INICIAR SESIÓNPOV: Bianca Bellini
Dizem que uma mulher sabe exatamente quando está prestes a perder a própria vida. Não a vida em si, no sentido literal, mas a vida que ela idealizou e projetou para o futuro. Na manhã seguinte à assinatura do contrato, acordei bem antes do nascer do sol. Era um hábito antigo meu; minha mãe costumava dizer que uma casa revela sua verdadeira personalidade nas primeiras horas da manhã, antes que todos despertem. Naquele horário, a Villa Bellini parecia imersa em um silêncio quase sagrado. Os empregados caminhavam discretamente pelos corredores largos, quase sem produzir som, enquanto o aroma de café recém passado se misturava ao perfume orvalhado das rosas do jardim. Tudo parecia perfeitamente igual ao dia anterior, mas a verdade é que nada mais era o mesmo. Em apenas vinte dias, eu deixaria aquela propriedade definitiva e irrevogavelmente. A casa onde dei os meus primeiros passos, onde minha mãe pacientemente me ensinou a tocar piano e onde meu pai me acolhia em um abraço protetor depois que eu caía da bicicleta. Passei a ponta dos dedos sobre a madeira esculpida da porta do meu quarto, querendo gravar cada ranhura e detalhe na memória. No fundo, eu sabia que jamais voltaria a morar ali.
— Você conseguiu dormir? — uma voz suave quebrou o meu transe.
Levantei os olhos e vi minha irmã mais nova encostada no batente da porta. Isabella Bellini tinha vinte e um anos e ostentava os mesmos cabelos castanhos que os meus, embora os dela estivessem presos em um rabo de cavalo completamente bagunçado. Ao contrário de mim, Isabella nunca aprendeu a arte de camuflar as suas emoções; ela sentia tudo de forma crua e intensa, fosse raiva, alegria, tristeza ou amor.
— Um pouco — respondi, esboçando um sorriso cansado.
Ela entrou no quarto sem pedir licença. nunca pedia, jogou-se na minha cama e cruzou os braços com firmeza.
— Você ainda pode desistir de tudo isso, Bianca.
Sorri de leve, balançando a cabeça. — Não posso, Bella. — Claro que pode! — Não, não posso.Ela se levantou abruptamente, visivelmente irritada com a minha resignação. — O papai nunca obrigaria você a casar contra a sua vontade.
— Mas o problema não é o papai — expliquei, caminhando lentamente até a janela.Os primeiros raios de sol começavam a dourar os jardins perfeitamente aparados da propriedade.
— É sobre o sobrenome Bellini que nós carregamos — continuei.
Isabella bufou de frustração. — Eu odeio quando vocês começam a falar como mafiosos. Sorri novamente, mas dessa vez o gesto veio carregado de melancolia. — Mas nós somos mafiosos, Bella. Essa é a nossa realidade.Ela ficou em silêncio por alguns instantes. Ouvir aquele apelido de infância sempre a fazia desarmar a raiva por alguns segundos.
— Você gosta dele? — ela perguntou em um tom de voz quase inaudível.
Pensei bem antes de responder. Gostar? Não. Como eu poderia nutrir algum sentimento por um homem que mal conhecia e com quem mal havia conversado?
— Não. — Então por que aceitou esse destino com tanta facilidade? Olhei fixamente nos olhos da minha irmã. — Porque ele também não teve escolha nessa história. Ela arregalou os olhos, genuinamente chocada. — Você está defendendo Lorenzo De Luca? — Não estou defendendo. Estou apenas tentando entendê-lo. Isabella caminhou até mim, parando ao meu lado. — Eu não perderia o meu tempo tentando. Cruzei os braços, intrigada. — Por que diz isso? — Porque homens como ele nunca tentam entender ninguém. Eles apenas mandam.Aquelas palavras assertivas da minha irmã ficaram ecoando na minha mente durante o resto do dia. Talvez ela estivesse coberta de razão. E, ainda assim, havia algo no olhar de Lorenzo durante o nosso embate na biblioteca que me intrigava. Algo que ia muito além da arrogância pura. Era uma espécie de cansaço existencial profundo, como se carregar o sobrenome De Luca pesasse tanto nos ombros dele quanto carregar o Bellini pesava nos meus.
Meu pai me encontrou na estufa de vidro pouco antes do almoço. Aquele era o único refúgio na propriedade onde ele parecia esquecer por alguns instantes que era o Don. Ele gostava de cuidar pessoalmente das orquídeas mais delicadas; minha mãe sempre dizia que aquele era o único momento em que ele encontrava uma paz genuína. Entrei no local em silêncio para não assustá-lo. Ele continuou concentrado, podando uma pequena folha seca com precisão.
