FAZER LOGINO ronco dos motores cortava o trânsito da avenida.
Valentina apertava o volante com tanta força que seus dedos estavam brancos, o SUV preto bateu novamente na traseira do seu carro. — Não... não... Ela tentava manter o controle enquanto desviava dos outros veículos. Buzinas ecoavam por todos os lados, pessoas gritavam. O pânico tomava conta da avenida. Pelo retrovisor, viu a caminhonete preta acelerar e ficar lado a lado com o SUV. Não reconhecia o veículo e nem quem estava dentro dele. Tudo aconteceu em segundos. A caminhonete fechou a passagem do SUV, os dois veículos quase se tocaram. O motorista do SUV perdeu espaço e precisou frear bruscamente. Valentina aproveitou a oportunidade para virar em uma rua lateral, seu coração parecia querer sair do peito. — Calma... calma... Mas a rua estava bloqueada por uma obra, sem saída. Ela freou com força. Antes que pudesse dar marcha à ré, o SUV entrou na rua. Os homens haviam encontrado seu esconderijo. A caminhonete também entrou, parando entre o SUV e o carro de Valentina. A porta se abriu e um homem desceu calmamente. Alto, vestindo uma camiseta preta, calça jeans escura e botas. Os braços tatuados apareciam sob as mangas dobradas. Seu olhar era firme. Frio. Seguro. Valentina prendeu a respiração. Ele caminhava como alguém que não tinha medo de nada. Do SUV, três homens armados desceram. — Sai da frente! — gritou um deles. O desconhecido permaneceu imóvel. — A garota não é problema seu. — ele respondeu sem levantar a voz. — Agora é. Os criminosos trocaram olhares e um deles ergueu a arma. — Última chance. O homem apenas inclinou levemente a cabeça. — Vocês escolheram o lugar errado. O confronto foi rápido, a rua estreita obrigou os criminosos a recuar quando a caminhonete bloqueou completamente a passagem. Sem espaço para avançar e percebendo que chamariam atenção, os homens voltaram para o SUV. O motorista acelerou e desapareceu entre as ruas, o silêncio tomou conta do lugar. Valentina saiu do carro ainda tremendo, as pernas mal a sustentavam. — Você... você... Ela não conseguia completar a frase. O homem se aproximou apenas o suficiente para verificar se ela estava ferida. — Está machucada? Ela balançou a cabeça negativamente. — Não. Ele observou o carro amassado. — Eles vão voltar. A frase fez um arrepio percorrer seu corpo. — Quem são eles? — Ainda não sei. — Você salvou minha vida. — disse, respirando fundo. Ele não respondeu. Apenas olhou ao redor, como se esperasse outro ataque. Foi então que Jonas se aproximou. — Dante, precisamos ir. Valentina ouviu aquele nome pela primeira vez. Dante. O homem virou-se para entrar na caminhonete. — Espera!— ele parou — Como sabe meu nome? — A cidade inteira sabe quem é Valentina Albuquerque. — Então você me conhece? — perguntou, arregalando os olhos. — Conheço o sobrenome. A resposta a incomodou. — Eu nem agradeci. Dante a encarou por alguns segundos. — Agradeça ficando viva. Entrou na caminhonete e bateu a porta, o motor rugiu. Em poucos instantes, o veículo desapareceu. Minutos depois, dezenas de viaturas chegaram ao local. Os seguranças da família Albuquerque também apareceram. Alexandre desceu de seu carro completamente desesperado. — Valentina! — a abraçou com força — Você está bem? — ela apenas assentiu — Quem fez isso? Ela olhou para a rua por onde a caminhonete havia desaparecido. — Eu não sei... — hesitou por um instante — Mas um homem me salvou. — Quem? Ela lembrou dos olhos escuros, da postura firme e da única palavra que ouvira. — Dante. O rosto de Alexandre perdeu a cor. Pela primeira vez desde o atentado, seu pai parecia ainda mais assustado do que ela. — Nunca mais diga esse nome. — Por quê? — Porque esse é exatamente o homem de quem você deve ficar longe. Valentina permaneceu em silêncio. Mal sabia ela que, a partir daquele dia, seu destino e o de Dante já estavam entrelaçados de uma forma que nenhum dos dois conseguiria evitar.O carro seguia pela estrada em silêncio.Valentina olhava pela janela, mas sua cabeça estava longe dali.A fotografia de sua infância permanecia em suas mãos, ela ainda não conseguia entender.O homem que comandava tudo conhecia sua família desde o dia em que ela nasceu e talvez conhecesse ela melhor do que imaginava.— Dante...— Eu estou aqui.— Acho que nunca estivemos tão perto da verdade.— E talvez nunca tenhamos estado em tanto perigo. — ele olhou rapidamente para ela.— Foi isso que eu fiz. — Valentina apertou a fotografia.— O quê?— Eu descobri a verdade. — ela respirou fundo — E coloquei todo mundo em perigo.— Não foi você quem criou essa guerra. — Dante segurou o volante com mais força.— Mas fui eu quem encontrou os documentos.— E se você não tivesse encontrado?— Talvez minha família continuasse escondendo tudo.— E nós continuaríamos sem saber quem estava por trás dos ataques. — Dante olhou para ela.Ela ficou em silêncio.Ele tinha razão, mas isso não diminuía o medo
