FAZER LOGINSelene
A fortaleza inteira brilhava como se a própria lua a tivesse feito. Tecidos brancos pendiam dos arcos, flores prateadas desenhavam rios pelo corredor central, e o perfume doce de lavanda e gelo parecia lavar os medos que eu não admitia ter. Tália me vestiu com as mãos firmes de quem se recusa a chorar em datas felizes, o traje de noiva era um abraço de seda no meu corpo, leve e luminoso como a promessa de uma vida inteira. — Você está… — ela procurou uma palavra que não parecesse pequena demais — radiante. Sorri, e o sorriso devolveu a luz para os espelhos. — Hoje tudo fica simples, Tália. Eu e ele. Sem corredores escuros, sem segredos. Ela prendeu a última pérola no meu cabelo, devolveu-me o véu e o olhar. O olhar dizia outra coisa. — Ash anda inquieta. — sussurrei — Desde ontem. Respirei fundo. Dentro de mim, a loba se remexeu como água em panela no fogo. — “Ainda dá tempo de ouvir.” — ela arranhou, baixa, insistente. — Hoje não, Ash… — respondi sem voz, com o pensamento — Hoje, me deixa ser feliz. Do lado de fora, tambores começaram a marcação lenta do cortejo. Meu pai me esperava ao pé da escadaria, rígido no traje cerimonial, mas com os olhos molhados de vida. Ele ergueu a mão e eu a tomei, como quando eu era pequena e tinha medo do primeiro degrau. — Minha filha. — disse, e a palavra rachou a casca do Rei Lobo — Que a lua abençoe seu caminho. — Abençoa. — garanti — Eu a sinto. Ele quis dizer mais, qualquer coisa entre “orgulho” e “não vá”, mas os anciãos se aproximaram, as portas do grande salão se abriram, e a música nos puxou como maré. Demos o primeiro passo. A grande nave brilhava, cravejada de velas. Meu povo ocupava os bancos em fileiras de prata e carvão. Sorrisos, acenos, lágrimas. Eu sabia o nome de quase todos, o peso de seus sacrifícios, a textura de seus mimos, eram minha casa. Meu coração bateu feito louco no peito, era assombroso caber tanto amor em mim. Kaleb me esperava no altar, negro e prata. Os olhos âmbar, sempre eles, me encontraram como se o resto do mundo perdesse a cor. O velho sacerdote ergueu as mãos e a música cessou na exata medida do meu suspiro. — “Atenção.” — avisou Ash, afiada de repente. Eu estremeci. Kaleb viu. Sorriu. Um sorriso perfeito. — Você é só minha. — ele sussurrou quando chegamos perto o bastante para que ninguém mais ouvisse. — Sou. — respondi, contente com a leveza da decisão. O sacerdote falou sobre ciclos e trigo, sobre lobos que se encontram na trilha por onde a lua caminha, sobre a bênção dos deuses derramada quando duas histórias se escolhem. Cada palavra caía na minha pele como água morna. Eu só via a boca de Kaleb, o corte no lábio que eu conhecia com os dedos, a cicatriz escondida sob a túnica, o desenho dos ombros. Eu só ouvia a voz dele. — Aceita, Selene, filha de Eamon, herdeira do Luar, unir teu destino ao de Kaleb, para o que der e vier? — Aceito. — respondi, e a palavra me atravessou como vento. — Aceita, Kaleb, caminhar com Selene… A resposta dele veio doce, firme. Meus dedos tremiam dentro dos dele. O mundo estava exatamente onde eu sonhei que estaria. O sacerdote ergueu a taça de prata para o brinde do juramento. O véu deslizou mais um pouco sobre meu ombro e senti uma brisa arrepiar minha nuca, uma fresta de porta aberta, um vento frio vindo de algum lugar que eu não via. Ash rosnou, agora claramente. — “Não é vento. É cheiro de ferro.” Eu não tive tempo de virar. As portas do salão explodiram num estrondo de tempestade. A madeira voou em estilhaços, a música morreu com um grito engasgado, e a corrente de ar que entrou trouxe a verdade: cheiro de ferro. Sangue. Uma figura atravessou a fumaça de pó e noite. A primeira imagem que tive foi o brilho de olhos âmbar acesos demais, e um sorriso. Cruel. Familiar. Kaleb. Não o Kaleb que segurava a minha mão. O Kaleb que liderava, à porta, uma matilha vestida para a guerra. — O que…? — minha voz falhou, pequeno pássaro esmagado por uma rocha — Kaleb? O Kaleb junto a mim não soltou minha mão. Ao