FAZER LOGINRicardo
Fui avisado que a nova colega começaria hoje. Esperava que fosse alguém que realmente gostasse de trabalhar. Eu não tinha problema em ensiná-la, só queria que não fosse preguiçosa.
Depois do almoço, finalmente fomos apresentados.
Flávia. Esse era o nome dela.
Expliquei o que achei necessário para o primeiro dia. Ela se mostrou atenciosa, interessada, absorvendo tudo com atenção.
Mas algo mais me chamou a atenção.
Ela era bonita. Muito bonita.
Não que eu reparasse nas colegas de trabalho, mas Flávia realmente se destacava. Tinha uma voz doce, educada, um jeito delicado.
Porém, limitei meus pensamentos. Iríamos trabalhar juntos todos os dias. Eu não podia ficar reparando nela. Além disso, ela usava uma aliança, indicando que era casada.
Durante toda a semana, trabalhamos juntos e pude perceber que ela aprendia rápido. Por isso, na próxima segunda-feira, já estaria pronta para receber as primeiras tarefas.
Eram cinco da tarde quando me despedi dela. Peguei minhas coisas e segui para casa. O fim de semana foi tranquilo; não sai, apenas aproveitei para organizar tudo, já que na próxima semana precisaria trabalhar presencialmente todos os dias por conta da nova funcionária.
No sábado, acordei sem pressa, aproveitando a manhã para tomar um café reforçado e colocar algumas coisas em dia. Depois, passei boa parte do tempo organizando a casa—arrumei gavetas esquecidas, dei uma nova disposição aos móveis e até revisei alguns papéis que estavam acumulados. Foi uma sensação boa ver tudo mais arrumado. No final da tarde, preparei algo para jantar e relaxei assistindo a um filme.
O domingo seguiu o mesmo ritmo tranquilo. Tirei algumas horas para descansar, ouvir música e pensar na semana que estava por vir. Separei minhas roupas para os dias presenciais e fiz uma lista mental das tarefas que precisaria adiantar. No fim do dia, fechei o final de semana com um bom filme.
Na segunda-feira, saí cedo de casa para evitar o trânsito. Cheguei à empresa antes do horário, o que me permitiu tomar o café da manhã com calma antes de seguir para minha sala. Lá, revisei minha agenda e me preparei para receber a nova funcionária.
Trinta minutos depois, ouvi batidas na porta.
— Entre — respondi.
Ela entrou e cumprimentou:
— Bom dia, Ricardo.
Hoje pareceu ainda mais bonita do que na semana passada. Claro, sua aparência sempre foi agradável, mas havia algo a mais. Seus cabelos pretos emolduravam seu rosto de maneira elegante, a franja longa caía suavemente na lateral. O estilo impecável e o perfume discreto completavam sua presença.
Foco, Ricardo. Isso não é apropriado, ainda mais considerando que ela é casada.
Saí dos meus pensamentos e a cumprimentei:
— Bom dia, Flávia. Por favor, sente-se.
Apresentei a ela alguns documentos que deveria começar a avaliar. Flávia examinava tudo com atenção, absorvendo cada detalhe. Pedi que compartilhasse seu ponto de vista sobre o que havia entendido e o que poderia ser melhorado. Para minha surpresa, suas ideias eram precisas e perspicazes, cada observação traz um novo olhar para os processos.
— Esse balanço está errado — disse ela, circulando um campo no papel.
Olhei com mais cuidado e, de fato, havia um erro. Ela percebeu algo que tinha passado despercebido por mim, demonstrando uma habilidade analítica impressionante.
— Muito bem, Flávia, você está certa, realmente há um erro — disse a ela, reconhecendo sua observação precisa.
— Posso trazer meu computador para cá? — perguntou.
— Claro que pode.
Ela saiu e, pouco depois, voltou com seu computador. Compartilhamos uma planilha e começamos a revisar os relatórios, marcando os erros encontrados e confirmando os dados corretos. Flávia demonstrava grande eficiência e atenção aos detalhes. Quando o relógio marcou meio-dia, já havíamos avançado bastante.
— Flávia, pode parar agora e ir almoçar. Às duas, voltamos e continuamos.
Ela apenas acenou em concordância e saiu da sala. Fiquei ali mais um tempo organizando alguns documentos e, depois, também segui para o almoço.
Almocei rapidamente e logo voltei para o escritório. Antes de retomar o trabalho, chequei alguns e-mails e dei uma olhada no celular. O tempo passava sem pressa até que ouvi uma batida na porta—Flávia havia voltado, meia hora antes do horário combinado.
— Pode entrar — disse.
