INICIAR SESIÓNNa manhã seguinte, a matilha já sabia.
Não que não tivesse presenciado. Mas havia uma diferença cruel entre assistir a algo acontecer… e repetir aquilo como história. E eles repetiram. Cada passo que dei pelos caminhos de terra da vila parecia ecoar mais alto do que deveria. Conversas diminuíam quando eu passava. Olhares se desviavam — ou se demoravam tempo demais. Eu nunca fui notada antes. Agora eu era impossível de ignorar. A rejeitada. A Ômega que ousou ser escolhida pela Lua. Eu mantive o queixo erguido, mesmo sentindo o vínculo instável vibrar dentro do peito. Não era mais aquela dor aguda da noite anterior — agora era uma queimação constante, como uma brasa que se recusava a apagar. Dormir fora impossível. Toda vez que fechava os olhos, revivia o momento. “Nunca a reconhecerei como Luna.” A frieza da voz dele. O silêncio da matilha. A sensação de estar sendo arrancada de mim mesma. — Elira. Parei ao ouvir meu nome. Lyra. Ela estava encostada perto do poço central, cercada por duas lobas de posição mais alta. O sorriso dela era sutil demais para ser inocente. — Eu só queria dizer que sinto muito pelo que aconteceu — disse ela, com falsa suavidade. As duas ao lado dela trocaram olhares. Eu permaneci em silêncio. Ela se aproximou um passo. — Deve ser difícil… acreditar que a Lua escolheu você. Imagino o constrangimento. Constrangimento. Eu senti o vínculo reagir. Uma vibração incômoda. Não por causa dela. Por causa dele. Ele estava perto. Eu não sabia como, mas sentia. — A Lua não erra — respondi, com voz firme. Lyra inclinou a cabeça. — Talvez não. Mas Alfas escolhem. O golpe foi preciso. Ela não precisava dizer mais nada. O que doía não era a rejeição da Lua. Era a escolha dele. Lyra passou por mim, deixando um rastro de perfume e vitória. Eu respirei fundo e continuei andando. Mas então eu o senti. Mais forte dessa vez. Como se alguém tivesse puxado o fio invisível entre nós. Meu coração acelerou involuntariamente. Ele estava definitivamente próximo. E, antes que eu pudesse evitar, virei a esquina do alojamento principal… e dei de frente com Kael. O impacto foi silencioso, mas devastador. Ele estava sozinho. Sem Lyra. Sem Betas. Sem plateia. A luz do dia tornava seus traços ainda mais duros. Ele parecia mais tenso do que na noite anterior. Havia sombras sob seus olhos, quase imperceptíveis. O vínculo reagiu de forma violenta. Calor. Dor. Reconhecimento. Eu desviei o olhar primeiro. Não por submissão. Por autopreservação. — Você não deveria estar circulando sozinha — ele disse, a voz baixa, controlada. Eu ri, sem humor. — Ontem eu estava exposta diante de toda a matilha. Acho que andar sozinha não é o maior risco que enfrento. Silêncio. Ele se aproximou um passo. O ar ficou pesado. — O vínculo ainda não está rompido — disse ele. Eu ergui o olhar lentamente. — Eu percebi. Seus olhos dourados encontraram os meus, e ali havia algo que ele estava lutando para esconder. Irritação. Inquietação. Talvez… culpa? — Ele vai enfraquecer — afirmou Kael. — Com o tempo. Mentira. Nós dois sabíamos. Eu senti. Ele também sentiu. — Então por que você parece tão incomodado? — perguntei, antes que pudesse me conter. A pergunta pairou entre nós. O maxilar dele se contraiu. — Porque instabilidade enfraquece a liderança. Claro. Sempre a liderança. Sempre o poder. Nunca eu. — Você não me rejeitou por causa da matilha — eu disse, finalmente entendendo. — Você me rejeitou por medo. Os olhos dele brilharam perigosamente. — Cuidado com suas palavras, Ômega. A palavra soou como um lembrete. De posição. De hierarquia. Mas algo dentro de mim já estava cansado de se encolher. — Eu não pedi por esse vínculo — falei, a voz mais firme do que eu esperava. — E você não pode fingir que ele não existe só porque não gosta do que ele diz sobre você. O vínculo pulsou mais forte. Ele deu mais um passo. Agora estávamos próximos demais. O cheiro dele — madeira, ferro, poder — invadiu meus sentidos. Meu lobo reagiu, traidor, reconhecendo o dele mesmo sob a tensão. — Você acha que isso é sobre gostar? — ele murmurou. O tom era diferente agora. Mais baixo. Mais perigoso. — Eu sou Alfa Supremo. Eu