INICIAR SESIÓNA porta se fecha atrás de Jade com um baque mais forte do que ela pretendia.
O barulho ecoa pela casa pequena e silenciosa, e por um segundo ela fica parada, a mão ainda apoiada na maçaneta, o peito subindo e descendo rápido demais. O corpo inteiro parece vibrar, como se ainda estivesse na outra cidade, diante daquele portão alto demais, frio demais, perigoso demais.
— Jade! — Larissa Oliveira, a irmã caçula, surge na sala quase no mesmo instante, por pouco não tropeça no pequeno tapete felpudo. — O que aconteceu? Ele te maltratou, não foi? Eu sabia, aquele desgraçado…
— Ei, nada de xingar. — Jade corta, jogando a bolsa no sofá sem cuidado algum.
Ela atravessa o quarto-sala em passos largos. Não tira o sapato, não fecha a janela, não liga para nada além da vontade urgente de desaparecer. Cai de bruços, o rosto afundando no travesseiro, como se aquilo pudesse apagar o dia inteiro.
Larissa fica parada por um instante, observando. Morde o lábio inferior, irritada. Odeia quando Jade fala naquele tom, como se ela ainda fosse uma criança que precisa ser corrigida.
— Eu sou a maior idiota que esse mundo já produziu — Jade murmura, a voz abafada pelo tecido.
Larissa revira os olhos.
— Isso eu já sei. — Responde seca. — Agora fala logo. O que aconteceu lá?
Jade se mexe na cama, vira de costas e cobre o rosto com as duas mãos. O corpo inteiro parece quente demais, como se a vergonha tivesse subido pela pele e se recusasse a ir embora.
— Ai, meu Deus… — solta um gemido alto. — Eu não acredito que eu fiz isso…
— Jadeline, pelo amor de Deus, para de drama e fala.
Ela demora alguns segundos antes de responder. Quando baixa as mãos, o rosto está vermelho e os olhos inchados.
— Reclamei com o chefe errado. — Confessa, num fio de voz.
— Quê? — Larissa franze as sobrancelhas. — Como assim?
— Eu bati no portão do homem errado! — Jade fala mais alto agora e solta o ar dos pulmões de uma vez, controlando as lágrimas para não voltarem a cair.
Ela passa as mãos pelo rosto, os dedos tremendo.
— Jade, antes de sair você pesquisou onde ficava o endereço do cara.
— Eu cheguei lá com a cabeça fervendo… — começa, a voz mais baixa agora. — Ainda tava com aquele comunicado na cabeça, aquela mensagem nojenta falando de “força maior” como justificativa para a demissão... e ainda tem a Manu... seu colégio...
A lembrança vem em flashes.
A tela do celular.
As palavras frias.
Encerramento imediato.
Sem direitos.
— Vi um cara de terno, celular na mão… — Jade continua. — Todo calmo, andando pelo jardim. Achei que fosse o segurança.
Ela solta uma risada curta, amarga.
Larissa cruza os braços, já prevendo o desastre.
— E aí você…
— Chamei ele e o mandei chamar o patrão. — Jade fecha os olhos, mas a imagem dos olhos frios a perfurando vem com tudo para cima dela. — Ele disse que o patrão já estava na minha frente. E eu achei que fosse deboche.
Ela fecha os olhos com força.
— E aí você surtou.
— Surtei. — Jade confirma. — Xinguei ele. Xinguei tudo. A empresa, a explosão, a mulherzinha mimada… exigi compensação, emprego, justiça… falei tudo o que tinha entalado na garganta.
Jade puxa o travesseiro e cobre metade do rosto. Larissa apoia o ombro na parede.
— Meu Deus, Larissa… eu fiz um escândalo.
Por alguns segundos, Larissa tenta segurar. Mas não dá. A risada escapa, alta demais para o momento.
— Jade… — ela começa, entre o riso e o choque.
— Vai rindo — Jade resmunga, sem tirar o travesseiro do rosto. — Eu quase morri do coração lá.
— Mas quem ele era, afinal? — Larissa pergunta, agora mais curiosa do que divertida.
Jade abaixa o travesseiro devagar. O olhar fica sério.
— Eu não sei exatamente quem ele é. — Admite. — Só sei que, de repente, apareceram homens armados.
O riso de Larissa morre no mesmo instante.
— Armado?
— Sim. E não foi com simples armas de choque. — Jade engole seco. — E foi aí que meu corpo entrou em alerta. Não foi medo comum. Foi… instinto. Como se eu tivesse diante de alguém extremamente... cruel...
