INICIAR SESIÓNSelene entrou em casa sem fazer barulho, os saltos maltratando seus pés a cada passo. O batom borrado, os cabelos caindo dos grampos e o vestido vermelho colado à pele contavam uma história errada, a mesma que as amigas estavam prestes a acreditar ou deduzir, já que sabiam que ela havia saído com Mathias na noite anterior.
— Olha só quem resolveu aparecer! — Mima Lima, a melhor amiga que sempre trazia veneno disfarçado de sorriso, ergueu as sobrancelhas maliciosas.
Selene mordeu os lábios constrangida, afinal... raramente elas estavam acordadas tão cedo, e nem mesmo tinha dado sete horas da manhã, mas miseravelmente hoje, elas estavam de pé.
— E de vestido de matar… esse Mathias sabe mimar bem, hein? Está linda, mas o que aconteceu? Está só pó.
Katléia, deitada com um caderno sobre o colo, riu de canto, era a mais nova do grupo e normalmente ficava em casa enfiada no computador, escrevendo.
— Aposto que tem material para escrever um conto inteiro só olhando pra você agora, Selene. Essa cara de “noite intensa”… — piscou a outra amiga mais velha em provocação.— Né, parece que Selene descobriu o melhor da vida! — mima brincou.
— Então é por isso que você não queria contar nada! A santinha não é tão santa assim! Não pode mais reclamar quando eu e a Mima vamos às festas.
Selene estacou, imóvel. O coração estava em pedaços, mas não tinha forças para explicar. Fingiu não ouvir; apenas ajeitou a alça caída do vestido e caminhou direto para o quarto, cambaleando sobre os saltos que agora se soltavam agressivamente dos pés a cada gesto, ela se perguntava porque não tinha os arrancado ainda.
— Ei, não vai contar nada? — insistiu Mima, com um tom ácido. — Ou será segredo de alcova?
Selene fechou a porta sem responder.
Dentro do quarto, a máscara caiu. O silêncio foi quebrado pelo som do zíper que puxou às pressas. O vestido deslizou pelo corpo e caiu no chão como um peso maldito.
— droga, o que vou fazer? — ela se perguntou mordendo a unha e olhando ao redor ate avistar aquele criado mudo onde ela mantinha seu segredo mais confuso.
Ela se ajoelhou diante a cômoda, abrindo a gaveta e com as mãos trêmulas agarrando a pequena caixinha onde guardava o anel.
— Por que eu pensei nesse anel? Será que posso tentar encontrar o dono? Ou vender? Ele parecia ser alguém importante... — apertou os lábios formando uma linha.
As lágrimas caíram sem controle em seguida.
— O que eu faço? — sussurrou para si mesma, apertando a joia contra o peito.Na mente, o rosto daquele homem veio nítido, o homem do quarto, sua imponência, o ar de crueldade que passava, e, ao mesmo tempo, uma elegância perturbadora que o fazia parecer incomum.
O jeito como segurava a pistola, pronto para atirar em qualquer um, ainda queimava na memória, só de pensar, ela temia algum tipo de confronto com ele.
O medo tomou conta, mas junto dele nasceu uma determinação estranha, colocou o anel na gaveta e se deitou‑se encolhida, abraçando a si mesma.
O vestido vermelho jazia ao lado da cama, lembrete cruel da armadilha em que havia caído.
O início da tarde chegava pesado, Selene ficou trancada no quarto durante todo o dia, desde que chegara pela manhã.
O corpo ainda estava fraco por causa do remédio que lhe haviam dado, e a lembrança dos olhos frios de Adon queimava em sua mente como uma marca.
Mas ficar trancada sufocava‑a. Só lhe veio à cabeça um lugar para onde sabia que poderia ir quando tudo estivesse ruim: o orfanato. Era o único refúgio, o único espaço onde acreditava ainda poder respirar.
Tomou um banho rápido, prendeu o cabelo num coque apressado e pegou a sacola com doces caseiros e algumas roupas usadas que havia arrecadado.
O ônibus até lá foi um borrão, as ruas passavam, e o coração dela se acalmava aos poucos.
Assim que atravessou o portão gasto de ferro, a correria infantil a recebeu.
— Tia Selene! — uma menininha de tranças correu até ela, agarrando‑se às suas pernas. Logo outras vieram, rindo, pedindo doces, disputando sua atenção.Ela se ajoelhou, distribuindo os pacotinhos coloridos. O riso das crianças a envolveu como um bálsamo. Por alguns instantes, esqueceu‑se da dor.
Mas a paz foi quebrada por vozes ásperas. Ao erguer o olhar, Selene viu, no canto do pátio, a madre conversando com dois homens engravatados, eles mal tinham percebido sua presença.
A postura deles destoava completamente do ambiente simples e inocente; o coração dela acelerou.
Sem querer ser vista, Selene deixou as crianças brincando e se aproximou devagar, escondendo‑se atrás da parede de uma das salas.
— Madre… pense bem — a voz de um dos homens era grossa e carregada de sarcasmo. — Essa espelunca está caindo aos pedaços. Com o dinheiro que oferecemos por algumas meninas, a senhora pode reformar tudo… e ainda abrigar mais crianças e até abrir um segundo orfanato. O que estamos oferecendo é a oportunidade de manter o lugar aberto, ou em menos de dois meses, isso pode desaparecer.
