INICIAR SESIÓN— O senhor está achando que eu sou o quê? Algum tipo de puta barata que roda a bolsinha na esquina? — Assim que ela termina, o gosto é amargo, ácido, como se aquelas sílabas tivessem aberto uma porta que ela mantém trancada há anos. Memórias que ela havia enterrado fundo o bastante para fingir que nunca existiram. Coisas que doem mesmo quando não são tocadas.
A cadeira sob ela parece dura demais, o ar ficou ainda mais frio, opressor, seus olhos crivam nos dele demonstrando toda a sua indignação, mesmo que por dentro a ferida que ela achou está fechada ter sido cutucada e as lágrimas queiram sair.
Mas ela não deixa.
Guilherme não responde. Não nega e nem confirma as palavras de Jade, ele simplesmente deixa que o silencio se instale entre eles.
Denso e pesado.
Ele não se move, sequer fala ou muda sua expressão, e isso é pior do que qualquer coisa que ele pudesse ter dito.
Jade permanece sentada, os dedos crispados no tecido da própria calça, sentindo o coração bater forte demais dentro do peito, o sangue fervendo em suas veias como se tivesse sido aquecido por dentro.
O Don apenas a observa.
E é isso que a enlouquece.
— Ainda hoje. — Ele diz, finalmente, com a voz baixa e firme. — Estará na minha cama, me esperando com as pernas abertas.
O choque é imediato.
Jade arregala os olhos. Por um segundo, ela chega a duvidar do que acaba de ouvir.
Como esse cretino ousa falar assim?
— Nem nos seus sonhos, stronzo! — Ela o xinga antes mesmo de pensar em se conter, mas dessa vez ela não se arrepende.
Ele pode ser o chefe da máfia.
Sabe que ele pode mata-la apenas com um aceno de mão. Mas ela não é um verme para ser tratada assim.
O olhar frio dele não se altera. Nenhuma sombra de reação. Nenhum músculo do rosto se move. É como se as apalavras dela fossem irrelevantes.
O peso invisível volta a pressionar os ombros de Jade, empurrando-a para baixo, esmagando seu peito. A sensação é sufocante. Ela se levanta num impulso.
A cadeira arrasta para trás, o som áspero riscando o piso brilhante do escritório, quebrando o silêncio como um grito.
— Eu não tenho mais nada para tratar com o senhor, Don. — Ela diz, forçando a voz a sair firme. — Então, se não vai me matar, estou me retirando. Não precisa pedir aos seus homens para me escoltar, sei bem o caminho.
Guilherme abre uma gaveta e puxa um envelope fino de cor marrom, desliza-o sobre a mesa em direção a garota, sem nunca desviar o olho do dela.
— Abra. — Ordena.
Jade não toca.
— O que é isso?
— Abra.
Há algo na forma como ele repete que faz o estômago dela se revirar. Jade estende a mão devagar. Os dedos tremem, mas ela finge que não. O envelope parece pesado demais para algo tão fino.
A primeira coisa que vê é uma folha simples, letras impressas, organizadas, quase burocráticas, como um relatório escolar:
Jadeline Oliveira.
Endereço.
Rotina.
Horários.
Não...
Jade sente o sangue gelar.
Ela vira a folha.
Fotos...
Ela na rua, andando rápido, os currículos apertados contra o peito.
Ela entrando num mercado.
Ela atravessando uma esquina.
Ela voltando para casa.
E então…
Manu.
O coração b**e tão forte que chega dói.
Na creche.
Não é uma foto distante, borrada, de alguém passando na rua. É perto o suficiente para Jade reconhecer o laço preso torto no cabelo da filha, o jeito como o casaco está abotoado errado, o coelhinho rosa apertado contra o peito, o rosto levantado para alguém... para ela.
Jade para de respirar direito, o ar sumindo de seus pulmões. A pasta treme em suas mãos.
— Co-como.... — A frase morre em sua boca, ela vira mais páginas.
