LOGINE se, em uma única noite, tudo o que você conhecia fosse arrancado de você? Kivia tinha uma família, um lar e uma vida que acreditava ser sua para sempre. Até ser sequestrada por lobisomens renegados e levada para longe de tudo o que conhecia. Durante três anos, suportou a escravidão, a violência e a humilhação, agarrando-se a uma única esperança: um dia conseguiria escapar e voltar para sua família. Quando finalmente surge uma oportunidade, Kivia não hesita. Depois de tudo o que sofreu, acredita que voltar para casa será o começo de sua liberdade. Mas nada a preparou para a verdade. A família que ela sonhou reencontrar seguiu em frente sem ela. O lugar que um dia chamou de lar já pertence a outra. E Kivia terá que descobrir se realmente quer brigar pelo seu antigo posto, ou se constroí uma nova vida para si.
View More⚠️ Atenção: este livro contém gatilhos.
Kivia Abro os olhos, amaldiçoando o fato de não ter morrido durante a noite. Por alguns segundos, permaneço imóvel, encarando o teto escuro. Uma parte de mim torce para que tudo seja apenas um pesadelo. Que, quando eu fechar os olhos novamente, vou acordar em minha antiga casa, com o cheiro do café vindo da cozinha e os sons da minha filha enchendo o ambiente. Mas a dor está aqui. Sempre está. Desço da cama com dificuldade. Meus pés mal tocam o chão quando uma pontada atravessa minhas pernas. Seguro a beirada do colchão para não cair. Hematomas de diferentes tons cobrem minha pele. Alguns recentes, outros já começando a desaparecer. Minha loba tenta curá-los, mas até ela parece cansada. Hoje faz exatamente três anos que meu tormento começou. Três anos. Parece uma eternidade. Eu já fui uma Luna respeitada. Já fui uma mãe amorosa. Já fui uma fêmea amada. Agora? Sou apenas um troféu de guerra. Um objeto que alguém ganhou depois de destruir tudo o que eu conhecia. Os renegados invadiram minha alcateia. Ainda consigo ouvir os gritos daquela noite. O barulho de portas sendo arrombadas. O cheiro de sangue. Os rosnados que vinham de todos os lados. Meu companheiro me alcançou pelo elo mental segundos antes de eles entrarem em nossa casa. Esconda-se. Leve Naissa. Agora. Nossa filha tinha apenas três meses. Corri com ela nos braços, apertando seu pequeno corpo contra o meu peito. Ela começou a chorar, assustada com o barulho. — Shhh... mamãe está aqui. Abri o guarda-roupa e coloquei minha pequena entre as roupas. Cobri seu corpinho com um cobertor e beijei sua testa. Meu coração estava tão acelerado que mal conseguia respirar. Fechei as portas. E aquela foi a última vez que toquei minha filha. Voltei para a sala. E meu mundo desabou. Mikael estava caído no chão. Havia um enorme ferimento aberto em seu peito, e o sangue escorria por sua pele, formando uma poça sob seu corpo. Um renegado estava sobre ele. Suas garras estavam levantadas, prontas para atravessar sua garganta. — Não! Avancei sem pensar. Agarrei seus pulsos antes que ele atacasse. Minhas unhas se transformaram em garras, e golpeei seu rosto uma, duas, três vezes. Eu não sentia dor. Não sentia medo. Só ódio. Queria matá-lo. Queria arrancá-lo de perto de Mikael. Mas outros renegados surgiram atrás de mim. Mãos agarraram meus braços. Lutei como uma louca. Chutei. Mordi. Gritei. — MIKAEL !! Foi a última coisa que consegui dizer antes de ser arrastada para fora de casa. Ouvi seu nome ecoar na minha mente enquanto me levavam para longe. Ninguém veio atrás de mim. Ninguém me salvou. Durante dias, fui arrastada de um acampamento para outro. Meus pés sangravam, minha roupa estava coberta de poeira e o corpo inteiro doía. Mas nada doía tanto quanto não saber o que havia acontecido com minha família. Todas as noites, eu fechava os olhos e via Mikael no chão. Depois via Naissa. Minha pequena, sozinha dentro daquele guarda-roupa. — Naissa... — sussurrava, abraçando os joelhos contra o peito. — Mamãe vai voltar. Eu precisava acreditar nisso. Precisava. Mas, a cada amanhecer, estávamos mais longe de casa. Até que finalmente me levaram diante do Alfa dos renegados. Dois homens seguravam meus braços enquanto eu permanecia ajoelhada diante dele. Olhei ao redor. Guardas por todos os lados. Nenhuma saída. Levei a mão ao pescoço, procurando o elo com Mikael. Silêncio. Tentei novamente. Nada. Meu coração começou a bater descontroladamente. E se ele estivesse morto? E se ninguém tivesse encontrado Naissa escondida? Fechei os olhos com força para impedir as lágrimas. Pensei em seu rostinho. No cheiro de sua