— A Isabella brigou com você de manhã, não foi? — ele perguntou, sem se virar.
Sorri com o seu faro. — Como o senhor sabe? — Ela saiu correndo daqui dizendo que gostaria de incendiar metade da cidade de Milão. Soltei uma risada sincera, a primeira desde a tensa reunião da noite anterior. Meu pai sorriu discretamente, de canto, e apontou para o banco de ferro. — Sente-se aqui, Bianca.Obedeci prontamente. Ele largou a tesoura de poda sobre a bancada e retirou as luvas de jardinagem com calma. Pela primeira vez em muitos anos, ele não parecia o chefe implacável da máfia; parecia apenas o meu pai, despido de suas armaduras.
— Você está com medo? — a pergunta direta me pegou totalmente desprevenida.
Olhei para as minhas próprias mãos, que começavam a tremer levemente. — Muito. Ele permaneceu calado por longos segundos, processando a minha resposta. Depois, suspirou e confessou: — Eu também estou.Levantei os olhos rapidamente, surpresa. Nunca, em toda a minha vida, imaginei ouvir a palavra "medo" saindo da boca dele.
— O senhor?
Ele assentiu com a cabeça. — Não do casamento ou da aliança política em si. Tenho medo de perder você. Senti o meu coração apertar dolorosamente no peito. Ele respirou fundo, tentando afastar a emoção da voz. — Quando sua mãe faleceu, eu prometi a mim mesmo que faria absolutamente tudo ao meu alcance para proteger vocês duas, você e a Isabella. Achei que conseguiria mantê-las seguras. Mas a verdade é que existem alguns inimigos e obrigações que não podem ser vencidos com armas.Engoli em seco, compreendendo o peso do passado. — O contrato.
— O contrato — ele repetiu, e seu olhar perdeu o foco por um instante, mergulhando nas memórias. — Giovanni De Luca salvou a minha vida há quarenta anos. Eu devia um favor impagável àquela família. Em vez de exigir dinheiro ou terras, ele pediu a paz perpétua através de um casamento dinástico entre as futuras gerações. — E o senhor aceitou. Ele fechou os olhos com pesar. — Na época, eu achei que nossos filhos cresceriam juntos, que compartilhariam a mesma rotina. Talvez, quem sabe, até se apaixonassem naturalmente.Sorri sem nenhum humor. — A realidade foi bem menos generosa do que os seus planos.
— Foi, infelizmente foi — meu pai estendeu a mão e segurou a minha. Era um gesto de afeto extremamente raro vindo dele. — Bianca... se o Lorenzo machucar você de alguma forma, ou se aquela casa se tornar insuportável... volte para mim. Volte para casa. Não me importa o tratado, não me importa a estabilidade e não me importa dar início a uma nova guerra. Você sempre terá um lar aqui.As lágrimas ameaçaram transbordar, mas forcei um sorriso corajoso para tranquilizá-lo. — Eu vou ficar bem, papai.
Ele apertou a minha mão uma última vez, mas a verdade era que nenhum de nós dois realmente acreditava piamente naquela afirmação.Naquela mesma tarde, a fria realidade dos negócios bateu à minha porta através de uma ligação da organizadora do casamento. A cerimônia, conforme o esperado, aconteceria na suntuosa Catedral de Milão. A lista incluía convidados de vários países, chefes de outras famílias mafiosas poderosas, empresários influentes, políticos de alto escalão e uma imprensa cuidadosamente selecionada para cobrir o evento. Tudo precisava ser coreografado para parecer um autêntico conto de fadas. Era quase cômico: quanto maior e mais sórdida era a mentira por trás dos bastidores, mais impecável e deslumbrante precisava ser a decoração do altar.
No início da noite, a ansiedade me sufocou e decidi sair. Sem seguranças na minha cola e sem motorista particular; apenas eu e os meus pensamentos. Eu precisava desesperadamente respirar um pouco de normalidade antes que a minha vida deixasse de pertencer a mim de uma vez por todas. Peguei o meu carro na garagem e dirigi até um pequeno e charmoso café localizado próximo à universidade onde eu havia me formado em Economia. Ali, naquele ambiente acadêmico e boêmio, ninguém me conhecia pelo sobrenome Bellini. Eu era apenas mais uma jovem comum. Pedi um cappuccino bem quente e me sentei estrategicamente perto da janela, observando o movimento da rua. Durante alguns minutos preciosos, consegui esquecer os contratos, as obrigações da máfia e o matrimônio iminente.
Toda aquela ilusão de paz desmoronou quando captei a conversa de duas mulheres na mesa ao lado.
