FAZER LOGINO sol ainda nem havia nascido quando Valentina foi acordada pelo som insistente de batidas na porta.
— Senhorita, seu pai quer vê-la no escritório. Ela olhou o relógio, cinco e meia da manhã. — Já estou indo. Vestiu um moletom por cima do pijama, prendeu os cabelos de qualquer jeito e desceu as escadas. Encontrou Alexandre sentado atrás da enorme mesa de madeira, acompanhado pelo chefe da segurança. O ambiente estava pesado. — Sente-se. — Valentina obedeceu — A partir de hoje, algumas coisas vão mudar. — Mudar como? — Você não sairá mais sozinha.. — Está brincando. — riu, incrédula. — Não. — Pai, eu tenho vinte e quatro anos! — E alguém tentou matar você duas vezes em menos de uma semana. — ela ficou em silêncio, não podia negar aquilo — Dois carros acompanharão todos os seus deslocamentos, seu celular foi rastreado e sua agenda foi cancelada pelos próximos dias. — Você está me prendendo. — Estou mantendo você viva. — Não vou viver como uma prisioneira! — disse, levantando-se da cadeira. — É melhor do que viver em um caixão. As palavras cortaram o ar. Ela encarou o pai por alguns segundos, depois saiu batendo a porta. - No Morro da Esperança, Dante também começava o dia cedo. Jonas o encontrou na quadra onde algumas crianças jogavam bola. — Recebemos uma informação. — Fala. — Os homens que perseguiram a Valentina eram da facção do Barreto. Dante pegou a bola que havia rolado até seus pés e a devolveu para um dos meninos. — O Barreto não faz nada sem receber dinheiro. — Também pensei nisso. — Descubra quem pagou. Jonas assentiu. Enquanto caminhavam, um garoto de doze anos se aproximou correndo. — Dante! — O que foi, Lucas? — Uns caras estão vendendo droga perto da escola. O semblante de Dante mudou imediatamente. — Quem autorizou? — Ninguém. Ele olhou para Jonas. — Vamos. - Cinco minutos depois, encontraram três homens encostados em um muro e assim que viram Dante, o sorriso desapareceu. — Quem mandou vocês venderem aqui? — ninguém respondeu — Eu fiz uma pergunta. Um dos homens deu um passo à frente. — O morro é grande. A gente só... Dante interrompeu. — Qual foi a primeira regra que eu estabeleci quando assumi esse lugar? Os três abaixaram a cabeça. — Escola é intocável. — Exatamente. — sua voz permaneceu calma, mas firme — Quem desrespeita essa regra não trabalha aqui. Os homens foram expulsos da comunidade naquele mesmo instante, os moradores observavam tudo em silêncio. Uma senhora se aproximou. — Obrigada, meu filho. — uma senhora se aproximou, agradecendo. Dante apenas sorriu de leve. — As crianças vêm primeiro. - No início da tarde, Valentina não suportava mais o confinamento. Aproveitou que os seguranças estavam distraídos e entrou na biblioteca da mansão, precisava entender quem era Dante. Pegou o notebook, pesquisou seu nome e centenas de notícias apareceram. Algumas o chamavam de criminoso perigoso, outras falavam de um homem que financiava projetos sociais na comunidade. Não havia consenso e quanto mais lia, mais confusa ficava. Nesse momento, Heloísa entrou. — O que está pesquisando? Valentina fechou o notebook rapidamente. — Nada. — respondeu, fechando o notebook. — Está procurando informações sobre o homem que salvou sua vida. — Não faz sentido. — Valentina suspirou. — O quê? — Todo mundo diz que ele é um monstro. — E você viu um? Ela ficou em silêncio. Não. O homem que encontrara na rua tinha sido frio e reservado, mas também havia colocado a própria vida em risco para protegê-la. - No fim da tarde, Jonas voltou com novidades. Entrou apressado na casa de Dante. — Descobrimos quem contratou o Barreto. — Quem? — perguntou, encarando-o. — Ainda não sabemos o nome. — Então o que descobriram? Jonas colocou algumas fotografias sobre a mesa, uma delas mostrava Valentina saindo da festa. Outra, o carro sendo perseguido. E uma terceira, mostrava alguém observando a mansão Albuquerque com uma câmera de longo alcance. No verso da foto havia apenas uma frase escrita à mão: "A próxima oportunidade será a última." Dante fechou o punho. A situação era mais grave do que imaginava, alguém estava caçando Valentina e não desistiria até concluir o serviço. Pela primeira vez em muitos anos, Dante teve um pressentimento ruim. Se não agisse antes, a cidade inteira poderia pagar o preço daquela guerra.Alguns anos haviam se passado.E, pela primeira vez em muito tempo, a vida não parecia estar preparando uma nova guerra.Não havia carros esperando do lado de fora, não havia homens armados vigiando cada movimento.Não havia telefonemas misteriosos no meio da noite, ameaças escondidas ou pessoas tentando descobrir quem seria o próximo inimigo. Havia apenas silêncio.Um silêncio bom, daquele tipo que não assustava.O sol começava a desaparecer atrás das árvores, espalhando uma luz dourada sobre a casa que Dante e Valentina haviam construído juntos. Ao longe, algumas vozes se misturavam ao som das crianças brincando e das pessoas conversando.A comunidade havia mudado, crescido, novas famílias haviam chegado.Jovens que antes não tinham perspectivas agora tinham cursos, trabalho e oportunidades. Algumas das pessoas que haviam sobrevivido àquela época difícil encontraram novos caminhos.Dante havia ajudado a construir parte disso, Valentina também, mas nenhum dos dois fazia questão de le
