INICIAR SESIÓNAquele homem grande, de olhar cinza, cicatrizes no corpo e nenhuma memória do passado… falava com uma honestidade que ela não via há muito tempo em ninguém. E era exatamente isso que a apavorava.
Mais tarde, durante o café da manhã na cozinha, ela tentou fingir que nada tinha mudado. Colocou o pão na mesa, passou manteiga, comentou sobre o tempo. — Parece que hoje não chove, graças a Deus. — disse, encarando a janela. — Que bom. — respondeu ele — Você odeia dirigir com frio e chuva atrapalhando a visão. Ela ergueu uma sobrancelha. — E como você sabe disso? — Você reclama todo dia. — ele respondeu, dando de ombros — Eu presto atenção. Ela não soube se ria ou se chorava. Em vez disso, mordeu o pão e deixou o silêncio se alongar por alguns segundos. Mas era impossível manter a normalidade por muito tempo. Não quando, toda vez que esticava o braço, esbarrava nele. Ou quando, ao passar atrás da cadeira dele, sentia a mão dele encostar de leve em sua cintura, como se confirmasse para si mesmo que ela estava ali de verdade. Em um desses toques, ela perdeu o foco. — Você faz isso de propósito? — perguntou, meio rindo, meio séria. — O quê? — Encostar em mim toda hora. — explicou, cruzando os braços. Paolo parou, pensou por um momento e então sorriu, sem vergonha. — Faço. — respondeu, direto — Porque eu ainda não acredito totalmente que ontem foi real. Então… eu fico checando. Ela o encarou, surpresa com a resposta tão simples. — Você é sincero demais. — E você é muito mais corajosa do que parece. — retrucou — Me deixar ficar aqui, cuida de mim, me deixa tocar… — fez uma pausa, procurando a palavra certa — tão perto. O clima voltou a pesar de leve. Ele apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos. — Alya, o que significa o amor pra você? A pergunta veio do nada, mas carregada de verdade. Ela engoliu em seco. — Amor? — repetiu, como se fosse uma palavra estranha. — É. — ele confirmou. — Eu não lembro se já amei alguém. Não lembro se alguém já me amou. Mas… — fez uma careta, encostando na mesa com o queixo — se eu tiver que aprender agora, eu queria saber o que isso significa pra você. Ela ficou alguns segundos calada, olhando para as próprias mãos. Passou o polegar por uma marquinha antiga na pele, lembrança de outro tempo, outra pessoa, outras dores. — Amor, pra mim… — começou, com cuidado — é algo que eu deixei de acreditar. As palavras saíram mais duras do que ela esperava. Paolo a observava, atento, respeitando o momento. — Dói demais. — continuou. — As pessoas falam de amor como se fosse sempre bonito, como se valesse qualquer coisa. Mas… — respirou fundo — amar, pra mim, foi sempre sinônimo de perder. Abrir mão. Doer sozinha enquanto o outro seguia em frente. Ela riu, mas não havia alegria naquele som. — Então… em algum momento, eu decidi que bastava. Que eu ia viver só com o necessário. Trabalho, um teto, um pouco de paz. Sem amor. Sem expectativa. — ergueu os olhos até encontrar os dele — É mais seguro assim. Paolo não respondeu de imediato. Levantou-se devagar, contornou a mesa e parou ao lado da cadeira dela. Se abaixou um pouco, ficando na altura do rosto dela. — Então me deixa te ensinar outro tipo de amor. — disse, com a voz baixa, sério como raramente ficava. Ela engoliu em seco. — Paolo… — Um amor que não te peça pra se diminuir pra caber em ninguém. — continuou. — Que não vá embora quando você mais precisar. Que não te faça duvidar de quem você é. Ela sentiu algo estremecer por dentro. — E como você sabe que consegue me ensinar isso, se nem lembra da sua própria vida? Ele sorriu de canto, inclinando um pouco a cabeça. — Justamente por isso. — respondeu — Porque com você eu não tenho passado. Só futuro. Dá menos vontade de estragar. Ela soltou uma risada fraca, mas os olhos brilhavam. Paolo ergueu a mão e segurou o rosto dela com delicadeza, o polegar acariciando de leve a pele quente. Alya fechou os olhos por um instante, quase sem perceber. — Eu não posso prometer que vou ser perfeito. — confessou — Mas