INICIAR SESIÓNJady
O sino tocou antes do amanhecer, cruel como sempre. Eu dormia profundamente no meu quartinho minúsculo atrás das cozinhas, enrolada num cobertor fino que mal afastava o frio. Sonhava com minha mãe de novo. Ela sorria, estendia a mão para mim e sussurrava algo que eu nunca conseguia ouvir por completo, era o único lugar onde eu ainda me sentia segura. Splash! A água gelada misturada com cinzas caiu como um tapa gelado no meu corpo. Acordei em choque, engasgando, o coração disparado. A mistura suja escorria pelos meus cabelos, entrava nos olhos e deixava um rastro escuro na minha pele. Seraphine estava na porta, linda e impecável mesmo àquela hora, com um sorriso venenoso nos lábios. Quatro lobas de sua turma estavam atrás dela, todas com a mesma expressão de diversão. — Dormindo até essa hora, vadia? — perguntou ela, fingindo surpresa. — Ainda nem amanheceu… — murmurei, limpando o rosto com as costas da mão. Seraphine arrancou o cobertor da cama e jogou-o no chão lamacento do corredor. — Então vá lavar isso e use o cobertor para limpar o resto da sujeira que você deixou cair. Eu levantei devagar, o corpo ainda dolorido da noite anterior com Orion. Encarei Seraphine diretamente nos olhos. — Você poderia fazer isso sozinha. O silêncio foi imediato. As quatro lobas arregalaram os olhos, chocadas. Ninguém ousava responder Seraphine daquele jeito. Ela sorriu ainda mais largo, quase feliz. — Segurem ela. As lobas me agarraram pelos braços com força. Seraphine pegou o balde seguinte, água suja com bastante cinza e despejou lentamente sobre minha cabeça. A mistura escorreu pelo meu rosto, sujou minha camisola fina, grudou nos cabelos e deixou marcas escuras na minha pele. Eu tremia de frio e raiva. — Agora vá cumprir suas tarefas, assim mesmo, quero ver você atravessar o castelo inteiro com essa cara de escrava. Eu obedeci, caminhei pelos corredores com a cabeça erguida, mesmo sentindo os olhares, os risinhos abafados e o nojo. Quando cheguei ao corredor principal, a Luna Eleonor vinha na direção contrária. Ela parou por um segundo. Seus olhos frios percorreram meu rosto sujo de cinzas, a roupa molhada e imunda. Eu esperei, idiotamente, que ela dissesse algo. — Seraphine… não exagere — falou com um suspiro entediado, e continuou andando sem nem olhar para trás. A indiferença dela foi pior que um tapa. Mostrava claramente: ninguém aqui me protegeria. Nem a mãe do homem que jurava me amar. Passei o resto da manhã limpando o grande salão de festas. De joelhos no chão de mármore frio, esfregando manchas antigas, as mãos ardendo, foi quando senti seu cheiro. Orion. Ele apareceu no salão alto e imponente, como sempre. Olhou ao redor rapidamente, certificando-se de que estávamos sozinhos, e se aproximou. Ajoelhou-se ao meu lado, como se fosse um simples ajudante, e segurou minha mão por baixo do pano de chão, escondido. — O que ela fez dessa vez? — perguntou baixinho, a voz carregada de preocupação. Tentei rir, mas meus olhos estavam vermelhos e inchados. — O de sempre… só que pior. Ele soltou um suspiro pesado, com o polegar, limpou gentilmente uma mancha de cinza do meu rosto. O toque foi tão carinhoso que quase quebrei ali mesmo. — Quando eu assumir como Alfa — murmurou, olhando nos meus olhos — ninguém mais vai mandar em você. Eu assenti, engolindo o choro. Queria tanto acreditar nele. Depois da noite anterior, quando ele me tomou com tanta força e paixão no depósito abandonado, suas promessas pareciam reais, mas enquanto ele se levantava e se afastava antes que alguém nos visse, uma sensação ruim apertou meu peito. Quanto tempo mais eu conseguiria aguentar?JadyAs semanas se transformaram em meses.Raika crescia rápido, já sustentava melhor o pescoço, abria os olhos com mais frequência e sorria quando me reconhecia, seus cabelos escuros estavam mais densos, e às vezes eu jurava ver o mesmo brilho azul-gelo do meu pai quando a luz batia neles de certo ângulo. Eu a carregava quase o tempo todo. O peso quente dela contra o peito se tornou a coisa mais natural do mundo.Isaac se aproximava aos poucos.No começo eram apenas olhares prolongados nos corredores. Depois, ele começou a aparecer com mais frequência perto de nós, oferecia ajudar a carregar o berço quando eu mudava de aposento. Perguntava, em voz baixa, se Raika havia dormido bem. Nunca ultrapassava limites, mas sua presença se tornou constante. Seus olhos escuros me seguiam com uma intensidade quieta que eu fingia não notar… embora Zara, dentro de mim, se agitasse levemente toda vez que ele estava perto.Nury se tornou ainda mais presente.Ela não era apenas a governanta, era
