FAZER LOGINCaroline arregala os olhos, empalidecendo ao perceber a linha sagrada que acabou de cruzar sem pedir licença.
— Me desculpa, amiga, por favor, eu falei totalmente sem pensar... Passo por ela e pego o porta-retrato sobre a mesa de cabeceira, cravando a imagem dos meus filhos na direção do rosto dela. — Olhe bem para o rosto da Zara e do Owen. Olhe bem para esses dois menininhos andando pela nossa sala todos os dias. Você teria a coragem de olhar nos olhos deles e dizer que eles não deveriam existir só porque o pai deles foi um covarde? Você seria capaz de apagar a vida dos meus filhos? O olhar de Caroline vacila, e vejo os olhos dela brilharem com lágrimas de puro arrependimento. — Não... meu Deus, não. Jamais. Eles são perfeitos, Hadasha. Perdoe-me, por favor. Eu fui uma idiota. Respiro fundo, puxando o ar com força para acalmar o tremor das minhas mãos. Coloco o porta-retrato com todo o cuidado de volta ao seu lugar de destaque e fecho os olhos por um segundo para afastar a onda de raiva. — Cada pessoa faz as escolhas que bem entende para a própria vida, e eu não estou aqui para julgar o mundo — declaro, com a voz recuperando a firmeza serena. — Mas essa nunca seria a minha escolha. Meus filhos foram desejados por mim a partir do segundo em que descobri que eles existiam dentro do meu ventre. Eles nunca foram um fardo ou uma dor de cabeça. Eles são a minha força. Caroline se aproxima devagar, estendendo a mão para tocar os meus dedos com delicadeza. — Me desculpe de verdade. Às vezes eu esqueço a dimensão de tudo o que você teve que suportar sozinha desde muito nova. Solto uma risada curta, desprovida de qualquer humor, lembrando da tempestade que enfrentei. — Como se fosse possível esquecer... — murmuro, encarando o vazio do corredor. Ainda consigo ouvir ecoando na minha mente as gargalhadas maldosas pelos corredores da universidade em Michigan nos primeiros meses. Lembro perfeitamente dos cochichos velados quando a minha barriga começou a despontar sob o moletom, dos apelidos cruéis que me deram por conta dos óculos gigantes e do aparelho metálico. As garotas populares e os rapazes babacas do campus disputavam para ver quem fazia a piada mais ácida: "Quem foi o louco desesperado que teve coragem de se deitar com essa assombração?", "Aposto que ele teve que usar uma venda nos olhos", "Venda nada, só se colocou um saco de lixo na cabeça dela para encarar o serviço e ainda deixou dois filhos de presente!" Olho diretamente para Caroline, deixando que ela veja a cicatriz daquelas memórias nos meus olhos. — Você estava lá. Você viu como aquelas pessoas me tratavam, ouviu os absurdos que diziam sobre a minha aparência enquanto eu andava de cabeça baixa. O que você queria que eu fizesse? Que eu saísse me rebaixando ao nível delas? Que me vestisse como uma vulgar qualquer e saísse me deitando com meio mundo só para provar para a sociedade que eu era desejável? — Não... claro que não — ela murmura, envergonhada. — Eu me valorizo, Carol — ergo o queixo, sentindo o orgulho legítimo da mulher que me tornei florescer no peito. — Eu não precisava provar nada para ninguém daquela faculdade. Então eu fiz o que qualquer mulher inteligente faria: fechei os meus ouvidos, me escondi atrás das minhas roupas largas, vivi exclusivamente para os meus filhos e estudei até ser a primeira da turma. O resultado está aqui. Concluí a faculdade com honras, passei na pós-graduação e fui contratada pela maior empresa do país. Caroline sorri, um sorriso sincero e cheio de admiração que desfaz qualquer resquício do nosso atrito. — E você venceu todas elas. Você tem toda a razão. Mas agora, minha querida amada, chega de discursos profundos porque o relógio está correndo contra nós. Balanço a cabeça, rindo do entusiasmo repentino dela. — Lá vem você de novo. — Nós temos exatamente o período em que a Zara e o Owen estão na escola para cumprir a maratona do seu novo começo — ela diz, pegando o celular e repassando a lista mental. — Primeira parada: oftamologista. Você vai fazer os exames atualizados, trocar esse modelo de óculos que cobre o seu rosto inteiro por algo moderno e funcional, e encomenda as lentes de contato. — Eu já disse que não vou abandonar os meus óculos 100% do tempo — aviso. — Não precisa abandonar, mas vai usar lentes no seu dia a dia de trabalho para o mundo enxergar o seu rosto de verdade! Segunda parada: o dentista para remover esse aparelho de vez e fazer um clareamento decente. Terceira parada: o salão de beleza para dar vida a esse cabelo. E quarta parada: shopping. Vamos renovar esse guarda-roupa com roupas de mulher executiva. — Caroline, nada de roupas escandalosas ou apelativas — me imponho, pegando minha bolsa sobre a cadeira. — Você me conhece. Eu sou uma pessoa discreta e continuarei sendo. ela pisca para mim enquanto abre a porta do apartamento. — Discreta sim, Hadasha. Invisível nunca mais.MENSAGEM DA AUTORAQueridos leitores,Obrigada pela paciência, pelo carinho e por terem acompanhado esta história até aqui.Quero lembrar que escrevo em tempo real. Os capítulos vão sendo desenvolvidos e publicados enquanto a história acontece. Eu ainda não descobri onde consigo visualizar todas as avaliações de vocês na plataforma, mas minha editora acompanha os comentários e, quando existe alguma falha ou alguma coisa que precisa ser corrigida, ela me avisa para que eu possa voltar ao capítulo e fazer a correção.Antes de encerrar, quero falar especialmente sobre Liv e sobre um dos assuntos mais delicados que escolhi abordar nesta obra: a interrupção da gestação.Eu sei que existem leitores que pensam diferente de mim e respeito o direito de cada pessoa ter suas próprias convicções. Entretanto, como autora, também tenho as minhas, e este livro carrega uma mensagem que considero importante.Eu sou contra o aborto.Não escrevi a história de Liv para atacar mulheres ou apontar o dedo