Agora é Larissa, saindo da escola. O rosto fechado, fones no ouvido, mochila pendendo de um ombro. A mesma expressão impaciente de sempre, como se o mundo fosse lento demais para ela.
E agora, a porta da casa delas, do portão pequeno, da janela aberta... Jade sente um gelo subir pelos pés e se espalhar por dentro, chegando no coração como uma mão fechada espremendo-o.
— Não… — a palavra escapa sem autorização.
Guilherme observa a reação dela com atenção fria, como se estivesse coletando dados.
— A essa hora. — Ele comenta, tranquilo demais. — As duas já devem estar acordadas. Provavelmente tomando café.
É demais.
— Seu.. seu... figlio de puttana! — Jade b**e na mesa com a pasta, o som seco ecoando pelo escritório. — Não ouse tocar em nenhum fio de cabelos delas, seu maledetto!
— Não lembro de tê-la autorizado se levantar. — A voz permanece baixa. — Sente.
Os joelhos de Jade cedem antes mesmo que ela perceba. O corpo obedece, traidor, afundando de volta na cadeira.
ódio cresce.
O medo, não apenas por si, mas agora pelas duas únicas pessoas que ama em sua vida, cresce ainda mais.
Afinal…
O que uma estrangeira pobre pode fazer contra o homem mais poderoso da Itália?
— Agora a escolha é sua, por bem ou por mal?
O escritório da propriedade em Milão de Guilherme Vanelli está silencioso, iluminado apenas pelo brilho frio da tela do computador. Ele se recosta na cadeira de couro, removendo as luvas de suas mãos, e com um leve tamborilar de seu indicador contra a mesa de vidro a imagem da ragazza vem novamente em sua mente, deixando-o ansioso.A pele sensível é acariciada pelo ar frio do ar-condicionado, dando a ele a sensação de alívio por se ver livre do couro; os olhos de Guilherme vagam pelos jardins do outro lado da parede de vidro, os vários tipos de flores sendo iluminados pelas luzes fluorescente, contrastando com o céu escuro da noite. Guilherme abre novamente a pasta com as fotos de Jade, cada clique de câmera captura a beleza natural dela, diferente das mulheres que sempre entram em seu caminho. Ela não é montada, havia nascido bonita, natural. Seus olhos vagueiam pelas fotos de ela andando na rua.Guilherme inclina para frente, observando mais de perto o lindo sorriso que a donna dá
— Agora a escolha é sua, por bem ou por mal.Jade engole em seco.A raiva ainda está ali, mas já não é pura. Ela se mistura com algo mais urgente. Mais perigoso.Desespero.— Você chegou perto delas? — O encara com olhos semicerrados, como se pudesse atravessa-lo. — Ainda não. — Guilherme responde, sem emoção.Jade levanta os olhos devagar. Eles ardem.— Você é doente. — Ela diz entre dentes.Guilherme se recosta na cadeira, o couro rangendo suavemente sob seu peso.— Vou adorar corrigir esses seu mau comportamento.O silêncio pesa. O escritório parece menor. O ar mais denso. Jade precisa se forçar a respirar devagar, puxando o ar pelo nariz, soltando pela boca.— Se você encostar nelas… — a voz de Jade treme, mas ela continua. — Se você fizer qualquer coisa com a minha filha...Guilherme a interrompe com uma calmaria cruel:— Eu não preciso encostar nelas para destruir você.Jade fecha os olhos por um segundo, como se isso pudesse apagar a imagem das fotos.Quando os abre, a voz sai