pele. Queria voltar. Queria pegá-la nos braços e dizer que tudo ficaria bem. Mas eu estava ali. Sozinha. Ajoelhada diante de um estranho. Com as mãos sujas de sangue e terra e sem saber se algum dia voltaria para casa. Naquela época, eu tinha apenas uma certeza: Eu precisava sobreviver. Três anos depois, continuo respirando. Mas já não sei se isso significa estar viva. Porque hoje eu sou apenas... um troféu de guerra, uma escrava.Kivia Deitada na espreguiçadeira, sob a brisa fresca da noite, fechei os olhos e agradeci à deusa por aquele momento de paz. Era estranho como só aprendíamos a valorizar a liberdade quando alguém nos arrancava o direito de ir e vir. Meu olhar desceu até os pulsos. As cicatrizes ainda estavam ali, finas linhas de queloide que cortavam minha pele, lembranças cruéis das correntes de prata que me mantiveram presa durante um longo castigo. Passei os dedos sobre elas, sentindo um arrepio percorrer meu corpo. Eu estava livre. Pelo menos, era o que tentava convencer a mim mesma. Algumas correntes não deixam marcas na pele. Elas se prendem à alma, alimentam os pesadelos e nos fazem temer que, a qualquer momento, alguém possa nos arrastar de volta ao inferno do qual lutamos tanto para escapar. — Filha, está pensando em dar um mergulho? Abri os olhos e encarei meu pai. — Da última vez que estive na água, foi em um rio revolto, com troncos batendo contra meu corpo. Naquela ocasião, torci p
Kivia A mensagem da minha mãe fez meu pai mudar de direção tão bruscamente que precisei me segurar no banco para não ser jogada para o lado. Mikael estava me esperando em casa. Meu estômago se contraiu. Eu ainda carregava o cheiro de Kairon na pele e, pelo visto, meu pai já havia previsto o problema antes mesmo de chegarmos ao nosso destino. — Não podemos deixar que Mikael sinta o cheiro dele em você. Não agora — meu pai advertiu, mantendo os olhos fixos na estrada. — Certo — respondi, tentando não demonstrar o quanto aquela possibilidade me preocupava. Em vez de seguir para casa, meu pai me levou até o imóvel onde o lobo responsável pelo acidente estava mantido sob vigilância. Nossos guerreiros faziam a segurança do local, atentos a qualquer movimento do prisioneiro. Assim que entramos, todos se levantaram. — Alfa Rayron. Luna Kivia. Os guerreiros inclinaram a cabeça e expuseram o pescoço em um gesto de submissão e respeito diante de seus superiores. — Como está Raniel? — pe
Kivia — Ué?! Não disseram que você estava à beira da morte por causa de um acidente na estrada? Como está toda animada, fazendo vídeo agora? Meus dedos pararam de deslizar pela tela. Por alguns segundos, fiquei encarando aquelas palavras, sentindo o sangue ferver nas veias. Não era a pergunta em si que me incomodava, mas a maneira como havia sido feita. Como se o fato de eu estar sorrindo, gravando vídeos e retomando minha vida fosse uma afronta a alguém. Como se, depois de quase perder tudo, eu devesse continuar deitada em uma cama, exibindo sofrimento para provar que realmente havia passado por algo terrível. Meu maxilar se contraiu. Eu havia acabado de sobreviver a um acidente. Tinha enfrentado a dor, o medo e a incerteza de não saber o que aconteceria com Raniel. E agora que estava de pé, respirando aliviada e encontrando motivos para sorrir novamente, alguém achava estranho? Soltei uma risada curta, sem qualquer vestígio de humor. Era impressionante como algumas pessoas par
Kivia Eu havia me despedido de Kairon com a promessa de nos reencontrarmos no baile, dali a quatro dias. Fiquei tão feliz ao vê-lo ser acolhido por meu pai com tanto carinho que, pela primeira vez, comecei a me questionar sobre a intensidade da dor que ele devia ter sentido durante todo aquele tempo. Quanto sofrimento meu pai teria guardado em silêncio? No caminho, recebi algumas mensagens. — Seu primeiro resgate veio da SHIFTERS. Estou transferindo o valor para sua nova conta. A Luna Vanessa ficaria muito grata se você divulgasse em sua nova rede social que agora faz parte do grupo de investidores. Sorri ao ler a mensagem. Se havia algo que eu aprendera ao longo da vida, era que uma mão lava a outra. Se a divulgação poderia ajudar os negócios da Luna Vanessa, que agora também eram meus, eu não via motivo para recusar o pedido. Afinal, boas parcerias eram construídas assim: com benefícios para ambos os lados. Aproveitei a penumbra do carro e peguei o celular, ligando a câmera fron












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