FAZER LOGINTARYN
— Como ousam?! — repeti, minha voz ecoando ainda mais forte.
Ronan girou nos calcanhares, os olhos se encontrando com os meus.
— O que faz aqui? — rosnou, a mão apertando a mala como se fosse uma arma.Minha atenção, porém, não estava nele. Estava nela.
Kalinda.
Minha irmã, tão perfeita, tão bondosa aos olhos de todos. Agora, seus olhos arregalados estavam cheios de pavor. Ela parecia uma criança pega em flagrante, e ainda assim havia algo sombrio em sua expressão.— Como pôde? — minha voz saiu trêmula, mas carregada de dor. — Como pode fazer isso com Caius? Ele não merece. Ainda há tempo, Kalinda. Volte. Volte comigo, antes que seja tarde demais.
Ela recuou um passo. Depois outro. O medo em seus olhos deu lugar a uma determinação fria que eu não conhecia.
— Não — sussurrou, e então ergueu o queixo, firme. — Eu não vou voltar. Não posso.
Aquelas palavras foram como um tapa em meu rosto. Senti meu corpo se contrair, a garganta fechar.
— O que…? — franzi a testa, tentando compreender. — Como assim não pode?
— Não suporto aquele homem! — a voz dela tremeu, mas não de arrependimento. De fúria. — Não posso viver presa a ele, sufocada naquela casa, sendo a esposa perfeita que todos querem. Eu não vou!
— Você… você está falando de Caius? — perguntei, incrédula.
Ela bufou, cruzando os braços, a delicadeza de sempre transformada em escárnio.
— Nunca amaria alguém como ele. Frio, rígido… tão perfeito e intocável que chega a ser insuportável.
Minhas pernas quase cederam. Eu não a reconhecia. Aquela não era a minha irmã, a mesma que sorria com doçura nas manhãs, que falava de Caius como se fosse um presente dos deuses.
— Mas você o ama.
— Eu o desprezo.
Minha boca se abriu, mas nenhuma palavra saiu de imediato. O coração me batia nos ouvidos, cada batida mais dolorosa que a anterior.
— Do que está falando? — forcei as palavras, a voz embargada. — Você sempre disse que o amava. Sempre se gabou para suas amigas.
Kalinda riu. Não aquela risada doce que todos conheciam, mas uma risada curta, seca, sem alegria.
— Amor? — ela repetiu, como se a palavra fosse uma piada amarga. — Eu nunca amei Caius. Nunca.
Senti o ar me abandonar, como se alguém tivesse golpeado meu peito.
— Mas… — tentei, sem conseguir terminar a frase.
Ela deu de ombros, os olhos faiscando com uma frieza que me fez estremecer.
— Eu aceitei o casamento porque ele é o alfa. Porque tem riqueza, respeito, e porque unir nosso nome ao dele foi conveniente para todos. Isso é o que importa. Status. Segurança. O resto é ilusão.
Balancei a cabeça, negando, recusando aceitar aquelas palavras.
— Kalinda… — minha voz falhou. — Você está falando de um homem que daria tudo por você. De alguém que…
— Que me sufoca com a perfeição dele? — ela me interrompeu, o tom ríspido. — Você não entende, Taryn. Nunca entendeu. Você sempre viveu na sombra, doente, frágil, intocada. Mas eu, eu sei o que quero. E não é viver ao lado de um homem frio e controlado como Caius.
As palavras dela me atingiram como uma faca cravada no meu peito, cada sílaba cortando um pouco mais fundo. Eu a olhei, e por um instante não vi minha irmã. Vi apenas uma estranha com o rosto dela.
Minha boca se abriu, mas a dor era tanta que nenhuma palavra conseguiu sair.
Kalinda desviou o olhar para Ronan, como se buscasse aprovação, e então deu um passo firme em minha direção. Antes que eu pudesse recuar, suas mãos agarraram meus ombros com força, os dedos afundando no tecido simples do meu vestido.
— Você vai entender em breve, Taryn — sussurrou, sua respiração quente contra meu rosto. — Quando se casar, aprenderá que nem tudo se trata de amor.
Engoli a saliva com dificuldade, o nó em minha garganta quase me sufocando. Segurei a mão dela, desesperada, implorando.
— Por favor… volte comigo. Caius a ama, Kalinda. Ele não suportaria essa verdade. Você ainda pode escolher não fazer isso. Ainda dá tempo.Ela franziu a testa, e por um instante pensei que minhas palavras tivessem alcançado alguma parte dela. Mas logo em seguida, ela puxou suas mãos de volta com brusquidão, como se meu toque a contaminasse.
— Você é patética — cuspiu, erguendo o queixo. — Implorando que eu volte para um homem que você ama.
