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last update Data de publicação: 2022-11-15 02:57:02

David

— Entendeu tudo direitinho, Kathy? — pergunto para a nossa assessora, após uma reunião rápida. Caio e eu decidimos que Kathy Lourency ficará responsável pela empresa enquanto estivermos no Brasil. É claro que algumas coisas farei de maneira remota pela internet, como algumas reuniões, leituras de contratos, avaliação de documentos, entre outras coisas.

— Pode ter certeza de que entendi tudo direitinho. Não se preocupe, Senhor Lacerda e Senhor Alcântara. Tomarei conta de tudo.

— E me ligue se precisar, a qualquer hora. — Reforço.

— Deixa de ser babaca, David a Kathy não é nenhuma criança e você já repetiu a mesma coisa dezenas de vezes. — Caio rebate impaciente e a garota rir do seu comentário.

— Podem ir tranquilos, qualquer coisa eu peço socorro. — Kathy fala sorridente.

Querem saber a verdade? Estou protelando esse momento. Quanto mais as horas se avançam, mas nervoso eu fico e consequentemente quero recuar, mas eu sei que não posso e que o meu primo também não permitirá que isso aconteça. Com tudo acertado, nos levantamos das cadeiras ao mesmo tempo. Kathy e eu apertamos as mãos, mas o meu sócio como sempre é mais atrevido e puxa a garota para um abraço demorado. Solto o ar com força e saio da sala o deixando para trás. Alcanço o elevador e assim que as portas se abrem, ele para ao meu lado, ofegante. Provavelmente correu para me alcançar.

— Você não tem jeito, não é? — resmungo sério, porém, ele me encara com fingida confusão.

— O que eu fiz? — Como sempre esse inocente leva as mãos ao peito e faz um olhar complacente para mim. Tenho vontade de rir, mas permaneço de cara fechada pata não lhe dar moral e não lhe respondo nada.

O caminho até o aeroporto é feito em silêncio. Enquanto o meu primo se despede das garotas enviando lhes mensagens pelo seu telefone, eu me perco em meus próprios pensamentos. Durante o voo não consigo dormir, pois, estou com a cabeça cheia de perguntas e confusa, e confesso que até nasceu uma pontinha de esperança em meu peito. Pode soar desesperador, mas sim, nessas poucas horas de viagem mantive essa pontinha de esperança de que ela não tivesse realmente se casado com ele. Com um suspiro frustrado, pego o notebook dentro de uma pasta de couro e me ocupo em trabalhar. Eu preciso ocupar a minha mente ou explodirei de ansiedade.

— Uau, o sol está lindo lá fora! — Caio fala despertando do seu sono interminável e se ajeita em sua poltrona, no exato momento em que a aeromoça entra no corredor com um carrinho e o nosso café da manhã em cima dele. O safado analisa a jovem com o seu uniforme curto, azul marinho, com alguns detalhes mínimos alaranjados. Ele me olha rapidamente deslizando o indicador pelo lábio inferior.

Rolo os olhos para ele e volto para o meu trabalho.

Atenciosa, a moça deixa um prato com um sanduíche natural, um copo de suco de laranja e um potinho com alguns cubos de frutas na mesinha a minha frente. A olho rapidamente e peço para trocar a minha refeição por um copo de uísque. Sim, ela me fitou com espanto, mas não me contestou e antes de sair, recolheu os três copos vazios que deixei na mesinha.

— Uísque? Minha nossa, o caso é mais sério do que eu imaginava! — Meu primo retruca de boca cheia.

— Não sei do que está falando, Caio — rebato sem tirar os meus olhos da tela do computador e tento me concentrar no meu trabalho.

— Sério, David. Você sabe que não precisa sofrer calado, né? Cara, eu estou aqui, se abre comigo. — Impacientemente, fecho o notebook e o encaro.

— Caio as vezes você me irrita, sabia? Eu não tenho o que dizer, não há nada pra falar. Mas que merda, cara!

— Ok, não está mais aqui quem falou! — Ele voltou a se ajeitar na poltrona e põe os fones de ouvidos, concentrando-se no seu café da manhã. Melhor assim. Penso, voltando para o meu o meu mundo tecnológico.

***

Desço os primeiros degraus do avião, olhando ao meu redor. O Rio de Janeiro continua lindo e ensolarado. Observo o céu límpido, sem nuvens e com alguns pássaros voando livremente. Respiro fundo e tento acalmar as batidas desenfreadas do meu coração, que parece querer sair pela boca. Ponho os óculos escuros e caminho com passos largos na direção do salão do aeroporto, sentindo o vento bagunçar os meus cabelos cheios e através das lentes escuras, reconheço uma loira alta e muito bem-vestida no meio de algumas pessoas que aguardam seus parentes ou amigos desembarcarem.

Ela sorri quando me vir e automaticamente sorrio para ela também.

