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Capítulo 4: A Promessa de uma Bellini

last update publish date: 2026-07-09 02:29:26

POV: Bianca Bellini

Dizem que uma mulher sabe exatamente quando está prestes a perder a própria vida. Não a vida em si, no sentido literal, mas a vida que ela idealizou e projetou para o futuro. Na manhã seguinte à assinatura do contrato, acordei bem antes do nascer do sol. Era um hábito antigo meu; minha mãe costumava dizer que uma casa revela sua verdadeira personalidade nas primeiras horas da manhã, antes que todos despertem. Naquele horário, a Villa Bellini parecia imersa em um silêncio quase sagrado. Os empregados caminhavam discretamente pelos corredores largos, quase sem produzir som, enquanto o aroma de café recém passado se misturava ao perfume orvalhado das rosas do jardim. Tudo parecia perfeitamente igual ao dia anterior, mas a verdade é que nada mais era o mesmo. Em apenas vinte dias, eu deixaria aquela propriedade definitiva e irrevogavelmente. A casa onde dei os meus primeiros passos, onde minha mãe pacientemente me ensinou a tocar piano e onde meu pai me acolhia em um abraço protetor depois que eu caía da bicicleta. Passei a ponta dos dedos sobre a madeira esculpida da porta do meu quarto, querendo gravar cada ranhura e detalhe na memória. No fundo, eu sabia que jamais voltaria a morar ali.

— Você conseguiu dormir? — uma voz suave quebrou o meu transe.

Levantei os olhos e vi minha irmã mais nova encostada no batente da porta. Isabella Bellini tinha vinte e um anos e ostentava os mesmos cabelos castanhos que os meus, embora os dela estivessem presos em um rabo de cavalo completamente bagunçado. Ao contrário de mim, Isabella nunca aprendeu a arte de camuflar as suas emoções; ela sentia tudo de forma crua e intensa, fosse raiva, alegria, tristeza ou amor.

— Um pouco — respondi, esboçando um sorriso cansado.

Ela entrou no quarto sem pedir licença. nunca pedia, jogou-se na minha cama e cruzou os braços com firmeza.

— Você ainda pode desistir de tudo isso, Bianca.

Sorri de leve, balançando a cabeça. — Não posso, Bella.

— Claro que pode!

— Não, não posso.

Ela se levantou abruptamente, visivelmente irritada com a minha resignação. — O papai nunca obrigaria você a casar contra a sua vontade.

— Mas o problema não é o papai — expliquei, caminhando lentamente até a janela.

Os primeiros raios de sol começavam a dourar os jardins perfeitamente aparados da propriedade.

— É sobre o sobrenome Bellini que nós carregamos — continuei.

Isabella bufou de frustração. — Eu odeio quando vocês começam a falar como mafiosos.

Sorri novamente, mas dessa vez o gesto veio carregado de melancolia. — Mas nós somos mafiosos, Bella. Essa é a nossa realidade.

Ela ficou em silêncio por alguns instantes. Ouvir aquele apelido de infância sempre a fazia desarmar a raiva por alguns segundos.

— Você gosta dele? — ela perguntou em um tom de voz quase inaudível.

Pensei bem antes de responder. Gostar? Não. Como eu poderia nutrir algum sentimento por um homem que mal conhecia e com quem mal havia conversado?

— Não.

— Então por que aceitou esse destino com tanta facilidade?

Olhei fixamente nos olhos da minha irmã. — Porque ele também não teve escolha nessa história.

Ela arregalou os olhos, genuinamente chocada. — Você está defendendo Lorenzo De Luca?

— Não estou defendendo. Estou apenas tentando entendê-lo.

Isabella caminhou até mim, parando ao meu lado. — Eu não perderia o meu tempo tentando.

Cruzei os braços, intrigada. — Por que diz isso?

— Porque homens como ele nunca tentam entender ninguém. Eles apenas mandam.