não posso me ligar a alguém que— Ele parou. Mas eu entendi. Alguém que a matilha considera fraca. Alguém que não fortalece alianças. Alguém que não é politicamente útil. — Então me mantenha longe — eu disse, dando um passo para trás. — Se sou tão inadequada, mantenha distância. Foi quando senti. O puxão. Não físico. Instintivo. Ele não queria que eu me afastasse. O corpo dele reagiu antes da mente. O olhar escureceu levemente. E então ele fez algo que me surpreendeu. Ele fechou os olhos por um segundo. Como se estivesse lutando. Quando os abriu novamente, estavam frios outra vez. — Você permanecerá na matilha até que o vínculo estabilize — declarou ele. Uma ordem. Sempre uma ordem. — E se eu não quiser? — desafiei. O silêncio ficou pesado. — Você não tem escolha. Eu sorri. Não de alegria. Mas de decisão. — Ontem, você me disse diante de todos que eu não era sua. — Dei mais um passo para trás. — Então não aja como se ainda tivesse direito de decidir sobre mim. Algo mudou no rosto dele. Foi rápido. Quase invisível. Mas estava lá. Raiva misturada com algo que parecia… perda. Eu virei as costas antes que pudesse fraquejar. Cada passo que eu dava para longe dele doía — não porque eu queria voltar, mas porque o vínculo protestava. Ele estava sentindo também. Eu sabia. Sentia o eco da tensão atravessando aquele fio invisível. Mas, pela primeira vez, não era só dor. Era consciência. Eu não era fraca. Eu tinha sido descartada. E isso não é a mesma coisa. Quando cheguei ao limite da vila, onde a floresta começava a se fechar em sombras densas, parei. O ar ali era diferente. Mais livre. Menos sufocante. Eu olhei para trás uma última vez. A matilha parecia tranquila à distância. Como se nada tivesse acontecido. Como se eu não tivesse sido rasgada diante deles. O vínculo vibrou novamente. Mais instável. Mais inquieto. Se eu ficasse… Ele me manteria sob vigilância. Sob controle. Sob humilhação constante. Eu toquei o próprio peito. — Isso não é uma prisão — murmurei para mim mesma. Mas estava começando a parecer. E, pela primeira vez desde a cerimônia, uma ideia clara se formou na minha mente. Eu não precisava ficar. Se ele me rejeitou como Luna… Eu não devia nada à matilha. Nem a ele. O vento soprou mais forte, agitando meus cabelos. A floresta parecia me chamar. Não como ameaça. Mas como possibilidade. Eu respirei fundo. E soube. Eu não ficaria para assistir ele decidir o que fazer comigo. Se a Lua havia me marcado… Então eu escolheria o que fazer com essa marca.(ELIRA)O tempo não apagou.Ele… acomodou.Aurora voltou a respirar primeiro.Depois, Obsidiana.Depois… nós.Não houve um dia exato em que tudo ficou bem.A cura não veio como uma onda — veio em pequenos instantes, quase imperceptíveis.Um lobo que voltou a correr.Uma árvore que floresceu fora de época.Uma noite em que consegui dormir sem sentir o peso esmagando meu peito.E, ainda assim…Havia coisas que o tempo não levou.Orion.Eu ainda penso nele.Não com a dor crua de antes.Mas com uma ausência que se transformou em algo mais… silencioso.Mais profundo.Ele não voltou para Aurora.Não ficou em Obsidiana.Orion partiu.Não por fraqueza.Mas porque precisava.Porque permanecer… teria destruído o que restava dele.E talvez… o que restava de nós.Ninguém sabe exatamente para onde ele foi.Alguns dizem que ele está ao norte, reconstruindo uma alcateia própria.Outros dizem que ele caminha sozinho, ajudando territórios menores a se manterem estáveis.Kael não fala sobre ele.Mas eu
(ELIRA) Obsidiana nunca pareceu tão… viva.Não como antes.Antes, o território pulsava com poder, com hierarquia, com força bruta. Era imponente. Intocável. Dominado.Agora—Ele respirava.Havia algo diferente no ar.Mais leve.Mais… humano.Eu parei no alto da escadaria de pedra, olhando tudo à minha frente.A matilha estava reunida.Lobos em forma humana e animal, espalhados pelo pátio central, formando um círculo amplo ao redor do altar de pedra negra — o mesmo onde decisões eram tomadas, onde destinos eram selados.Onde, uma vez…Eu fui rejeitada.Meu peito apertou levemente com a lembrança.Mas não doeu.Não mais.Porque agora—Eu não era a mesma.E aquele lugar…Também não.— Está com medo?A voz veio ao meu lado.Baixa.Grave.Familiar.Kael.Eu não precisei olhar para saber que ele estava ali.Eu senti.Sempre sentia.Mas agora não como uma força que me puxava.Como uma escolha que me ancorava.Eu soltei um pequeno suspiro.— Não.Minha resposta saiu sincera.E isso me surpre
