登入Embora a unidade socioeducativa tivesse sido criada para receber e ressocializar adolescentes que haviam cometido infrações, também funcionava como uma sociedade em miniatura. Mesmo ali, a família de origem e o dinheiro ainda faziam diferença.Miguel era a prova disso.Por esse motivo, sempre dava um jeito de conseguir algumas balas.Naquela época, porém, ele não fazia ideia do que cada bala jogada para dentro da cela de isolamento representava para Camila, que estava trancada ali.Até que, certo dia, ela finalmente foi liberada.Depois do castigo, ela estava quase irreconhecível.Ainda assim, seus olhos continuavam brilhantes, como chamas que jamais se apagariam.Miguel tomou a iniciativa de perguntar o nome dela.Era a primeira vez que sentia um interesse tão intenso por alguém.— Você se chama Camila? Qual é o seu sobrenome?— Não quero dizer...— Então não vou perguntar. Você é Camila, e esse nome é muito bonito. Eu me chamo Miguel. De agora em diante, vou proteger você!Foi a pri
Cemitério Recanto da Saudade.O dia estava ensolarado, embora o ar ainda estivesse um pouco frio.Thiago estacionou ao pé da colina. Pelo menos, naquele dia, Miguel não ficaria diante da lápide debaixo da chuva até desmaiar, como da última vez.Mesmo assim, por precaução, tentou acompanhar ele na subida, mas Miguel não permitiu.Thiago já esperava por aquela reação.Miguel começou a subir sozinho os degraus de pedra. A longa escadaria se estendia diante dele, sem que fosse possível enxergar onde terminava.Seus passos eram lentos, como se as pernas estivessem pesadas demais.Por fim, chegou ao destino.O túmulo de Sofia estava ali.A lápide, no entanto, já não era igual à da última vez. Uma nova frase havia sido gravada: [Esposa de Miguel.]Miguel se curvou e estendeu a mão. Com a ponta dos dedos, acariciou aquelas palavras delicadamente.— Meu amor, vim ver você.Sua voz saiu baixa e carinhosa, levemente rouca.O túmulo tinha passado por uma reforma. Além da nova inscrição, agora
Diante da lápide de Sofia, a ferida que Henrique ainda não tinha conseguido cicatrizar se abriu mais uma vez, trazendo uma dor tão intensa que quase impedia ele de respirar.Seu tom parecia calmo, mas a voz tremia, apesar de todos os esforços para controlar.— Já trouxe você para ver Sofia. Agora vou embora...Assim que Henrique se virou, Miguel agarrou a gola da camisa dele com força.— Afinal, como você cuidou de Sofia?Miguel segurava a gola dele com as duas mãos, as veias saltadas no dorso.Seus olhos estavam injetados, e a fúria que não conseguia conter quase apagava toda a sua razão, como se Henrique fosse o único responsável pela morte de Sofia.— Enquanto eu estava inconsciente, você não era a única pessoa com quem Sofia podia contar? Ela tinha acabado de sair do hospital. Por que ainda precisou viajar a trabalho? Por que você não impediu que ela entrasse naquele avião?Henrique não respondeu a nenhuma das acusações.Sabia que Miguel estava apenas descontando nele toda a dor qu
Depois de quase duas horas na estrada, o carro finalmente diminuiu a velocidade e parou.Henrique desceu primeiro. Miguel saiu logo em seguida.Só então viu o nome gravado no alto do imponente arco de entrada.Cemitério Recanto da Saudade.Miguel arregalou os olhos e se virou bruscamente para Henrique.— Por que você me trouxe aqui?Assim que fez a pergunta, sua voz começou a tremer. Até sua respiração perdeu o ritmo.Henrique não respondeu. Apenas seguiu em direção ao interior do cemitério.Miguel permaneceu imóvel.Uma voz dentro de sua cabeça repetia sem parar que ele não podia continuar.Se desse mais um passo, teria que encarar uma verdade que jamais conseguiria suportar.Mas não havia outra escolha.Ele só podia acompanhar Henrique.O céu estava tão escuro que parecia noite. Entre as nuvens densas e carregadas, trovões distantes ecoavam de forma abafada.Como o acesso de veículos estava suspenso naquele horário, Henrique precisou conduzir Miguel a pé pelos degraus de pedra que
Do outro lado da linha, Henrique perguntou:— Já pode sair do hospital? Não vai me dizer que ainda nem consegue se levantar da cama.Dessa vez, Miguel ficou em silêncio.— Me ligue quando estiver recuperado.Henrique encerrou a chamada logo depois. Miguel deixou o braço cair, sem forças.Todos insistiam que ele precisava descansar e se recuperar, mas ninguém aceitava contar como Sofia estava.Miguel tentou ligar para ela outra vez. Como já esperava, o celular continuava fora de alcance.Ele permaneceu internado por mais de uma semana, até se recuperar o suficiente para receber alta. Durante todo esse tempo, não teve nenhuma notícia de Sofia.No dia em que saiu do hospital, ligou para Henrique.— Você disse para eu ligar quando estivesse recuperado. Já estou melhor.Mesmo pelo telefone, Henrique percebeu que a voz dele ainda estava muito fraca.— Então peça para o motorista levar você até a entrada da minha empresa.— Está bem.Miguel enviou para Thiago o endereço que Henrique tinha
Ao ver Miguel tentando sair da cama, os médicos e enfermeiros correram para impedir.— O senhor não pode levantar agora. Seu corpo ainda não se recuperou.Miguel afastou todos com violência, ignorando completamente os alertas.Ele tinha acabado de recuperar a consciência e estava extremamente debilitado. Assim que colocou os pés no chão, as pernas perderam a força, e Miguel caiu pesadamente.Os médicos e enfermeiros correram para ajudar e, pouco depois, transferiram Miguel para um quarto comum.Antônio, Eunice e Thiago estavam lá.Valdemar não.Muito fraco, Miguel permanecia deitado na cama, alternando entre momentos de lucidez e confusão.— Miguel, você faz ideia do quanto sua mãe e eu ficamos preocupados? Você escapou da morte por muito pouco.— É verdade. Não pode mais agir com tanta imprudência. Precisa descansar para seu corpo conseguir recuperar aos poucos.As vozes de Antônio e Eunice chegavam aos ouvidos dele sem parar, provocando uma irritação inexplicável.— Pai, mãe... e So