— Você viu as notícias de hoje? — Sobre o casamento do Don Lorenzo De Luca? — a outra respondeu prontamente.Senti o meu corpo inteiro enrijecer na cadeira.
— Sim! Dizem as más línguas que ele é perdidamente apaixonado por outra mulher. — Que pena da noiva, meu Deus. Que humilhação. — E o pior de tudo é que parece que ela sabe de toda a situação e aceitou mesmo assim. — Eu nunca na minha vida aceitaria passar por um papelão desses por dinheiro nenhum.Sorri discretamente para a minha xícara, sentindo uma pontada de ironia. Se elas apenas soubessem a real engrenagem por trás daquela farsa... A humilhação propriamente dita nem havia começado. Terminei o cappuccino rapidamente, querendo fugir daquele falatório. Ao sair do estabelecimento, caminhei pela calçada observando a vida das pessoas normais. Casais discutiam por bobagens cotidianas, crianças corriam rindo pelo passeio e idosos caminhavam calmamente de mãos dadas. Era uma vida simples, palpável, mas tão absurdamente distante da minha realidade que parecia pertencer a um universo paralelo.
Foi então que o meu celular vibrou intensamente no bolso do casaco. Era uma mensagem de um número desconhecido: "Espero que você saiba exatamente no que está se metendo". Franzi a testa, o estômago embrulhando. Uma segunda mensagem chegou logo em seguida, sem me dar tempo de respirar: "O Lorenzo nunca vai amar você. Ele sempre será meu".
Não havia assinatura no final do texto, mas não era necessária nenhuma investigação. Eu já sabia perfeitamente quem era a remetente: Sofia Moretti. Ela havia dado um jeito de conseguir o meu número privado. Apaguei as mensagens imediatamente e optei por não responder. Não porque aquelas palavras venenosas não tivessem me atingido ou machucado, mas porque dar uma resposta seria o equivalente a admitir que o golpe dela havia encontrado o alvo perfeitamente.
Entrei no meu carro e fechei a porta, isolando o som da rua. Respirei fundo, buscando o ar que parecia faltar, e encarei o meu próprio reflexo no espelho retrovisor.
— Você consegue passar por isso, Bianca — minha voz saiu como um sussurro trêmulo no interior do veículo. Não era uma tentativa de convencer o mundo da minha força; era uma tentativa desesperada de convencer a mim mesma.Enquanto girava a chave na ignição e ligava o motor, eu não fazia a menor ideia de que aquela era apenas a primeira de muitas batalhas silenciosas e psicológicas que eu teria que travar dali em diante. E que, em poucos meses, o nome de Sofia Moretti deixaria de ser apenas uma assombração do passado de Lorenzo para se tornar uma presença sufocante e diária entre nós. Uma sombra persistente que invadiria o meu casamento antes mesmo que eu pudesse atravessar a soleira da mansão De Luca.
Na tela principal, ele começou a acrescentar novas linhas: homem do orfanato, Elisa Moreau, Lombardia Distribuzione, garçom do baile e Milano Servizi Integrati.— Não sabemos se o garçom esteve neste prédio — Matteo explicou. — Mas sabemos que o veículo que o transportou foi registrado usando um endereço ligado à mesma estrutura que já aparece em Moreau.— Outra operação que não era independente — falei.— Exatamente.Mancini observou o esquema.— Estamos falando da mesma célula?Matteo demorou a responder.— Agora eu diria que provavelmente sim.Vindo dele, aquilo era quase uma certeza.Lorenzo chegou à Torre no fim da tarde e Vittorio veio com ele. Não era comum ver os dois entrando juntos sem que uma reunião formal tivesse sido marcada; aquilo já dizia muito sobre o quanto as coisas mudaram.— Enzo disse que encontraram outra ligação — Vittorio falou.Mancini apontou para a tela.— O garçom do baile.A expressão de Lorenzo mudou.— Encontraram?— Ainda não — respondi. — Mas recuper
POV: Alessandro FerraroO homem que escapou de nós semanas atrás estava a menos de quatro quilômetros da Torre De Luca. Dessa vez, ninguém correria atrás dele. Observei a fotografia enviada pela equipe de vigilância enquanto atravessava a sala de monitoramento. Matteo tinha ampliado o rosto em uma das telas principais. A imagem antiga, registrada nas proximidades do Orfanato Santa Helena, permanecia aberta ao lado da fotografia feita naquela tarde. Era o mesmo homem. Mais velho do que parecia nas primeiras imagens, com cabelo curto, barba rala e uma pequena cicatriz próxima à orelha esquerda que nunca tínhamos conseguido enxergar com clareza.— Noventa e sete por cento — Matteo informou sem tirar os olhos do monitor.Parei ao lado dele.— Ontem noventa e quatro por cento era suficiente para Moreau.— Moreau tinha documentação para comparação.— E esse?— Continua sendo um fantasma.Ricardo estava sentado em outra estação.— Nenhum resultado nos arquivos da família Bellini — informou o
