LOGINA mansão Albuquerque parecia mais uma fortaleza: homens armados patrulhavam os jardins, carros blindados permaneciam ligados diante da entrada principal, câmeras novas haviam sido instaladas durante a madrugada.
Valentina observava tudo da sacada do quarto, a sensação de estar presa aumentava a cada minuto. Seu celular tocou, era Heloísa. — Como está a prisão domiciliar? — Acho que Alcatraz tinha menos segurança. — sorriu sem humor. — Seu pai só está tentando proteger você. — Helô riu. — Proteção é uma coisa, tirar minha liberdade é outra. Ela encerrou a ligação decidida, não passaria mais um dia trancada. - No escritório, Alexandre analisava alguns documentos quando a filha entrou sem bater. — Precisamos conversar. — Pode falar. — disse, encarando-a. — Quero minha vida de volta. — Ainda não. — Até quando? — Até eu ter certeza de que o perigo passou.. — Você sabe mais do que está contando. — cruzou os braços. O silêncio de Alexandre confirmou suas suspeitas. — Aquela festa não foi um acaso, não é? — Existem assuntos dos quais você precisa ficar longe. — ele respirou fundo. — Eu já estou envolvida! — ela elevou a voz pela primeira vez — Tentaram me matar! — Justamente por isso você vai fazer o que eu mandar. — Não sou mais uma criança. — disse, dando um passo à frente. — Enquanto morar sob este teto, seguirá minhas regras. — Então talvez esteja na hora de eu sair daqui. — disse firme, encarando-o. Alexandre ficou imóvel, nunca tinha visto a filha enfrentá-lo daquela maneira. - No alto do Morro da Esperança, Dante observava o movimento da comunidade da varanda de sua casa. Jonas subiu os degraus carregando uma pasta. — Descobrimos quem comprou os carros usados no atentado. — Quem? — Laranjas. — E o dinheiro? — Veio de uma empresa de fachada. Dante abriu a pasta e na primeira página havia uma fotografia, era Alexandre Albuquerque. Ele fechou a pasta imediatamente. — Isso está errado. — Também achei. — Alexandre pode esconder muitas coisas... mas não precisaria contratar uma facção para atacar a própria filha. — Alguém quer que a culpa recaia sobre ele. — Jonas concordou. Dante permaneceu pensativo. Quanto mais investigava, mais percebia que existia alguém manipulando todas as peças daquele jogo. - No fim da tarde, Valentina tomou uma decisão. Esperou a troca de turno dos seguranças. Vestiu uma calça jeans, uma camiseta preta e um boné. Pegou a chave do carro escondida na gaveta do closet e desceu pela escada de serviço. Quando estava prestes a alcançar a garagem, ouviu uma voz atrás de si. — Aonde pensa que vai? — perguntou Marcelo, o chefe da segurança. — Dar uma volta. — sorriu, discretamente. — Seu pai proibiu. — Meu pai não manda na minha vida. — Senhorita, não complique. — Marcelo deu um passo à frente. — Você vai me impedir? O segurança hesitou, não podia tocar nela. Valentina aproveitou o instante de dúvida, entrou no carro e acelerou antes que o portão pudesse ser fechado. Marcelo pegou o rádio imediatamente. — A senhorita Valentina saiu da mansão! Avisem o senhor Alexandre! - Quinze minutos depois, Valentina estacionou perto de uma pequena praça e respirou fundo. Pela primeira vez em dias, sentia o gosto da liberdade. Saiu do carro e caminhou entre as barracas de comida, comprou um café e sorriu para uma criança que brincava com um balão. Era uma cena comum. Quase conseguiu acreditar que tudo estava voltando ao normal, até perceber um reflexo em uma vitrine, um homem usando boné escuro a observava do outro lado da rua. Quando ela virou o rosto, ele fingiu olhar o celular. Seu coração acelerou. Começou a caminhar mais depressa, o homem fez o mesmo. Ela atravessou a avenida, ele atravessou também. Agora não havia mais dúvidas, estava sendo seguida. - No mesmo instante, Jonas recebeu uma ligação. Seu rosto perdeu a cor. — Dante... — O que foi? — A filha do Albuquerque fugiu da mansão. Dante fechou os olhos por um segundo. — Ela está sozinha? — Sim. — Descobriram onde ela está. Dante pegou a chave da caminhonete. — Essa garota não faz ideia de que há gente esperando apenas um erro dela. O motor rugiu. Enquanto Valentina acelerava os passos tentando despistar o homem que a seguia, Dante descia o morro em direção ao centro da cidade. Ela estava determinada a provar que ninguém controlava sua vida, mas aprenderia da maneira mais difícil que coragem e imprudência nem sempre são a mesma coisa.Alguns anos haviam se passado.E, pela primeira vez em muito tempo, a vida não parecia estar preparando uma nova guerra.Não havia carros esperando do lado de fora, não havia homens armados vigiando cada movimento.Não havia telefonemas misteriosos no meio da noite, ameaças escondidas ou pessoas tentando descobrir quem seria o próximo inimigo. Havia apenas silêncio.Um silêncio bom, daquele tipo que não assustava.O sol começava a desaparecer atrás das árvores, espalhando uma luz dourada sobre a casa que Dante e Valentina haviam construído juntos. Ao longe, algumas vozes se misturavam ao som das crianças brincando e das pessoas conversando.A comunidade havia mudado, crescido, novas famílias haviam chegado.Jovens que antes não tinham perspectivas agora tinham cursos, trabalho e oportunidades. Algumas das pessoas que haviam sobrevivido àquela época difícil encontraram novos caminhos.Dante havia ajudado a construir parte disso, Valentina também, mas nenhum dos dois fazia questão de le