JadyO final da gravidez chegou sem aviso, as dores começaram de madrugada, profundas, ritmadas, inevitáveis. Nury foi a primeira a entrar no quarto, seguida de Yanka. Logo atrás vieram as criadas que mais cuidavam de mim: Sienna, Maelis e Filipa. A curandeira da Lua Negra, uma mulher de cabelos brancos chamada Elderin, chegou pouco depois com sua bolsa de ervas e instrumentos simples. O parto seria natural, como todos os da Casa Lakis.Meu pai não saiu do meu lado.Vernon segurou minha mão durante cada contração. Eu gritava, suava, tremia, mas ele permanecia firme, a voz baixa e constante:— Estou aqui, filha. Você consegue.As horas se arrastaram, a dor era avassaladora. Yanka apertava minha outra mão. Nury enxugava meu rosto. As criadas se moviam em silêncio, trocando panos quentes, preparando água, sussurrando palavras de incentivo. E então, depois de uma última onda de dor que pareceu rasgar o mundo, Elderin anunciou com calma:— É uma menina.O choro fino e poderoso pree
JadyOs meses avançaram como a névoa: sem pressa, mas sem parar.Minha barriga já era impossível de esconder, redonda, firme, viva. O bebê se mexia com frequência, a princípio só como borboletas, depois com chutes claros que faziam Vernon sorrir toda vez que eu colocava a mão dele sobre o tecido do vestido.Ele nunca cansava daquilo, dizia que cada movimento era uma prova de que a Deusa realmente havia nos abençoado duas vezes.A Lua Negra se adaptou a mim, e eu a ela.Yanka agora me acompanhava em caminhadas leves pelos pátios, sempre atenta para que eu não me cansasse demais. Nury organizava tudo: consultas com a curandeira, roupas novas a cada mudança do corpo, chá de ervas à noite para ajudar no sono. As criadas haviam deixado de me tratar apenas com respeito formal, havia carinho genuíno em seus gestos.Isaac, silencioso como sempre, aparecia com mais frequência nos corredores quando eu passava, inclinando a cabeça em cumprimento. Randal me atualizava sobre questões menores d
JadyO tempo na Lua Negra não passava como nos outros lugares.Ele deslizava, suave e silencioso, como a própria névoa que nunca abandonava completamente o território. Os dias eram cinzentos, mas nunca pesados. Havia uma modernidade discreta por baixo da antiguidade: sistemas de aquecimento invisíveis nas paredes de pedra, luzes que se ajustavam automaticamente, veículos blindados escondidos em garagens subterrâneas, e ainda assim… tudo mantinha a alma antiga.O castelo era ao mesmo tempo fortaleza ancestral e lar contemporâneo.Os meses foram se acumulando.No início, eu ainda andava pelos corredores como se estivesse visitando. Depois, comecei a reconhecer cada sombra, cada cheiro, cada som. Meu pai, Vernon Lakis, se tornou presença constante, não apenas como Alfa, como pai. Ele me contava histórias da família enquanto caminhávamos pelos salões repletos de quadros, retratos de Alfas antigos com olhos azul-gelo iguais aos dele. Lobas de expressão severa, cenas de coronations sob
JadyOs dias na Lua Negra eram cinzentos, mas era um cinza vivo, carregado de magia. A névoa nunca desaparecia por completo. Ela dançava entre as torres do castelo, descia pelas encostas e se enrolava nas árvores antigas como se tivesse vontade própria. No começo, eu achava aquilo sombrio, com o tempo, comecei a achar belo.Me apaixonei pelos dias quietos, pelo cheiro de terra úmida e madeira queimada, pelo som distante de uivos que ecoavam nas noites de lua cheia. Pelas pessoas que, aos poucos, deixavam de me olhar com curiosidade e começavam a me tratar com respeito genuíno.Meu pai se tornou meu maior professor.Vernon me levava para conhecer cada canto do território. Saíamos cedo, muitas vezes a cavalo ou de caminhonete, atravessando trilhas cobertas de névoa.Ele me mostrou a vila principal da Lua Negra, casas de pedra escura com telhados pontiagudos, ruas estreitas iluminadas por estruturas de ferro, lobos e lobas que se inclinavam ao nos ver passar.— Aqui vivem os artesãos
JadyNo dia seguinte, decidi caminhar sozinha pelo castelo.Passei pelos enormes pátios externos, onde a névoa da Lua Negra pairava baixa sobre as pedras escuras. O ar frio tocava meu rosto enquanto eu explorava corredores e jardins que ainda me pareciam novos, foi então que avistei uma estrutura mais afastada, uma academia particular de treinamento.Entrei em silêncio.Lá dentro, uma mulher treinava sozinha, era morena, de cabelos longos e trançados que balançavam a cada movimento, cicatrizes discretas marcavam seus braços e ombros. Ela golpeava um saco pesado com precisão e velocidade impressionantes, cada soco era controlado, rápido e poderoso, fiquei observando por alguns segundos, hipnotizada pela disciplina dela.Quando percebeu minha presença, parou o treino, estava suada, a respiração controlada. Seus olhos me avaliaram com atenção.— Senhorita Lakis… posso te ajudar?Balancei a cabeça, negando.— Não, não quero atrapalhar seu treino, estava apenas caminhando e conhecendo o