As palavras me atingiram como um soco no estômago. Recuo um passo, as sobrancelhas arqueadas, o coração em disparada.
Kalinda bufou, cruzando os braços diante do peito. Um sorriso cruel curvou seus lábios, acompanhado de uma risada baixa, zombeteira.
— Acha que eu não sabia? — continuou, os olhos cintilando com um brilho de triunfo. — Sempre percebi seus olhares, sua respiração suspensa cada vez que Caius se aproximava. É patético, Taryn. Constrangedor. Ele nunca vai reparar em você.
Meu corpo inteiro estremeceu, e por um instante não consegui respirar. As palavras dela me despiram, me deixando nua diante de um segredo que eu jamais ousara revelar em voz alta.
Kalinda me analisou dos pés à cabeça, os olhos demorando-se sobre minha figura pálida, meu vestido simples, meu capuz amarrotado. Então, como se tivesse acabado de se lembrar de algo, sua expressão mudou.
Ela sorriu de forma calculada, inclinando a cabeça de lado.
— Ou talvez… agora você tenha uma chance. — A voz dela escorreu venenosa. — Afinal, eu estou indo embora.Meu estômago se revirou, e o gosto amargo da vergonha e da dor subiu à minha boca.
Balancei a cabeça com veemência, sentindo a revolta subir-me à garganta.
— Eu sempre respeitei o seu casamento, Kalinda. Sempre! — minha voz quebrou, mas mantive o olhar firme nela.
Ela apenas deu de ombros, indiferente, como se minhas palavras não passassem de vento.
— Eu não me importo. — Seus lábios curvaram-se em um sorriso frio. — Se quer tanto assim, pode ficar com Caius. Vai descobrir, cedo ou tarde, que ele não é nada além de uma decepção.
Ela se virou sem pressa, estendendo a mão para Ronan, que a segurou de pronto. Juntos, começaram a se afastar, como se nada do que eu dissesse tivesse valor.
Meu corpo se moveu sozinho, bloqueando a passagem deles, o coração disparado.
— Você não pode ir embora, Kalinda! — exclamei, a voz mais alta do que pretendia. — Isso é traição. E você sabe o que acontece com traidores. Você… você pode ser morta por isso. Não só você, mas nosso pai seria arruinado. Seríamos todos destruídos.
Kalinda parou, fitando-me com os olhos semicerrados. Por um instante, achei que o medo a tivesse alcançado. Mas ela apenas respirou fundo e respondeu com frieza:
— Não me importa. Eu já fiz muito por esta família. Já dei o bastante. Está na hora de viver a minha vida, e não vou me prender a eles. Nem a você.Torci o nariz, o peito ardendo de incredulidade.
— Eu não a reconheço. — murmurei, quase sem fôlego.Ela inclinou a cabeça, o semblante endurecido.
— Então volte para casa e esqueça o que viu, Taryn. É melhor assim.— Não — rebati, firme, a voz embargada. — Eu não vou esquecer. E você ainda pode voltar atrás. Pense em Caius… em tudo o que ele fez por você.
Kalinda bufou, impaciente, mas antes que pudesse responder, meus olhos recaíram sobre Ronan.
— E você? — cuspi, sentindo o asco percorrer meu corpo. — Tem uma esposa, Ronan. Uma mulher que ainda está de luto pela perda do bebê de vocês. E mesmo assim… mesmo assim vem até aqui roubar a esposa do próprio primo?Ele sorriu. Não um sorriso de vergonha, mas de escárnio.
— Ela nunca deveria ter engravidado — disse, a voz baixa e carregada de desprezo. — Foi um sacrifício fazê-la perder aquela criança.Meus pés vacilaram para trás, a náusea subindo até a garganta. O mundo pareceu girar ao meu redor, e por um instante perdi o ar.
— Você… — minhas palavras saíram num sussurro horrorizado. — Você a envenenou?
