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O DONO DO MORRO

last update Fecha de publicación: 2026-07-30 16:15:57

A comunidade despertava muito antes do sol.

Às cinco da manhã, os primeiros comerciantes já levantavam as portas de aço. O cheiro de café fresco misturava-se ao de pão recém-assado. Crianças, ainda sonolentas, caminhavam para a escola enquanto trabalhadores desciam o morro em direção aos pontos de ônibus. A vida seguia.

Ali, cada novo amanhecer era uma vitória.

No alto da comunidade, uma casa ampla de muros altos chamava atenção. Não era uma mansão, mas era sólida, discreta e bem protegida.

Na varanda, um homem observava tudo em silêncio.

Dante, trinta anos. Alto, forte, coberto por tatuagens que contavam pedaços de uma história que poucos conheciam.

Seu rosto era sereno, mas seus olhos estavam sempre atentos.

Ele conhecia cada viela, cada família e cada criança que brincava pelas ruas.

Quando alguém precisava de ajuda, batia à sua porta.

Quando surgia um problema, era seu nome que todos chamavam. Nem todos o admiravam, muitos o temiam, mas ninguém ignorava sua presença.

— Bom dia, chefe. — Jonas, seu braço direito, aproximou-se segurando um copo de café — Dormiu?

— O suficiente.

— A carga chegou inteira. — disse Jonas, o atualizando.

Dante apenas assentiu.

— Algum problema?

Jonas hesitou por um instante.

— Dois homens da facção rival foram vistos perto da divisa ontem à noite.

O silêncio se instalou.

— Não façam nada por enquanto. Eles podem estar provocando ou querendo que a gente ataque primeiro. — respondeu, encarando o horizonte.

Jonas respirou fundo.

Era justamente por isso que Dante era respeitado, ele nunca agia por impulso.

— Quero homens observando, sem nenhum tipo de confronto.

— Entendido.

Pouco depois, Dante caminhou pelas ruas estreitas da comunidade.

Cumprimentava moradores pelo nome.

Parou em frente à pequena padaria.

— Seu Antônio.

— Bom dia, rapaz. — respondeu, sorrindo.

— Como está sua esposa?

— Melhorando. Obrigado pela ajuda com os remédios.

Dante apenas fez um gesto discreto com a cabeça, não gostava de ser elogiado.

Seguiu caminhando.

Mais à frente, uma bola de futebol rolou até seus pés e um garoto de aproximadamente oito anos correu atrás dela.

— Foi mal, tio!

— Está indo para a escola? — perguntou, pegando a bola.

— Hoje não... — o menino respondeu, abaixando a cabeça.

— Por quê?

— Minha mãe está trabalhando.

— Leva o Gabriel para a escola. — Dante pediu a Jonas.

— Pode deixar.

— Valeu! — disse, com um sorriso enorme.

— Estuda. Você merece um futuro melhor que o meu. — disse, devolvendo a bola.

O menino saiu correndo. Jonas observou a cena.

— Você sempre fala isso.

— Porque é verdade.

No fim da manhã, uma reunião acontecia na casa principal.

Cinco homens aguardavam em silêncio, mapas estavam espalhados sobre a mesa.

Jonas apontou uma região.

— A facção dos Castilho está tentando assumir essa área.

— Quem confirmou? — Dante cruzou os braços.

— Dois informantes.

— Não quero inocentes no meio dessa história.

— Chefe, se esperarmos demais... — um dos homens discordou.

— Enquanto eu estiver aqui, ninguém atira perto de escola, hospital ou igreja. — Dante interrompeu.

O ambiente ficou em silêncio, todos conheciam aquela regra. Era inegociável.

Horas depois, um celular vibrou sobre a mesa.

Jonas atendeu, seu semblante mudou imediatamente.

— Tem certeza? — desligou e encarou Dante — A filha do Alexandre Albuquerque vai passar pela Avenida Central hoje à noite.

— E daí? — Dante arqueou uma sobrancelha.

— A facção rival pretende atacar um comboio naquela região.

— O alvo é ela?

— Não.

— Então?

— Ela pode acabar no lugar errado, na hora errada.

Dante permaneceu em silêncio.

Não conhecia Valentina, nem fazia ideia de quem ela realmente era, mas uma coisa era certa.

Quando inocentes eram colocados em risco, a situação deixava de ser apenas uma disputa entre facções.

Ele caminhou até a janela.

Lá embaixo, as luzes da cidade começavam a surgir conforme o sol desaparecia atrás dos prédios.

Em algum lugar daquele horizonte, uma jovem da elite terminava mais um dia acreditando que seu maior problema era a pressão da família.

Ela ainda não sabia que, o destino estava prestes a cruzar seus caminhos com o homem mais perigoso que já pisaria em sua vida.

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