(ELIRA)A lua estava alta quando eu finalmente parei de fugir.Não dos outros.De mim.Aurora ainda respirava devagar, como se cada parte do território estivesse reaprendendo a existir depois do colapso. O silêncio já não era tão pesado quanto antes… mas também não era leve.Era… honesto.Como tudo dentro de mim agora.Eu caminhei sem destino até parar no limite da clareira central. O mesmo lugar onde tudo começou a ruir… e onde tudo terminou.Ou quase.O vento tocou meu rosto suavemente.Frio.Mas não incômodo.Eu fechei os olhos.E senti.A lua ainda estava ali.Constante.Presente.Mas silenciosa.Como se, pela primeira vez… estivesse me deixando escolher sozinha.Meu peito apertou.Orion.A ausência dele ainda estava ali.Não como ferida aberta… mas como cicatriz recente.Eu ainda sentia.A falta.O eco.A marca.E aquilo nunca iria desaparecer completamente.Eu sabia.E aceitei.— Obrigada… — sussurrei para o vazio, sem saber se ele poderia ouvir.Talvez não.Mas eu precisava diz
(ELIRA)O silêncio não foi embora.Ele se instalou.Entrou nas paredes de Aurora, se acomodou entre as árvores, se deitou ao lado dos corpos feridos… e ficou.Mas dentro de mim—Ele gritou.Eu não dormi.Não de verdade.Meu corpo até cedeu em algum momento, vencido pelo cansaço, mas minha mente… não parou.Porque toda vez que eu fechava os olhos—Eu sentia.Não presença.Ausência.Orion.Meu peito apertou antes mesmo que eu me movesse.Acordar doía.Não como ferimento.Mas como consciência.Eu sabia, no instante em que abria os olhos, que algo não estava ali.E não voltaria.Eu levei a mão ao peito, ainda deitada, os dedos pressionando com força, como se… talvez… se eu insistisse o suficiente…Eu pudesse sentir de novo.Qualquer coisa.Um eco.Um resquício.Mas o que encontrei foi pior.Nada.Um vazio limpo.Frio.Definitivo.Minha respiração falhou por um segundo.— …Nem o nome saiu.Porque dizer “Orion” agora… parecia errado.Como chamar alguém que não podia mais responder.Mas não
(ELIRA)O mundo não voltou.Ele… parou.Não houve um momento de alívio, nem um suspiro coletivo, nem celebração.Aurora simplesmente… cessou.Como um coração que bateu rápido demais por tempo demais… e agora não sabe mais em que ritmo continuar.O ar estava limpo.Mas pesado.As árvores estavam de pé.Mas imóveis.Os sons… quase inexistentes.Sem gritos.Sem rosnados.Sem guerra.Só silêncio.Um silêncio tão profundo que parecia pressionar meus ouvidos, como se o próprio território estivesse… tentando entender o que ainda restava.Eu ainda estava de pé.Não sabia exatamente como.Minhas pernas tremiam levemente, o corpo inteiro pesado, como se cada parte de mim tivesse sido esticada além do limite… e agora estivesse tentando voltar ao lugar.Mas algo não voltava.Eu sentia.Por dentro.Diferente.Vazio… e cheio ao mesmo tempo.Minha respiração saiu lenta.Controlada.Mas não natural.Nada parecia natural.Meus olhos percorreram o que restava.Lobos espalhados pelo chão.Alguns conscie
(LYRA) O silêncio… doeu mais que o grito.Porque o grito era luta.O silêncio… era o fim.Eu não senti o momento exato em que o poder me deixou.Eu senti… a ausência.Como se algo que sempre esteve queimando dentro de mim simplesmente… apagasse.Frio.Vazio.Errado.Minhas mãos tremiam.Eu tentei fechá-las… mas não havia mais força.— N-não… — minha voz saiu fraca, quebrada… irreconhecível até para mim.Isso não podia estar acontecendo.Eu era a Noite.Eu a carregava.Eu a controlei.Eu—Uma dor atravessou meu peito.Eu arqueei, o ar falhando completamente.Não era dor de ataque.Era… ruptura.Como se algo estivesse sendo arrancado de dentro de mim.Não.Não arrancado.Rejeitado.A Noite não me pertencia mais.Ela estava… indo embora.E sem ela—Eu não sabia quem eu era.O chão parecia distante.Ou talvez eu estivesse caindo.Eu não sabia.Tudo estava… lento.Distorcido.Apagando.Então—Braços.Fortes.Firmes.Desesperados.Eron.O nome veio como um eco.Ele me segurou antes que eu