Olho surpresa para os meus filhos pequenos, depois encaro a Zara e o Owen:— Vocês dois por acaso aplicaram um experimento científico com os seus próprios irmãos na praia?Owen franze a testinha com toda a seriedade do mundo:— Ué, mamãe, a gente precisava confirmar a hipótese primeiro!Caleb não aguenta e começa a dar risada do filho:— Claro! Método científico aplicado na praia, certíssimo!— Papai, eles entendem e organizam padrões muito rápido — Zara explica com toda a solenidade de uma pesquisadora mirim apresentando os seus resultados. — Igualzinho a gente fazia quando era bem pequeno!— Acontece que vocês dois ainda são bem pequenos, meus amores — lembro a eles com um sorriso doce.Os dois fazem exatamente a mesma expressão de indignação no rosto:— Ah, mamãe!— Oito anos de idade não é mais ser criança pequena! — Owen protestou.Caleb passa o seu braço firme pelos meus ombros, me puxando para o seu peito:— Isso aí está cravado no DNA da família, não tem jeito.Viro o meu rost
A vida da Livy mudou de uma forma completamente emocionante e profunda depois do seu casamento com o Andrew. As três menininhas dele — Lisa, Mabel e Christine — se tornaram filhas do coração dela muito antes de qualquer documento oficial, guarda compartilhada ou sobrenome definir aquele vínculo sagrado. Depois delas, chegaram as crianças que os dois decidiram acolher com todo o amor do mundo através da adoção, e a Livy abraçou aquela maternidade com uma intensidade, uma generosidade e uma dedicação que ninguém jamais imaginaria ao conhecer a mulher fútil que ela foi anos atrás.— E o mais impressionante é que ela ainda fala em aumentar a família no futuro — Caleb comenta, admirado.Levanto a cabeça do seu ombro no mesmo instante, chocada:— Meu Deus! O Andrew que se prepare para essa maratona!— Ele sabia perfeitamente onde estava se metendo quando aceitou o desafio — Caleb brinca.— Sabia nada! As trigêmeas praticamente fizeram o pedido de casamento por ele antes mesmo que os dois da
EPÍLOGO — O REENCONTRO COM O NOSSO PARA SEMPRERADASHATRÊS ANOS DEPOISO tempo passa de uma maneira profundamente curiosa e imprevisível. Durante muitos anos da minha vida, cheguei a acreditar com absoluta convicção de que cinco anos inteiros de distância seriam mais do que suficientes para apagar uma história de amor, sepultar sentimentos antigos e transformar o Caleb apenas em uma vaga lembrança da minha juventude. Hoje, três anos após o dia em que subimos ao altar e dissemos o nosso "sim", olho com emoção para o homem incrível sentado ao meu lado e para os nossos filhos brincando felizes diante de nós, e percebo o quanto eu estava completamente enganada sobre o destino.Estamos novamente na Flórida, o mesmo refúgio litorâneo que escolhemos para a nossa inesquecível lua de mel e que, desde aquele momento, se tornou o lugar mais sagrado e especial para a nossa família. O fim da tarde pinta o céu com um gradiente magnífico de tons alaranjados e lilases sobre o mar calmo, enquanto fic
Liv quase estragou a maquiagem do casamento de tanto dar risada.Voltei a encará-la com carinho.— Sim, Liv, estou muito feliz, tenho meus filhos saudáveis, meu trabalho, minha família unida e o homem que eu amo ao meu lado.— Não significa que a nossa vida seja perfeita o tempo todo. Nós discutimos, discordamos, e o Caleb continua achando que pode aparecer em casa com animais abandonados sem me consultar antes.— Era só um gato filhote! — ele protestou novamente do corredor.— Naquela vez era só um, mas e da segunda? — retruquei.Liv estava praticamente chorando de rir.Segurei novamente as mãos dela com firmeza.— Eu desejo a você toda a felicidade do mundo nessa nova fase, Liv.— Obrigada, Radasha, de verdade.Nesse exato momento, Caroline apareceu na porta do camarim, fazendo uma cena.— Não vale! Isso é uma grande injustiça!Nós duas nos viramos para olhá-la.Ela entrou no quarto com uma expressão totalmente indignada, cruzando os braços.— O que é que não vale, Carol? — pergun
O FLUXO DO DESTINOUM ANO DEPOISÀs vezes ainda acho curioso pensar em tudo o que cabe dentro de apenas doze meses. — Há exatamente um ano, caminhei até Caleb diante de nossas famílias, entreguei minha mão a ele e fiz uma promessa que, durante muito tempo, acreditei que jamais teria coragem de fazer. Prometi confiar, conversar, não permitir que o silêncio voltasse a tomar decisões por nós. Hoje, no nosso primeiro aniversário de casamento, estamos novamente diante de um altar, mas desta vez não somos os protagonistas. — Estamos aqui como padrinhos de uma história que, de certa maneira, começou exatamente no dia em que a nossa se transformou em casamento.Liv escolheu se casar com Andrew na mesma data.Quando recebi o convite e percebi o dia escolhido, cheguei a pensar que se tratava de uma mera coincidência. — Só descobri que não quando estávamos nos preparando para a cerimônia e encontrei Liv alguns minutos antes de ela entrar.Ela estava diante do espelho, já vestida de noiva, aj