contrário, apertou. E riu, baixo, como quem finalmente chega em casa. — Hora de acabar com as histórias, pequena loba. Eu recuei um passo. O mundo, esse traidor, se inclinou. O altar se duplicou, um Kaleb parado ao meu lado, outro Kaleb avançando pelas portas com uma dúzia de lobos em armadura. O tempo perdeu a linha. Então o Kaleb ao meu lado largou meus dedos, deu um passo adiante e, diante do meu povo, inclinou a cabeça para o invasor. — Comecem. A matilha inimiga entrou com a fúria de marés negras. Até o primeiro grito, ainda era possível acreditar em sonho ruim. Mas gritos têm jeito de realidade. — Protejam a herdeira! — rugiu meu pai, sacando a espada. Tudo aconteceu depressa e ao mesmo tempo, como tempestades. Aço contra aço. Velas tombando. As flores brancas tingindo-se de vermelho a cada passada. Homens caindo. Crianças chorando. Eu, imóvel, tentando encontrar um lugar para caber. Kaleb, o meu, caminhou até mim com passadas calmas. Pegou meu queixo com dedos gentis. — Você… — eu tentei dizer “não”, “por quê”, “me abraça”. Saíram todas juntas, nenhuma inteira. — Shh. — O âmbar ardeu como ouro derretido — Não desperdiça fôlego com perguntas que não mudam a resposta. — Qual resposta? — Vingança. A palavra cortou o teto e pendurou ali como uma lâmina. Atrás dele, o sangue começou a desenhar rios no corredor. Não eram flores tingidas, não, eram meus, nossos. Eu vi Eamon, meu pai, cortar dois homens como quem corta o mar para me abrir caminho, e vi um terceiro alcançá-lo por trás. Gritei, mas o grito ficou preso no véu, no altar, nas paredes. A lâmina entrou e o corpo do homem que me ensinou a segurar o arco dobrou como espiga. Corri. Uma mão me agarrou pelos braços, outra tapou minha boca. — Calma. — disse Kaleb ao meu ouvido — Você vai ver tudo. É importante. Ash golpeou o meu peito por dentro como fera enjaulada. — “Morde. Luta. Corre.” Eu lutei. Lutei com a raiva, com o amor, com a falta de ar. Lutei contra a mão que me segurava e contra a certeza súbita de que a lua, essa velha senhora, riu de mim a vida toda.SeleneCinco anos depois do nascimento de Nyx, acordo todos os dias com o mesmo pensamento simples: — Eu tenho uma alcateia, amor e um lar.A fortaleza já não é só pedra e dever. As escadas sabem o nome das crianças. As janelas aprenderam a segurar o vento certo. E o meu coração aprendeu a caber inteiro entre dois braços, um de dia, outro de noite.Ser Luna Alfa dos Reis Alfas é menos glamour e mais rotina do que as lendas contam. E eu adoro isso. Meu dia começa com Fenrir batendo na porta do meu quarto antes do sol nascer, espada de madeira numa mão, maçã na outra.— Mãe, treinar? — ele pergunta, olhos brilhando.— Primeiro a maçã. — respondo, apontando para a mesa — E nada de acertar o pato no pátio. Ele já tem medo de você.Fenrir ri e come com pressa. É idêntico ao pai quando corre, passo firme, foco no que importa, zero paciência pra drama. Depois vem Nyx, que fala baixo de manhã e abraça forte. Ela encosta o nariz no meu pescoço e sussurra “bom dia” como quem me acende por den
DamonOs meses passaram mais rápido do que deveriam. A gestação de loba tem pressa de história. Eu continuei vigiando, continuamos amando, continuamos uma lar só, mesmo com corredores diferentes. Fenrir crescia para todo lado, parecia que o riso dele puxava a planta das hortas. Eu o coloquei no ombro, ele apertava meu nariz, eu fingia dor e ele ria mais. Às vezes, ele e Selene dormiam juntos na minha cama e eu ficava olhando os dois como quem vigia fogo para aquecer, não para queimar.Nyx chegou numa noite sem vento. Selene se preparou como rainha e como loba, lavou o rosto, prendeu o cabelo, pediu água com mel. Iara organizou o quarto outra vez, a curandeira alinhou o que precisava. Damian e eu tomamos nossas posições sem disputa. Um do lado, outro do outro, Selene no meio do mundo. Ash uivava baixo em algum lugar que não se vê, e eu agradeci à deusa por ter inventado vozes que nos salvam.Foi rápido. Selene sabe parir como sabe lutar, inteira. Quando o choro veio, eu me quebrei e