TARYNO último elo das correntes cedeu com um estrondo.Caius caiu de joelhos por um instante, respirando com dificuldade.Livre.Mas não havia tempo para comemorar.Ele levantou o rosto para mim.— Fuja.Eu fiquei sem entender.— O quê?Minha atenção estava presa ao vermelho espalhado pelo corpo dele.As marcas das correntes.As queimaduras.O sangue.— Caius...Minha voz tremeu.— Você está ferido.Ele se aproximou antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa.Suas mãos seguraram meu rosto com cuidado, como se precisasse ter certeza de que eu estava realmente ali.Os olhos dele percorreram meu rosto.Como se estivesse tentando guardar cada detalhe.— Taryn, escute.Mas eu mal conseguia ouvir.Ele estava livre.Ele estava
TARYNEu não sabia quanto tempo havia passado.Minutos.Uma hora.Talvez apenas alguns segundos presos naquele desespero.O grimório permanecia aberto em minhas mãos, suas páginas antigas espalhadas diante de mim.Eu lia.Relia.Voltava para as mesmas palavras, procurando algo que eu tivesse deixado passar.Alguma resposta.Alguma brecha.Alguma forma de entregar a Ekran aquilo que ele exigia.O controle.Não apenas a transformação.Não apenas a capacidade de assumir a forma animal.Mas o domínio completo sobre ela.A parte mais profunda.A força que separava um Alfa de sua natureza perdida.Meus dedos tremeram sobre as páginas.Eu entendia agora.A forma animal não era uma maldição.Era parte da natureza deles.O equilíbrio entre instinto e consci&ecir
TARYNO salão mergulhou em um silêncio sufocante.Ninguém parecia capaz de respirar.Foi meu pai quem rompeu aquele vazio.— Isso é impossível! — sua voz ecoou pelo salão. — Exijo uma explicação!Gerald Fenwick deu um passo à frente, sem desviar os olhos da jaula.— Se pretende nos fazer acreditar em tamanha insanidade, Lorde Velmont, apresente uma prova. Como essa criatura poderia ser o Alfa Caius Lockhart?Os murmúrios cresceram ao redor.— É uma ilusão...— Bruxaria...— Isso não pode ser real...Meu olhar encontrou o de Kalinda.Ela estava completamente imóvel.Os olhos arregalados, presos em Caius.Se havia fingimento naquela expressão, eu não consegui enxergar.Ela parecia tão perdida quanto todos os outros.Não con
TARYNEu era a atração principal.Pelo menos foi o que imaginei nos primeiros minutos, enquanto encarava a multidão de rostos conhecidos.Até que as portas do salão se abriram novamente.O som de correntes arrastando sobre o mármore fez as conversas cessarem uma a uma.Virei a cabeça.Uma enorme jaula de ferro atravessava o salão, empurrada por vários homens.Ela estava coberta por um pesado tecido negro.Meu coração acelerou.Algo dentro de mim sussurrava que aquilo não fazia parte de um baile.Fazia parte de um espetáculo.A jaula parou bem no centro do salão.Ekran caminhou até ela.Sem dizer uma única palavra, segurou a ponta do tecido.E puxou.Meu fôlego desapareceu.Não.Meu coração simplesmente parou.Dentro da jaula...Estava Caius.Não o homem que eu conhecia.Mas sua verdadeira natureza.A Fera.Seu enorme corpo permanecia imóvel, preso pelas correntes de ferro-frio. O pelo negro parecia absorver a luz das velas, e seus olhos... aqueles olhos...Eles encontraram os meus no
TarynEu não sabia por que Ekran havia me dado aquele tempo.No começo, achei que fosse apenas crueldade.Uma forma de prolongar minha agonia.Uma maneira de assistir enquanto eu falhava.Mas depois de todos aqueles dias dentro daquela torre, eu aprendi uma coisa sobre ele.Ekran nunca fazia nada sem um propósito.Cada palavra.Cada ameaça.Cada silêncio.Tudo fazia parte de algum plano.E isso era o que mais me assustava.Porque eu sabia que, quando aquele prazo acabasse, ele não hesitaria.Ele não era um homem que fazia ameaças vazias.Se eu falhasse...Lydia morreria.Caius morreria.E a culpa seria minha.Os dias passaram lentamente.Ekran estava diferente.Mais impaciente.Mais irritado.Ele entrava na biblioteca várias vezes ao dia.Perguntava se eu havia descoberto algo.Se a magia havia respondido.Se eu havia conseguido despertar aquilo que ele tanto desejava.E todas as vezes eu precisava dizer a mesma coisa:— Ainda não.Eu via a frustração crescendo nele.Como uma chama pr
TARYNA torre biblioteca parecia pior agora.Antes, aquele lugar parecia ainda esconder respostas.Agora, parecia uma prisão por completo.Ekran abriu uma porta que eu nunca tinha visto. Atrás dela havia uma sala enorme, com paredes inteiras cobertas por conhecimento esquecido.Livros antigos.Pergaminhos amarelados pelo tempo.Grimórios com capas de couro desgastadas.Runas gravadas em pequenas pedras.Era como se séculos de magia tivessem sido enterrados naquele lugar, esperando alguém capaz de encontrá-los.Ekran entrou primeiro.Passou os dedos sobre uma pilha de livros como se tocasse algo precioso.— Tudo que você precisa está aqui.Permaneci em silêncio.Ele pegou um dos grimórios e colocou diante de mim.— Aprenda.Meu olhar encontrou o dele.— O quê?







