INICIAR SESIÓNSelene
Dois anos se passaram desde a primeira vez que vi Kaleb na caverna. Dois anos de mentiras cuidadosas para meu pai, de fugas noturnas e segredos que floresciam como ervas daninhas no meu coração. Eu me perguntava, às vezes, se a lua teria errado ao me marcar tão cedo, se aquele amor proibido não seria apenas um delírio da minha juventude. Mas cada vez que Kaleb me olhava, cada vez que seu sorriso quebrava o ar pesado da fortaleza, todas as dúvidas sumiam. Ele não era mais o lobo ferido que eu escondi da morte. Voltou um homem imponente, corpo ereto, ombros largos, olhar firme. A cicatriz no flanco só o deixava mais forte, mais perigoso. A cada passo, parecia pertencer ao trono que jamais teria e, ainda assim, era meu. — Você está linda hoje. — ele me disse, numa das tardes em que nos encontrávamos no pátio interno. A voz dele tinha um tom grave que sempre me arrepiava. Sorri, tentando esconder o rubor. — E isso porque ainda não me viu com o vestido do noivado. O olhar âmbar brilhou como se fosse uma promessa. — Nenhum vestido do mundo vai conseguir competir com você. Meus pais demoraram a aceitar. Meu pai, principalmente, rugiu contra a ideia de me unir a um lobo sem nome, sem clã, com passado de exílio. Mas Kaleb, como sempre, soube dobrar os ventos a seu favor. Aos poucos, foi conquistando confiança, ajudando nos treinos, servindo em caçadas, mostrando-se leal à fortaleza. Sua devoção parecia indiscutível. Eu mesma o defendi diante do Conselho: — Não importa de onde ele veio, importa quem ele é ao meu lado. Se a lua me deu um companheiro, é porque nosso destino é maior que o orgulho das alcateias. A cada palavra, sentia que estava mais próxima do que sempre desejei… um amor verdadeiro, escrito na pele e no sangue. E então chegou o dia do noivado. A fortaleza se encheu de flores brancas, velas, música de tambores e flautas. O salão principal brilhou como se fosse feito de lua. Eu vestia branco, tecido leve que caía pelos ombros e deixava minhas costas nuas. Na cabeça, uma coroa simples de flores prateadas. Quando Kaleb entrou, o coração disparou. Ele estava de negro e prata, a cicatriz escondida sob a túnica, mas os olhos queimando em dourado. Sorriu como se só me visse, mesmo diante de toda a corte. — Está pronta, pequena loba? — perguntou ao segurar minha mão. — Sempre estive. — respondi, sem perceber que minhas palavras seriam também uma sentença. A cerimônia seguiu entre aplausos e brindes. Meus pais, embora contidos, se renderam ao clima da festa. Kaleb me jurou amor eterno diante de todos. O salão inteiro vibrou com nossos votos, e naquele instante eu acreditei que o mundo poderia ser simples… eu e ele, para sempre. Mas a noite só estava começando. Quando a música já tinha embriagado metade da corte e as luzes tremiam, Kaleb segurou minha mão com firmeza e sussurrou no meu ouvido: — Quero você só pra mim. Rimos discretamente, escapando pelo jardim escuro. O vento noturno agitava as tochas, e o perfume das flores misturava-se ao da chuva recente. Ele me encostou contra o tronco de uma árvore grossa, a sombra das folhas caindo sobre nossos corpos. — Kaleb… alguém pode nos ver… — protestei, mesmo já perdida no calor do corpo dele. — Que vejam. — ele rosnou baixo, os lábios colando-se aos meus — Você é minha. O beijo foi faminto, mais ardente que todos os segredos dos últimos anos. A língua dele invadiu minha boca, e minhas mãos subiram por seus ombros até se perderem no cabelo escuro. O corpo dele se colou ao meu, forte, firme, queimando como ferro em brasa. Senti as mãos ásperas deslizando por baixo do tecido leve do vestido, subindo pelas minhas coxas, pela curva da cintura. Arqueei, um gemido escapando quando seus dedos traçaram caminhos que eu nunca ousei imaginar. A lua parecia nos observar entre as nuvens, cúmplice e silenciosa. — Kaleb… — suspirei, perdida, quando sua boca deixou a minha para devorar meu pescoço. — Shhh… — ele sussurrou contra minha pele — Hoje você é só minha. A cada toque, a inocência que me restava se desfazia. Era paixão e fogo, um amor que me consumia inteira. Entreguei-me nos braços dele, deixei que me marcasse com beijos e mãos que sabiam exatamente como incendiar. Chegamos ao fim, mas foi como se tivéssemos