INICIAR SESIÓNTARYN
Ronan me encarou com uma calma terrível, e então, para meu espanto, Kalinda deu um passo à frente, com um sorriso torto.
— Sim — admitiu sem pestanejar. — Fui eu quem ofereceu a erva. Ele só colocou junto à comida dela.O chão pareceu fugir debaixo dos meus pés.
— Vocês são monstros. — sussurrei, as palavras escapando antes que eu pudesse contê-las.Ronan desviou o olhar para Kalinda e murmurou, como se eu não estivesse ali.
— Precisamos ir antes do amanhecer. Já acertei tudo com o capitão. Mas não podemos deixá-la para trás. — Seu dedo apontou diretamente para mim. — Se ela voltar e contar a Caius, ele nos encontrará antes que estejamos em segurança.
Senti meu coração falhar dentro do peito. Kalinda me observou em silêncio por um instante que pareceu eterno.
— Então vamos prendê-la.
— Não! — gritei, mas Ronan foi mais rápido.
Ele me agarrou com a força de um lobo, meus braços contorcendo-se inutilmente contra o aperto dele. Eu não tinha chance contra um alfa. Fui arrastada até um poste de madeira, a dor queimando nos pulsos quando ele amarrou minhas mãos com uma corda áspera. A seguir, um pano sufocante tapou minha boca, roubando-me o fôlego e a voz.
Minha mente fervia em desespero, as lágrimas turvando minha visão. Eu queria gritar, implorar, mas tudo o que restava era o som abafado da minha respiração acelerada.
Antes que Ronan pudesse se afastar, algo estalou no ar. O som metálico ecoou na noite quando um bastão atingiu a lateral da cabeça dele. Tudo aconteceu tão rápido que mal pude acompanhar. Vi seus olhos se revirarem, e então seu corpo tombar pesado ao chão, sangue escorrendo pela têmpora. Meu peito se ergueu em espanto, os olhos arregalados, quando percebi quem segurava o bastão. Kalinda. Minha irmã. O rosto dela estava transtornado, mas a decisão em seus olhos era inquebrável. Sem hesitar, ergueu o bastão novamente e desceu-o contra Ronan mais uma vez. O som seco da pancada reverberou no cais, e o corpo dele se sacudiu antes de ficar imóvel.— O que você fez?
Os olhos de Kalinda encontraram os meus, e naquele instante eu não soube mais quem estava diante de mim. O sorriso que ela exibia era desfocado, vazio, como se algo dentro dela tivesse se quebrado há muito tempo, e eu me perguntei se algum dia conheci de verdade a minha irmã.
Ela deixou o bastão cair com um estrondo seco ao lado do corpo de Ronan. Morto. Definitivamente morto. O sangue se espalhava pelo cais, escorrendo entre as tábuas, e o silêncio pesado da noite parecia nos engolir.
— Eu estava cansada dele — disse, com uma naturalidade que me gelou a espinha. — Ele era apenas mais um obstáculo. Para fugir, eu precisava dele… porque nós, mulheres, nunca temos poder algum. Sempre são os homens que decidem, que comandam. — Ela ergueu o queixo, os olhos brilhando de uma convicção estranha. — Mas agora que já tenho a passagem garantida e joias o suficiente, não preciso de homem nenhum.Eu mal conseguia respirar, observando o corpo imóvel no chão e a mulher que eu deveria chamar de irmã.
— O quê? — ela se inclinou na minha direção, sorrindo com escárnio. — Você realmente achou que eu gostasse desse paspalho arrogante? — Seu riso soou como vidro se partindo. — Homens devem ser usados, irmazinha. Apenas isso. Meu estômago se revirou. Eu queria negar, dizer que aquela não era Kalinda, que eu estava presa em um pesadelo, mas a cada palavra dela, o véu da ilusão se rasgava mais. Ela então se virou com desdém, ajeitou a bolsa no ombro e começou a caminhar pelo cais como se o sangue atrás dela fosse apenas uma poça de vinho derramado. Mas o destino não lhe permitiria ir tão longe. — Kalinda! — uma voz grave cortou a escuridão. Segui o som, o coração disparando, e quase caí de joelhos quando reconheci. Eram vozes conhecidas, próximas, cada vez mais altas. Meu pai e Caius. O choque atravessou o rosto de Kalinda, deixando sua pele mais pálido que o normal. Ela parou, o corpo rígido, e lentamente se voltou para mim. O ódio em seus olhos faiscou como brasas vivas. O dedo dela se ergueu, acusador, tremendo de fúria. — Você. — Sua voz saiu como veneno. — Você os trouxe aqui. Kalinda começou a andar de um lado para o outro, cada passo dela ecoando. As vozes se aproximavam cada vez mais, agora misturadas com outros passos que eu ainda não conseguia identificar. Mais pessoas vinham, e minha garganta se fechou. Eu sabia que, se algo acontecesse, não teria para onde fugir.Seus olhos, porém, voltaram-se para o corpo de Ronan por um instante, depois para mim. Ela apertou os lábios, murmurando um xingamento tão baixo que mal consegui ouvir. Sua carranca era puro ódio. Cada músculo do corpo dela parecia pronto para me destruir.