A antiga propriedade da família Albuquerque ficava afastada da cidade. Valentina conhecia aquele lugar.Quando criança, costumava passar alguns finais de semana ali com os pais, mas havia anos que ninguém mencionava aquela casa.— Tem certeza? — perguntou Dante, estacionando diante do portão enferrujado.— Minha mãe deixou isso para mim, preciso descobrir por quê. — disse, segurando a chave.Eles entraram.A casa estava silenciosa, tudo parecia abandonado, até que Valentina encontrou uma porta trancada no fundo do corredor.A chave serviu. Clique. A porta abriu e dentro havia caixas antigas. Documentos, fotografias e um pequeno gravador.Valentina apertou o botão e a voz de sua mãe surgiu.— Se você está ouvindo isso, significa que encontrou o arquivo.— Mãe... — chamou, emocionada.A gravação continuou.— Seu pai não foi o único envolvido, mas ele fez acordos que jamais deveria ter feito.— Que acordos? — Dante ficou sério.A voz continuou:— Para proteger nossa família, Alexandre ne
Valentina passou a noite inteira diante dos documentos, não conseguia escolher no que acreditar.De um lado, estava o pai.O homem que a ensinara a andar de bicicleta, que a protegia quando era criança e que dizia que faria qualquer coisa por ela.Do outro, estavam as provas.Assinaturas, transferências, empresas, nomes de pessoas envolvidas com a guerra e o nome de Alexandre aparecia em quase tudo.— Eu não sei mais quem é meu pai. — disse, fechando os olhos.Dante, sentado do outro lado da mesa, permaneceu em silêncio.— Você pode me dizer que ele é culpado. — continuou ela — Mas uma parte de mim ainda quer acreditar nele.— Você não precisa decidir hoje.— Preciso. — ela olhou para ele — Porque cada minuto que eu passo sem saber pode colocar você em perigo.— Valentina, escuta uma coisa. — Dante levantou, se aproximando — Eu não quero que você escolha entre sua família e eu.— Mas eu preciso escolher em quem confiar.— Então confie nas provas.— E se as provas estiverem erradas? —
A descoberta sobre Eduardo não saía da cabeça de Valentina.Se ele estava mentindo, quanto mais coisas sua família escondia?Dante passou a madrugada analisando os documentos encontrados no arquivo.Transferências, empresas, contas, nomes que se repetiam. Até que encontrou algo diferente.— Jonas.— Achou alguma coisa? — Jonas entrou na sala.— Veja essas transferências. — Dante apontou para a tela.— São valores altos. — Jonas se aproximou.— E olha para quem foram enviados.— São empresas ligadas à facção rival. — disse Jonas, analisando os nomes.— Exatamente. — Dante assentiu.Valentina, que estava do outro lado da sala, aproximou-se.— O que isso significa?— Que parte do dinheiro usado contra nós pode ter vindo de empresas da sua família. — disse, hesitante.Ela ficou imóvel.— Do meu pai?— Ainda não podemos dizer que foi diretamente ele. — Dante apontou para os documentos — Mas as empresas estão ligadas ao nome dele.— Então meu pai pode ter financiado os próprios homens que e
Valentina passou a manhã olhando para o mesmo documento.A frase continuava diante dela: "Alexandre Albuquerque não é o líder, ele responde a alguém."Aquilo mudava tudo.Se o pai não estava no topo, quem estava?Ela ainda tentava organizar os pensamentos quando ouviu um carro parar em frente à casa.— Você está esperando alguém? — Dante apareceu na porta.— Não.Uma batida soou.Dante foi abrir e Valentina congelou ao reconhecer quem estava do outro lado.— Tio Eduardo?Eduardo Albuquerque era um dos homens mais próximos de sua família, amigo de seu pai. Presente em aniversários, festas e viagens.Uma pessoa em quem Valentina confiara durante toda a infância.— Minha menina. — ele abriu os braços.Valentina o abraçou, mas se afastou rapidamente. Alguma coisa em seu olhar estava diferente.— O que você está fazendo aqui?— Vim conversar.Dante permaneceu próximo.— Sobre o quê?Eduardo olhou para os documentos sobre a mesa.— Sobre isso. — ele pegou uma das folhas — Valen, esses docu
Valentina passou a noite acordada.Os documentos estavam espalhados sobre a mesa: contratos, transferências, fotografias, assinaturas.E, no centro de tudo, o nome de seu pai. Alexandre Albuquerque.Ela pegou uma das folhas novamente, a frase continuava ali: "Nenhuma operação deverá acontecer sem minha autorização."— Você sabia de tudo...Valentina fechou os olhos. Pela primeira vez, disse aquilo em voz alta e ouvir a própria voz tornou tudo mais real.-Dante encontrou Valentina sentada no chão, cercada pelos documentos.— Você não dormiu.— Não consegui.— Quer parar por hoje? — ele se sentou ao lado dela.— Não. — ela entregou uma fotografia — Olha para ele.Dante observou a imagem de Alexandre sorrindo ao lado de empresários.— Esse homem parece meu pai.— Mas você acha que é?Dante ficou em silêncio.— Eu não sei.— Esse é o problema.Valentina baixou os olhos, ela começou a lembrar. Os jantares, as viagens, as festas, as reuniões que seu pai dizia serem "negócios".As vezes em