atravessado a fronteira do impossível. Pela primeira vez, provei o gosto da paixão em sua forma mais crua. Quando a respiração se acalmou e me aninhei contra seu peito, fechei os olhos, convencida de que nada poderia nos separar. Ele, porém, olhou por cima da minha cabeça. O sorriso que se desenhou não era o mesmo que mostrou diante da corte. Era mais escuro, mais frio. Voltei para o salão ainda ofegante, os lábios latejando pelos beijos de Kaleb. A música já não me alcançava, o mundo parecia girar em torno apenas do que aconteceu no jardim. Eu tinha provado a paixão, e agora todo o resto parecia pequeno demais. Mas assim que pisei os corredores silenciosos do castelo, Ash, minha loba, ergueu-se dentro de mim como um trovão. — “Você enlouqueceu, Selene.” Fechei os olhos, apertando as mãos contra o peito. — Não comece, Ash. Hoje foi o dia mais feliz da minha vida. — “Feliz? Você não enxerga? Ele é perigoso. Há algo escuro demais nesse lobo.” — Não, você está errada. Kaleb sofreu, foi rejeitado, mas agora tem uma chance. Ele me ama. — “Amor não brilha com dentes afiados. Eu sinto o cheiro dele, e não é só desejo. É rancor. É como se cada toque fosse também uma promessa de destruição.” As palavras me gelaram, mas sacudi a cabeça. — Você só está com medo. Sempre foi desconfiada, sempre me puxa para trás. — “Porque eu nasci para proteger você! Eu vejo além dos olhos humanos. E o que vejo em Kaleb me assusta.” — Basta. — Minha voz saiu baixa, quase um sussurro — Eu escolhi acreditar. Ash rosnou dentro de mim, um som que fez meu corpo inteiro estremecer. — “Você está se entregando ao inimigo e nem percebe.” — Ele não é meu inimigo. — A frase saiu firme, embora minha garganta ardesse — Ele é meu destino. O silêncio que veio depois foi pesado. Senti Ash se recolher, mas não em paz. Era o silêncio de quem espera, de quem sabe que a queda já começou. Olhei meu reflexo na janela, o vestido branco ainda arrumado apesar da pressa dos beijos. Sorri para mim mesma, tentando abafar o eco da loba. — Talvez você não entenda, Ash… mas eu preciso desse amor. Preciso acreditar que, depois de tanta dor e de tanta regra, a lua finalmente me deu algo só meu. No fundo, ouvi o suspiro cansado dela, como vento entre árvores: — “Então que a lua tenha piedade de nós, porque você não está ouvindo o chamado do sangue.” Fechei a cortina para não ver minha própria hesitação refletida. No fundo, porém, a voz de Ash ainda ardia como brasa: — “Você está cometendo um grande erro.” E, mesmo assim, eu não quis ouvir.SeleneCinco anos depois do nascimento de Nyx, acordo todos os dias com o mesmo pensamento simples: — Eu tenho uma alcateia, amor e um lar.A fortaleza já não é só pedra e dever. As escadas sabem o nome das crianças. As janelas aprenderam a segurar o vento certo. E o meu coração aprendeu a caber inteiro entre dois braços, um de dia, outro de noite.Ser Luna Alfa dos Reis Alfas é menos glamour e mais rotina do que as lendas contam. E eu adoro isso. Meu dia começa com Fenrir batendo na porta do meu quarto antes do sol nascer, espada de madeira numa mão, maçã na outra.— Mãe, treinar? — ele pergunta, olhos brilhando.— Primeiro a maçã. — respondo, apontando para a mesa — E nada de acertar o pato no pátio. Ele já tem medo de você.Fenrir ri e come com pressa. É idêntico ao pai quando corre, passo firme, foco no que importa, zero paciência pra drama. Depois vem Nyx, que fala baixo de manhã e abraça forte. Ela encosta o nariz no meu pescoço e sussurra “bom dia” como quem me acende por den
DamonOs meses passaram mais rápido do que deveriam. A gestação de loba tem pressa de história. Eu continuei vigiando, continuamos amando, continuamos uma lar só, mesmo com corredores diferentes. Fenrir crescia para todo lado, parecia que o riso dele puxava a planta das hortas. Eu o coloquei no ombro, ele apertava meu nariz, eu fingia dor e ele ria mais. Às vezes, ele e Selene dormiam juntos na minha cama e eu ficava olhando os dois como quem vigia fogo para aquecer, não para queimar.Nyx chegou numa noite sem vento. Selene se preparou como rainha e como loba, lavou o rosto, prendeu o cabelo, pediu água com mel. Iara organizou o quarto outra vez, a curandeira alinhou o que precisava. Damian e eu tomamos nossas posições sem disputa. Um do lado, outro do outro, Selene no meio do mundo. Ash uivava baixo em algum lugar que não se vê, e eu agradeci à deusa por ter inventado vozes que nos salvam.Foi rápido. Selene sabe parir como sabe lutar, inteira. Quando o choro veio, eu me quebrei e