Aquelas palavras assertivas da minha irmã ficaram ecoando na minha mente durante o resto do dia. Talvez ela estivesse coberta de razão. E, ainda assim, havia algo no olhar de Lorenzo durante o nosso embate na biblioteca que me intrigava. Algo que ia muito além da arrogância pura. Era uma espécie de cansaço existencial profundo, como se carregar o sobrenome De Luca pesasse tanto nos ombros dele quanto carregar o Bellini pesava nos meus.

Meu pai me encontrou na estufa de vidro pouco antes do almoço. Aquele era o único refúgio na propriedade onde ele parecia esquecer por alguns instantes que era o Don. Ele gostava de cuidar pessoalmente das orquídeas mais delicadas; minha mãe sempre dizia que aquele era o único momento em que ele encontrava uma paz genuína. Entrei no local em silêncio para não assustá-lo. Ele continuou concentrado, podando uma pequena folha seca com precisão.

— A Isabella brigou com você de manhã, não foi? — ele perguntou, sem se virar.

Sorri com o seu faro. — Como o senhor sabe?

— Ela saiu correndo daqui dizendo que gostaria de incendiar metade da cidade de Milão.

Soltei uma risada sincera, a primeira desde a tensa reunião da noite anterior. Meu pai sorriu discretamente, de canto, e apontou para o banco de ferro.

— Sente-se aqui, Bianca.

Obedeci prontamente. Ele largou a tesoura de poda sobre a bancada e retirou as luvas de jardinagem com calma. Pela primeira vez em muitos anos, ele não parecia o chefe implacável da máfia; parecia apenas o meu pai, despido de suas armaduras.

— Você está com medo? — a pergunta direta me pegou totalmente desprevenida.

Olhei para as minhas próprias mãos, que começavam a tremer levemente. — Muito.

Ele permaneceu calado por longos segundos, processando a minha resposta. Depois, suspirou e confessou: — Eu também estou.

Levantei os olhos rapidamente, surpresa. Nunca, em toda a minha vida, imaginei ouvir a palavra "medo" saindo da boca dele.

— O senhor?

Ele assentiu com a cabeça. — Não do casamento ou da aliança política em si. Tenho medo de perder você.

Senti o meu coração apertar dolorosamente no peito. Ele respirou fundo, tentando afastar a emoção da voz.

— Quando sua mãe faleceu, eu prometi a mim mesmo que faria absolutamente tudo ao meu alcance para proteger vocês duas, você e a Isabella. Achei que conseguiria mantê-las seguras. Mas a verdade é que existem alguns inimigos e obrigações que não podem ser vencidos com armas.

Engoli em seco, compreendendo o peso do passado. — O contrato.

— O contrato — ele repetiu, e seu olhar perdeu o foco por um instante, mergulhando nas memórias. — Giovanni De Luca salvou a minha vida há quarenta anos. Eu devia um favor impagável àquela família. Em vez de exigir dinheiro ou terras, ele pediu a paz perpétua através de um casamento dinástico entre as futuras gerações.

— E o senhor aceitou.

Ele fechou os olhos com pesar. — Na época, eu achei que nossos filhos cresceriam juntos, que compartilhariam a mesma rotina. Talvez, quem sabe, até se apaixonassem naturalmente.

Sorri sem nenhum humor. — A realidade foi bem menos generosa do que os seus planos.

— Foi, infelizmente foi — meu pai estendeu a mão e segurou a minha. Era um gesto de afeto extremamente raro vindo dele. — Bianca... se o Lorenzo machucar você de alguma forma, ou se aquela casa se tornar insuportável... volte para mim. Volte para casa. Não me importa o tratado, não me importa a estabilidade e não me importa dar início a uma nova guerra. Você sempre terá um lar aqui.

As lágrimas ameaçaram transbordar, mas forcei um sorriso corajoso para tranquilizá-lo. — Eu vou ficar bem, papai.

Ele apertou a minha mão uma última vez, mas a verdade era que nenhum de nós dois realmente acreditava piamente naquela afirmação.