Cap. 164 encerramento.Finalmente era dia que antecedia o casamento de atila e Katleia.A noite que antecedia o casamento trouxe consigo uma calmaria rara e quase sagrada para a mansão que atila tinha comprado para viver com Katleia.Longe dos relatórios de guerra de Adon e das estratégias institucionais de Selene, o andar superior estava imerso em um silêncio reconfortante. Na sala da noite — um ambiente íntimo, banhado pela luz mansa e dourada de um abajur de canto —, Katleia estava sentada no centro do grande sofá de veludo. Ela vestia um robe de seda clara, as mãos repousando sobre os joelhos. Embora seus olhos transmitissem a paz de quem finalmente encontrara um porto seguro, havia uma leve sombra de preocupação em seu semblante.A porta se abriu devagar e Átila entrou. vestia apenas uma calça escura e uma camisa de algodão leve com as mangas dobradas até os antebraços.Seus olhos focaram instantaneamente em Katleia, e toda a rigidez que ele sustentava diante do mundo desmoronou
Cap 163: A Única PonteAdon voltou para casa, Selene estava na cozinha, o cheiro de café pairava pela cara, mas adon seguiu para seu escritório.O escritório particular da mansão principal estava imerso em uma penumbra densa, quebrada apenas pela luz fraca da lua que filtrava pelas cortinas semiabertas.Adon Felix não havia dormido. Os avisos de Omar no hospital e as palavras sombrias de seu próprio pai ecoavam em sua mente como um tambor de guerra.O problema diante de seus olhos não era uma disputa territorial comum; não se tratava de rotas de contrabando ou carregamentos de armas interceptados. Era uma podridão que ia muito além das regras e dos limites da máfia tradicional. Uma rede internacional de tráfico humano e prostituição infantil estava usando as artérias de sua cidade, e a pressão da polícia federal começava a sufocar as fronteiras.Se ele atacasse sozinho com os homens dos Felix, derramaria o sangue de seus soldados em uma guerra de atrito que destruiria a estabilidade r
Cap 162: A Coroa de EspinhosO vento gelado do fim de tarde cortava as frestas dos arranha-céus da capital, fazendo o tecido do terno sob medida de Adon Felix tremular de leve.Ele estava de pé na calçada, ajustando as abotoaduras de prata nos pulsos. Seus movimentos eram calculados, mas a rigidez em sua mandíbula entregava o turbilhão interno.Ao seu lado, William mantinha a postura impecável de um soldado veterano, os olhos atentos a qualquer movimentação suspeita na avenida movimentada.Eles estavam prestes a dar o passo definitivo. Não havia mais espaço para recuos; a partir daquela noite, o destino da família Felix estaria selado sob o comando de Adon.Logo à frente, guardando a entrada imponente de um grande prédio empresarial espelhado cuja fachada de vidro refletia o céu cinzento, duas figuras conhecidas os aguardavam.O Don Alex Felix, vestindo um sobretudo escuro que lhe conferia um ar de patriarca intocável, mantinha os braços para trás. Ao seu lado, Willy Forges, seu conse
Cap. 161POV ÁTILAEu sou o vice-líder da maior organização criminosa deste lado do continente.Eu sou o homem que faz os cobradores de impostos do submundo tremerem e que limpa a sujeira que ninguém mais tem coragem de tocar.Mas ali, sob o sol forte das duas horas da tarde, olhando para uma horda de trinta pequenos seres humanos hiperativos e barulhentos, eu percebi que a verdadeira definição de inferno tinha sido atualizada, aqui? Eu não sou nada além de alguém prestes a fugir na primeira oportunidade.Tudo por culpa da Selene. E do meu irmão, claro. Aquele traidor, eu já nem trato mais Selene como minha irmã, pra mim... ela é a vilã de toda a minha historia, não me deixa em paz nem um segundo, mesmo depois que Katleia me perdoou, ela não perdoa ninguém.No dia anterior, após eu me livrar da pena do Estado com um suborno gordo, Selene entrou no meu escritório com um sorriso que faria o próprio diabo dar um passo para trás. “Você achou que ia se safar de devolver algo para o mundo,
Cap.160Mansão Felix.A mesa de carvalho escuro do escritório central da mansão parecia maior agora que a poeira das últimas batalhas havia assentado. Átila estava de pé, observando os monitores que exibiam o mapeamento digital das fronteiras de seu antigo território.Após quase quatro meses de renúncia, de ter aberto mão de cada centavo e título de sua herança para blindar os Felix das investigações que o cercavam, ele finalmente recuperava o domínio completo do Segundo Corvo.Ver as telas brilhando com os relatórios operacionais trazia uma sensação estranha de familiaridade. Aquele submundo sempre fora seu ecossistema, o império que ele mesmo erguera com punhos de aço.Adon entrou no escritório sem bater, jogando uma pasta de couro preta sobre a mesa. Ele puxou a cadeira da frente e desabou nela, soltando um suspiro pesado de puro cansaço.— Pronto. Está tudo atualizado no sistema do Conselho — Adon começou, cruzando as pernas e encarando o irmão mais velho. — Você está oficialmente
Cap.159Atila saiu do hospital no mesmo dia e agora estavam todos reunidos na mansão ponte novamente.O silêncio na sala de estar da mansão ainda carregava parecia que atila tinha dado a todos uma missão para conseguir cumprir sua meta de se casar tão rápido, mas naquele momento, parecia um momento para respirar um pouco, tinha outra coisa que ele queria conversar.Átila estava sentado na borda do sofá, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos entrelaçadas, encarando o tapete felpudo.Ele já não vestia as roupas táticas usava algo mais leve, mas seus ombros ainda pareciam carregar o peso de um mundo inteiro enquanto seus pensamentos estavam borbulhando.Katleia aproximou-se devagar, sentando-se ao lado dele.O movimento do seu corpo ainda era contido, um lembrete físico da curetagem realizada há poucos dias, mas seus olhos mostravam uma lucidez calma..Átila soltou um suspiro longo, daqueles que parecem vir do fundo da alma, e virou o rosto para encará-la.— Antes de qualquer c







