INICIAR SESIÓNJady
Corri sem pensar. Meus pés me levaram até o jardim escondido perto do lago, o lugar secreto onde Orion e eu costumávamos nos encontrar. A neve caía suavemente, cobrindo tudo com um manto branco e silencioso. Assim que cheguei, minhas pernas falharam, caí de joelhos na neve fria, as mãos afundando na camada gelada. O ar saía rasgado dos meus pulmões. Zara uivava sem parar dentro de mim, um lamento selvagem, cheio de dor e fúria. Eu tentava respirar, mas a rejeição ainda doía fisicamente, como se alguém tivesse enfiado a mão no meu peito e arrancado algo vital. Fiquei ali por horas, chorando, tremendo, sentindo o frio penetrar meus ossos, quando finalmente levantei, percebi a dura verdade: eu não tinha para onde ir. Aquele quartinho miserável atrás das cozinhas ainda era a única “casa” que eu conhecia. Voltei para dentro do castelo como um fantasma. Entrei no meu cubículo, fechei a porta e me arrastei até a cama pequena. Encolhi-me toda, abraçando as pernas contra o peito, o rosto enterrado nos joelhos, chorei sem parar. Um choro baixo, sufocado, que fazia meu corpo inteiro tremer. A porta se abriu de repente, uma criada mais nova, de cabeça baixa, falou quase sem voz: — A Luna Seraphine está chamando. — Eu não tenho forças… — murmurei, a voz rouca de tanto chorar. A criada abaixou ainda mais a cabeça, visivelmente desconfortável. — Não é um pedido. Meu corpo protestou quando tentei me levantar, cada músculo doía. Minhas costelas latejavam, o ombro queimava, e o frio da neve ainda parecia preso na minha pele. Mesmo assim, me forcei a ficar de pé. Ajeitei a roupa suja e amassada o melhor que pude, limpei o rosto com as costas da mão e saí atrás da criada. Cheguei ao quarto principal, o antigo quarto de Órion, agora deles. Abri a porta devagar. Seraphine já havia tirado o vestido de noiva, estava sentada numa poltrona luxuosa, usando uma camisola fina de seda branca que marcava cada curva do seu corpo. Seus cabelos loiros caíam soltos sobre os ombros. Ela estava linda, radiante e vitoriosa. — Mandou me chamar? — perguntei, a voz quase sem vida. Ela sorriu, satisfeita. — Entre. Entrei, olhando fixamente para o chão. Seraphine cruzou uma perna sobre a outra com elegância e levantou um dos pés delicados. — Tire minhas sandálias. Fiquei imóvel por um segundo. A humilhação queimava minha garganta. — Não ouviu sua Luna? — perguntou ela, doce como veneno. Eu me ajoelhei. Minhas mãos tremiam enquanto desafivelava as sandálias. Quando terminei, Seraphine se inclinou para frente, aproximando o rosto do meu, e sussurrou: — Você conhece o cheiro dele melhor do que qualquer mulher… mas quem vai acordar ao lado dele pelo resto da vida sou eu. A frase acertou como uma facada no peito. Engoli em seco, lutando contra as lágrimas. Assim que terminei, Seraphine empurrou meu ombro com o pé, com força. Desequilibrei e caí para trás, batendo no chão frio. — Uma criada nunca seria Luna da Lua de Prata — disse ela com deboche. — Você será sempre a minha escrava. Respirei fundo, engolindo o orgulho, a dor e a raiva. — Senhorita Seraphine… posso ir? Ela ergueu uma sobrancelha. — Você agora me chama apenas de Senhora Luna. Senti a humilhação descer pela garganta como ácido. Baixei a cabeça ainda mais. — Senhora Luna… posso ir? Seraphine sorriu, vitoriosa. — Sai logo da minha frente, sua criada imunda. Eu me levantei devagar, engolindo em seco. Virei-me e caminhei até a porta, cada passo pesando como chumbo. — Ah… — chamou ela antes que eu saísse. — Se eu descobrir que você chegou perto do meu marido… eu te mato, cadela. Virei a cabeça e encarei Seraphine por um segundo. Depois abri a porta e saí rápido pelo corredor. As lágrimas voltaram a cair, silenciosas e quentes, escorrendo pelo meu rosto sem permissão.JadyYanka não me poupava mais. De manhã cedo, sob a névoa fria do pátio externo, ela me fazia repetir sequências até os músculos arderem, quedas, esquivas, golpes de mão vazia, combate corpo a corpo. Eu caía, levantava, caía de novo. O suor escorria pelo rosto e misturava com a respiração ofegante, mas eu não pedia para parar, cada hematoma era uma prova de que eu estava deixando para trás a criada frágil da Lua de Prata.— De novo — ordenava Yanka, os olhos sérios. — Você carrega o sangue Lakis. Mostre isso e eu mostrava.Depois de algumas semanas, Isaac começou a treinar comigo também. Diferente de Yanka, ele era mais técnico, mais preciso. Ensinava-me a ler o oponente, a sentir o peso do corpo antes do ataque, a usar a própria força do inimigo contra ele. Quando treinávamos, o silêncio entre nós era denso. Suas mãos me corrigiam a postura com firmeza cuidadosa. Às vezes nossos olhares se encontravam por tempo demais. Zara se agitava, inquieta, mas eu fingia não notar.Foi