Meu coração disparou e meus braços se contorceram contra as cordas, a mordaça abafando meus gritos internos. Eu tinha certeza de que minha própria irmã iria me matar.Então ela se abaixou e pegou o bastão. Mergulhou-o no sangue ainda quente de Ronan e, aproximou-o de mim, sujando meu vestido e espalhando o vermelho pelo tecido claro. Meu estômago revirou.
— O que…? — tentei sussurrar, mas o pano na minha boca impedia qualquer som. Ela se aproximou mais, os olhos fixos nos meus, e então colocou o bastão em minhas mãos. Meu corpo tremeu ao tentar entender, sem saber se era uma armadilha ou um teste. Antes que pudesse reagir, sua mão agarrou minha cabeça com força, inclinando-me para trás. Ela bateu minha cabeça contra o poste de madeira com força, fazendo minha visão girar e minha mente se embaralhar. Tontura, dor, pânico. E ela fez de novo. O impacto me fez sentir tudo começar a escurecer, cada batida na minha cabeça puxando-me para o abismo da inconsciência. Meu corpo caiu contra a madeira, as cordas queimando meus pulsos, e meu coração parecia querer saltar do peito. E então, tão repentinamente quanto começou, tudo cessou. A mão de Kalinda se afastou, a mordaça foi arrancada da minha boca, e eu finalmente consegui gritar. — Socorro! — minha voz ecoou pelo cais, rouca e desesperada, misturando-se ao vento frio da noite. Minha mente girava, mas uma coisa era clara: ela ainda estava ali, minha irmã, mas agora havia algo em seus olhos que eu não reconhecia, algo que não era totalmente dela, algo perigoso, selvagem e imprevisível. Para minha surpresa, Kalinda começou a gritar por ajuda. O som ecoou no cais e me fez congelar, cada palavra dela soando distorcida na minha mente. Ao me mexer, percebi que minha irmã estava sangrando nos lábios. O sangue, misturado à escuridão da noite e ao meu próprio terror, parecia embaçar tudo ao meu redor. Minha cabeça latejava, cada pulsar martelando como se fosse explodir, e minha visão escurecia a cada segundo. Entre gritos e o som confuso do vento, ouvi um toque, mãos firmes segurando-me, e um calor que me fez oscilar entre o desespero e a esperança. Quando finalmente consegui abrir os olhos, estava em uma cela fria e úmida. Meu vestido ainda estava sujo de sangue, manchado e pegajoso. Ao meu redor, as sombras pareciam se fechar, mas os rostos diante de mim me deram alívio. Meu pai, Caius e dois membros do conselho, todos olhando-me com uma mistura de desaprovação, choque e julgamento que me deixou sem fôlego.TARYNUm mês.Fazia exatamente um mês desde que deixamos as ilhas para trás.Às vezes ainda parecia impossível.Eu havia passado dezenove anos acreditando que aquele lugar era o meu mundo. Conhecia cada rua de pedra, cada casa, cada jardim cercado por grades de ferro. Sabia quais famílias se cumprimentavam apenas por obrigação e quais sussurravam umas sobre as outras atrás das portas.Conhecia o cheiro das manhãs frias.O som das carruagens.As badaladas do sino.Conhecia até os olhares, principalmente os olhares.Durante muito tempo, achei que precisava aprender a suportá-los.Hoje percebo que nunca deveria ter precisado.Aproximei-me da janela do quarto e afastei um pouco a cortina.Eu não queria voltar para a ilha onde cresci.Não depois de tudo.Aquelas pessoas haviam me julgado, humilhado e desejado minha morte. Mesmo depois de tudo que acontecera, eu sabia que jamais conseguiria chamar aquele lugar de lar novamente.Caius percebeu antes mesmo que eu dissesse.Ele simplesmente ab
TARYNDepois de tudo o que havia acontecido naquela noite, permanecer naquela ilha parecia impossível. Caius caminhava ao meu lado, ainda segurando minha mão, enquanto Lydia seguia conosco. Ela parecia exausta, mas havia algo diferente em seu rosto agora. Estávamos chegando ao cais quando avistei duas figuras mais adiante.Parei.Kalinda.E Noelia.As duas estavam próximas a uma pequena embarcação. Havia uma enorme bolsa aos pés delas, tão cheia que parecia prestes a arrebentar. Noelia segurava uma das alças enquanto Kalinda verificava alguma coisa dentro dela.Então Noelia ergueu o rosto.Kalinda segurou sua cintura.E as duas se beijaram.Fiquei completamente imóvel.Por alguns segundos, apenas observei.Tudo pareceu se encaixar de uma vez.As palavras de Kalinda.Seu desprezo pelo casamento.A maneira como sempre falava dos homens como se nenhum deles pudesse lhe oferecer aquilo que realmente desejava. A forma como tratava a ideia de se casar como uma condenação, mesmo quando faz