Valentina não sabia por que tinha demorado tanto para voltar.Talvez porque algumas lembranças fossem difíceis demais para revisitar.Talvez porque, durante muito tempo, tivesse medo de encontrar a garota que havia sido.Mas naquele dia, meses depois de tudo ter terminado, ela decidiu voltar.A cidade continuava praticamente igual.As ruas movimentadas, os prédios altos, as lojas elegantes, os carros passando apressados.As pessoas caminhando sem imaginar que, naquele mesmo lugar, uma garota havia acreditado que tinha o mundo inteiro nas mãos.Valentina ficou parada diante da antiga avenida, observou tudo pela janela do carro e por alguns segundos, voltou no tempo.Lembrou das roupas caras, das festas, dos restaurantes, dos eventos, das pessoas que sorriam porque sabiam quem era seu pai.Naquela época, ela acreditava que aquilo era felicidade.Acreditava que ter dinheiro significava ter segurança, que ter um sobrenome importante significava ter poder, que estar cercada de pessoas sign
Alguns meses haviam passado desde o casamento e, quando Valentina olhava para trás, às vezes tinha dificuldade para acreditar em tudo o que havia mudado.A comunidade já não parecia a mesma.As ruas estavam mais movimentadas, as antigas construções destruídas durante a guerra começavam a ser recuperadas, o centro comunitário funcionava todos os dias.Havia cursos, oficinas, atendimento para famílias e, principalmente, oportunidades para pessoas que antes não tinham muitas opções.As crianças voltaram a brincar nas ruas, os pequenos comércios começaram a crescer, algumas casas foram reformadas, outras ganharam moradores novos.A vida estava voltando. Não como antes, melhor.Valentina caminhava pela rua principal certa manhã quando encontrou Dona Célia.— Bom dia, minha filha!— Bom dia.— Você viu o centro hoje? — Dona Célia sorriu.— Ainda não.— Está cheio.— É isso que queríamos. — Valentina abriu um sorriso.— Vocês queriam. — ela corrigiu.— Não. Nós queríamos. — Valentina olhou a
A primeira manhã na nova casa foi diferente de todas as outras.Não havia homens esperando do lado de fora, nenhum telefone tocando sem parar, nenhuma reunião urgente, nenhuma notícia sobre inimigos, nenhuma ameaça. Apenas o silêncio de uma casa que ainda cheirava a tinta nova.Valentina abriu os olhos devagar, por alguns segundos, ficou olhando para o teto e então sorriu.Virou o rosto e encontrou Dante ao seu lado, ele ainda dormia.O rosto estava tranquilo, sem aquela expressão séria que tantas vezes carregava.Valentina ficou observando-o, era estranho pensar que aquele homem tinha sido conhecido por todos como alguém impossível de enfrentar.Agora estava ali, dormindo tranquilamente ao lado dela. Seu marido. Seu companheiro. Seu lar.Ela se levantou com cuidado e caminhou até a janela, a casa não era uma mansão, não precisava ser.Tinha uma sala confortável, uma cozinha grande o bastante para os dois, alguns quartos e um pequeno jardim nos fundos. Era simples, mas era deles.Vale
O dia chegou sem avisar.Não houve grandes anúncios, nenhuma lista de convidados enorme, nenhum salão luxuoso, nenhum vestido escolhido para impressionar pessoas que nem faziam mais parte da vida deles.O casamento de Valentina e Dante seria exatamente como os dois queriam. Íntimo, simples e verdadeiro.Poucas pessoas estariam presentes, aquelas que realmente importavam.Aquelas que tinham acompanhado a pior parte da história deles e, mesmo assim, continuaram acreditando que um dia os dois poderiam encontrar um caminho diferente.Naquela manhã, Valentina ficou alguns minutos diante do espelho.O vestido era delicado, bonito sem exageros.Ela passou os dedos pelo tecido e respirou fundo.Por muito tempo, imaginou que, quando aquele dia chegasse, pensaria em tudo o que havia perdido.Naquele momento, porém, pensava em tudo o que havia encontrado.Ela já não era a mesma garota que tinha começado aquela história.Aquela Valentina tinha vivido acreditando que precisava carregar o peso do n
Valentina percebeu que havia alguma coisa diferente assim que Dante apareceu naquela manhã, ele estava mais quieto.Não era o silêncio pesado que ela conhecia dos dias de guerra. Não havia tensão em seus olhos, nem aquela atenção constante para cada movimento ao redor.Era outro tipo de silêncio, parecia nervosismo.— Para onde estamos indo? — ela perguntou, enquanto caminhava ao lado dele.— Você vai descobrir. — Dante apenas sorriu.— Isso parece suspeito. — Valentina estreitou os olhos.— Pela primeira vez na minha vida, eu gostaria que você confiasse em mim sem fazer perguntas.— Você está me pedindo para não fazer perguntas? — ela riu baixinho.— Só por algumas horas.— Isso é muito para alguém como eu.— Eu sei. — Dante segurou a mão dela.Eles seguiram por uma estrada tranquila, deixando para trás as casas da comunidade.Não havia carros seguindo, nenhum segurança, nenhum telefone tocando, nenhuma pessoa esperando por eles. Apenas os dois.Depois de algum tempo, Dante estaciono







