPoint."

Ela não queria rir, não era hora de rir, mas o canto da boca traiu.

Ele percebeu. Claro que percebeu.

"Ah, quase. Quase saiu um sorriso."

"Não saiu nada."

"Saiu sim. Eu vi. Bem ali no canto." Ele apontou para própria boca, indicando onde. "Pequenininho, mas contou."

"Você é sempre assim?"

"Assim como?"

"Inconveniente."

Ele pensou por um segundo, mastigando. "Sim. É tipo um talento natural."

Marina revirou os olhos, mas dessa vez não escondeu o sorriso. Não tinha energia para esconder.

O vento soprou mais forte e arrancou um fio de cabelo do coque dela, jogando na frente do rosto. Ela prendeu atrás da orelha com o gesto automático de quem faz isso trinta vezes por dia.

"Então," ele disse, "se não é a reunião de métricas, o que te trouxe para o clube dos fugitivos?"

Marina olhou para ele. Sentado no chão sujo de um terraço, de terno e tênis, comendo salgadinho como se o mundo não tivesse expectativa nenhuma dele. Devia ser de algum departamento que ela não conhecia. Vendas, talvez ou TI. Ele tinha cara de quem trabalhava em TI e se recusava a usar sapato social por princípio.

"Recebi uma notícia ruim," ela disse. Não sabia por que estava respondendo. Talvez porque ele era um estranho, talvez porque estranhos não cobram contexto.

"Que tipo de notícia ruim? Tipo 'o café acabou' ou tipo 'o mundo vai acabar'?"

"Tipo 'a minha vida como eu conheço vai acabar'."

Ele parou de mastigar. Por um segundo — só um segundo — alguma coisa mudou no rosto dele. O sorriso torto sumiu e apareceu outra coisa por baixo. Algo que parecia atenção de verdade, depois voltou.

"Bom," ele disse, limpando os dedos na calça do terno, "se serve de consolo, a minha também. Mas eu trouxe Doritos, então tecnicamente estou lidando melhor."

Marina soltou uma risada, uma de verdade, dessas que escapam antes de você decidir se quer rir ou não. Curta, meio rouca, e completamente involuntária.

"Você é impossível," ela disse.

"Obrigado! É a coisa mais gentil que me disseram hoje."

Ficaram em silêncio por um momento. Não era desconfortável, era o tipo de silêncio que acontece quando duas pessoas decidem, sem combinar, que não precisam preencher o espaço.

Marina olhou para o horizonte. Os prédios de Midtown recortavam o céu num tom de azul que não existia em São Paulo. Ela pensou na mãe e no pai, na cozinha pequena do apartamento em Pinheiros, no cheiro de café passado no coador de pano. Pensou em como ia contar para eles.

"Ei," ele disse, quebrando o silêncio. "Seja lá o que for, você vai resolver."

Ela olhou para ele. "Você nem sabe o que é."

"Não preciso. Você tem cara de quem resolve as coisas."

Era uma frase boba, genérica. O tipo de coisa que qualquer pessoa diria, mas ele disse olhando para ela de um jeito que não era genérico — como se estivesse lendo alguma coisa que ela não tinha mostrado.

Marina engoliu o nó na garganta.

"Tenho que descer," ela disse.

"Tá. Eu vou ficar mais um pouco, ainda tenho meio pacote."

Ela foi até a porta, empurrou e parou se virando para ele.

"Ei. Playboy de gravata."

Ele levantou as sobrancelhas.

"Obrigada! Pelos Doritos que eu não aceitei."

O sorriso torto voltou. "Quando quiser, mesmo horário, mesmo terraço. Trago os de queijo da próxima vez."

Marina saiu e deixou a porta fechar atrás de si. Desceu os lances de escada com o coração um pouquinho mais leve do que quando subiu — o que era irritante, porque ela não tinha pedido para nenhum estranho de tênis sujo melhorar o dia dela.

No bolso, o celular vibrou, era Priya.

"Tá tudo bem? Você sumiu."

Marina digitou rápido, descendo as escadas: "Tô bem! Te conto depois."

Não ia contar sobre o cara do terraço. Não tinha o que contar, mas quando chegou na sua mesa e sentou, percebeu que ainda estava sorrindo.

E isso era um problema.

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