DamonAs semanas em que Selene dormiu só no quarto do meu irmão ensinaram a minha cama a fazer barulho. O colchão rangia quando eu virava, o lençol, sem o cheiro dela, parecia áspero, a janela insistia em bater de leve, mesmo sem vento. Eu não tinha percebido que a casa inteira se acostumou ao passo de Selene, ao aroma dela pela manhã, ao jeito como ela fechava a porta sem fazer barulho. Quando ela ficou apenas com o Rei do Dia, como devia ser, como decidimos juntos, eu entendi que a noite, por mais que me pertença, tinha aprendido a dividir lugar com o riso dela.Não vou dizer que foi fácil. Minha parte ruim quis arrombar a porta certa noite e arrancá-la do sono do sol. Minha parte boa ficou sentada na borda da cama, mãos nos joelhos, respirando até doer, repetindo o acordo como um rosário: “primeiro o herdeiro do dia, depois, o da noite, e, em todos os instantes, Selene pertence a si mesma”. Shadow, meu lobo, rosnava baixo, mas não para fora, rosnava em mim, lembrando de limite.—
DamianA vida com Selene, depois da guerra e do joelho do conselho no chão, não ficou mais simples. Ficou verdadeira. E verdade tem peso, bom de carregar, mas peso.O acordo que fizemos no salão das runas continua sendo o mesmo: “de dia, comigo, de noite, com Damon, e, em todos os instantes, consigo mesma”. Só que combinamos também a ordem dos herdeiros. Primeiro, eu. Depois, meu irmão. Selene aceitou sem mais, como quem escolhe caminho com os pés no chão. E, para cumprir a decisão, ela ficou só no meu quarto por um tempo, mesmo com a saudade explícita do toque do Rei da Noite.— Se eu olhar para a torre dele, você vai me trazer de volta? — ela brincou, certa noite, deitada no meu peito.— Nem precisa olhar. — respondi — Eu te trago de volta de olhos fechados.Ela riu, mas eu escutei a falta. Não de mim. Dele. E aprendi a não ter medo disso. A maldição morreu. O ciúme que sobrava era só eco. Quando aparecia, eu respirava até doer, lembrava que Selene é ponte, não corda para puxar, e
SeleneO capitão Halvar bateu o punho no peito. Uma curandeira que havia cuidado de mim na primeira noite acenou com os olhos. Damian deixou escapar o ar, aliviado. Damon inclinou a cabeça, sério.— A partir de hoje… — continuei — não somos três blocos tentando se encaixar. Somos uma alcateia só. O nome que levantamos juntos não cai com vento. Ele só cai se a gente largar.— E não vamos largar. — respondeu o conselho, num coro que me surpreendeu.Dois meses se passaram. O tempo, esse animal difícil, finalmente decidiu caminhar com a gente. A fortaleza, que antes trabalhava só para não ruir, começou a viver. As hortas cresceram de um modo que parecia milagre, e eu ouvi de Iara que milagre é só trabalho com a bênção certa. Plantamos mais canteiros de repolho, cenoura, beterraba, cebola, entre outros vegetais, legumes, verduras e frutas.As mulheres fizeram cercados novos, os homens ampliaram os currais. As vacas deram mais leite do que o previsto, o queijo curou bonito, os meninos pass
SeleneNo fim da batalha, quando a fumaça baixou e os gritos viraram apenas eco, eu caminhei entre os corpos com uma prancheta na mão, papel simples, lápis de carvão. Não era um ritual bonito. Era um dever. Eu precisava saber quem tinha voltado. Eu precisava olhar nos olhos dos vivos e dizer seus nomes em voz alta para que a vida escutasse.— Conte comigo. — disse Iara, ao meu lado, firme como sempre.Concordei. Atrás de nós, homens e mulheres erguiam macas, recolhiam armas, cobriam mortos com panos. O vale, que horas antes parecia aberto para engolir tudo, agora estava quieto. Quieto e pesado.Procurei primeiro pelos lobos de Calíope. Eles tinham vindo de longe, atravessando passagem e neve, pela promessa de justiça. Eu devia a eles algo mais que gratidão. Devia números. Devia verdade.— São os Lazzuri. — falou Dagan, apontando para um grupo reunido ao pé de uma rocha — Muitos feridos. Poucos inteiros.Eu me aproximei. Vi rostos que eu reconhecia do jantar da aliança… Thales, que ti