Ela se senta na cama, abraçando os próprios joelhos.
— O portão começou a se abrir… — murmura. — E eu só consegui pensar em correr.
Larissa passa a mão pelos cabelos.
— Fodeu.
— Olha a boca! — Jade arremessa o travesseiro nela, sem força.
— Tá bom, tá bom. — Larissa desvia. — E agora?
A pergunta paira no ar, pesada demais para aquele quarto apertado.
Jade encosta a cabeça na parede, o olhar perdido no teto descascado. A imagem do homem volta sem pedir permissão.
O olhar frio.
A voz calma demais.
A sensação de estar sendo medida, examinada, comparada.
— Agora… — suspira. — É rezar pra ele não vir atrás de mim.
Ela fecha os olhos.
— E arrumar outro emprego. Qualquer um. Rápido. Preciso comprar os remédios desse mês de Manu.
Larissa franze o nariz, mas controla a vontade de revirar os olhos.
— Eu te falei para não ir, falei que diferente de nós, eles não têm nada a perder. Mas não, você queria porque queria ir lá, exigir justiça sozinha, bater boca e agir como se ainda estivéssemos morando no Brasil.
Jade se levanta da cama e passa a mão pelo rosto, tentando se recompor.
— Não é hora de me dar sermão, Lari. E pega seu notebook. Vamos atualizar meu currículo.
~
Em algum momento da madrugada, o celular de Jade começa a vibrar embaixo de seu travesseiro.
Jade desperta com o coração acelerado, tateia o aparelho às cegas.
Número desconhecido.
Ela franze o cenho, o polegar pairando sobre a tela.
— Alô? — atende, a voz rouca de sono.
Do outro lado, silêncio.
Depois o som de algum tipo de batuque.
Jade franze o cenho e encara a tela do celular.
— Alô?
— Jadeline Oliveira. — Diz a voz masculina, que envia arrepios diretos na coluna de Jade, fazendo-a sentar na cama rapidamente e perder o sono, a voz está meio que robotizada. — Não irá fugir de novo.
— Oi? — Jade franze o cenho. — Olha só, são duas da manhã, vá passar trote a outra pessoa, palhaço!
Do outro lado da linha, silêncio novamente.
Mas, antes que Jade aperte no botão de desligar, a voz retorna:
— Você deixou a janela da sala aberta — diz ele. — Fecha. Está frio esta noite.
O sangue de Jade gela.
Ela gira o rosto devagar, os olhos indo até a cortina mal posicionada, o vão por onde a luz da rua entra fraca.
— Como você…? — a voz não sai.
A ligação cai.
Jade fica sentada na cama, imóvel, o coração disparado, o ar preso nos pulmões.
Seja lá quem ele fosse, não só sabe quem ela é.
Ele sabe onde ela está.
O escritório da propriedade em Milão de Guilherme Vanelli está silencioso, iluminado apenas pelo brilho frio da tela do computador. Ele se recosta na cadeira de couro, removendo as luvas de suas mãos, e com um leve tamborilar de seu indicador contra a mesa de vidro a imagem da ragazza vem novamente em sua mente, deixando-o ansioso.A pele sensível é acariciada pelo ar frio do ar-condicionado, dando a ele a sensação de alívio por se ver livre do couro; os olhos de Guilherme vagam pelos jardins do outro lado da parede de vidro, os vários tipos de flores sendo iluminados pelas luzes fluorescente, contrastando com o céu escuro da noite. Guilherme abre novamente a pasta com as fotos de Jade, cada clique de câmera captura a beleza natural dela, diferente das mulheres que sempre entram em seu caminho. Ela não é montada, havia nascido bonita, natural. Seus olhos vagueiam pelas fotos de ela andando na rua.Guilherme inclina para frente, observando mais de perto o lindo sorriso que a donna dá
— Agora a escolha é sua, por bem ou por mal.Jade engole em seco.A raiva ainda está ali, mas já não é pura. Ela se mistura com algo mais urgente. Mais perigoso.Desespero.— Você chegou perto delas? — O encara com olhos semicerrados, como se pudesse atravessa-lo. — Ainda não. — Guilherme responde, sem emoção.Jade levanta os olhos devagar. Eles ardem.— Você é doente. — Ela diz entre dentes.Guilherme se recosta na cadeira, o couro rangendo suavemente sob seu peso.— Vou adorar corrigir esses seu mau comportamento.O silêncio pesa. O escritório parece menor. O ar mais denso. Jade precisa se forçar a respirar devagar, puxando o ar pelo nariz, soltando pela boca.— Se você encostar nelas… — a voz de Jade treme, mas ela continua. — Se você fizer qualquer coisa com a minha filha...Guilherme a interrompe com uma calmaria cruel:— Eu não preciso encostar nelas para destruir você.Jade fecha os olhos por um segundo, como se isso pudesse apagar a imagem das fotos.Quando os abre, a voz sai