Ela se aproximou da mesa e, ao perceber que ainda estávamos adiantados, sugeri:
— Ainda falta meia hora, Flávia. Se quiser, pode aproveitar esse tempo para resolver algo que precise.
— Não, já fiz tudo o que precisava. Mas, se estiver incomodando, posso sair — respondeu.
— De forma alguma — respondi, tranquilizando-a.
Decidi adiantar algumas informações importantes para ajudá-la na familiarização com o trabalho.
— Bom, vou te enviar alguns e-mails com materiais essenciais para você conhecer melhor os clientes.
Enviei alguns documentos e, sem perder tempo, ela começou a analisá-los com atenção. Seu olhar sério acompanhava a tela do computador, e, vez ou outra, fazia perguntas pontuais. Enquanto falava, eu percebia seus dedos ágeis digitando algumas anotações—seu nível de concentração e organização era admirável.
— Certo, Flávia, podemos voltar à planilha.
Retomamos a revisão dos documentos, e como sempre, Flávia mantinha sua atenção absoluta em cada detalhe. Pontuava os erros que identificava, fazia perguntas sempre que surgiam dúvidas e demonstrava uma análise cuidadosa de cada dado.
— Ricardo, esses dois relatórios acredito que estão incompletos. Não possuem informações claras, diferentemente dos outros — disse, apontando as linhas da planilha que correspondiam aos relatórios.
Mais uma vez, ela tinha razão. Ao conferir os documentos com mais atenção, percebi que realmente havia inconsistências ali. Seu olhar analítico era impressionante, e naquele momento, tive a certeza de que teríamos uma excelente parceria de trabalho.
Reconhecendo a perspicácia de Flávia, abri um dos relatórios incompletos para examinar mais de perto.
— Você tem razão, essas informações estão vagas — admiti, passando os olhos pelas linhas do documento. — Precisamos encontrar os dados corretos para complementar isso.
Flávia digitou algo rapidamente em seu computador e, após alguns segundos, olhou para mim com um leve sorriso.
— Acho que posso resolver isso. Vou cruzar essas informações com outros relatórios e ver se consigo preencher as lacunas.
Fiquei impressionado com sua iniciativa. Ela não hesitava em buscar soluções e demonstrava uma segurança admirável no que fazia.
— Excelente ideia, Flávia. Se precisar de alguma orientação, me avise.
Ela acenou positivamente e se concentrou na tela do computador, enquanto eu revisava outros documentos ao lado. Por alguns minutos, a sala ficou em silêncio, preenchida apenas pelo som dos teclados sendo pressionados e o leve zumbido do ar-condicionado.
Até que, de repente, Flávia se virou para mim com um brilho nos olhos.
— Ricardo, acho que encontrei um padrão aqui. Veja isso!
Ela inclinou a tela do computador para que eu pudesse visualizar melhor, e, ao analisar os dados, percebi que sua observação fazia sentido.
— Impressionante, Flávia. Seu olhar analítico realmente faz a diferença.
Ela sorriu, satisfeita.
FláviaDepois daquele desespero, do medo de reviver tudo outra vez, tudo o que eu queria era estar nos braços de Ricardo. Eu não queria soltá-lo por nada no mundo. Sentia o coração ainda acelerado, como se meu corpo não conseguisse entender que o perigo já tinha passado.— Meu amor, está tudo bem… — ele repetia baixinho, passando a mão pelos meus cabelos, tentando me acalmar. — Eu estou aqui.Ele então passou o polegar devagar pela minha bochecha e disse com a voz baixa, quase num sussurro:— Vem, amor… vamos pro quarto.Assenti, ainda um pouco trêmula, e deixei que ele me guiasse. O som da chuva continuava lá fora, mas agora parecia distante, abafado pela batida calma dos nossos passos. Quando chegamos ao quarto, ele me puxou com delicadeza, me abraçando por trás, e falou perto do meu ouvido:— Vamos tomar um banho juntos, vai te fazer bem.Não havia desejo na voz dele, apenas cuidado. E foi isso que me desarmou completamente.Ele ligou o chuveiro e esperou a água esquentar antes de
AlineAs férias haviam acabado, e com elas também aquele período mágico ao lado de Alessandro. Foram dias que passaram rápido demais — como se o tempo tivesse pressa de me lembrar que a vida real me esperava do outro lado do oceano.Mas, eu voltava para casa com o coração leve. Não havia dúvidas, nem insegurança. Eu sabia o que sentia. Sabia o que queria.Nos despedimos no aeroporto com um abraço longo, daqueles que ficam na pele mesmo depois que o outro parte. Ele me olhou com aquele sorriso maravilhoso e disse:— Nos vemos no natal.E eu acreditei.Os primeiros dias sem ele foram estranhos. Eu ainda me pegava olhando para o celular a cada vibração, esperando uma mensagem, um “bom dia, linda”, ou uma foto qualquer do dia dele.As conversas continuaram, mas havia algo diferente agora. Não era mais apenas saudade. Era parceria. A distância parecia um detalhe diante do que sentíamos.Com o tempo, começamos a planejar novas visitas. Ele viria em alguns meses, e eu voltaria nas próximas f
