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last update Fecha de publicación: 2022-09-24 11:32:50

Mudará. No momento em que eu saio do hospital eu sei que a minha vida mudará. Radicalmente até. E não da forma que eu esperava ou da forma que eu queria, mas de uma forma que me pegou de surpresa e abalou minha estrutura.

As últimas duas semanas se passaram lentas e rápidas ao mesmo tempo. De uma eu não me lembro muito. Estava a maior parte do tempo sedada em uma cama no quarto de recuperação do hospital após a cirurgia. Da outra eu me lembro como uma passagem dolorosa após o doutor Wood me falar sobre as sequelas resultantes do meu acidente. Mas tem duas coisas das quais eu jamais esquecerei. De dois faróis mortais pertencentes ao caminhão que bateu em mim no momento em que eu tive mais medo na minha vida e de dois olhos castanhos amorosos me vigiando como um falcão assim que eu acordei. O Nick ficou o tempo todo ao meu lado na cama, o Robert disse. Ele nem sequer foi trabalhar durante todo esse tempo. Apenas dava uma passada rápida em casa pra tomar banho e trocar de roupa, porque até mesmo as refeições ele fazia ao meu lado.

— Você está bem? — ele pergunta ao entrarmos no carro — Está confortável desse jeito?

— Estou.

Estou no banco da frente, no lado do passageiro. Ele tenta colocar o cinto de segurança em mim, mas eu mesma o coloco antes que ele tenha a chance. Não é porque minhas pernas não se mexem que eu não posso mover meus braços. Nick dirige de forma mais cuidadosa do que é estritamente necessário. E posso observar uma viga em sua testa em sinal de preocupação. A verdade é que desde que eu acordei, tenho a sensação de que ele me esconde algo. Três dias atrás eu acordei e ouvi que ele e o Robert falavam alguma coisa, mas já estavam no fim da conversa porque não pude saber do que se tratava.

Agradeço a ele por trazer as flores que eu ganhei durante o tempo em que fiquei hospitalizada, mas sua carranca – antes já nada boa – se aprofunda um pouco mais ao mencionar o Asher. Mas ele é meu amigo e foi muito gentil. Me visitou todos os dias desde que eu acordei e parece que também esteve lá enquanto eu estava inconsciente. Embora eu ache que não foi muito agradável para o Nick. Eu disse a ele que Asher e eu somos amigos, mas sinto que ele ainda tem uma pulga atrás da orelha.

— Ele é um bom amigo. — digo só pra reforçar.

— Eu sei. — ele responde sério.

Nick está mais sério do que eu estou acostumada a ver. Parece um pouco preocupado. Eu tenho certeza que ele ainda tem a ideia maluca de que a culpa pelo acidente é dele. E eu não sei de onde ele tirou isso, mas tenho que dar um jeito de acabar com esse pensamento.

Quando chegamos à sua casa, ele monta a cadeira de rodas ao lado da minha porta e me ajuda a sentar. É uma cadeira muito bonita e cheia de acessórios. Tem controle remoto para que eu não precise mexer nas rodas para me mover e com certeza deve ter custado uma fortuna. Às vezes eu gostaria de saber o quanto as ações que o Oliver deu a ele rendem só pra ter uma ideia de quanto dinheiro o Nick tem. Não que eu me importe com isso, mas é que desde que eu o conheci ele já gastou uma quantidade absurda de dinheiro comigo.

Assim que me acomoda na cadeira, ele se abaixa ao meu lado e faz o que sempre faz quando está tão perto assim. Põe a mais teimosa mecha do meu cabelo atrás da minha orelha e me beija levemente nos lábios. Eu adoro o jeito como eu me sinto quando estou com ele. Sinto-me especial e principalmente, sinto-me amada.

— Eu te amo. — ele diz com a boca ainda junto da minha.

Eu adoro quando ele me diz isso, mas agora mesmo não sei por que sinto que ele está dizendo isso não porque apenas quer dizer, mas porque acha que eu preciso ouvir.

— E eu a você, Nick. — toco seu rosto bonito com a ponta dos dedos e ele geme baixinho, mas não de prazer e sim como se doesse — Eu sei que está sendo difícil pra você amor, mas não precisa ficar reafirmando seu amor a toda hora só porque eu estou desse jeito.

— Eu não digo isso pra reafirmar pra você. — ele fala, olhando nos meus olhos — Faço porque eu preciso provar a mim mesmo o quanto eu amo você e me convencer de que nunca faria algo pra te magoar.

— Eu sei disso.