— O senhor está achando que eu sou o quê? Algum tipo de puta barata que roda a bolsinha na esquina? — Assim que ela termina, o gosto é amargo, ácido, como se aquelas sílabas tivessem aberto uma porta que ela mantém trancada há anos. Memórias que ela havia enterrado fundo o bastante para fingir que nunca existiram. Coisas que doem mesmo quando não são tocadas.A cadeira sob ela parece dura demais, o ar ficou ainda mais frio, opressor, seus olhos crivam nos dele demonstrando toda a sua indignação, mesmo que por dentro a ferida que ela achou está fechada ter sido cutucada e as lágrimas queiram sair.Mas ela não deixa.Guilherme não responde. Não nega e nem confirma as palavras de Jade, ele simplesmente deixa que o silencio se instale entre eles.Denso e pesado.Ele não se move, sequer fala ou muda sua expressão, e isso é pior do que qualquer coisa que ele pudesse ter dito.Jade permanece sentada, os dedos crispados no tecido da própria calça, sentindo o coração bater forte demais dentro
— Nos encontramos de novo. — A voz de Guilherme ecoa, quebrando o silencio em seu escritório.— Não foi possível recusar o seu convite. — Jade morde a língua, se arrependendo no mesmo instante. — Senhor. — Ela suspira. — Olha, você me sequestrou, e isso e crime.Jade permanece de pé, os braços colados ao corpo, tentando não demonstrar o tremor que insiste em se espalhar pelos dedos. O ar parece mais denso ali dentro, difícil de puxar, difícil de soltar. O ar-condicionado morde a pele dos braços, mas é a calma daquele homem que faz o frio parecer mais profundo, observando-a como se fosse um animal raro que acabará de ser aprisionado numa jaula.O canto da boca dele se move cerca de apenas um milímetro, quase impossível de se notar se piscasse.— Vamos fazer o seguinte. — Jade continua, esforçando-se para manter o controle da situação e de si mesma. — Você me deixa voltar para minha casa e eu finjo que nada aconteceu, que eu passei a manhã toda entregando currículos, tá bom para você, n
Eu não deveria ter saído de casa... Não sem me despedir... — Jade soluça, os olhos ardendo pelas lágrimas salgadas enquanto lamenta em pensamentos.O ar falta por um instante.Jade puxa uma respiração curta, mas ela não chega aos pulmões. O coração dispara, batendo rápido demais, forte demais, como se quisesse romper o peito. O tecido áspero da sacola em sua cabeça está úmido, pesado pelas lágrimas que ela havia começado a derrubar antes mesmo de entrar na van. O mundo se resume a escuridão, ruídos abafados e ao balanço irregular do veículo.— Chegamos. — Jade escuta alguém dizer, e finalmente sente que o veículo parar de se mover com um solavanco.Jade fecha as mãos em punhos, as unhas cravando na própria pele. O sentimento de puro terror percorre por sua espinha, gelado, enquanto seu coração se aperta e em sua mente só vem a imagem da sua pequena família, a qual ela dá a vida todo santo dia.Larissa...Manuela...O rosto da filha surge nítido demais. O sorriso pequeno, o coelhinho d
Jade atravessa o centro da cidade com passos rápidos, os currículos envelopados dentro de sua bolsa e a esperança diminuindo a cada vitrine que passa. O sol da tarde reflete no vidro das lojas, esquenta sua pele, mas não aquece o coração.Muito pelo contrário.Ela fica mais apreensiva, a cada instante, mais e mais fios de sua esperança se esvaindo.— Boa tarde, estão contratando? — Arrisca, tentando injetar um fio de otimismo na voz, ao balconista de uma padaria.Ele mal ergue o olhar, concentrado na tela do caixa.— Só entregador. Sabe dirigir moto?Não.Ela não sabe.Jade suspira, sente o peso da bolsa nos ombros, balança a cabeça e agradece antes de sair. A campainha da porta soa como um tique-taque de fracasso.Entre as passadas ela confere o celular mais uma vez, pois antes de sair de casa instruiu a irmã a não abrir nenhuma das janelas.— Deve ter sido algum garoto da vizinhança passando trote, Jade, deixa de besteira. — Fora a resposta da mais nova, mas o coração de Jade não se