posso prometer que… enquanto estiver aqui, enquanto for esse “Paolo” que você batizou… vou te olhar como se fosse a coisa mais importante que já me aconteceu. Porque é isso que parece. Ela abriu os olhos, e o que viu ali a desarmou por completo. Não havia joguinho, não havia medo de parecer fraco. Havia só a verdade. Ela respirou fundo. — Você fala como se… — começou, mas a voz falhou. — Como se fosse fácil acreditar de novo. — Não é fácil. — ele respondeu, sem hesitar — Mas eu posso ir tentando, todos os dias. — aproximou-se um pouco mais — A gente pode ir tentando junto. Alya sentiu as defesas caírem, uma a uma, como castelos de areia levados pela maré. Naquele dia, nada grandioso aconteceu de fora pra dentro. Não houve tempestade, não houve gritos, não houve drama. Houve apenas um acordo, firmado entre olhares e toques. A partir desse dia, as paredes daquele pequeno lar se tornaram testemunhas de algo novo. Beijos profundos começavam na cozinha, entre o cheiro de comida e o barulho da chaleira. Continuavam na sala, entre risadas, almofadas jogadas e comentários bobos sobre programas de TV que nenhum dos dois prestava atenção de verdade. Terminavam, quase sempre, no quarto, onde o mundo parecia se resumir a dois corpos cansados do dia, mas famintos um do outro. As noites de entrega não eram só físicas. Eram feitas de conversas baixas no escuro, confissões sussurradas com medo de acordar o passado, promessas ditas sem perceber. — Eu estou aqui, estrela. — ele sussurrava às vezes, com o rosto colado ao pescoço dela. — Eu também, gigante. — ela respondia, segurando a mão dele com força. E, a cada dia que passava, o sentimento que crescia entre eles ganhava raízes mais profundas, mesmo que ainda não tivesse nome. Ali, naquele lar simples, com móveis usados e velas guardadas em potes de vidro, Alya e Paolo construíam algo que nenhum dos dois planejou. Algo que nascia entre um toque e outro, uma palavra e um momento, um medo e uma coragem nova. Era frágil. Era intenso. Era real. E, sem que percebessem, já era amor.Quando Paolo entrou na mansão com Matheo ao lado, o ar pareceu prender dentro das paredes. Os funcionários pararam discretamente onde estavam, alguns fingindo arrumar coisas, outros congelando com uma bandeja na mão. Ninguém ousou falar alto. Era como se a casa inteira esperasse o desfecho de um filme que todo mundo tinha começado a ver junto.Alya já estava na porta antes mesmo deles cruzarem o hall. O vestido solto, confortável, balançava com a pressa. O rosto molhado de lágrimas que ela tentou esconder dos outros, mas não dele. Quando viu a silhueta pequena ao lado de Paolo, o corpo dela se moveu sozinho.— Matheo! — gritou, a voz saindo mais alta do que pretendia.O menino correu também. Se jogou nos braços da mãe com tanta força que quase a desequilibrou. Ela o abraçou como se quisesse colar o corpo dele no peito, como se, assim, garantisse que ninguém nunca mais o arrancaria dali.— Meu filho, meu filho… — repetia, entre soluços, passando as mãos pelo cabelo dele, pelo rosto, p
A notícia de que era Felicity quem estava por trás do sequestro caiu em Alya como uma faca virando dentro do peito.Depois que desligou a chamada com Paolo, ela ficou alguns segundos parada no meio da sala, o celular ainda na mão, o coração disparado. Não era só medo. Algo mais bruto tinha acordado.Começou a andar pela mansão como se fosse um animal enjaulado, medindo cada passo, as mãos fechadas em punho.— Se essa mulher encostar um dedo no Matheo… — falou, com a voz baixa, mortal — eu mesma mato ela. Com a minha mão. Não quero saber de código, não quero saber de conselho. Eu arrebento ela.Os funcionários desviavam o olhar, sentindo o clima, mas sem ousar se meter. Gael e Ravi estavam em um dos quartos, sob a guarda de um segurança de confiança, tentando brincar sem conseguir se desligar.Paolo voltou à mansão por algumas horas só pra vê-los. Quando entrou, o ombro ainda doía, mas ele quase esqueceu disso ao ver Alya andando de um lado pro outro na sala, como se não coubesse dentr