— Você acredita em mim? Acredita que eu nunca diria ou faria algo que te fizesse sofrer mais do que já está?

— É claro que sim, meu amor. Eu sei que você é a única pessoa que nunca faria nada pra me machucar.

— Ok. — ele sorri e se levanta.

Eu não entendo o por quê desse papo. Por que ele acha que vou pensar que ele me machucaria? Será se ele pensa que se passou por um minuto pela minha cabeça que ele vai me deixar agora? É claro que eu não pensaria nisso. Eu sei que ele me ama demais e que tem caráter demais pra fazer algo assim.

— Vamos entrar então? — concordo e ele fica na parte de trás da cadeira e começa a empurrá-la.

Uma olhada ao redor e na mesma hora eu percebo que tudo por aqui mudou. A frente da casa dele está muito mudada. A rampa que antes ia da entrada da varanda até a areia da praia agora tem uma irmã gêmea, menor e menos inclinada. Não falo nada. Mas quando entramos dentro de casa, as partes que sofreram alterações são ainda mais evidentes, a começar por um elevador de visão panorâmica ao lado da escada que leva à parte superior.

— Nick... — digo ofegante — O que você fez aqui?

— Eu sei que a casa está um pouco diferente, mas não é nada que não fosse necessário fazer.

— Era mesmo necessário colocar um elevador aqui? — sorrio.

— Bem... sim. Eu quero que você seja capaz de se locomover sozinha sem ter que sempre esperar por alguém.

É muito amável da parte dele querer fazer com que eu me sinta útil, pelo menos para mim mesma. Mas mesmo a sutileza dele me mostra mais uma vez que de agora em diante eu não dependo só de mim, até mesmo para as coisas mais simples.

— Obrigada, Nick.

— Ah amor, você não tem que me agradecer. Vem aqui. — ele me chama até a porta do pequeno elevador. Eu mesma vou guiando a cadeira através dos controles. — Está na hora de ver como as coisas estão lá em cima.

Ele aperta um pequeno botão verde no painel e a porta do elevador se abre. É relativamente grande. As paredes são de vidro e dá pra ver os cabos sendo puxados pelo motor. Um elevador de visão panorâmica. É claro que até nisso ele iria esbanjar. No momento cabemos eu e ele. Não sobra muito espaço, mas não chega a estar apertado. Porém se não fosse a cadeira, caberiam facilmente umas cinco pessoas aqui dentro.

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Último capítulo

  • Recomeço    Epílogo

    Quando Nicholas e Ada saíram da bela casa em Miami Beach, não viram que Asher os espreitava perto de uma árvore. Assim que o casal entrou no táxi, Asher sacou o celular e fez uma ligação interurbana.— Ele está saindo. — disse ao homem que atendeu sua chamada.— Ele está sozinho? — o homem perguntou, curioso.— Não. Está com uma loira. Acredito que seja a tal ex-noiva.— Com certeza é ela. — o homem do outro lado da linha disse com um sorriso — Ela me disse com todas as letras que só iria embora depois que soubesse que não tinha mais chance de ser a futura senhora Hoffman.— Eles passaram um bom tempo lá dentro. — Asher soltou um sorrisinho frio — Acho que não é difícil imaginar o que estavam fazendo.— Ótimo. Mesmo sem saber, ela me fez um grande favor ao ir procurá-lo. E quanto à tal da Ellen?— Ela saiu pouco tempo antes deles. Estava chorando. Acho que não receberá mais cartões do dia dos namorados do Nicholas.— Perfeito. — o homem disse muito satisfeito.— Então acho que isso li

  • Recomeço    78

    Tudo bem, não sou hipócrita ao ponto de não admitir que rolou um clima naquela noite, mas não aconteceu nada. Eu logo o afastei. Porém, vendo essas fotos dessa forma, qualquer um entenderia isso errado. Posso ver nos olhos do Nick a pergunta que ele ainda não fez, mas que está se coçando pra fazer. E de repente, um novo calafrio percorre o meu corpo.— Nick, eu posso explicar tudo isso.— Tenho certeza que sim, mas por que eu acreditaria em uma única palavra sua?— Por que tudo o que sempre disse a você é verdade.— Sabe, houve um tempo em que eu olhava dentro desses olhos verdes e acreditava no que você dizia pra mim. Pra falar a verdade, eu realmente achei que existiria uma explicação razoável para essas fotos, mas devido aos novos fatos que eu presenciei...O quê? Que fatos? Meu Deus, o que aconteceu em Nova Iorque que virou a cabeça do Nick desse jeito?— Nick, o que está dizendo? — peço com pavor. Não quero acreditar que ele está duvidando de mim. Ele tem que me deixar explicar.