O sangue de Ekran manchava seu focinho e seu peito, enquanto seus olhos verdes estavam fixos em mim. Havia algo selvagem nele, algo que fazia meu coração disparar, mas eu não senti medo.Não dele.Meu pai ainda segurava meu braço.Caius parou diante de nós e soltou um rosnado baixo.Foi o suficiente.Meu pai me soltou imediatamente.Eu senti os dedos dele se afastarem e, pela primeira vez, percebi que aquele homem que tantas vezes havia usado sua autoridade contra mim não ousava sequer sustentar o olhar de Caius.As pessoas abriram caminho.Ninguém precisou mandar.Elas simplesmente recuaram.Caius era o alfa mais forte daquele lugar. E agora todos sabiam disso.Mais do que isso, todos sabiam que ele havia recuperado aquilo que durante gerações acreditaram ser impossível.A fera.O lobo.A verdadeira natureza de um alfa.Meu companheiro.Caius parou diante de mim. Seus olhos percorreram meu rosto, meu vestido sujo, as marcas de sangue em minha pele. Por um instante, toda aquela feroci
TARYNCaius se afastou de mim.Eu o observei atravessar o pátio em direção a Ekran, e, apesar de conseguir sentir a força que havia retornado ao corpo dele, não consegui impedir o medo de apertar meu peito.Ele estava curado.Eu sabia disso.Sentia através da nossa ligação que seu coração batia forte e que a prata já não estava corroendo seus órgãos. Sentia a força percorrendo seus músculos novamente, mas ainda assim havia alguma coisa dentro de mim que gritava para que eu o impedisse de ir.Talvez fosse porque eu já o havia visto morrer uma vez naquela noite.Talvez porque, depois de descobrir que éramos companheiros, a ideia de perdê-lo tivesse se tornado ainda mais insuportável.Caius continuou caminhando.Ekran estava caído alguns metros adiante, tentando se levantar.Foi quando percebi o fogo.A tocha que ele havia deixado cair continuava queimando no chão.As chamas haviam alcançado a madeira espalhada pelo pátio e crescido rapidamente, alimentadas pelo vento. Em poucos segundos
TARYN— Não pode ser...A voz de alguém atravessou o silêncio.Um homem mais velho, que eu reconheci como um dos moradores mais antigos de Noverbrook, avançou alguns passos, olhando de mim para Caius como se estivesse tentando compreender o que acabara de testemunhar.— Eles são companheiros.As palavras provocaram uma nova onda de murmúrios.— Companheiros? — alguém repetiu.O homem assentiu lentamente.— Companheiros de alfa.— Isso não existe mais — respondeu Gerald Fenwick, com evidente desprezo.— Talvez exista, sim.O homem olhou para Caius.— Minha avó me contava histórias quando eu era menino. Dizia que, muito antes de as famílias se dividirem, existiam alfas que podiam assumir a forma de animais. Lobos que protegiam as florestas, que viviam entre os seus e que possuíam companheiras destinadas a eles.Algumas pessoas riram nervosamente.Outras fizeram o sinal de proteção que costumávamos usar diante de histórias sobre bruxaria.— São apenas lendas — alguém disse.— Talvez foss
TARYNNão tive tempo de pensar.Os guardas agarraram Caius pelos braços e o arrastaram para fora do salão. Eu ainda estava presa pelas mãos de outro homem, tentando me soltar, tentando alcançá-lo, mas cada vez que eu gritava seu nome, era como se minha voz desaparecesse no meio da confusão.— CAIUS!Ele tentou se manter de pé, mas a lança de prata havia deixado seu corpo fraco demais. Seus pés arrastavam-se pelas pedras enquanto o sangue escorria por sua barriga.Foi então que senti.Uma dor aguda atravessou meu peito.Levei a mão até o coração, assustada.Não era minha dor.Eu sabia.De alguma maneira que não conseguia explicar, eu sabia que aquela dor vinha dele.Caius também parou por um instante.Seus olhos encontraram os meus.E, mesmo de longe, vi a mesma mão que segurava seu ferimento apertar o próprio abdômen.A prata estava queimando-o por dentro.— Tirem essa coisa dele! — gritei.Ninguém me ouviu.Ou ninguém quis ouvir.As grandes portas foram abertas e fomos levados para o