JadyO tempo na Lua Negra continuava a deslizar como a névoa.As semanas se acumularam sem que eu percebesse de verdade. Raika já se sentava sozinha, balbuciava sons que eu insistia em transformar em palavras e sorria toda vez que ouvia a voz do avô. Eu a carregava menos no colo e mais no coração. A maternidade, que no começo me assustava, agora se tornava o eixo do meu dia.Yanka se tornou quase uma extensão de mim.Não era apenas minha guarda, era a pessoa com quem eu dividia silêncios confortáveis e conversas longas demais. Treinávamos juntas no pátio externo quase todas as manhãs, ela me corrigia a postura, eu a fazia rir quando errava algum movimento por causa do cansaço. Às vezes, depois do treino, sentávamos no chão frio de pedra, suadas, e falávamos sobre tudo e sobre nada, sobre a Guarda Real, sobre cicatrizes antigas, sobre o medo de falhar com quem amamos. Yanka nunca pedia detalhes sobre meu passado na Lua de Prata, mas quando eu mencionava alguma coisa, ela apenas es
Nury Eu já havia cuidado dos ferimentos do Alfa inúmeras vezes ao longo dos anos, cortes de treinamento, marcas de patrulhas, hematomas de confrontos antigos. Vernon Lakis nunca foi um homem que se poupava, mas desde a noite em que Erykhan Noctis o desafiou diante de toda a matilha, algo dentro de mim mudou. Ele não recuou, não hesitou. Mostrou, com a frieza e a força que só um verdadeiro Alfa possui, por que a Lua Negra ainda se ajoelhava diante dele e eu, que já o admirava em silêncio há décadas, me vi ainda mais rendida.Depois que limpei os ferimentos dele naquela noite, algo sutil se alterou entre nós.Nos dias seguintes, os olhares se alongaram.Quando eu entrava na sala dele para entregar relatórios ou chá, seus olhos azul-gelo demoravam um segundo a mais nos meus. A forma como ele dizia meu nome também mudou. Já não era apenas “Nury”, dito com a indiferença de quem chama uma subordinada de confiança. Agora havia uma suavidade baixa, quase íntima, que fazia meu estômago
JadyOs dias seguintes à expulsão de Erykhan Noctis foram estranhamente silenciosos.A Lua Negra parecia respirar aliviada, mas também mais atenta, os olhares de desconfiança que eu ainda sentia em alguns corredores diminuíram. Ninguém ousava questionar abertamente a decisão do meu pai, a demonstração de força dele havia sido clara: a proteção à sua filha e neta não era negociável.Raika, alheia a tudo, continuava crescendo no meu colo.Já sorria com mais frequência, seus olhinhos claros me seguiam pela suíte e, às vezes, eu jurava que ela tentava imitar os sons que eu fazia. O peso dela contra o meu peito se tornou meu lugar mais seguro. Eu a amamentava olhando a névoa pela varanda, cantarolava baixinho as canções que Nury me ensinara.Yanka, tinha se tornado presença constante, acompanhava-me nos corredores, treinava no pátio enquanto eu observava com Raika no colo, e à noite costumava ficar perto da porta do meu quarto até eu dormir, nossa conversa ia além de segurança, falávamo
JadyAs semanas se transformaram em meses.Raika crescia rápido, já sustentava melhor o pescoço, abria os olhos com mais frequência e sorria quando me reconhecia, seus cabelos escuros estavam mais densos, e às vezes eu jurava ver o mesmo brilho azul-gelo do meu pai quando a luz batia neles de certo ângulo. Eu a carregava quase o tempo todo. O peso quente dela contra o peito se tornou a coisa mais natural do mundo.Isaac se aproximava aos poucos.No começo eram apenas olhares prolongados nos corredores. Depois, ele começou a aparecer com mais frequência perto de nós, oferecia ajudar a carregar o berço quando eu mudava de aposento. Perguntava, em voz baixa, se Raika havia dormido bem. Nunca ultrapassava limites, mas sua presença se tornou constante. Seus olhos escuros me seguiam com uma intensidade quieta que eu fingia não notar… embora Zara, dentro de mim, se agitasse levemente toda vez que ele estava perto.Nury se tornou ainda mais presente.Ela não era apenas a governanta, era
JadyO final da gravidez chegou sem aviso, as dores começaram de madrugada, profundas, ritmadas, inevitáveis. Nury foi a primeira a entrar no quarto, seguida de Yanka. Logo atrás vieram as criadas que mais cuidavam de mim: Sienna, Maelis e Filipa. A curandeira da Lua Negra, uma mulher de cabelos brancos chamada Elderin, chegou pouco depois com sua bolsa de ervas e instrumentos simples. O parto seria natural, como todos os da Casa Lakis.Meu pai não saiu do meu lado.Vernon segurou minha mão durante cada contração. Eu gritava, suava, tremia, mas ele permanecia firme, a voz baixa e constante:— Estou aqui, filha. Você consegue.As horas se arrastaram, a dor era avassaladora. Yanka apertava minha outra mão. Nury enxugava meu rosto. As criadas se moviam em silêncio, trocando panos quentes, preparando água, sussurrando palavras de incentivo. E então, depois de uma última onda de dor que pareceu rasgar o mundo, Elderin anunciou com calma:— É uma menina.O choro fino e poderoso pree