  • Recomeço    77

    Atravesso as portas duplas da boate e saio com a cara para cima, tomando um pouco de ar fresco. É incrível como está quente lá dentro. A brisa vinda dos mar, quarteirões à frente, me atinge em cheio. Embora existam prédios e casas entre o mar e a boate, aqui ainda dá pra sentir os efeitos dele e a brisa sempre foi minha favorita. Como a brisa que invadia o quarto do Nick quando dormíamos com as portas de vidro abertas.— Mas podemos não beber, se quiser. Por que não vamos ao cinema? — ele me traz de volta ao agora com uma pergunta — Se tivermos muita sorte podemos conseguir um ingresso para aquele filme que você tanto fala.— Qual? — pergunto confusa. Não me lembro de ter falado em nenhum filme ultimamente.— Cinquenta tons de cinza. Você só falava nele desde que soube que lançaria esse ano. Hoje é a estreia.Ah claro. Cinquenta tons de cinza. Eu fiz planos no ano passado de assistir esse filme com o Nick. Não poderia de jeito algum vê-lo agora com outra pessoa. Principalmente com o A

  • Recomeço    76

    Fico pensando bastante na minha conversa com o Oliver ainda por várias horas depois que desligo o celular. E a cada dez minutos, ligo para o Nick e deixo mensagem na sua caixa postal. Tenho plena certeza de que ela já está totalmente lotada, mas eu não me importo. Preciso falar com ele. Mas quando o Benny acorda, pouco depois do meio dia, eu ainda não consegui ouvir a sua voz. Pelo menos não a voz real. Apenas sua voz eletrônica típica, dizendo que está ocupado no momento e para ligar depois. Para me distrair, e também é claro pelo fato de eu não cozinhar muito bem, proponho sairmos para comer fora.Quando chegamos ao Joe's, faço-o pedir o ensopado de lula e polvo que é um dos pratos mais famosos do restaurante. Meio desconfiado, ele segue minha sugestão, mas só por precaução, peço uma porção de camarões à milanesa e arroz branco para mim porque se ele não gostar do ensopado, podemos trocar de prato e eu sei que ele adora camarão. Porém, quando o garçom serve os nossos pedidos, ele de

  • Recomeço    75

    — Vocês se mudaram? — ele pergunta olhando pelo vidro e apontando o polegar para trás, onde a casa ficou distante.— Eu me mudei. — respondo meio séria.Benny analisa a minha resposta por um tempo e após uma aceno de cabeça, me questiona quando não dou maiores explicações.— Eu vou querer saber o motivo?— Quando chegarmos em casa.Depois de contar tudo ao Benny sobre as mais recentes coisas que eu descobri, ele senta-se ao meu lado na cama e me abraça forte. Mais forte do que jamais o fez. Eu não posso resistir à sua demonstração de paternidade e choro em seus braços até ficar aos soluços. Achei que não tinha mais lágrimas depois de todo esse tempo, mas obviamente elas ainda estão aqui. Só precisavam de alguém para fazê-las sair.Ele não sabe, mas deve imaginar pelo quê eu estou passando. Estaria mentindo se dissesse que esse aborto não me afetou mais do que qualquer outra perda que eu já tive. O choque inicial quando eu soube não chega nem perto do que realmente tem se passado no me

  • Recomeço    74

    — Fico imensamente feliz em saber que você já está pronta pra outra, Ellen. — Terry me diz com um sorriso reconfortante ao me readmitir no meu antigo emprego.Não diria que totalmente pronta pra outra, mas certamente, pronta pra deixar o passado pra trás e focar no futuro.— É claro que será um honra tê-la de volta à minha equipe no clube.— Obrigada, Terry. Eu estava ficando louca por não ter o que fazer.Uma semana depois da partida do Nick para Nova Iorque, eu acordei com uma vontade renovada de conseguir de volta tudo o que eu tinha antes, começando pelo meu emprego. É verdade que tirar umas férias, passar algum tempo sem fazer nada é bom, mas chega uma hora em que a vida tem que voltar à sua velha rotina.— Eu imagino que sim. Por mim, você já poderia começar hoje mesmo, mas acho melhor vir só segunda.— Também acho. Preciso ver bem direitinho como vai ficar a minha rotina daqui pra frente.Afinal de contas, não é só o emprego que voltará à minha vida, eu serei estudante novament

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