O sequestro de Matheo virou o centro do mundo de Paolo em segundos. Ele mal deixou o curativo do ombro ser trocado. A gaze ainda estava úmida de sangue quando ele já descia as escadas da mansão como se não tivesse levado tiro nenhum. O corpo doía, mas a cabeça só repetia uma coisa… levaram meu filho. Alya veio atrás, ofegante.— Eu vou com você. — disse, decidida — Não vou ficar aqui parada enquanto…Paolo se virou, segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando ela a olhar apenas pra ele.— Fica com o Gael e o Ravi. — pediu, firme — Eles precisam de você inteira. Eu volto com o nosso filho.Os olhos dela cortaram a pele dele mais do que qualquer bala.— Se você não voltar com ele… — começou, a voz quebrando.Ele aproximou a testa da dela por um segundo.— Eu volto. — repetiu — Nem que seja arrastado.Ela assentiu, mas o peito queimava.— Vai. — sussurrou — Traz ele pra casa.Na sala do conselho, ninguém estava preparado para a tempestade que entrou. Paolo abriu as portas com um em
A mansão parecia maior quando o coração dela apertava. Desde que Paolo saiu, Alya andava de um lado pro outro, contando mentalmente os minutos, as horas, qualquer coisa que ajudasse a manter a cabeça ocupada. Sabia apenas que ele tinha ido resolver um problema “sério demais” fora da cidade. Não perguntou detalhes. Não precisava.Na frente dos meninos, fingia normalidade. Preparou café da manhã, discutiu sobre quem ia tomar banho primeiro, fingiu rir das piadas de Ravi, ouviu Gael falar sobre um desenho novo e Matheo perguntar por que o pai tinha que sair tanto. Em cada resposta, uma parte dela quebrava e outra colava por cima.Quando finalmente ouviu o barulho do carro entrando pelo portão, sentiu o coração disparar. Não correu de imediato. Esperou ouvir a porta da frente abrir.Quando Paolo entrou no hall, o mundo dela estreitou. Ela viu o sangue na camisa antes de qualquer outra coisa.— Paolo! — gritou, correndo na direção dele.Ele estava pálido, o ombro caído de leve, a respiraç
A notícia do desfalque chegou como chegam as coisas sérias, sem rodeio. Paolo estava no escritório da mansão quando um dos homens de confiança entrou, pálido, com uma pasta na mão e o celular no bolso vibrando sem parar. Bastou ele posar a pasta na mesa para o clima mudar.— Fala. — Paolo pediu, sério.— Tem um buraco grande demais nos números da filial da cidade vizinha. — o homem explicou — Não é erro de contabilidade, é mão de gente. Roubo.Paolo folheou rapidamente alguns papéis, o olhar ficando mais escuro a cada página. Não era só dinheiro. Era afronta. Quem tinha coragem de mexer em algo dele assim, na cara dura, não estava interessado apenas em lucro. Estava testando limites.Algumas horas depois, a sala do conselho estava cheia. Os mais velhos sentados, como sempre. Paolo de pé, como sempre que o assunto pedia posição clara. O clima era pesado, carregado de expectativa e tensão.— Eu vou sair da cidade. — ele anunciou, a voz firme — Vou resolver o desfalque pessoalmente. E, e
A mansão estava num daqueles dias em que tudo parecia calmo demais. Os meninos tinham saído com um dos seguranças para brincar no jardim dos fundos, Paolo estava trancado no escritório resolvendo assuntos da máfia, e Alya aproveitava a rara quietude da sala principal pra organizar os livros dos trigêmeos numa estante.Estava de vestido que moldava o corpo na medida certa, confortável, mas atraente, e o cabelo preso numa trança única que caía sobre um dos ombros. Parecia uma cena doméstica qualquer, se não fosse o peso do sobrenome que agora carregava. Ela separava os livros em pilhas.— Histórias, escola, bagunça. — sussurrava, encaixando um por um — Vocês três deviam aprender a guardar isso aqui sozinhos.Foi quando ouviu o som do salto ecoando no piso. Não era o som de qualquer salto. Era aquele som, firme, decidido, acostumado a ser notado. A cada passo, o eco atravessava o hall e subia pelas paredes.Os funcionários se entreolharam antes mesmo de ela aparecer. Alguns seguranças, p







