MasukA primeira luz da manhã atravessou a janela da cobertura.
Elena mal havia dormido. Passou boa parte da noite olhando para o teto, tentando convencer a si mesma de que tudo aquilo tinha uma explicação. Talvez Selene realmente precisasse dele. Talvez Kael só estivesse tentando fazer a coisa certa. Mas, no fundo... Ela sabia que estava procurando desculpas para não admitir o que seu coração já havia entendido. Houve uma batida suave na porta. — Senhora Elena? — chamou uma funcionária. — Pode entrar. A jovem abriu a porta com um sorriso tímido. — O café da manhã já está servido. Elena agradeceu com um aceno e caminhou até o banheiro. Olhou seu reflexo no espelho. Os olhos estavam inchados. Respirou fundo. — Você consegue... Sussurrou para si mesma. — Só mais um dia. Quando chegou à sala de jantar, Kael já estava lá. Era raro. Normalmente ele saía antes que ela acordasse. Por um instante, Elena sentiu o coração acelerar. Talvez ele fosse pedir desculpas. Talvez tivesse lembrado da noite anterior. — Bom dia. Kael levantou os olhos do tablet. — Bom dia. O silêncio tomou conta da mesa. Ele parecia desconfortável. Finalmente deixou o tablet de lado. — Sobre ontem... Antes que conseguisse terminar a frase, o celular dele tocou. O nome de Liam apareceu na tela. Kael atendeu imediatamente. — O que aconteceu? A voz de Liam soava séria. — Selene acordou assustada. Está tendo uma crise de ansiedade. Acho melhor você vir. Kael levantou da cadeira sem pensar. — Estou indo. Elena permaneceu imóvel. Ele nem havia terminado a frase. Nem o pedido de desculpas. Kael pegou o paletó às pressas. Quando estava quase saindo, olhou para ela. — Conversamos depois. Ela sorriu de forma educada. — Claro. A porta se fechou. E ela terminou o café da manhã sozinha. No quarto de hóspedes, Selene respirava de forma descompassada. Ao ver Kael entrar, levantou-se da cama e o abraçou com força. — Achei que você não fosse vir... Kael segurou seus ombros. — Está tudo bem. Você está segura. Liam observava a cena em silêncio. Havia algo que o incomodava. Selene parecia calma demais para alguém que, segundos antes, estava em pânico. Quando Kael foi buscar um copo d'água, Liam percebeu um detalhe. Assim que ficou sozinha por um instante... Selene sorriu. Foi rápido. Tão rápido que qualquer outra pessoa acharia que tinha imaginado. Quando Kael voltou, ela voltou a tremer. — Não me deixa sozinha... — Eu não vou. Kael respondeu imediatamente. Liam franziu a testa. Algo não fazia sentido. Mais tarde... Elena decidiu levar uma bandeja com frutas até o quarto de hóspedes. Não importava o que tivesse acontecido. Selene era uma convidada. E ela continuava sendo a Luna daquela casa. Respirou fundo antes de bater na porta. — Pode entrar. Era a voz de Kael. Ela abriu a porta devagar. Selene estava sentada na cama. Assim que viu Elena, abaixou os olhos. Parecia constrangida. — Eu trouxe algumas frutas... Antes que terminasse a frase, Selene segurou a mão de Kael. Com força. Como uma criança assustada. — Ela... ela não gosta de mim? Elena congelou. — Eu nunca disse isso. Selene não respondeu. Continuou olhando apenas para Kael. — Desculpa... eu só... Tenho medo de atrapalhar vocês. Kael apertou a mão dela de volta. — Você não está atrapalhando ninguém. Depois olhou para Elena. Seu rosto voltou a ficar sério. — Selene ainda está muito abalada. Evite pressioná-la. As palavras atingiram Elena como um golpe. Pressioná-la? Ela apenas havia levado uma bandeja de frutas. Engoliu o nó na garganta. — Entendi. Virou-se para sair. Antes de fechar a porta, ouviu a voz de Selene. Baixinha. Frágil. — Obrigada por me receber na sua casa... Elena não respondeu. Fechou a porta devagar. No corredor, permaneceu parada por alguns segundos. Sentia vontade de chorar. Mas não chorou. Pela primeira vez em muito tempo... Algo dentro dela começava a mudar. Não era raiva. Não era ciúme. Era cansaço. Um cansaço tão profundo que nem o vínculo da Lua parecia capaz de aliviar. E, do outro lado da porta... Sem que Kael percebesse... Selene abriu os olhos e um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios. O primeiro passo havia dado certo.A passagem era estreita e escura.Kael seguia na frente, com Elena logo atrás. Selene e Victor vinham alguns passos depois, enquanto Aldric fechava o grupo.A construção abandonada já ficava para trás.O homem que os havia ajudado permanecera lá dentro, deliberadamente mais distante, atraindo a atenção dos perseguidores para longe deles.Por alguns minutos, ninguém disse nada.Só o som dos passos apressados ecoava pelo caminho.Até Kael parar.Victor quase esbarrou nele.— O que foi?Kael virou-se lentamente.Seus olhos estavam diferentes.Frios.— Qual era o nome do seu pai?Victor franziu a testa.— O quê?— Seu pai. Qual era o nome dele?— Leôncio.Kael não reagiu.Mas Elena percebeu a mudança em seu rosto.— Kael...Ele continuou olhando para Victor.— Quando ele morreu?Victor pareceu confuso com a pergunta.— Faz muitos anos.— Você viu o corpo?O silêncio veio imediatamente.Victor abaixou os olhos por um instante.— Não.Kael deu um passo na direção dele.— Nunca?— Não.— Ent