DamonAs semanas em que Selene dormiu só no quarto do meu irmão ensinaram a minha cama a fazer barulho. O colchão rangia quando eu virava, o lençol, sem o cheiro dela, parecia áspero, a janela insistia em bater de leve, mesmo sem vento. Eu não tinha percebido que a casa inteira se acostumou ao passo de Selene, ao aroma dela pela manhã, ao jeito como ela fechava a porta sem fazer barulho. Quando ela ficou apenas com o Rei do Dia, como devia ser, como decidimos juntos, eu entendi que a noite, por mais que me pertença, tinha aprendido a dividir lugar com o riso dela.Não vou dizer que foi fácil. Minha parte ruim quis arrombar a porta certa noite e arrancá-la do sono do sol. Minha parte boa ficou sentada na borda da cama, mãos nos joelhos, respirando até doer, repetindo o acordo como um rosário: “primeiro o herdeiro do dia, depois, o da noite, e, em todos os instantes, Selene pertence a si mesma”. Shadow, meu lobo, rosnava baixo, mas não para fora, rosnava em mim, lembrando de limite.—
DamianA vida com Selene, depois da guerra e do joelho do conselho no chão, não ficou mais simples. Ficou verdadeira. E verdade tem peso, bom de carregar, mas peso.O acordo que fizemos no salão das runas continua sendo o mesmo: “de dia, comigo, de noite, com Damon, e, em todos os instantes, consigo mesma”. Só que combinamos também a ordem dos herdeiros. Primeiro, eu. Depois, meu irmão. Selene aceitou sem mais, como quem escolhe caminho com os pés no chão. E, para cumprir a decisão, ela ficou só no meu quarto por um tempo, mesmo com a saudade explícita do toque do Rei da Noite.— Se eu olhar para a torre dele, você vai me trazer de volta? — ela brincou, certa noite, deitada no meu peito.— Nem precisa olhar. — respondi — Eu te trago de volta de olhos fechados.Ela riu, mas eu escutei a falta. Não de mim. Dele. E aprendi a não ter medo disso. A maldição morreu. O ciúme que sobrava era só eco. Quando aparecia, eu respirava até doer, lembrava que Selene é ponte, não corda para puxar, e
SeleneO capitão Halvar bateu o punho no peito. Uma curandeira que havia cuidado de mim na primeira noite acenou com os olhos. Damian deixou escapar o ar, aliviado. Damon inclinou a cabeça, sério.— A partir de hoje… — continuei — não somos três blocos tentando se encaixar. Somos uma alcateia só. O nome que levantamos juntos não cai com vento. Ele só cai se a gente largar.— E não vamos largar. — respondeu o conselho, num coro que me surpreendeu.Dois meses se passaram. O tempo, esse animal difícil, finalmente decidiu caminhar com a gente. A fortaleza, que antes trabalhava só para não ruir, começou a viver. As hortas cresceram de um modo que parecia milagre, e eu ouvi de Iara que milagre é só trabalho com a bênção certa. Plantamos mais canteiros de repolho, cenoura, beterraba, cebola, entre outros vegetais, legumes, verduras e frutas.As mulheres fizeram cercados novos, os homens ampliaram os currais. As vacas deram mais leite do que o previsto, o queijo curou bonito, os meninos pass
SeleneNo fim da batalha, quando a fumaça baixou e os gritos viraram apenas eco, eu caminhei entre os corpos com uma prancheta na mão, papel simples, lápis de carvão. Não era um ritual bonito. Era um dever. Eu precisava saber quem tinha voltado. Eu precisava olhar nos olhos dos vivos e dizer seus nomes em voz alta para que a vida escutasse.— Conte comigo. — disse Iara, ao meu lado, firme como sempre.Concordei. Atrás de nós, homens e mulheres erguiam macas, recolhiam armas, cobriam mortos com panos. O vale, que horas antes parecia aberto para engolir tudo, agora estava quieto. Quieto e pesado.Procurei primeiro pelos lobos de Calíope. Eles tinham vindo de longe, atravessando passagem e neve, pela promessa de justiça. Eu devia a eles algo mais que gratidão. Devia números. Devia verdade.— São os Lazzuri. — falou Dagan, apontando para um grupo reunido ao pé de uma rocha — Muitos feridos. Poucos inteiros.Eu me aproximei. Vi rostos que eu reconhecia do jantar da aliança… Thales, que ti