Valentina não sabia por que tinha demorado tanto para voltar.Talvez porque algumas lembranças fossem difíceis demais para revisitar.Talvez porque, durante muito tempo, tivesse medo de encontrar a garota que havia sido.Mas naquele dia, meses depois de tudo ter terminado, ela decidiu voltar.A cidade continuava praticamente igual.As ruas movimentadas, os prédios altos, as lojas elegantes, os carros passando apressados.As pessoas caminhando sem imaginar que, naquele mesmo lugar, uma garota havia acreditado que tinha o mundo inteiro nas mãos.Valentina ficou parada diante da antiga avenida, observou tudo pela janela do carro e por alguns segundos, voltou no tempo.Lembrou das roupas caras, das festas, dos restaurantes, dos eventos, das pessoas que sorriam porque sabiam quem era seu pai.Naquela época, ela acreditava que aquilo era felicidade.Acreditava que ter dinheiro significava ter segurança, que ter um sobrenome importante significava ter poder, que estar cercada de pessoas sign
Alguns meses haviam passado desde o casamento e, quando Valentina olhava para trás, às vezes tinha dificuldade para acreditar em tudo o que havia mudado.A comunidade já não parecia a mesma.As ruas estavam mais movimentadas, as antigas construções destruídas durante a guerra começavam a ser recuperadas, o centro comunitário funcionava todos os dias.Havia cursos, oficinas, atendimento para famílias e, principalmente, oportunidades para pessoas que antes não tinham muitas opções.As crianças voltaram a brincar nas ruas, os pequenos comércios começaram a crescer, algumas casas foram reformadas, outras ganharam moradores novos.A vida estava voltando. Não como antes, melhor.Valentina caminhava pela rua principal certa manhã quando encontrou Dona Célia.— Bom dia, minha filha!— Bom dia.— Você viu o centro hoje? — Dona Célia sorriu.— Ainda não.— Está cheio.— É isso que queríamos. — Valentina abriu um sorriso.— Vocês queriam. — ela corrigiu.— Não. Nós queríamos. — Valentina olhou a
A primeira manhã na nova casa foi diferente de todas as outras.Não havia homens esperando do lado de fora, nenhum telefone tocando sem parar, nenhuma reunião urgente, nenhuma notícia sobre inimigos, nenhuma ameaça. Apenas o silêncio de uma casa que ainda cheirava a tinta nova.Valentina abriu os olhos devagar, por alguns segundos, ficou olhando para o teto e então sorriu.Virou o rosto e encontrou Dante ao seu lado, ele ainda dormia.O rosto estava tranquilo, sem aquela expressão séria que tantas vezes carregava.Valentina ficou observando-o, era estranho pensar que aquele homem tinha sido conhecido por todos como alguém impossível de enfrentar.Agora estava ali, dormindo tranquilamente ao lado dela. Seu marido. Seu companheiro. Seu lar.Ela se levantou com cuidado e caminhou até a janela, a casa não era uma mansão, não precisava ser.Tinha uma sala confortável, uma cozinha grande o bastante para os dois, alguns quartos e um pequeno jardim nos fundos. Era simples, mas era deles.Vale
O dia chegou sem avisar.Não houve grandes anúncios, nenhuma lista de convidados enorme, nenhum salão luxuoso, nenhum vestido escolhido para impressionar pessoas que nem faziam mais parte da vida deles.O casamento de Valentina e Dante seria exatamente como os dois queriam. Íntimo, simples e verdadeiro.Poucas pessoas estariam presentes, aquelas que realmente importavam.Aquelas que tinham acompanhado a pior parte da história deles e, mesmo assim, continuaram acreditando que um dia os dois poderiam encontrar um caminho diferente.Naquela manhã, Valentina ficou alguns minutos diante do espelho.O vestido era delicado, bonito sem exageros.Ela passou os dedos pelo tecido e respirou fundo.Por muito tempo, imaginou que, quando aquele dia chegasse, pensaria em tudo o que havia perdido.Naquele momento, porém, pensava em tudo o que havia encontrado.Ela já não era a mesma garota que tinha começado aquela história.Aquela Valentina tinha vivido acreditando que precisava carregar o peso do n
Valentina percebeu que havia alguma coisa diferente assim que Dante apareceu naquela manhã, ele estava mais quieto.Não era o silêncio pesado que ela conhecia dos dias de guerra. Não havia tensão em seus olhos, nem aquela atenção constante para cada movimento ao redor.Era outro tipo de silêncio, parecia nervosismo.— Para onde estamos indo? — ela perguntou, enquanto caminhava ao lado dele.— Você vai descobrir. — Dante apenas sorriu.— Isso parece suspeito. — Valentina estreitou os olhos.— Pela primeira vez na minha vida, eu gostaria que você confiasse em mim sem fazer perguntas.— Você está me pedindo para não fazer perguntas? — ela riu baixinho.— Só por algumas horas.— Isso é muito para alguém como eu.— Eu sei. — Dante segurou a mão dela.Eles seguiram por uma estrada tranquila, deixando para trás as casas da comunidade.Não havia carros seguindo, nenhum segurança, nenhum telefone tocando, nenhuma pessoa esperando por eles. Apenas os dois.Depois de algum tempo, Dante estaciono