Ninguém se moveu.Por alguns segundos, os cinco permaneceram completamente imóveis.A voz que havia surgido na escuridão ainda ecoava na cabeça de Kael.— A pergunta certa é... quantos de vocês ainda estão sendo observados?Kael estreitou os olhos.Ele não conseguia enxergar quem havia falado.A construção estava mergulhada em uma escuridão quase completa. A única claridade vinha de uma pequena fresta na madeira de uma das janelas.E então Kael percebeu.A voz não tinha vindo da rua.Tinha vindo de dentro.Do mesmo lugar onde eles estavam.— Quem está aí? — perguntou Kael.Nenhuma resposta.Elena se aproximou dele imediatamente.Selene deu um passo para trás.Victor levou a mão discretamente até a cintura.Aldric, porém, não parecia surpreso.Kael percebeu.— Você sabia que havia alguém aqui.Aldric permaneceu em silêncio.— Aldric.— Não sabia quem era — respondeu o Conselheiro.Kael virou o rosto para ele.— Mas sabia que não estávamos sozinhos.Antes que Aldric pudesse responder, u
Kael continuou correndo até que os sons atrás deles começassem a desaparecer.O vento frio batia contra seu rosto enquanto ele tentava recuperar o fôlego.Elena corria ao seu lado.Selene vinha logo atrás, acompanhada por Victor e Aldric.Os cinco haviam conseguido ganhar distância.Mas nenhum deles se sentia seguro.Kael olhou para trás.Por alguns segundos, conseguiu enxergar o desconhecido.Ele ainda estava correndo.Mais atrás.Sozinho.Os homens que os perseguiam haviam seguido justamente naquela direção.O desconhecido tinha conseguido o que queria.Chamara a atenção deles para si.— Ele está conseguindo — Elena disse, ofegante.Kael apertou a mandíbula.— Por enquanto.— Você acha que ele vai voltar?Kael não respondeu.Não sabia.Aquele homem continuava sendo um mistério.Mas uma coisa havia ficado clara naquela noite.Ele estava disposto a se colocar em perigo para ajudá-los.E isso significava alguma coisa.— Precisamos continuar — Victor disse.Kael assentiu.Eles dobraram
O vento bateu contra o rosto de Kael com força.Ele semicerrrou os olhos por um instante, sentindo o ar frio cortar a pele enquanto corria.— Não parem! — gritou Victor.Kael segurou Elena pela mão, mantendo-a próxima.Selene vinha logo atrás deles, acompanhada por Aldric. Os passos dos cinco ecoavam pela rua enquanto tentavam ganhar distância da casa.Atrás deles, porém, havia outro som.Passos.Mais distantes.O desconhecido.Ele havia ficado para trás.Não porque tivesse desistido.Mas porque sabia que alguém precisava atrasá-los.Kael olhou por cima do ombro.Por alguns segundos, conseguiu enxergá-lo correndo sozinho, mantendo uma distância considerável.Então percebeu o que estava fazendo.Ele estava chamando a atenção dos homens que vinham atrás.— Ele está nos ajudando — Elena disse, ofegante.Kael apertou a mandíbula.— Eu sei.— Precisamos continuar.Kael sabia.Mas havia algo naquela imagem que o incomodava.O homem tinha aparecido do nada.Sabia demais.Conhecia o arquivo.
A porta já estava aberta.Kael foi o primeiro a atravessá-la, olhando rapidamente para os dois lados do corredor.Nada.Por enquanto.— Vamos — murmurou.Elena veio logo atrás.Selene segurava contra o corpo os documentos que haviam conseguido retirar do arquivo. Victor mantinha a atenção voltada para trás, enquanto Aldric seguia em silêncio.O desconhecido foi o último a sair.Assim que colocou os pés no corredor, fechou a porta cuidadosamente.Kael olhou para ele.— Quanto tempo temos?O homem demorou um segundo para responder.— Pouco.— Isso não é uma resposta.— É a única que posso dar.Victor soltou uma risada sem humor.— Estamos fugindo de homens que cercaram a casa e você continua falando como se tivesse todo o tempo do mundo.O homem o encarou.— Se eu achasse que tínhamos tempo, não estaria mandando vocês correrem.Um ruído distante interrompeu a conversa.Passos.Vários.Kael imediatamente fez um gesto para que todos permanecessem em silêncio.O grupo ficou imóvel.As voze
A passagem era estreita.Tão estreita que Kael precisou caminhar de lado em alguns trechos para não esbarrar nas paredes.Atrás deles, os sons da casa ficavam cada vez mais distantes.Passos.Vozes.Portas sendo abertas violentamente.Eles estavam procurando.E, em algum momento, encontrariam a entrada do arquivo.— Quanto tempo temos? — Victor perguntou.O homem caminhava à frente.— Pouco.— Isso não é uma resposta.— É a única que importa agora.Victor cerrou os dentes, mas continuou andando.Elena mantinha uma das mãos apoiada na barriga.Kael percebeu.— Está cansada?— Um pouco.Ele diminuiu o passo imediatamente.— Então vamos mais devagar.— Kael...— Não vou discutir.Ela quase sorriu.Mesmo naquele momento, havia algo diferente nele.Antes, Kael teria simplesmente ordenado que ela ficasse para trás.Agora, apenas ajustava o próprio passo ao dela.Selene observou os dois em silêncio.Aquela pequena mudança talvez fosse insignificante para qualquer outra pessoa.Para ela, não.