— O senhor está achando que eu sou o quê? Algum tipo de puta barata que roda a bolsinha na esquina? — Assim que ela termina, o gosto é amargo, ácido, como se aquelas sílabas tivessem aberto uma porta que ela mantém trancada há anos. Memórias que ela havia enterrado fundo o bastante para fingir que nunca existiram. Coisas que doem mesmo quando não são tocadas.A cadeira sob ela parece dura demais, o ar ficou ainda mais frio, opressor, seus olhos crivam nos dele demonstrando toda a sua indignação, mesmo que por dentro a ferida que ela achou está fechada ter sido cutucada e as lágrimas queiram sair.Mas ela não deixa.Guilherme não responde. Não nega e nem confirma as palavras de Jade, ele simplesmente deixa que o silencio se instale entre eles.Denso e pesado.Ele não se move, sequer fala ou muda sua expressão, e isso é pior do que qualquer coisa que ele pudesse ter dito.Jade permanece sentada, os dedos crispados no tecido da própria calça, sentindo o coração bater forte demais dentro
— Nos encontramos de novo. — A voz de Guilherme ecoa, quebrando o silencio em seu escritório.— Não foi possível recusar o seu convite. — Jade morde a língua, se arrependendo no mesmo instante. — Senhor. — Ela suspira. — Olha, você me sequestrou, e isso e crime.Jade permanece de pé, os braços colados ao corpo, tentando não demonstrar o tremor que insiste em se espalhar pelos dedos. O ar parece mais denso ali dentro, difícil de puxar, difícil de soltar. O ar-condicionado morde a pele dos braços, mas é a calma daquele homem que faz o frio parecer mais profundo, observando-a como se fosse um animal raro que acabará de ser aprisionado numa jaula.O canto da boca dele se move cerca de apenas um milímetro, quase impossível de se notar se piscasse.— Vamos fazer o seguinte. — Jade continua, esforçando-se para manter o controle da situação e de si mesma. — Você me deixa voltar para minha casa e eu finjo que nada aconteceu, que eu passei a manhã toda entregando currículos, tá bom para você, n
Eu não deveria ter saído de casa... Não sem me despedir... — Jade soluça, os olhos ardendo pelas lágrimas salgadas enquanto lamenta em pensamentos.O ar falta por um instante.Jade puxa uma respiração curta, mas ela não chega aos pulmões. O coração dispara, batendo rápido demais, forte demais, como se quisesse romper o peito. O tecido áspero da sacola em sua cabeça está úmido, pesado pelas lágrimas que ela havia começado a derrubar antes mesmo de entrar na van. O mundo se resume a escuridão, ruídos abafados e ao balanço irregular do veículo.— Chegamos. — Jade escuta alguém dizer, e finalmente sente que o veículo parar de se mover com um solavanco.Jade fecha as mãos em punhos, as unhas cravando na própria pele. O sentimento de puro terror percorre por sua espinha, gelado, enquanto seu coração se aperta e em sua mente só vem a imagem da sua pequena família, a qual ela dá a vida todo santo dia.Larissa...Manuela...O rosto da filha surge nítido demais. O sorriso pequeno, o coelhinho d
Jade atravessa o centro da cidade com passos rápidos, os currículos envelopados dentro de sua bolsa e a esperança diminuindo a cada vitrine que passa. O sol da tarde reflete no vidro das lojas, esquenta sua pele, mas não aquece o coração.Muito pelo contrário.Ela fica mais apreensiva, a cada instante, mais e mais fios de sua esperança se esvaindo.— Boa tarde, estão contratando? — Arrisca, tentando injetar um fio de otimismo na voz, ao balconista de uma padaria.Ele mal ergue o olhar, concentrado na tela do caixa.— Só entregador. Sabe dirigir moto?Não.Ela não sabe.Jade suspira, sente o peso da bolsa nos ombros, balança a cabeça e agradece antes de sair. A campainha da porta soa como um tique-taque de fracasso.Entre as passadas ela confere o celular mais uma vez, pois antes de sair de casa instruiu a irmã a não abrir nenhuma das janelas.— Deve ter sido algum garoto da vizinhança passando trote, Jade, deixa de besteira. — Fora a resposta da mais nova, mas o coração de Jade não se