Apresso os meus passos para poder alcançá-la e finalmente abraçá-la. Lilian faz o mesmo vindo ao meu encontro. E, nossa! Como senti a sua falta! O seu abraço é apertado e ao mesmo tempo aconchegante. Depois de longos sete anos, estou me sentindo em casa outra vez e mais uma vez, senti-me um tolo por ter me afastado assim da minha família, das únicas pessoas que realmente podiam me ajudar, por tanto tempo. Ela se afasta um pouco, passou as suas mãos em meus cabelos e na barba cheia, e sorri com seus lindos olhos molhados de lágrimas não derramadas.

— Senti tanto a sua falta, filho! — diz chorosa e emocionada, fazendo-me abrir um sorriso emocionado também.

— Eu também mãe — Sussurro e a beijo demoradamente no rosto, para depois abraçá-la outra vez.

— O que é isso que eu estou vendo? — Brinca, mexendo na minha barba assim que se afasta e me faz rir outra vez. — Meu Deus, onde está o meu rosto de menino? — Dou de ombros.

— Não sou mais aquele menino, dona Lilian — retruco e ela me abre outro sorriso carinhoso.

— Não, você não é. Tornou-se um homem alto e muito lindo. Mas, ainda prefiro aquele rostinho limpo de menino — rebate com humor.

— Bom para o seu governo as minas piram, sabia? — rebato com humor, mas ela bufa em resposta.

— Vamos para casa, querido. Todos estão ansiosos para vê-los — fala, mudando de assunto.

— Todos? — pergunto, pegando o carrinho com as minhas malas e o empurro, a acompanhando e procuro o meu primo. O encontro do outro lado, nos braços da tia Ana e sorrio.

Eu amo essa família! Eles são sempre assim, tão unidos e estão sempre por perto.

Do lado de fora do aeroporto, abraço a minha tia demoradamente e quando a solto, a baixinha resmunga do meu aperto, arrancando algumas gargalhadas de todos. Voltamos para casa no mesmo carro, mas não fomos para a casa dos meus pais e sim, para a casa da tia Ana e isso me faz pensar que sua casa deve estar cheia.

— Oh meu Deus, você tem uma barba! — Eduarda, minha irmã do meio ralha assim que sai de dentro do carro e se aproxima enfiando os seus dedos nos pelos loiros, acariciando-os e me fazendo rir sonoramente.

— Gostou? — pergunto com humor e ela ri, franzindo a pontinha do nariz, como sempre faz.

— Eu gostei! Deixa o meu irmão mais velho másculo e gostoso — diz, me arrancando mais risadas, então a abraço e a beijo cheio de saudades.

— Viu, dona Lilian? — Provoquei a minha mãe.

— Ainda o prefiro sem barba. — A loira pisca um olho para mim e sobe os poucos degraus na frente da casa, enquanto meneia a cabeça em um não lento, porém, ela está se divertindo com essa brincadeira. Levo uma mão na cintura da minha irmã, contudo, não pude deixar de notar o seu olhar especulativo em cima do nosso primo devasso, que está rodeado por seus irmãos e sobrinhos.

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Último capítulo

  • Rastros do Passado   Epílogo

    YaidesNão dá para ir contra o seu destino e a prova disso é que exatamente agora estou andando em cima de um estreito tapete vermelho que trilha o meu caminho para um pequeno e lindo altar improvisado, onde o homem da minha vida está me aguarda ansioso. E bem na minha frente a nossa filha caminha com passos lentos iguais os meus, usando um vestido idêntico ao meu. É um vestido simples, ombro a ombro, rendado e com uma saia longa de musseline. Enquanto Maya joga as delicadas pétalas ao vento aproveito para apreciar a bela vista bem atrás do meu noivo. Como havia prometido, David escolheu o Prospect Mountain, em Lake George, Nova York, e eu devo dizer que a visão desse lugar é realmente de tirar o fôlego!Solto um suspiro baixo, porém, profundo quando ele sorrir para mim e tenho vontade de correr para os seus braços, mas continuo fazendo a lenta marcha nupcial, contradizendo com toda a ansiedade que explode dentro de mim.— Eu te amo! — sibilo sem emitir som algum, porém, não contenho

  • Rastros do Passado   38

    YaidesEle começa a rir, de uma forma tímida e indecisa, e logo depois ele puxa a respiração umas duas vezes, soltando o ar pela boca e se põe a chorar.— Um filho?! — Sua voz soa trêmula. Confirmo mais uma vez com a cabeça, e depois de esfregar suas mãos no jeans, ele me abraça e me beija de uma forma louca e emocionada, e quando se afasta, segura a nossa menina nos braços e grita enlouquecidamente, girando-a no ar, a fazendo rir alto, se divertindo a com a atitude do pai. — Eu vou ser pai outra vez! — Mais um grito e ele para, para abraçar a nós duas ao mesmo tempo.***— Senhora, o Senhor Lacerda pediu para avisar-lhe que precisa de você no escritório. — Live, nossa empregada avisa assim que entra em nosso quarto. Era estranho David me chamar no escritório da casa, pois ele nunca faz isso.— Obrigada, Live! Irei assim que terminar aqui.— Desculpe, Senhora! Ele disse que é urgente. — Semicerro os olhos para a garota e suspiro.— Tudo bem! — Largo o notebook em cima da cama, onde fa