Levei vinte e sete. Não porque fosse fácil, mas porque finalmente sabíamos onde procurar.A empresa que alugou o carro cinza tinha sido comprada três anos antes por um pequeno grupo de investimentos. O grupo pertencia a duas holdings. Uma delas não significava nada; a outra, porém, já havia aparecido em nossos arquivos recentes: a Lombardia Distribuzione. Fiquei olhando para a tela. Elisa Moreau, o galpão, agora o carro.— Alessandro.Ele voltou imediatamente.— Encontrou?Apontei e ele leu.— Lombardia.— A locadora estava sob controle indireto deles quando o carro foi utilizado.— Então Moreau tinha acesso.— Ou alguém da estrutura dela.— E o homem?— Ainda sem nome.— Droga.— Não precisamos dele para avançar.Alessandro me olhou.— Explique.— Se o veículo usado para dar cobertura à vigilância de Bianca veio de uma empresa controlada pela mesma estrutura associada a Moreau, e Moreau aparece perto da cadeia de mensageiros...— Tudo se conecta.— Parte.— Você tem uma obsessão irri
POV: MatteoPassei anos aprendendo que uma investigação raramente fracassava por falta de informação. Na maioria das vezes, fracassava porque a informação certa chegava cedo demais. Um rosto sem nome, uma transferência sem origem, uma placa sem proprietário, uma fotografia que parecia não significar nada quando foi registrada. Tudo acabava armazenado, classificado e esquecido até que alguma descoberta posterior transformasse um detalhe inútil em uma pergunta que deveríamos ter feito semanas antes. Adrian Keller tinha feito exatamente isso.Eu estava na Torre De Luca desde cedo, cercado pelos arquivos acumulados durante a investigação. Na tela principal, mantive abertas as estruturas financeiras ligadas à Arden Holdings. Em outro monitor, apareciam as transferências feitas à Bellavista Eventos. Em um terceiro, a fotografia de Keller ao lado de Mikhail Orlov permanecia ampliada. Mas não eram eles que me interessavam naquela manhã. Eu estava olhando para trás.Alessandro entrou carregand
Levantei e caminhei até a janela.— Passei anos acreditando que um dia teria de entregar minha filha para cumprir uma promessa feita antes do nascimento dela. Agora estou começando a achar que o tratado apenas nos obrigou a colocar os dois perto o suficiente para que descobrissem alguma coisa que meu pai e seu marido jamais poderiam prever.— Disse algo parecido a Bianca hoje.— Naturalmente disse.— Ela precisava ouvir.— E Lorenzo?— Lorenzo precisa descobrir sozinho.— Como sempre.— Como Giovanni.Olhei para o jardim.— Há outra coisa.— O quê?— Sofia.O silêncio do outro lado foi imediato.— O que aconteceu?— Nada novo. Mas Bianca sabe.— Lorenzo contou?— Pelo que entendi, sim.Eleonora demorou a responder.— Então ele está finalmente parando de se esconder atrás daquela história.— Ainda não sei se isso é bom.— É melhor do que casar mentindo.Concordei, embora não dissesse.— Bianca pode se machucar.— Pode.— Você fala disso com muita tranquilidade.— Porque impedir que ele
POV: Don Vittorio BelliniDois dias. Era o tempo que faltava para minha filha se tornar Bianca De Luca. Durante quarenta anos, o casamento entre nossas famílias existiu como uma promessa distante, escrita por homens que entenderam que continuar em guerra significaria destruir tudo o que tentavam proteger. Antônio De Luca e meu pai, Francesco Bellini, fizeram o que homens como eles raramente admitiam ser necessário: aceitaram que nenhum dos lados venceria. Agora, sentado no escritório da Villa Bellini, eu percebia que a parte mais difícil daquele tratado nunca foi assiná-lo. Era assistir ao momento em que ele finalmente seria cumprido.Meu celular estava sobre a mesa. Ricardo tinha enviado os últimos dados compartilhados pela Torre De Luca pouco mais de uma hora antes. Adrian Keller, Arden Holdings. Bellavista Eventos, Mikhail Orlov. Pela primeira vez desde o início da investigação, tínhamos uma cadeia que não terminava em um cadáver. E Lorenzo tinha enviado tudo, sem ocultar informaçõ