Naquela mesma tarde, a fria realidade dos negócios bateu à minha porta através de uma ligação da organizadora do casamento. A cerimônia, conforme o esperado, aconteceria na suntuosa Catedral de Milão. A lista incluía convidados de vários países, chefes de outras famílias mafiosas poderosas, empresários influentes, políticos de alto escalão e uma imprensa cuidadosamente selecionada para cobrir o evento. Tudo precisava ser coreografado para parecer um autêntico conto de fadas. Era quase cômico: quanto maior e mais sórdida era a mentira por trás dos bastidores, mais impecável e deslumbrante precisava ser a decoração do altar.

No início da noite, a ansiedade me sufocou e decidi sair. Sem seguranças na minha cola e sem motorista particular; apenas eu e os meus pensamentos. Eu precisava desesperadamente respirar um pouco de normalidade antes que a minha vida deixasse de pertencer a mim de uma vez por todas. Peguei o meu carro na garagem e dirigi até um pequeno e charmoso café localizado próximo à universidade onde eu havia me formado em Economia. Ali, naquele ambiente acadêmico e boêmio, ninguém me conhecia pelo sobrenome Bellini. Eu era apenas mais uma jovem comum. Pedi um cappuccino bem quente e me sentei estrategicamente perto da janela, observando o movimento da rua. Durante alguns minutos preciosos, consegui esquecer os contratos, as obrigações da máfia e o matrimônio iminente.

Toda aquela ilusão de paz desmoronou quando captei a conversa de duas mulheres na mesa ao lado.

— Você viu as notícias de hoje?

— Sobre o casamento do Don Lorenzo De Luca? — a outra respondeu prontamente.

Senti o meu corpo inteiro enrijecer na cadeira.

— Sim! Dizem as más línguas que ele é perdidamente apaixonado por outra mulher.

— Que pena da noiva, meu Deus. Que humilhação.

— E o pior de tudo é que parece que ela sabe de toda a situação e aceitou mesmo assim.

— Eu nunca na minha vida aceitaria passar por um papelão desses por dinheiro nenhum.

Sorri discretamente para a minha xícara, sentindo uma pontada de ironia. Se elas apenas soubessem a real engrenagem por trás daquela farsa... A humilhação propriamente dita nem havia começado. Terminei o cappuccino rapidamente, querendo fugir daquele falatório. Ao sair do estabelecimento, caminhei pela calçada observando a vida das pessoas normais. Casais discutiam por bobagens cotidianas, crianças corriam rindo pelo passeio e idosos caminhavam calmamente de mãos dadas. Era uma vida simples, palpável, mas tão absurdamente distante da minha realidade que parecia pertencer a um universo paralelo.

Foi então que o meu celular vibrou intensamente no bolso do casaco. Era uma mensagem de um número desconhecido: "Espero que você saiba exatamente no que está se metendo". Franzi a testa, o estômago embrulhando. Uma segunda mensagem chegou logo em seguida, sem me dar tempo de respirar: "O Lorenzo nunca vai amar você. Ele sempre será meu".

Não havia assinatura no final do texto, mas não era necessária nenhuma investigação. Eu já sabia perfeitamente quem era a remetente: Sofia Moretti. Ela havia dado um jeito de conseguir o meu número privado. Apaguei as mensagens imediatamente e optei por não responder. Não porque aquelas palavras venenosas não tivessem me atingido ou machucado, mas porque dar uma resposta seria o equivalente a admitir que o golpe dela havia encontrado o alvo perfeitamente.

Entrei no meu carro e fechei a porta, isolando o som da rua. Respirei fundo, buscando o ar que parecia faltar, e encarei o meu próprio reflexo no espelho retrovisor.

— Você consegue passar por isso, Bianca — minha voz saiu como um sussurro trêmulo no interior do veículo. Não era uma tentativa de convencer o mundo da minha força; era uma tentativa desesperada de convencer a mim mesma.

Enquanto girava a chave na ignição e ligava o motor, eu não fazia a menor ideia de que aquela era apenas a primeira de muitas batalhas silenciosas e psicológicas que eu teria que travar dali em diante. E que, em poucos meses, o nome de Sofia Moretti deixaria de ser apenas uma assombração do passado de Lorenzo para se tornar uma presença sufocante e diária entre nós. Uma sombra persistente que invadiria o meu casamento antes mesmo que eu pudesse atravessar a soleira da mansão De Luca.

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