  • Rastros do Passado   37

    Yaides Alguns meses depois... — Papai, olha o que eu sei fazer! — Minha filha grita, feliz me fazendo sorrir. Há alguns meses achei que isso não seria possível. Deus, ela passou por tanta coisa, que chegou a despedaçar o meu coração. Sua perda foi quase irreparável. Lembrar daquela fatídica manhã ainda me machuca muito por dentro, mas é algo que eu nunca conseguirei apagar da minha memória... Nunca! Ainda dói, sangra, maltrata. _ Vem Papai, vem brincar comigo! _ Minha garotinha volta a gritar, deitada no chão gelado, com seus braços e pernas abertos, abrindo e fechando, formando um lindo anjo na neve. Meu sorriso se espalha ainda mais pelo meu rosto. ... Me perdoe, Yaides, eu não queria... Aquelas malditas palavras sussurradas e sôfregas ainda ecoam dentro dos meus ouvidos, assim como o som da bala que atingiu violentamente o seu peito. Eu temi tanto, que perdi o controle do meu próprio corpo e achei que perderia os meus sentidos naquele instante. Olhar para aq

  • Rastros do Passado   36

    Yaides— Yaides, por sete longos anos, eu fui um grande tolo e não sei se sou merecedor dessa segunda chance, mas, ela veio para mim e agora, eu não quero correr o risco de ela fuja para bem longe de mim outra vez. Amor, eu te amo, amo tanto que ficar longe de você e da nossa menina, não é mais uma condição. Eu sei que você já me disse sim, mas dessa vez, eu preciso que o mundo saiba, que eu sou seu e que você é minha.— Ai, meu Deus! — sussurrei.— Aceita ser a minha esposa, Yaides Velásquez?— Sim. Sim. Sim. Eu aceito ser sua esposa! — Um sorriso lindo se abriu no seu rosto, e David se pôs de pé, mas não para pôs o anel no meu dedo. Ele me puxou para os seus braços e me beijou ardentemente. E só nos afastamos quando escutamos os aplausos de todos dentro do restaurante, só então percebi que sua família e alguns amigos estavam presentes também.— Parabéns, meus amores! — Lilian se aproximou para nos abraçar e na sequência, os outros membros fizeram o mesmo. O jantar seguiu com uma ani

  • Rastros do Passado   35

    YaidesOlho para os cômodos da casa simples, já sentindo uma saudade quase sufocante. Apesar de sua simplicidade e de tudo o que houve, tenho boas lembranças desse lugar. Foi aqui que descobri minha gravidez, a Maya cresceu nesse lugar e foi aqui que descobri minha paixão pelos livros e iniciei meu primeiro trabalho. Embora Júlio tenha feito algo tão cruel comigo, ele também me deu coisas que eu não conseguiria ter sem a sua ajuda e fez com que Maya tivesse uma família, de alguma forma.Sentirei saudades. Penso.— Mãe, posso levar meus bichinhos de pelúcia? — Minha filha pergunta, entrando no meu quarto, abraçada aos seus bichinhos.— Claro, filha. — Forcei um sorriso para ela.— Por que está chorando? — Ela larga todos eles e vem para perto de mim.— Não se preocupe, filha, é de felicidade. — Ela me abraça. É um abraço longo e carinhoso.— Quando vamos contar para tio Júlio, que vamos viajar para os Estados Unidos? — indaga com sua costumeira ansiedade infantil. Sem saber como falar

  • Rastros do Passado   34

    David— Pode me fazer um favor, Rute, prepare uma bandeja com um café da manhã reforçado, quero eu mesmo acordá-la.— Sim, Senhor, prometo caprichar nesse café da manhã da Senhorita.— Obrigado, Rute! — Observei a empregada sair do escritório, enquanto tomava mais um gole do meu café e logo depois fui para perto de uma janela, para ver minha filha rindo e correndo pelo jardim, enquanto se divertia com os cães correndo atrás de uma minúscula bola. Não pude evitar um sorriso de satisfação. Maya tem tudo de mim, não só na aparência, mas também em algumas atitudes. E por isso l, sei que ela é inteligente o suficiente para entender o certo e o errado, para distinguir o bem e o mal. Sei que ela é apenas uma criança e que sua mãe a quer proteger, mas não acho certo de que a minha filha idolatre o homem que machucou a sua mãe. O problema é; conto para ela o que ele fez ou a deixo em sua bolha cor de rosa? Suspiro audível.— Senhor David, a bandeja já está pronta. — Rute avisa e eu assinto, de

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