AlineO dia foi simplesmente perfeito. A cidade parecia ter tudo — ruas cheias de vida, vitrines chamativas, cafés charmosos em cada esquina e aquele clima leve de férias que fazia tudo parecer mais bonito. Entramos em várias lojas, ele me mostrando os lugares que mais gostava, e eu me encantando com cada detalhe, cada risada, cada conversa boba que só fazia o tempo passar mais rápido.Quando a fome começou a apertar, ele me levou a um restaurante que, segundo ele, servia uma das melhores carnes da cidade. E realmente, ele não estava exagerando. O aroma que vinha da grelha já me deixou curiosa, e quando o prato chegou… era simplesmente perfeito: a carne no ponto certo, macia, suculenta, com aquele sabor que parecia derreter na boca.— Gostou? — perguntou ele, observando minha reação com um sorriso confiante.— Nossa, eu adorei — respondi empolgada. — Isso é delicioso, Alessandro!Ele riu, satisfeito. O almoço foi demorado, daqueles que a gente não quer que acabe. Depois, ele insistiu
AlineFinalmente férias. Finalmente eu poderia rever Alessandro depois de seis longos meses. Só de pensar nisso, meu coração já disparava. Durante todo esse tempo, mantivemos contato por mensagens, ligações e videochamadas, e, mesmo de longe, ele sempre encontrava um jeito de me fazer sorrir. Tudo com ele era leve, sincero, intenso — só faltava estarmos juntos de verdade.Engraçado pensar que eu, que sempre fui contra relacionamentos à distância, agora esperava ansiosamente por esse reencontro. Eu gostava da ideia, gostava da constância dele, da paciência, das palavras certas. E, no fundo, torcia para que, quando nos víssemos, tudo ainda estivesse ali — o carinho, a saudade e o desejo de estar juntos.O voo foi tranquilo. Nove horas exatas até o desembarque, mas a sensação era de que cada minuto durou uma eternidade. Assim que atravessei o portão de chegada, senti um frio na barriga. Andei devagar, tentando controlar a ansiedade, os passos pesados, as mãos suadas. Até que o vi.Lá est
FláviaEu olhava pela janela e via aquela chuva forte, pesada, que parecia não ter hora para parar. As gotas batiam no vidro com força, o som constante misturado aos trovões que, de tempos em tempos, estremeciam o ar. O dia inteiro estava assim — cinza, silencioso e arrastado.Caio, alheio a tudo, brincava na sala, cercado por seus carrinhos e blocos de montar. Eu o observava e pensava em como devia ser bom ser criança — viver em um mundo onde a única preocupação era construir pontes imaginárias e correr pela casa sem notar o peso das horas.Mas eu notava. E cada minuto parecia demorar uma eternidade.Olhei novamente para o relógio. Ricardo já devia ter chegado há muito tempo. Mandei mensagem mais cedo, apenas para saber se estava tudo bem. “Está chovendo muito, amor, dirige com cuidado.” Ele visualizou, mas não respondeu. Depois mandei outra, mais curta, só um “já está vindo?”, e dessa vez, nem visualizou.Tentei não me deixar levar pelos pensamentos, mas era impossível. A chuva, o a
FláviaTrês anos.Três anos desde o dia em que eu disse “sim” para o homem que transformou a minha vida de tantas formas. Às vezes, parecia que tinha sido ontem — e ao mesmo tempo, como se ele sempre tivesse feito parte de mim.Enquanto me arrumava diante do espelho, senti um nó leve na garganta. Não de tristeza, mas de emoção. Tantas coisas tinham acontecido desde então — desafios, alegrias, mudanças — e ali estávamos nós, mais maduros, mais cúmplices, mais certos de que tínhamos feito a escolha certa.Caio estava passando o fim de semana na casa dos avós, e pela primeira vez em meses, a casa estava em silêncio. Era uma sensação estranha, mas boa. Eu queria aproveitar cada segundo daquela noite, que seria só nossa.Ricardo apareceu na porta do quarto, observando-me com aquele olhar que ainda fazia meu coração bater mais rápido.— Você está linda — disse, com um sorriso que misturava admiração e ternura.— Obrigada — respondi, ajeitando o brinco e tentando disfarçar o rubor no rosto.







